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A publicidade é inserida na Constituição Federal como componente dos direitos e das garantias fundamentais, estabelecendo no inciso LX, do art. 5º, que “a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem”.

É a publicidade dos atos procedimentais e processuais que coloca os sujeitos processuais em nível de igualdade, possibilitando a efetivação da ampla defesa, haja vista que garante o acompanhamento do processo pelas partes, permitindo que tomem conhecimento das informações necessárias à adequada apresentação de defesa e produção de provas.

O princípio da publicidade ainda é previsto constitucionalmente no caput do artigo 37 e no inciso IX do artigo 93, ambos da Constituição, bem como no art. 792 do Código de Processo Penal58, de modo que pela combinação de tais dispositivos se conclui que os atos processuais devem ser públicos e realizados nas sedes dos fóruns e tribunais, devendo ser permitida a entrada de qualquer interessado em assisti-los.

Nesse sentido consta no art. 185, § 1º, do Código Adjetivo Penal, com redação dada pela lei nº 11.900, de 9 de janeiro de 2009, verbis:

O interrogatório do réu preso será realizado, em sala própria, no estabelecimento em que estiver recolhido, desde que estejam garantidas a segurança do juiz, do membro do Ministério Público e dos auxiliares bem como a presença do defensor e a publicidade do ato.

58 Art. 792. CPP. As audiências, sessões e os atos processuais serão, em regra, públicos e se realizarão nas sedes

dos juízos e tribunais, com assistência dos escrivães, do secretário, do oficial de justiça que servir de porteiro, em dia e hora certos, ou previamente designados.

§ 1o Se da publicidade da audiência, da sessão ou do ato processual, puder resultar escândalo, inconveniente

grave ou perigo de perturbação da ordem, o juiz, ou o tribunal, câmara, ou turma, poderá, de ofício ou a requerimento da parte ou do Ministério Público, determinar que o ato seja realizado a portas fechadas, limitando o número de pessoas que possam estar presentes.

Entretanto, numa interpretação conservadora do dispositivo transcrito, entender- se-á que será “imperativo” o deslocamento do juiz, do membro do Ministério Público, dos advogados e dos serventuários da Justiça até o local onde o preso estiver custodiado, a fim que ali se realize o interrogatório.

Se assim ocorrer, a publicidade do ato processual estará de fato comprometida, vez que, em regra, quem irá se deslocar a um estabelecimento prisional, geralmente longe dos centros urbanos, para presenciar a audiência?

Nesse plano de análise, um primeiro aspecto a merecer destaque diz respeito à nova regra, prevista no art. 185, § 1º., do Código de Processo Penal, que impõe a realização do interrogatório do acusado preso no próprio estabelecimento penitenciário. Tal inovação, contudo, se aplicada de forma geral e sem motivação quanto à sua necessidade, tornará vulnerável a garantia da publicidade dos atos processuais, em sua perspectiva de acompanhamento irrestrito, por qualquer do povo, do exercício da atividade jurisdicional. A restrição de maneira geral e indiscriminada da publicidade de ato que, em sua essência, deve ser aberto a acompanhamento pelo povo, além de suprimir do exame judicial a averiguação de sua pertinência no caso concreto, torna inviável o controle difuso do exercício da atividade jurisdicional. Os atos assim praticados, sem justificativa da necessidade de restrição no caso específico, serão, obviamente, nulos. Outra importante novidade é o reconhecimento do direito de comunicação, prévia e reservada, entre acusado e defensor (art. 185, § 2º.). Cuida-se de dever imposto ao Estado-juiz para a hipótese de acusado preso, mas que, por certo, haverá de ser estendido àquele que responde ao processo solto, sempre que a comunicação anterior não tiver sido possível. Assim, impõe-se a nomeação de defensor, antes do ato do interrogatório, ao acusado que, em liberdade, comparecer sem defensor constituído, assegurando-se a prévia comunicação entre ambos pelo tempo necessário à preparação da defesa, mesmo que tal prática possa redundar na necessidade de redesignação do ato. Trata-se, aqui, do cumprimento da garantia constitucional da mais ampla defesa. Lembrando-se de que o pragmatismo e a economia processual não podem sobrepor-se à defesa real e efetiva59.

Neste jaez salientamos que a publicidade do processo não se restringe às partes e aos seus procuradores, uma vez que a regra é a da ampla publicidade, sendo exceção a restrição às partes e aos seus procuradores, segundo inteligência do inciso IX do artigo 93 da Constituição Federal, in litteris:

Art. 93. Lei complementar, de iniciativa do Supremo Tribunal Federal, disporá sobre o Estatuto da Magistratura, observados os seguintes princípios:

(...)

IX Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação.

59 PITOMBO, Cleunice Valentim Bastos; BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy, ZILLI, Marcos Alexandre

Coelho; MOURA, Maria Thereza Rocha de Assis. Publicidade, ampla defesa e contraditório no novo interrogatório judicial. Boletim IBCCRIM nº 135 fev/2004.

Se empregada a videoconferência, de outra parte, todos que desejarem assistir a audiência poderão, sem necessidade de se deslocarem aos temerosos presídios, comparecer ao juízo, onde verão o juiz e os demais participantes do ato processual pelos mecanismos audiovisuais.

Também os que quiserem acompanhar a audiência de onde o acusado/apenado estiver preso poderão fazê-lo, pois as salas de videoconferência deverão ser abertas ao público, permitindo a observação das audiências pelos monitores, sem que haja prejuízo para a publicidade processual.

O emprego da videoconferência pode, em verdade, até otimizar a publicidade dos atos processuais, na medida em que os tribunais podem disponibilizar em seus respectivos

sites os arquivos de computador das audiências, assim qualquer pessoa poderá assisti-la em

todo o mundo, bastando apenas um computador conectado à internet.

Ademais, com a videoconferência a publicidade dos atos processuais será alargada no espaço e no tempo, porque em qualquer lugar do mundo será possível presenciar, mesmo que virtualmente, a audiência e porque em qualquer tempo, com a gravação das audiências em cd, e sua juntada aos autos do processo, será possível a consulta pelos interessados, quer seja pelas partes, quer seja pelo juiz, quer seja pelos magistrados das instâncias superiores. Inclusive vítimas e familiares do réu, mesmo não estando no distrito da culpa, poderão assistir aos atos processuais. Algo que já é proporcionado pelo Supremo Tribunal Federal ao transmitir sessões de julgamento ao vivo pela TV Justiça.

A própria idéia processual de publicidade especial (aquela assegurada às partes e aos seus defensores) é privilegiada com o sistema de videoconferência, levando-se em consideração que o réu, preso ou solto, poderá acompanhar as sessões de julgamento perante tribunais e toda e qualquer audiência judicial, mesmo aquelas em que sua presença for recusada, por conduta inconveniente ou para assegurar o bem-estar de testemunhas e vítimas60.

No entanto dever-se-á cuidar-se para que as informações processuais não sejam divulgadas indistintamente, mormente por meio da mídia e da internet, vez que, a despeito de permitir uma maior participação popular na fiscalização das atividades do Poder Judiciário, pode representar um infeliz aspecto negativo, ao possibilitar a violação dos direitos de

60 ARAS, Vladimir. Videoconferência no processo penal. Boletim do Núcleo Criminal - MPF 5ª Reg., set.

2004. Disponível em: <http://www.prr5.mpf.gov.br/nucrim/boletim/2007_04/doutrina/doutrina_boletim_4_2007 _videoconferencia.pdf>. Acesso em: 19 abr. 2009

personalidade das partes envolvidas no processo, tendo em vista que algumas informações são divulgadas de forma sensacionalista, acarretando uma “condenação antecipada”, de sorte que, em atendimento ao princípio da dignidade da pessoa humana, pode-se concluir que a publicidade em certos casos também deve ser restringida, com fundamento, ainda, no inciso constitucional LX do artigo 5º da Constituição Federal.

Diante disto, entendemos que o interrogatório do réu preso por sistema de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real se caracteriza, em verdade, como uma efetiva ferramenta para se assegurar a observância ao princípio da publicidade.

Benzer Belgeler