Um conflito relacionado aos nomes envolveu o nome dado por um ancião do clã Paiwoe à escola do povoado de Praião. A escola recebeu o nome Toribugu Arua. O primeiro nome (Toribugu) é Paiwoe e o segundo (Arua) pertence ao clã Baado Jebage. Quando ficou sabendo que a escola de Praião recebera esse nome, um ancião Baado Jebage da Aldeia Central disse à filha do senhor que houvera dado nome à escola se o pai dela não tinha vergonha de pôr em uma escola o nome de um filho que matou o pai.
No bakaru que a recolha da EB II (1969, p. 303-307) intitula “Lenda do Herói Toribugu” e Lévi-Strauss (2004) chama de mito de referência para a abordagem que faz dos mitos a partir desse bakaru bororo, conta-se sobre um provável envolvimento sexual que Toribugu teria tido com uma das mulheres de seu pai. A mulher, pertencente ao mesmo clã de Toribugu, Paiwoe, era por isso considerada parente consanguínea dele. Revoltado, o pai de Toribugu, Kiare Ware, do clã Baado Jebage começa a pôr o filho em situações de dificuldade para que ele morra, mas sem levantar suspeitas de que ele teria sido o causador da morte do filho.
Com a ajuda de sua avó, a quem pede orientação antes de fazer o que o pai lhe pede que faça, Toribugu sobrevive às armadilhas, retorna às escondidas para a aldeia, revelando-se apenas para a avó e para o irmão mais novo e, então, passa a planejar a morte do pai, de modo dissimulado também, até que alcança seu objetivo.
Junto com a filha desse ancião Paiwoe, que me contou a conversa sobre o nome da escola, fui até o povoado de Praião para conversar com o pai dela. Sobre o nome da escola,
ele explicou que a sua intenção com o nome dado a ela foi prestar homenagem a dois ancestrais bororo, que teriam histórias parecidas por causa dos sofrimentos por que passaram: Toribugu e Arua.
Quando contou em gravação para mim o bakaru de Toribugu, ao falar do provável relacionamento entre Toribugu e a mulher de seu pai, disse:
Eu não sei o que que deu na mãe. Se uma mãe que agrediu ele ou ele que agrediu a mãe. Mas ditado da véia, a vovó do Toribugu, é que a mãe do Toribugu que atraiu ele. Por isso que ela defendeu ele. Foi duas vezes, o menino foi acompanhando, acompanhando, não sei o que deu nele, os dois escapou lá ao lado, se cruzou. (Senhor Paiwoe)
Essa questão de quem atraiu quem permanece sem resposta no mundo bororo tanto quanto a suposta traição de Capitu, em Dom Casmurro. O saldo dessa minha ida a Praião rendeu mais dois encontros com esse ancião quando ele esteve na Aldeia Central e foi me procurar na Pastoral. Nas duas vezes, tão logo ele chegava, o ancião Baado Jebage, vizinho da Pastoral, também aparecia e, ambos dissimulavam uma conversa amigável. O bakaru dizia isso a nós três.
Figura 17- Fachada da escola Toribugu Arua. À frente dela, a filha do ancião que deu nome à escola
Essa história teve mais um capítulo quando retornei à aldeia, em janeiro de 2013, para assistir ao ritual de nominação bororo e consegui gravar uma entrevista com um ancião
Aroroe de Córrego Grande, que estava em Tadarimana. O assunto da gravação era Aije. No final da conversa, sem que eu houvesse perguntado, ele começou a falar sobre o nome da escola de Praião, dizendo:
É errado, porque todo mundo caçando por que que é assim, mas não achou não. Aqui Central, aqui que é nome grande. [diz o nome do ancião de Praião] colocou nome na escola lá pra botar no nome de lugar dele lá, mas não serve não. Só aqui que está mandando todo mundo. Tá muito errado demais, porque ele precisa criar... ele que é pessoa mais grande, ele que vai saber, mas isso que ele tá pensando, isso nunca vai crescer, vai ficar assim mesmo. Aqui tá crescendo, pois é assim. Tem muito história de lá. (Ancião Aroroe) Esse ancião Aroroe tem uma relação de proximidade com o ancião Baado Jebage e, talvez, estivesse preocupado em transmitir para mim a preocupação do outro com o “erro” do ancião Paiwoe e com a ofensa que isso representava para ele. Assim como há o bakaru que põe em lados opostos os clãs Paiwoe e Baado Jebage, há o bakaru que aproxima os Aroroe e os Baado Jebage (o bakaru da passagem de poderes político-cerimoniais) e ainda há o bakaru em que o maior chefe Aroroe se apodera de Aije, que fora descoberto por um paiwoedu, porque teve enfeite e dança mais bonita para agradar Aije. Ao falar sobre a posse de Aije pelos Aroroe, o ancião disse:
aquele que tá pegando Aije [o paiwoedu] não cuidou mais não. Ele não tem jeito pra cuidar, não sabia como fazer com ele. Dois Aroroe [Baitogogo e Mano Kurireu] que sabe o que vai fazer com ele. Já preparou dança, enfeite, convidou todo mundo pra fazer festa pra ele. (Ancião Aroroe)
Houve uma frase dita pela professora bororo que se aplica bem a essa situação. Ela disse que é comum quando Bororo observa uma briga entre mulheres ou homens dizer “nessa briga corre muito bakaru. Isso não é de hoje não.” Nesse sentido, ter conhecimento de bakaru faz toda a diferença para enxergar e compreender o conflito. Um conflito que faz com que representantes de clãs prescritivamente empoderados pelo bakaru, sintam-se ameaçados diante de um clã subordinado, mas que já demonstrou desafiar quem manda, em registros precedentes no bakaru.
Nesse caso, o nome da escola de Praião fez com que clãs interessados “ficassem caçando por que é assim” e então justificassem que “não achou não” explicação para isso, por isso não aceitavam a “homenagem”. Por outro lado, a pesquisadora em processo de ‘iniciação’ no conhecimento de bakaru foi ‘puxar’ a história para entender o comentário feito em uma conversa informal e a postura dos envolvidos nele e, constatou que, de fato, ‘nesse conflito de nomes corre muito bakaru’.