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Entre as muitas motivações que levaram este grupo de pesquisadores a investi- gar a aplicação do princípio da insignificância pelo STF, uma das principais foi averiguar a intensidade com que os julgados confirmavam a impressão — tanto de cidadãos como de juristas — de que o Poder Judiciário brasileiro aplica seve- ramente a lei penal aos menos favorecidos, enquanto deixa livres os autores de delitos “dos poderosos” (Dias e Andrade, 1998:347-364).

Essa impressão a que nos referimos pode ser tida como bastante subjetiva, uma vez que alimentada por notícias eventuais, ou pela divulgação de alguns julgados mais emblemáticos.14 Assim, a interpretação dos casos em que se apli-

ca o princípio da insignificância, acreditamos, é capaz de revelar o modo como, na vivência prática do direito, essa diferenciação social acontece.

Conforme os resultados estatísticos até aqui apresentados, podemos afir- mar que muitas destas impressões — de que há um tratamento diferenciado de acordo com os tipos de delito (sejam eles patrimoniais ou econômicos) — foram confirmadas no decorrer da pesquisa, mas muitos mitos também foram desconstruídos, especialmente na forma como alguns ministros do Supremo posicionam-se proativamente pelo reconhecimento do princípio da insignifi- cância como paradigma válido de interpretação jurisprudencial, e como mani- festação de um método de política criminal, como teremos oportunidade de observar.15

14 Basta ver, por exemplo, a grande indignação despertada pela prisão em flagrante por crime

ambiental do agricultor que retirou lascas do tronco de uma árvore para a preparação de um chá para sua esposa, por conter propriedades medicinais. Disponível em: <www.diariodecuiaba.com. br/detalhe.php?cod=9595>.

15 Estas revelações indicam a necessidade de maiores estudos empíricos sobre a racionalidade

julgadora do Poder Judiciário nacional, pois esses têm o condão de justamente desmistificar algumas ideias muito arraigadas no pensamento sobre o direito.

o prin cípio D a insiGnificân cia n os crimes c ontra o p a trimônio e c ontra a orDem ec onômic a 167

É punido, no Brasil, quem furta pote de margarina?

A resposta a esta questão indica um dos principais mitos desconstruídos pelo levantamento estatístico, e apresenta os matizes mais interessantes para o es- tudo dos julgados do STF. Não somente pelos julgados que pudemos obser- var, mas também pelas considerações que ficam implícitas a esta análise, como o motivo pelo qual o furto de uma barra de chocolate necessita chegar até a última instância do Poder Judiciário brasileiro para encontrar uma solução equilibrada.

tipo de bem em relação ao tipo de provimento (percentual e números absolutos) não

reconhecido

mérito Liminar mérito e liminar

total por tipo de bem Higiene pessoal 2 1 0 2 5 40,0% 20,0% 0% 40,0% 100,0% animais 1 0 0 0 1 100,0% 0% 0% 0% 100,0% alimentos/bebidas 1 3 0 2 6 16,6% 50% 0% 33,3% 100,0% roupas 2 4 1 1 8 25,0% 50,0% 12,5% 12,5% 100,0% objetos eletrônicos 6 2 0 0 8 75,0% 25,0% 0% 0% 100,0% Dinheiro 7 3 0 1 11 63,6% 27,3% 0% 9,1% 100,0% outros 5 3 0 4 12 41,6% 25,0% 0% 33,3% 100,0% total por tipo de provimento 18 19 1 9 44

40,9% 43,2% 2,3% 20,5% 100,0% percentagens e total baseados nos respondidos

Estatisticamente, pudemos observar que a posição do STF é bastante favo- rável à aplicação do princípio da insignificância nos casos de furto de alimen- tos. Entre todos os bens apurados nos delitos patrimoniais, os alimentos apa- recem em terceiro lugar, representando 13,6% e, considerando-se apenas este grupo (alimentos), o Supremo reconheceu a insignificância em 83% dos ca- sos, ou seja, na grande maioria dos casos de furto de alimentos, especialmente

Jus

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o

168 aqueles de muito pequeno valor, como as tão citadas barras de chocolate, o

Supremo decretou o trancamento da ação penal ou a extinção da ação.

Os bens apurados nos delitos patrimoniais são bastante diversificados, sendo dinheiro em espécie o bem mais atingido por esses delitos (25%), segui- do por aparelhos eletrônicos (aparelhos de celular em sua maioria) e roupas, que representam, ambos, 18,2%. Assim, é importante ressaltar que há grande pluralidade de bens objeto de crimes patrimoniais,16 de modo que o índice de

13,6% é significativo no universo de delitos, especialmente se considerarmos que muitos bens surgiram apenas uma vez no grupo de acórdãos estudados e acabaram agrupados em uma categoria geral, para que fosse possível a apu- ração de resultados mais expressivos. Assim, o reconhecimento do princípio da insignificância em 83% dos furtos de alimentos pode ser considerado uma amostra fidedigna da forma como o Supremo avalia estes casos.

Dos 75 casos analisados na pesquisa, 44 representam crimes contra o patri- mônio nos quais os relatores identificaram os bens (de 46 no total). Destes, 44, 6 referem-se ao furto de gêneros alimentícios e, dentro desse grupo, em apenas um caso houve a denegação do recurso, pelo não reconhecimento do princípio da insignificância.

Se voltarmos, portanto, à pergunta inicial que nos propomos, a resposta é negativa. A depender das decisões do STF, não há imputação de penas restriti- vas de liberdade, e muitas vezes nem a consideração de responsabilidade penal, quando se trata de delitos de bagatela envolvendo alimentos. Essa resposta, no entanto, não é alentadora para os diretamente envolvidos com a aplicação do direito penal. Isto porque aquele que furta alimentos, no Brasil, na grande maioria dos casos, é preso em flagrante e aguarda preso, em centros de deten- ção provisória, por uma decisão judicial favorável, como as observadas no STF. É importante, portanto, que não se perca de vista o horizonte limitado de atuação do STF, uma vez que nem todos os casos bagatelares em que não foi aceita a alegação de insignificância são objeto de recurso para essa Corte. A julgar pelas considerações acima, pode-se sugerir a conclusão de que, no Brasil, 16 Muitos deles entraram na categoria “outros”, onde encontramos ferramentas, violão, brinquedo,

o prin cípio D a insiGnificân cia n os crimes c ontra o p a trimônio e c ontra a orDem ec onômic a 169 bagatelas não são punidas, pois a postura do STF tende para o reconhecimen-

to equilibrado do princípio, ao menos nos delitos patrimoniais. Contudo, a quantidade de casos que chegam a esta instância pode ser um indicativo de que uma parcela muito reduzida de defensores tem condições de levar os casos ao STF, e pode também indicar o exacerbado interesse do Ministério Público em perseguir crimes de pouca relevância.

Se há um alto índice de reconhecimento da insignificância nos furtos de ali- mentos, por outro lado, a posição do STF é bastante diferente quando se trata dos delitos envolvendo dinheiro e objetos eletrônicos. Quando o delito envolvia objetos eletrônicos, o Supremo negou a insignificância em 75% dos casos, e em 63,6% dos delitos onde dinheiro foi o bem atingido.

Por fim, é válido ainda mencionar que há o reconhecimento da insigni- ficância em casos envolvendo lesões corporais leves, porém verificamos a ab- soluta recusa na aplicação do princípio em casos de roubo — consumado ou tentado —, mesmo quando os bens subtraídos tenham sido R$ 11,00 e uma calculadora usada.17