No campo dos estudos do futuro, podem ser identificadas duas áreas de pesquisas que apresentam pressupostos e técnicas distintas, sendo elas a previsão (forecasting) e a prospecção (foresight) (SILVA; SPERS; WRIGHT, 2013, p. 728). De acordo com Jouvenel (2000), o processo prospectivo apresenta traços essenciais que os distanciam da previsão em geral. Em primeiro lugar, a prospecção usa um enfoque multidisciplinar de inspiração sistêmica baseada no princípio de que os problemas não podem ser corretamente compreendidos se reduzidos a uma dimensão, como ocorre geralmente quando são abordados a partir de disciplinas acadêmicas distintas. Em vez disso, a prospecção oferece uma abordagem que captura as realidades em sua totalidade, com todas as variáveis, baseada no estudo de todos os fatores e suas interrelações.
Para o Departamento de Prospecção e Planejamento de Portugal (PORTUGAL apud SILVA; SPERS; WRIGHT, 2013), pode-se ir mais longe no confronto entre as abordagens da previsão e da prospecção, conforme mostra o Quadro 4.
Quadro 4 - Diferenças entre previsão e prospecção
Previsão Prospecção
Concentra-se nas certezas Concentra-se nas incertezas, legitimando o seu reconhecimento
Origina projeções sobre um único ponto e lineares Origina imagens diversas, mas lógicas, do futuro Privilegia as continuidades Toma em consideração as rupturas
Afirma o primado do quantitativo sobre a qualitativo Alia qualitativo e quantitativo
Oculta os riscos Subinha os riscos
Favorece a inércia Favorece um atitude de flexibilidade e o espírito de responsabilidade
Parte do que é simples para o que é complexo Parte do que é complexo para o que é simples Adota uma abordagem normalmente setorial Adota uma abordagem global
FONTE: Departamento de Prospecção e Planejamento de Portugal (apud SILVA; SPERS; WRIGHT, 2013) A previsão — coluna esquerda do Quadro 4 —, é amplamente apoiada por métodos estatísticos e modelagem econométrica, partindo do pressuposto de que o passado é um bom preditor do futuro, podendo-se, portanto, privilegiar continuidades e certezas. Por outro lado, a prospecção — coluna direita — considera que o futuro pode ser marcado por incertezas e descontinuidades, considerando-as em uma abordagem flexível e qualitativa.
Tendo em vista os aspectos específicos que caracterizam a prospecção, uma técnica adequada para a realização de estudos dessa natureza diz respeito à “Técnica de Cenários”. Na literatura podem ser encontradas diversas definições para o termo cenário, a partir de seu uso como ferramenta de prospecção do futuro (SILVA; SPERS; WRIGHT, 2013, p. 729).
Wright e Spers (2006) afirmam que elaborar cenários não é um exercício de predição, mas sim um esforço para fazer descrições plausíveis e internamente consistentes de situações futuras possíveis, apresentando os condicionantes do caminho entre a situação atual e cada cenário futuro, destacando os fatores relevantes às decisões que precisam ser tomadas.
Godet (2000) afirma que, na prática, não há um único método para o desenvolvimento de cenários, mas uma variedade de métodos para a construção, sendo alguns simplistas e outros sofisticados. Entretanto, pontua o autor, há consenso que o termo método de cenários somente se aplica em uma abordagem que inclua um número de etapas específicas
cenários.
Coates (2000), por sua vez, afirma que é necessária uma abordagem sistemática para elaborar cenários. O cenário ideal, para o autor, é transparente no sentido de que o usuário sabe quais são as regras usadas para sua construção, entende as etapas do processo e vê o resultado com a percepção de que poderia obter o mesmo resultado aplicando o mesmo processo.
Coates (2000) sugere que cenários devem ser elaborados a partir da identificação e da definição do universo de preocupação, definição das variáveis que serão importantes para moldar o futuro, identificação dos temas para os cenários e, finalmente, a criação dos cenários. Nessa mesma linha, Jouvenel (2000) propõe que há, basicamente, cinco estágios para o procedimento prospectivo: definição do problema e escolha do horizonte de tempo; identificação das variáveis e construção do sistema; coleta de dados e elaboração de hipótese; e exploração de futuros possíveis e de escolhas estratégicas.
Por conveniência do pesquisador, optou-se pelo modelo de construção Global Business Network (GBN), no qual o planejamento de cenários implica escolher dentre várias opções com total compreensão dos possíveis resultados (KATO, 2007, p. 182), adaptado conforme Wright e Spers (2006) e Silva et al. (2013).
De acordo com Schwartz (2000, p. 58-60), as etapas do método GBN são as seguintes: 1. Identificar o assunto focal;
2. Identificação dos fatores-chave; 3. Identificação das forças ambientais; 4. Identificação das incertezas críticas; 5. Seleção da lógica dos cenários; 6. Descrição dos cenários;
7. Análise das implicações; 8. Indicadores temporais.
Os oito passos do processo de planejamento por meio de cenários desenvolvido pela GBN estão ilustrados na Figura 8.
Figura 8 - Etapas do processo de planejamento de cenários (GBN)
FONTE: Ribeiro (2006)
Com base em Monitor Company Group (2008), Caldwell (2016), Ribeiro (2006) e Silva et al. (2013), as etapas do modelo GBN são descritas a seguir.
• Identificação do assunto focal: identificação da principal preocupação estratégica na forma de uma decisão clara; identificação dos pontos de referência dos cenários (tempo e lugar);
• Identificação dos fatores-chave: identificação dos fatores-chave no ambiente local, caracterizados por eventos e tendências que determinarão a diferença entre o sucesso e o fracasso do assunto focal; identificação das variáveis relevantes;
• Identificação das forças motrizes: identificação de tendências pesadas na sociedade, tecnologia, economia e política que atual diretamente no assunto focal; identificar se os fatores-chave são as causas do sucesso ou do fracasso e quais são as cusas destas causas; identificar se estas forças estarão presentes no futuro;
• Identificação das incertezas críticas: priorização dos fatores-chaves e das forças ambientais visando identificar as forças motrizes e as principais incertezas críticas, objetivando caracterizar a estrutura para a exploração do futuro; • Seleção da lógica de cenários: encontrar as lógicas que iluminarão mais
efetivamente os pontos-chave do assunto focal por meio de uma matriz morfológica para combinar de maneira consistente os estados futuros previstos
chave;
• Descrição dos cenários e implicações: consolidação de todas as informações na forma de uma narrativa com o detalhamento dos cenários, a descrição de sua evolução e a explicitação das relações e sequências de causa e efeito entre as variáveis consideradas, assim como análise da consistência interna, da plausibilidade de cada cenário e da relevância das variáveis dos cenários para as decisões a serem tomadas.
• Indicadores temporais: reconhecimento de quando um cenário está começando a surgir; identificar indicadores que possa monitorar de modo contínuo que estarão por surgir; indicadores que possam “identificar pequenos sinais de grandes mudanças”. É a etapa final de elaboração.