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Na pesquisa de campo e nas entrevistas quanto ao Uso e Ocupação do Solo na Praia do Futuro, é utilizada uma abordagem interdisciplinar, pois as conseqüências mostradas na área em questão possuem causalidades em diversas disciplinas acadêmicas: do Direito, Sociologia, Engenharia, Turismo, Ecologia, Geografia, Paleontologia, Arquitetura, Urbanismo, Oceanografia, Biologia, todos contribuindo em diferentes escalas, para a abordagem e caminhos para a proposição de hipóteses. “A problemática ambiental irrompeu com a emergência de uma complexidade crescente dos problemas de desenvolvimento, exigindo a integração de diversas disciplinas cientificas e técnicas para sua explicação e sua resolução”, (LEFF, 2001:200).

Pela complexidade da análise, a visão holística é necessária, pois os diálogos entre as disciplinas farão aparecer discrepâncias que proporcionarão uma visão mais rica do fato, pois as dissidências na visão de cada disciplina, confirmarão pontos interessantes na dialética dos fatos. Novas hipóteses poderão surgir a partir

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de visões contraditórias e não de verdades absolutas, que uma disciplina por si só, não conseguiria propiciar.

A interdisciplinaridade emerge de um jogo de poder e interesse, que parte de visões diferentes que formatarão novos conceitos e também novas conclusões. Assim, a Praia do Futuro, a partir da visão das diversas disciplinas, poderá junto com as concepções sistêmicas e dialéticas, consubstanciar uma análise mais embasada, na tentativa de não deixar nenhum aspecto que envolve a área em questão a margem de hipóteses mais fáceis de serem comprovadas. Daí se conclui a importância da interação entre o Planejamento Urbano e a Gestão Urbana, na visão de cenários futuros e a questão do dia-a-dia, configurando-se assim a importância da interdisciplinaridade como ciência social aplicada.

Com tantas disciplinas interagindo para termos uma visão, o máximo possível real, mostra-se que o enfoque ambiental (Natural e Antrópico), seguirá uma metodologia de abordagem sistêmica e dialética. Sistêmica, pela definição de elementos e atributos destes elementos na área em questão, pois quando analisamos a ventilação, as correntes marinhas, a vegetação, insolação, sabe o quanto estes elementos são definidores no padrão da paisagem e do conseqüente modelo de Uso e Ocupação do Solo da área. Quando analisamos os acontecimentos sociais, através da pesquisa histórica, estamos também estudando eventos que proporcionaram este encadeamento atual, refletidos no espaço urbano, e que foi conseqüência de fatores determinantes dos grupos sociais pretéritos.

O processo de retroalimentação é muito presente, pois na medida em que o espaço geográfico da Praia do Futuro é modificado antropicamente, por todos esses anos, observamos modificações evidentes, naturais e antrópicas neste mesmo espaço. Assim sendo e exemplificando: Em função do quebra-mar na proteção do na praia do Titã, gradativamente acontece um assoreamento, mesmo lento, a começar no bairro do Serviluz, acontecendo um aumento pouco a pouco da faixa de praia sobre o mar em toda a extensão da área de estudo. Fato esse, baseado em depoimento dos barraqueiros que moram e trabalham na área por muitos anos e também nos escritos de (MEIRELES & SILVA & RAVENTOS, 2001), quando dizem que a partir da Construção do molhe na praia do titã, há 35 anos, houve interferência

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na dinâmica morfogenética da Praia do Futuro. Essa estrutura de engenharia, com a retenção de grandes volumes de sedimentos ocasiona um engordamento do prisma praial nas proximidades do bairro Serviluz em função da acumulação de sedimentos na zona de berma das praias do sudeste.

Essas modificações comprovam o quanto à visão metodológica sistêmica e dialética é rica na análise dos fatos. Este fenômeno é muito importante no aumento da zona de estirâncio em toda a Praia do Futuro, além de aumentar a zona de berma, crescendo a distancia entre as barracas e a linha de água.

Outro exemplo de retroalimentação no encadeamento sistêmico da área de estudo, é o que mostra a maresia na área, pois em função dos fortes ventos, principalmente proveniente do Leste, demonstrada pelo anemograma dos ventos; quando a velocidade chega no mês Agosto a 35,1 km/h (FUNCEME, 1998). Esses ventos em direção a faixa costeira trazem grande quantidade de partículas de cloreto de sódio em suspensão, acontecendo o fenômeno da maresia. Essa maresia é uma das hipóteses mais fortes da não ocupação da área de estudo, como esperado. Por essas interações é que observamos como o atual espaço urbano é ocupado fisicamente e que somando a definição de apropriação antrópica, temos como conseqüência, o atual modelo de ocupação, com falhas e necessitando de amenizações e de soluções.

As relações, para definição dos Usos e Ocupações, também são dialéticas, na medida em que os atores da área em questão, disputam suas permanências e suas atividades no local e tentam constantemente transformar em seu proveito, o local. Considerando que o espaço urbano é o reflexo físico da prática social, ao demonstrar, através das formas espaciais, a estrutura social de classes, observa que a ocupação da Praia do Futuro é profundamente desigual, pois afinal, reflete o sistema capitalista periférico que vivemos.

Tentarei neste estudo, descobrir e estudar os processos espaciais que são fundamentais no entendimento dos processos sociais e vice e versa, como causa das formas espaciais, com nos diz, (CORREA, 2002:36), que coloca: “Entre processos sociais, de um lado, e as formas espaciais, de outro, aparece um

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elemento mediatizador que viabiliza que os processos sociais originem as formas espaciais. Este elemento viabilizador constitui-se em um conjunto de forças atuantes ao longo do tempo”.

Nesse recorte físico da área, definido pelo sistema econômico vigente, pelos agentes do espaço urbano, expressa, através de uma divisão social do trabalho, uma impossibilidade de respostas aos processos migratórios, à divisão social da renda de maneira justa, enfim demarca especificidades expressas na territorialidade do solo. Essa desigualdade, expressada principalmente na zona pós- praia, representada pelo loteamento da imobiliária Antônio Diogo, através de ocupações irregulares ao longo dos tempos e das ocupações na zona de dunas que percorrem toda a Praia do Futuro, nos remetem a outro questionamento, de como o poder público nunca, de fato impediu a ocupação, que atualmente acontece celeremente.

O estudo desenvolverá, considerando os campos de conflito, a observação dos agentes possíveis do espaço urbano presentes: proprietários de hotéis, restaurantes, barracas, famílias detentoras da maior parte dos terrenos, barraqueiros, favelados, moradores, ambulantes, o Estado, o Município, a União. Agentes do espaço urbano que deveriam cada vez mais, por iniciativa do poder público e própria, praticar atitudes em que o consenso predominasse, infelizmente não o fazem, e se o fazem não realizam de uma maneira coordenada. Estas práticas urbanas só podem trazer bons frutos se estes agentes do espaço citados anteriormente, participarem de consensos, pois muito das ocupações irregulares é em função da política do governo de não melhorar a renda da população e também de omissão, especialmente da Prefeitura Municipal de Fortaleza, nos últimos tempos, da utilização de instrumentos legais de proteção ambiental.

Esses processos sociais refletem-se em formas espaciais típicas, principalmente na zona de dunas, onde inicialmente aconteceu o processo de auto- segregação, aliado ao fator de descortinar a paisagem, pela classe social de alto poder aquisitivo. Essa classe tentou estabelecer-se longe das favelas, que ficavam inicialmente nas ruas próximas as avenidas Dioguinho e Zezé Diogo, próximo à zona de estirâncio. Gradativamente, porém juntaram-se à “classe mais alta”, pois

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passaram também a ocupar o local do alto das dunas, ocupando ruas e terrenos particulares, com a omissão do poder público, configurando-se comprovadamente assim uma barganha política, “de fechar os olhos” para as ocupações em troca de votos. Melhores detalhes sobre o fato no Capítulo 4, onde vários depoimentos foram proferidos.

É como coloca Valls (1994), questionando se: “O Estado na verdade é ponto neutro que realizaria o progresso de uma nação em função de uma filosofia de igualdade ou seria este Estado elemento a serviço de uma classe a que ele fosse ligado?” É também como cita (CLAVAL, 2000:159), quando coloca referindo-se ao estado e a sociedade civil nos regimes liberais na França do século XIX, que nos lembra fatos recentes, quando se referia as vantagens que as primeiras companhias comerciais possuíam na França em relação à concorrência dos pequenos produtores e dos produtores estrangeiros, e que cabe perfeitamente neste momento: “A concessão dessas vantagens não era compatível com a filosofia igualitária e não- intervencionista do Estado Liberal, que assim estava mobilizando o poderio público a serviço de interesses privados”. Diz também: “O estado tem como grande preocupação à igualdade das oportunidades oferecidas a todos: sua tarefa essencial é instituir um sistema onde as desigualdades espaciais naturais são abolidas pela ação da administração”, (CLAVAL, 2000:170). No caso específico, a classe favorecida são os políticos da área que propiciam apoio institucional ao Prefeito e não a população necessitada de habitações condignas.

A dissertação utiliza o referencial teórico da busca de caminhos para o Desenvolvimento Sustentável, como uma realidade melhor, sabe-se que esta procura a ser seguida não é fácil. O enfoque no desenvolvimento sem a participação é uma prática ainda atual, no entanto o vislumbrar e o querer uma prática diferente faz parte deste trabalho. Daí entendo e concordo com (LEFF, 2001:57).

O desenvolvimento sustentável é um projeto social e político que aponta para ordenamento ecológico e da descentralização territorial da produção”. Neste sentido, oferece novos princípios aos processos de democratização da sociedade que induzem a participação direta das comunidades na apropriação e as transformações de seus recursos ambientais“.

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Sendo assim, a participação como uma técnica praticada não dá a certeza de problemas resolvidos. No entanto, cria caminhos para uma melhor qualidade de vida e o atendimento das necessidades materiais, sociais do individuo e da sociedade.

Ao utilizar-se do referencial teórico da sustentabilidade como objetivo, tentarei conciliar os contrários; o desenvolvimento econômico com o meio ambiente, onde a tecnologia, o saber autóctone, daria o caminho para a tentativa de amenizar problemas ambientais, tipo: devastação de dunas e mangue, poluição de lençol freático, areia sobre residências e outros impactos ambientais que a pesquisa determinará em uma tentativa de diminuição dos efeitos da degradação na área de estudo. Esta postura dialética na questão ambiental tentará mostrar caminhos que as técnicas de pesquisa, confirmarão ou não.

Benzer Belgeler