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A leitura era uma prática presente nas famílias tradicionais de Caetité; afinal, a leitura era um dos signos da aristocratização dos costumes (GALVÃO, 1998, p.111). Os tipos de impressos mais frequentes eram os jornais, inclusive jornais editados por crianças150 e direcionados a elas, as revistas que circulavam nas maiores cidades do país, como O Malho e Fon-Fon151, livros de literatura e livros escolares, além dos impressos de cunho religioso. O material manuscrito que mais circulava para leitura eram as cartas, principalmente, no âmbito familiar. Muitos desses materiais eram produzidos na própria cidade, a exemplo dos jornais locais. O comércio também era responsável pela circulação de muitos livros infantis. A empresa Gumes e Filhos publicava, periodicamente, no jornal anúncios de interessantes livros de lindas historias especiaes para crianças que chegavam na tipografia:

IMPORTANTE Livros! Livros! Livros!

Á venda na Typ. d‟A Penna. Caiteté: Robison Crusoé

Aventuras do casaquinho verde (...) LIVROS DE JULIO VERNE (...) LIVROS PARA CREANÇAS

Mil e uma noites, Arsenio Lupin contra Sherlok Holmes, Barquinhos de papel, O paraíso das creanças por Josephina Meinel.

Todos estes livros são bellissimos romances que, muito atrahem attenção já pelo bello enredo, já pelo aprimorado da sua parte literária que é empolgante.152

Outros livros e as revistas chegavam por meio dos comerciantes, correio ou por meio de encomenda feita aos viajantes, conforme trecho desta carta: não encontrei de nenhum modo o Theatro das Creanças de Vieira Pontes. Encommendei a Jayme, para o Rio.153

150 Jornalzinho O Bem-te-vi, fundado por Anísio Teixeira na década de 1910, e no final da década de 1920 teve

outra edição por crianças que faziam parte da “Liga da Bondade”.

151“Não nos fartávamos de ver e rever as fotografias do Malho e do Fon-Fon, pobres revistas, em preto e branco

(...)” Flávio Neves (1986, p. 37).

152

A Penna, 13/01/1927, p.02, nº 407 , Anno XVI

153

ANÍSIO. Carta para Sissinha (Celsina). Bahia, 28 de julho de 1924. APMC, Fundo: Acervo particular da família de Dr. Deocleciano Pires Teixeira. Grupo: Celsina Teixeira Ladeia. Série: Correspondências pessoais, maço 01, caixa 01.

O livro “Theatro para crianças” foi encomendado primeiramente para o irmão da correspondente que se encontrava em Salvador, mas como não foi encontrado por lá, foi reencomendado para o Rio de Janeiro. Salvador, apesar de uma revitalização sofrida no mercado editorial no final do século XIX, não conseguira superar o Rio de Janeiro: possuía 10 livrarias, contra 47 no Rio. Destacava entre as dez, a Livraria Catilínia, até os anos 1960 (HALLEWELL, 1985).

Os livros para as crianças eram adquiridos pelas famílias para que elas lessem ou ouvissem a história por meio da leitura do adulto. Constavam, nas cartas, títulos direcionados às crianças, como: A Sciencia do bom homem Ricardo de Benjamin Franklin154, Os contos de Andersen155 e Pinochio. Laurence Hallewell (1985), no seu estudo sobre a história do livro no Brasil, revela que houve uma revolução no campo das edições para crianças no Brasil, na transição do século XIX para o século XX, por meio do português Pedro da Silva Quaresma, quando este produziu uma coleção de livros infantis escritos em português do Brasil. O autor afirma que a maior parte da literatura infantil naquela época, e praticamente todos os livros para as crianças menores vinham de Portugal, mas que a criança se confundia com as palavras e tinha dificuldade de compreender o texto devido ao estilo “grotesco” dos livros. Faziam-se necessárias traduções que facilitassem a leitura e que, principalmente, possibilitassem sua compreensão. Outra contribuição nesse sentido foi o trabalho de Monteiro Lobato:

Ao mesmo tempo que escrevia seus livros para crianças Lobato estimulou outros autores a submeterem originais para publicação, e lançou traduções como a do The happy prince, de Oscar Wilde, e versão dos Contos de fada de Grimm, As Viagens de Gulliver, Robinson Crusoé e Dom Quixote, baseadas nas traduções publicadas pela Garnier e Laemmert, mas com a linguagem cuidadosamente modernizada e abrasileirada (HALLEWELL, 1985, p. 260).

Na virada para o século XX, ocorre no Brasil a nacionalização do livro infantil (HALLEWELL, 1985; RAZZINI, 2005). Esse é um indicativo da centralidade que a criança vai ocupando na sociedade brasileira. É interessante observar nesse processo de adaptações da

154“A sciencia do bom homem Ricardo ou meios de fazer fortuna

” é uma obra publicada pela primeira vez em português no ano de 1825, em Lisboa e trata dos princípios morais e regras de economia. Era uma obra amplamente utilizada nas Escolas de Primeiras Letras em meados do século XIX, no Brasil, devido ao seu cunho ideológico-moral (TAMBARA, 2003). Atualmente esse livro encontra-se disponível no site da Biblioteca Nacional de Portugal, no endereço: http://purl.pt/14349.

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De acordo com Laurence Hallewell (1985), a concentração no Brasil de livros infantis iniciou em 1915 com a edição d‟O patinho feio, de Hans C. Andersen, que foi a primeira tradução brasileira de seus livros. Arnaldo de Oliveira Barreto deu sequência a isso com uma extensa linha de livros infantis vivamente coloridos, a “Coleção Biblioteca Infantil”.

literatura infantil estrangeira para o português do Brasil, que mais diferenciações vão sendo postas entre a condição de ser adulto e a condição de ser criança. Alguns editores/livreiros perceberam que a linguagem direcionada à criança precisaria ser mais simples para facilitar- lhe a compreensão. Isto mostra, de certa forma, uma importância atribuída à criança que não era percebida anteriormente e uma consciência sobre algumas das singularidades que caracterizam o pensamento infantil, segundo os novos conhecimentos da Psicologia. Essas transformações, realizadas na produção de livros direcionados à infância, fizeram-se sentir também na ênfase dada às ilustrações desses livros, cada vez com mais imagens, com cores fortes e diversificadas. Percebe-se também um controle sobre os conteúdos dos livros direcionados às crianças, que começavam pelos livros escolares, mas que se estendiam à literatura. Com a proclamação da República, essa ação reguladora sobre os livros, que já existia anteriormente na história da educação brasileira, fortaleceu-se. Marcia Razzini (2005, p. 107) diz que, desta forma,

compreende-se o papel que passaram a assumir livros de leitura e cartilha na consolidação da ideologia republicana, fazendo com que várias gerações lessem, escrevessem, decorassem e recitassem não só velhos ensinamentos religiosos e morais já tão entranhados na escola, como as máximas, fábulas e contos morais, mas também textos que construíam a ideia de pátria moderna e civilizada, ou seja, conteúdos que combinavam temas patrióticos, regras de civilidade e índices de modernidade e progresso.

Os livros infantis ensinavam, disciplinavam, mas também divertiam e provocavam emoções nas crianças: não sei se já escrevi que recebi os livros; sendo que o de Andersen muito sensibilisou a Edivaldo e realmente os contos são tristes156. A leitura possibilitava ainda a condição de leitor/ouvinte157 às crianças que não sabiam ler, por meio da leitura de textos, realizada por seus próprios pares, tal como podemos observar na carta que se segue:

Querido Edivaldo,

Agradeço-lhe as felicitações que enviou-me pelo meu anniversario e desejo- lhe boa saúde, felicidade e progresso nos estudos.

Como vae seu companheiro Chiquito? Faça-o estudar muito e brincar pouco. Envio-lhe um livrinho que espero lhe será de muito proveito. Leia-o para Chiquito ouvir e faça-o comprehender.158

156

CELSINA. Carta s/destinatário (uma das irmãs). Caetité, 06 de julho s/a (década de 1910). APMC, Fundo Casa Anísio Teixeira. Grupo Celsina Teixeira Ladeia. Série: Correspondências enviadas, maço 01, caixa 01.

157

Sobre a condição de leitor/ouvinte ver Galvão (2001), que trata, entre outras questões, desse sujeito em geral

identificado como não leitor (p. 20). 158

EVANGELINA. Carta para Edivaldo. Gurutuba, 27/06/1922. APMC, Fundo: Acervo particular da família de Dr. Deocleciano Pires Teixeira. Grupo: Celsina Teixeira Ladeia. Série: Correspondências pessoais, maço 04, caixa 01.

Neste exemplo acima, a criança que já sabia ler apresentava-se numa condição diferenciada da outra, o que aumentava também suas responsabilidades. À criança leitora, caberia “ler e fazer o outro compreender”. Esse destaque para o “fazer compreender” induz-nos a algumas interpretações. Primeiramente, pode ser que fosse comum o hábito das crianças lerem sem muita atenção na atividade, de forma que a mesma perdesse o sentido, ou então pode ter sido uma forma de exaltar a condição diferenciada entre o menino/leitor e o não leitor.

Podemos perceber também a ação das próprias crianças em relação à leitura quando reivindicavam para si o acesso ao papel de receptoras/leitoras de cartas e cartões, a exemplo do que acontecia com outras pessoas da família: Anísio hoje ficou muito choroso porque Jayme recebeu um cartão e elle não recebeu, Nelson também queixa que só elle não tem quem mande um cartão159. Essa situação não expressava apenas o desejo de atenção, mas a oportunidade de exercer a prática da leitura e da escrita no cotidiano da vida familiar. O sentimento de contentamento e satisfação era expresso quando a situação era positiva, de forma que todos na família percebiam e reforçavam isso, como aconteceu com Carmita quando ela foi felicitada pelos parentes pela passagem do seu aniversário de sete anos:

Carmita ficou contente com os cartões e muito lhe agradece as felicitações assim como a Edivaldo e a Christina. Ella mesmo leu os cartões e pede a Edivaldo resposta da cartinha que escreveu a elle.(...)160.

Carmem gostou muito dos cartões de felicitações aprendeu até de cor.161 Carmita ficou muito satisfeita com as cartas de Papae e de Edivaldo.162

Esses exemplos indicam que, no jogo de constituição dos sujeitos e de produção de diferenciações geracionais, as crianças, mesmo com menor poder na sociedade, também tinham participação nesse processo. A mediação das gerações mais experientes estava presente na inserção dos novos leitores em práticas de leitura, quer seja estimulando a realização da leitura por si mesmo, quer seja possibilitando o contato com os textos por meio

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ANNA SPÍNOLA. Carta para Evangelina e Celsina. Caetité, 07 de maio de 1908. APMC, Fundo: Acervo particular da família de Dr. Deocleciano Pires Teixeira. Grupo: Celsina Teixeira Ladeia. Série: Correspondências pessoais, caixa 01, maço 04.

160

EVANGELINA. Carta para Nenem (Celsina). Caetité, 31 de março de 1916. APMC, Fundo: Acervo particular da família de Dr. Deocleciano Pires Teixeira. Grupo: Celsina Teixeira Ladeia. Série: Correspondências pessoais, maço 04, caixa 01.

161

ANNA SPÍNOLA. Carta para Celsina. Caetité, 09 de abril de 1916. APMC, Fundo: Acervo particular da família de Dr. Deocleciano Pires Teixeira. Grupo: Celsina Teixeira Ladeia. Série: Correspondências pessoais, maço 04, caixa 01.

162

EVANGELINA. Carta para Nenem (Celsina). Caetité, 14 de abril de 1916. APMC, Fundo: Acervo particular da família de Dr. Deocleciano Pires Teixeira. Grupo: Celsina Teixeira Ladeia. Série: Correspondências pessoais, maço 04, caixa 01

da leitura do outro. Era enfatizado que não devia apenas “ler”, no sentido de decifrar os códigos, mas de “compreender” o que se lia; se a leitura estivesse sendo realizada para um ouvinte, era importante “fazê-lo compreender”, conforme vimos em trecho de uma carta anterior.

Nas escolas, eram indicadas obras para treino daqueles que já sabiam ler. Nesse sentido, as listas de livros suplementares e auxiliares tornaram-se comuns na primeira década do século XX, e a leitura destes livros foi extrapolando a sala de aula e se expandido com obras de valor mais estético e menos didático, como os pequenos volumes da Biblioteca Infantil organizada a partir de 1915 (RAZZINI, 2005).

Benzer Belgeler