Se a fragmentação da república de interesses leva a uma unidade fundamental que é o indivíduo, leva também a uma apresentação, ou manifestação como república assentada na opinião pública. Expliquemos melhor. A diversidade de interesses apontada pelos Federalistas é muitas vezes associada à diversidade de opiniões. Isto é o que ocorre na já citada passagem do Artigo 10: "Enquanto a razão do homem for falível, e ele for livre para exercê- la, diferentes opiniões se formarão", e logo em seguida é feita a formulação a respeito das diversas aptidões para adquirir propriedade e os diversos interesses existentes na sociedade. Mas essa opinião de que falam os Federalistas, presente no artigo 10, relacionada com o interesse, é individual, e nos Artigos está presente uma idéia de opinião pública que não se limita à opinião associada ao interesse ou à razão dos indivíduos. Essa opinião pública pode ser analisada associada a diversas outras idéias presentes nos Artigos:
1) o bom senso do povo americano, muitas vezes invocado até como estratégia retórica para que os autores convençam seus leitores de que as propostas ali defendidas são as melhores e mais sensatas, como pode ser observado nas passagens:
“Submeto estas considerações a meus concidadãos, na plena confiança de que o bom senso que tantas vezes marcou suas decisões conferirá a elas o devido peso e conseqüência” (AF 16, p. 156).
“A glória do povo da América não está justamente em não ter tolerado, ainda que manifestando o devido respeito por tempos pregressos e por outras nações, que uma veneração cega pela antiguidade, pelo costume ou por nomes sobrepujasse as sugestões de seu próprio bom senso, o conhecimento de sua própria situação, e as lições de sua própria experiência?” (AF 14, p. 157).
Estas passagens não esgotam todas aquelas em que o bom senso é invocado para fins retóricos (ver, por exemplo, AF 41, p. 291), mas gostaríamos de comentar esta última transcrita. O bom senso, aqui, está ligado a uma capacidade de analisar o presente e de conhecer a situação, em detrimento da valorização dos exemplos históricos. Com esta observação, por um lado, os Federalistas estão procurando deixar claro, como várias outras passagens também indicam, que o que estão empreendendo é algo novo na história da
humanidade86. Mas também estão dando uma grande valorização ao presente, e à capacidade que o povo deve ter, e o americano a tem, segundo eles, de ser capaz de opinar no presente e a partir do presente. É como se tivéssemos uma presentificação da opinião, que normalmente é informada por juízos a partir da experiência, mas também de modelos pregressos. Guardemos essa observação, que não pode ser demonstrada, à luz dos artigos, mas pode ser sugerida. Talvez essa presentificação guarde relação com as outras observações feitas no último Artigo de que o tempo e a experiência irão aperfeiçoar o plano de Constituição proposto pela Convenção. Com a idéia de presentificação queremos dizer também que a opinião é contingencial e não apresenta qualquer problema em ser falível. Ela pode se adequar e se identificar conforme as circunstâncias. Transformar o interesse em opinião situa e limita o interesse a uma determinada circunstância.
2) o consentimento do povo, como fundamento último do poder: "O edifício do império americano deve repousar na base sólida do consentimento do povo" (AF 22, p. 200). Esta idéia não era novidade na política, e faz parte das raízes lockeanas dos Federalistas, tal como vasta tradição, cujo principal representante é Louis Hartz, já apontou87.
3) a eleição e aprovação dos representantes eleitos e das medidas governamentais, constituindo um mecanismo de "responsabilização" dos representantes e do controle destes pelo povo:
"Um governo deve conter em si mesmo todo o poder necessário à plena realização das finalidades que lhe foram atribuídas e à completa execução dos encargos que lhe foram confiados, livre de qualquer controle além da consideração pelo bem público e pela opinião do povo". (AF 31, p. 237)
"O gênio da liberdade republicana parece demandar, por um lado, não só que todo poder emane do povo, mas que aqueles a quem ele é confiado sejam mantidos na dependência do povo pela curta duração de seus mandatos; e que, mesmo durante esse período, a confiança deva ser depositada não em poucas, mas em muitas mãos. A estabilidade, ao contrário, requer que as mãos que recebam o poder permaneçam as mesmas por certo período de tempo. A freqüente repetição de eleições
86 Para uma breve análise sobre o papel dessa "novidade" para os Federalistas, ver o artigo de Philip Abbott
"What´s new in the Federalist Papers?" (ABBOTT, 1996, p. 543).
87 Ver acima, neste mesmo capítulo, comentário sobre a tradição liberal de interpretação da fundação
produzirá uma freqüente mudança de homens e esta uma freqüente mudança de medidas; por outro lado, a firmeza do governo exige não só certa permanência do poder como sua execução por uma única mão". (AF 37, p. 266)
"Mas é a razão do povo, apenas, que deve controlar e regular o governo. As paixões devem ser controladas e reguladas pelo governo". (AF 49, p. 345)
A opinião, aqui, é vista como algo decorrente da razão, e que deve servir para controlar e limitar o governo. Somando ao item anterior, ela também legitima o governo e, se anteciparmos o último ponto abaixo, esse controle, essa limitação e também a legitimidade é feita a partir das diferentes opiniões existentes. O controle do governo, portanto, sua moderação, está associado à pluralidade de opiniões.
4) uma opinião individual projetada no coletivo. Esta é a que queremos investigar com mais detalhe, e parece ser algo particular da proposta americana.
"Se é verdade que todo governo se funda na opinião, não é menos verdade que a força da opinião em cada indivíduo, e sua influência prática na sua conduta, depende muito do número de pessoas a quem ele atribui igual opinião" (AF 49, p. 343)88
"Quando exercem sua razão, fria e livremente, sobre uma variedade de questões distintas, os homens são inevitavelmente levados a conceber opiniões diferentes sobre algumas delas. Quando são governados por uma paixão comum, suas opiniões, se é que as podemos chamar assim, são idênticas." (AF 50, p. 348)
Neste aspecto da opinião gostaríamos de nos deter um pouco mais. Em primeiro lugar, comentemos esta última citação. Se os homens estiverem sob sua razão, cada um terá opiniões diferentes, sendo estas, ao contrário, idênticas se eles estiverem governados pela paixão. Com isto, os Federalistas estão retirando da política as paixões e qualquer força unificadora de opiniões. A razão, aqui, não age em uníssono, como podia ser inferido, por exemplo, a partir de Rousseau. Aqui, Federalistas e Rousseau estão claramente em terrenos opostos. Se em Rousseau a vontade geral, unificadora do interesse da república, podia ser
88 No original: "If it be true that all governments rest on opinion, it is no less true that the strength of opinion
in each individual, and its practical influence on his conduct, depend much on the nunber which he supposes to have entertained the same opinion" (The Federalist Papers, p. 311).
vista como uma expressão da razão, nos Federalistas a razão indefine e multiplica, ao invés de determinar e unir.
Mas é a primeira citação que mais nos importa, pois a distinção entre pluralidade e unidade indicada acima já é sabida, e foi tomada até mesmo como pressuposto deste capítulo. Apenas a retomamos para reforçar nossas interpretações aqui.
A força da opinião de cada indivíduo não se dá isoladamente, mas pela quantidade de pessoas que ele supõe ter a mesma opinião. Hannah Arendt veria nesta passagem a concretização da mentalidade alargada kantiana, identificada no senso comum do juízo estético kantiano. Para a autora a mentalidade alargada própria dos juízos estéticos esquematizada por Kant dá ao juízo estético um caráter político que ele próprio não explorou (ARENDT, 1994). Segundo ela, esta mentalidade alargada dá ao indivíduo, mesmo numa situação de solidão, a capacidade de colocar-se no lugar do outro e, com isso, emitir um juízo que, apesar de individual, tem uma dimensão política, na medida em que é potencialmente compartilhada por outros. Esta dimensão é conferida pela capacidade de imaginação do indivíduo que emite esses juízos, fazendo presente o que está ausente e, portanto, colocando-se na companhia de outros.
Esta sem dúvida é uma interpretação possível, e é uma das bases das formulações de H.Arendt sobre a fundação constitucional americana. No entanto, é possível uma outra, que acreditamos ser mais condizente com o todo dos Artigos Federalistas. O que se pretende possibilitar ali, e de uma certa forma é o que acontece na proteção dos direitos pelo Judiciário, é uma capacidade do indivíduo de projetar sua opinião no coletivo. Essa projeção, obviamente, assim como a coletivização decorrente da mentalidade alargada arendtiana, não se realiza concretamente, ao contrário, se opera apenas num como se, mas dá ao indivíduo uma potência que, opinando isoladamente, apenas, ele não teria. Como os próprios Federalistas observam em seguida, a razão do homem é tímida quando manifestada sozinha e ganha firmeza e confiança quando outras a ela são associadas.
Ora, se associamos a isso que a principal fonte de opiniões diferentes são os interesses diferentes, temos que o indivíduo auto-interessado americano, ao transformar seu interesse em opinião tem com isso duas vantagens: a primeira é presentificar seu interesse, na medida em que as opiniões são voláteis e dizem respeito sempre a uma determinada situação. Com isto seu interesse pode ser muito mais facilmente
"aderido" a outro; a segunda é a de poder projetar esse interesse em outros indivíduos, e com isto defendê-lo com muito mais ardor, desenvoltura e chances de adesão na república. O interesse individual, em si, portanto, pode ser expandido.
Neste ponto, gostaríamos de voltar a algumas observações que fizemos no início do Capítulo 6. Naquela ocasião, ao lidar com os conceitos de pluralidade, unidade, homogeneidade e diversidade, afirmamos que os Federalistas "ao propor a pluralidade em sua República, diferentemente de Montesquieu, não necessariamente afastam a homogeneidade." Agora acreditamos que podemos explicar melhor essa afirmação. Que os Federalistas lidam com a pluralidade ao invés da unidade já está claro pelo que dissemos até aqui. Mas como poderíamos explicar que eles não necessariamente afastam a homogeneidade? Exatamente por o indivíduo ser a unidade elementar do poder, e termos que os grupos (facciosos ou não) unem e diferenciam os indivíduos, tal como vimos em Simmel. Com isto, os indivíduos, sem a adesão a grupos unidos por interesses que os tornam comuns, mas fundamentalmente os diferenciam dos demais, se tornam todos iguais na medida em que vistos como molas propulsoras de interesse, e, mais do que isso, o mesmo indivíduo se projeta nos outros sem reconhecê- los. O respeito pelo outro só existe porque há instituições que garantem que o outro também poderá realizar essa projeção (igualdade radical), mas o indivíduo, em si, não reconhece o outro.Com o indivíduo como o unidade do interesse e da opinião, e a possibilidade da projeção dessa mesma opinião sobre os demais, tornou-se possível a equivalência de uma diferença radical (cada indivíduo é portado de um interesse, uma opinião) e de uma igualdade radical (todos os indivíduos incluídos na república comercial têm seus interesses e projetam sua opinião).
Com a associação entre interesse e opinião, e a possibilidade de projeção da opinião sobre outros, o indivíduo, aqui, se tornou mais que uma unidade elementar da pulverização do poder. Ele se tornou a unidade e a própria potência desse poder. É ele a sua fonte, e é ele que pode irradiar a sua extensão, sem inclusive a responsabilidade de controlá-la. A projeção da opinião, tal como sugerida nesta passagem, tende ao infinito. O indivíduo, com isso, passa a ser, como veremos, a unidade da expansão norte-americana, tema que passamos a tratar.