Volição... é uma emoção indicativa de mudanças físicas, não uma causa de tais mudanças... A alma está para o corpo como o sino de um relógio está para o mecanismo, e a consciência responde ao som que o sino emite quando batido... Nós somos autômatos conscientes.
(HUXLEY, T. H. Methods and Results, 1910, apud WEGNER, 2002, p.317)
Como veremos mais a frente e levando em conta a passagem acima pontuada, podemos deduzir que Wegner entende ‘vontade’ como sinônimo de ‘volição’. Em geral, se pode fazer uma diferença entre volição e vontade da seguinte forma – isto, segundo Wegner, vale ressaltar: classifica-se o primeiro como uma sensação interna e o segundo como uma faculdade ou poder de produzir volições.
Nesse contexto conceitual, Wegner tentará mostrar que o livre-arbítrio, visto como volição, nada mais é do que uma emoção que indica mudança física, não sendo, portanto, a causa da mudança física. Como ele diz, a vontade consciente simplesmente é o que faz a ação ser sentida como algo feito por nós mesmos
Além disso, a vontade consciente marca e associa a ação ao nosso Eu através do sentimento produzido por ela. Nesse contexto, para Wegner, a experiência da vontade consciente seria um tipo de sensação de autoria emocional; ela seria mais do que uma percepção de algo fora do Eu, ela seria uma experiência da nossa própria mente e corpo em ação108.
Como já mencionado, reconhecemos nossas ações como sendo nossas porque nós nos sentimos exercendo essas ações. Tal sentimento, segundo Wegner, nos ajuda a perceber a diferença entre “as coisas que estamos fazendo e todas as outras coisas que estão acontecendo dentro e ao redor de nós” (WEGNER, 2002, p.327). Daí é razoável ver que, para Wegner, a ideia de tomar a vontade consciente (livre-arbítrio) como um sentimento tenha nos levado a interpretar tal sentimento como algo que justifica a crença de que somos os causadores de nossas ações e que, por isso, nos sentimos e somos moralmente responsáveis por elas (cf. Ibidem, p.318).
Como exemplifica Wegner, geralmente as pessoas apreciam o livre-arbítrio como um poder ou habilidade para fazer o que se quer. Se nosso sentimento de agência voluntária não é suscitado por um poder de agir livremente, precisamos explicar como ele surge. Segundo ele, dado que “a experiência é o ponto final do sistema de inferência muito elaborado subjacente à causalidade mental aparente”, então a questão passa a ser esta: “por que nós temos esse sentimento?”.
De modo sucinto, ele serve como parâmetro para distinguirmos nossas próprias ações das demais e para nos identificarmos como sujeitos individuais. Segundo Wegner, esse sentimento nos ajuda a desenvolver o sentido de quem nós somos e o que podemos fazer. E principalmente, nos permite manter um sentimento de responsabilidade por nossas ações, que serve de base para a moralidade exigida em um convívio social (cf. Ibidem, p. 328).
No entanto, muito embora a experiência da vontade consciente nos “torne”, ou melhor, nos faça sentir como seres moralmente responsáveis (o que geralmente pressupõe uma consequência causal que ligue o agente à ação), veremos na citação abaixo como Wegner procura demonstrar a ineficácia causal da vontade consciente:
108 Em uma tentativa de justificar sua tese de que a vontade consciente é uma emoção, Wegner afirma que, embora a vontade consciente não seja vista como uma emoção no sentido clássico, ainda assim, ela tem componentes típicos das emoções: como “um componente experimental (como é), um componente cognitivo (o que significa e os pensamentos que ela traz à mente), e um componente fisiológico (como o corpo responde)” (WEGNER, 2002, p.326). Apesar desta afirmação de Wegner, você leitor pode questionar e dizer que “nós não mencionamos a vontade quando nos pedem para dar exemplos de emoções”. Afinal, você estará dizendo a verdade.
Na verdade, os estudos iniciais do controle percebido (iniciado por Julian Rotter em 1966) centrou-se especificamente na ideia de que a tendência de atribuir controle a si mesmo é um traço de personalidade. Algumas pessoas têm mais disso do que outros, e essa expectativa generalizada de controle influencia ações e escolhas de uma pessoa através de uma ampla gama de circunstâncias. O controle percebido é muito parecido com o otimismo no que ele sinaliza com confiança e exuberância em muitos domínios da vida; controle pouco percebido, por sua vez, é como o pessimismo na medida em que conduz a uma subestimação geral do que pode ser feito. As pessoas que não percebem que elas estão controlando as coisas em suas vidas, muitas vezes atribuem eventos ao acaso, ao destino, ou a outros poderes. (Ibidem, p.330).
Wegner defende, em resumo, que a percepção de controle é diferente do controle real, isto é, o sentimento de vontade não é o mesmo que a força/poder da vontade, uma vez que o controle percebido pode afastar-se significativamente do controle real. Para tanto ele usa as fobias como exemplo mais extremo de desvio de percepção. O sujeito que sofre de fobia de avião, por exemplo, tem uma percepção de controle muito menor do que o controle real que ele possui, de fato. Assim, em geral, esse sujeito não faz nada frente ao seu medo. E crendo que sua vontade consciente seja inútil, ele continua a não fazer nada para vencer esse medo109 (cf. Ibidem, p.332). Além disso, creio que seja interessante pensar também nas terapias para fobias. Por exemplo, quando a pessoa que sofre de algum tipo de fobia melhora, a mudança parece vir do sino, não da maquinaria do relógio.
Outra coisa é que, embora a vontade consciente não tenha nenhum papel causal, ela pode ser muito útil uma vez que sugere aos sujeitos que a causação está acontecendo. Por isso, ela está fortemente ligada à responsabilidade e moralidade. E sendo assim, pode-se justificar que uma pessoa seja moralmente responsável apenas por aquelas ações que ela desejou (willed) conscientemente (cf. Ibidem, pp.333-4). É isso que é pressuposto tanto no direito como na religião. Cito:
Assim, o que as pessoas pretendem e conscientemente querem é uma base para como a retidão ou iniquidade moral do ato é julgada. [...] A
109 Este trecho mostra a contradição da argumentação de Wegner. Nele, Wegner quer mostrar a epifenomenalidade da vontade, mas acaba fazendo o contrário. Visto que ele mostra como ela pode influir em comportamentos e ações futuras. Como é possível perceber, ele até tenta explicar e diferenciar aquelas coisas que dependem ou não de nós, mas esquece que a percepção de controle influencia no comportamento e ação do sujeito.
religião muitas vezes enfatiza a vontade consciente, mesmo com mais força do que a lei. O que as pessoas conscientemente querem torna-se o árbitro do que elas merecem na terra e de seu destino no além. (Ibidem p.335).
Conquanto, como mostra a citação, tanto o direito como a religião assumam que a experiência da vontade consciente seja um efeito direto da relação causal real entre o pensamento e a ação do sujeito, com sua teoria da causação mental aparente, Wegner sugere que uma ação conscientemente desejada é meramente uma estimativa da eficácia causal dos pensamentos de alguém na produção de uma ação (cf. Ibidem, p.336).
Para Wegner, os pensamentos que temos antes de nossas ações não precisam ser a causa das ações para servirem como critério de avaliação moral. As informações sobre o estado mental em que o sujeito se encontra durante uma ação é importante para determinar como ele será julgado por um crime, por exemplo. Isso vale mesmo levando em conta a falibilidade desse tipo de conhecimento (cf. Ibidem, p.340)110.
Contudo, mesmo postulando que a força causal da vontade consciente seja ilusória, Wegner vai insistir que a vontade consciente não é um fenômeno epifenomênico. Pois tal ilusão serve como os blocos de construção da vida social e psicologia humana. Visto que o sentimento de vontade consciente é o único que pode nos indicar quem somos como indivíduos, de discernir o que podemos ou não fazer, e de nos situar como pessoas moralmente responsáveis111.