O instituto da Repercussão Geral foi plasmado por vocábulos cujo conteúdo semântico é razoavelmente indicativo do objeto almejado pelo constituinte derivado.
Considerando isso, passaremos a discorrer sobre todos os aspectos conceituais desse instituto, bem como sobre a sua natureza jurídica.
3.3.1 Conceito de Repercussão Geral
Podemos afirmar que a Repercussão Geral, em sentido literal, se refere à necessidade de que as questões constitucionais levantadas pelo Recurso Extraordinário tenham a finalidade de fazer com que parcela representativa de um determinado grupo de pessoas experimente sua influência.
Sob um prisma mais voltado aos seus aspectos processuais, podemos ainda, concluir que a Repercussão Geral é o pressuposto especial de cabimento do Recurso Extraordinário, constitucionalmente estabelecido. Tal pressuposto impõe que o juízo de admissibilidade do recurso leve em consideração o impacto indireto que eventual solução das questões constitucionais em discussão terá na coletividade.
Assim sendo, pela sua abrangência, as questões relevantes não são somente aquelas enunciadas na Lei 11.418, mas também outras, tais como as pertinentes aos direitos e garantias individuais e coletivas e às cláusulas pétreas da Lei Maior.
Desse modo, podemos entender que será dotada de Repercussão Geral aquela questão que ultrapassar o interesse subjetivo da causa, por envolver controvérsias que vão além do direito individual ou pessoal das partes.
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3.3.2 Repercussão Geral como Conceito Jurídico Indeterminado
Segundo a doutrina majoritária, pode-se inferir, pela redação do dispositivo da Repercussão Geral, que houve a utilização, pelo legislador, de um conceito jurídico que se enquadra na qualificação de indeterminado ou vago, o que aponta, imediatamente, para a caracterização da relevância e transcendência da questão debatida como algo a ser avaliado em concreto, de acordo com o caso apresentado ao Supremo Tribunal Federal.
Podemos observar, no instituto da Repercussão Geral, utilizando a terminologia adotada nos sistemas austríaco e alemão, já no século XIX, tanto um núcleo conceitual, como um halo conceitual.
O núcleo conceitual, que, para o jurista e filósofo alemão Karl Engisch, é o domínio segundo o qual se tem uma noção clara do conteúdo e da extensão do conceito, evidencia-se, no instituto da Repercussão Geral, em função da certeza trazida pela letra da lei de que não se faz suficiente que as questões constitucionais discutidas na lide sejam do interesse exclusivo das partes processuais.
Esse núcleo conceitual pode ser obtido, simplesmente, através da interpretação gramatical da lei que estabelece a criação do instituto em estudo.
Quanto ao halo conceitual, também, de acordo com as palavras do pensador alemão anteriormente citado, pode-se dizer que é a região na qual as dúvidas começam, pois a sua concreção depende de elevada dose de juízo valorativo. Nesse ponto, não ser tem a previa certeza sobre o conteúdo e a extensão do conceito.
Na Repercussão Geral, podemos dizer que tais dúvidas estão relacionadas ao tipo de impacto indireto que é esperado para a sua caracterização, ou, ainda, qual o espectro de pessoas atingidas para que se diga que esse impacto possui natureza geral.
Entretanto, deve-se deixar claro que não há discricionariedade no preenchimento desse halo conceitual. Há de se empreender um esforço de objetivação valorativa nessa tarefa.
O fato de estarmos diante de um conceito jurídico indeterminado, que carece de valoração objetiva no seu preenchimento, e não de um conceito que
33 implique poder discricionário para aquele que se encontra encarregado de julgar, pode permitir, ademais, um controle social, pelas partes e demais interessados, da atividade do Supremo Tribunal Federal mediante um cotejo de casos já decididos pela própria Corte.
Com efeito, a partir de uma paulatina e natural formação de catálogo de casos pelos julgamentos do Supremo Tribunal Federal, permitindo-se o controle em face da própria atividade jurisdicional da Corte, objetivando-se, cada vez mais, o manejo dos conceitos de relevância e transcendência ínsitos à idéia de Repercussão Geral.
Faz-se importante ressaltar, ainda, que a própria Constituição da República apresenta uma estruturação analítica, demonstrando que não é lícito ao intérprete negligenciar no preenchimento desses conceitos vagos empregados pelo legislador infraconstitucional.
Evidentemente, não é por acaso que o Recurso Extraordinário, endereçado ao guardião da Constituição, tem o seu conhecimento subordinado à alegação de questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social e jurídico, uma vez que a própria Constituição arrola matérias que trazem, explicitamente ou não, epígrafes coincidentes com aqueles conceitos que autorizam o conhecimento do Recurso Extraordinário.
3.3.3 Natureza Jurídica da Repercussão Geral
A natureza jurídica do instituto da Repercussão Geral é de pressuposto específico de cabimento do Recurso Extraordinário.
O texto constitucional evidencia a natureza desse instituto ao mencionar que se deve demonstrar a Repercussão Geral “a fim de que o Tribunal examine a
admissão do recurso”.10
Com essa conclusão de que a Repercussão Geral está situada no juízo de admissibilidade, estando intimamente vinculada à própria decisão recorrida, e
10 Trecho retirado do § 3º do artigo 102 da Constituição da República Federativa do Brasil.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui%C3% A7ao.htm>. Acesso em: 20 de outubro de 2008.
34 não a aspectos externos como tempestividade ou preparo, podemos afirmar que se trata de requisito intrínseco de admissibilidade.
Analisando detidamente o instituto, percebemos que as espécies de requisitos intrínsecos de admissibilidade hodiernamente reconhecidos, quais sejam cabimento, interesse e legitimidade, são suficientes para o enquadramento da Repercussão Geral.
A essência da Repercussão Geral guarda evidente ligação com a recorribilidade, um dos vetores do requisito do cabimento, considerando que a Constituição vincula o reconhecimento da carência de Repercussão Geral das questões discutidas em um determinado Recurso Extraordinário ao consentimento de dois terços dos membros do Supremo Tribunal Federal.
Nesse caso de carência da Repercussão Geral, a irrecorribilidade é preexistente, razão pela qual a decisão respectiva é estritamente declaratória, como todas as que se relacionam com o juízo de admissibilidade.
Ressaltamos, por fim, que o fato da declaração da ausência de Repercussão Geral depender de voto de dois terços dos membros do Supremo Tribunal Federal não depõe contra a natureza ora afirmada. Trata-se, tão somente, de procedimento diferenciado para verificação desse requisito.
4 A REPERCUSSÃO GERAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO
A Repercussão Geral, como já afirmado anteriormente, significa a existência de um novo filtro relacionado ao cabimento do Recurso Extraordinário.
Após estudarmos, pormenorizadamente, os dois institutos, que compõem o presente trabalho, de maneira apartada, passaremos a discorrer sobre a aplicação desse filtro de admissibilidade à espécie recursal em estudo.