INTERNACIONAL DE DIREITOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E
CULTURAIS
Conforme Georges Saab, eminente professor de Direito internacional, afirma104:
O Direito Internacional, como todo Direito, não emerge do vácuo ou do vazio social, e nem sempre emerge no universo jurídico como um "big bang". Na maioria dos casos, o Direito Internacional é resultado do crescimento progressivo e imperceptível, intermediado pelo processo de desenvolvimento dos valores de uma sociedade; novas ideias aparecem e enraízam-se; elas fortalecem-se em valores que se tornam mais e mais imperativos na consciência social, ao ponto desses valores derem origem a uma convicção irresistível de que eles devem ser formalmente aprovados e protegidos. Esse é o ponto que marca o limiar do Direito.
O primeiro grande suporte105 internacional do pensamento jurídico sobre os direitos humanos foi a Declaração Universal de Direitos Humanos, aprovada em 1948. Como a Declaração Universal não tem natureza jurídica de um tratado, a sociedade internacional comprometeu-se a desenvolver os deveres dos Estados posteriormente, mediante a elaboração de dois pactos internacionais: um para os direitos econômicos,
103 A missão essencial do CDESC consiste em examinar os informes periódicos dos Estados-partes. in
E/CN.4/2003/53 - Os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais - Situação dos Pactos Internacionais de Direitos Humanos - Informe do sr. Hatem Kotrane, especialista independente encarregado de examinar a questão do projeto de protocolo facultativo do PIDESC. p.71.
104 ZIEGLER, Jean. The fight for the Right to Food: Lessons Learned, Palgrave Macmillan, 2011. ISBN:978-
0-230-28464-7.p.4. Cf. G. Abi-Saab, ‘Les sources du droit international: essai de déconstruction’, In M. Rama-Montaldo, Liber Amicorum en hommage au Professeur Eduardo Jimenez de Aréchaga, Montevideo, Fundación de Cultura Universitaria, 1994, pp. 29– 49.
105 Para significado preciso. cf. nota rodapé 2.p.5. Cap.1.1.Propósitos Dissertativos e a Posição do
sociais e culturais (PIDESC), e outro para os direitos civis e políticos (PICP). Esses pactos são instrumentos internacionais vinculantes que impõem obrigações jurídicas aos Estados que, ao ratificá-los, se obrigam a garantir a aplicação efetiva desses acordos na jurisdição doméstica, tanto constitucional quanto infraconstitucionalmente.
Em prefácio, escrito em 1979, à 2ª edição de sua Teoria Tridimensional do Direito, Miguel Reale destaca as necessidades jurídicas dos países em desenvolvimento, apresenta o contexto do Direito no pós-guerra, bem como fundamenta a Teoria Tridimensional desenvolvida por ele.
A iniciativa da Universidade do Chile, em Valparaíso, de incluir a presente monografia em sua coletânea intitulada Juristas Perenes, além do significado pessoal que naturalmente me envaidece, revela quanto as nações do impropriamente denominado "Terceiro Mundo" sentem e vivem a necessidade de uma compreensão antiformalista do Direito.(gn)
As perplexidades e os anseios inerentes à nossa vida cultural, na totalidade das suas projeções, desde as artísticas às econômicas e políticas, refletem-se no sentido de soluções jurídicas concretas, vinculadas à experiência e aos valores da vida cotidiana.(gn)
A Ciência do Direito, sobretudo a partir da Segunda Grande Guerra, vem se caracterizando por uma crescente luta contra o formalismo, o que implica repúdio às soluções puramente abstratas. Deseja-se, cada vez mais, correlacionar as soluções jurídicas com a situação concreta na qual vivem os indivíduos e os grupos. (gn)
Essa tendência, no campo do Direito, não é senão expressão das diretrizes e do movimento que caracterizam, de modo geral, a cultura contemporânea.
[...] A Ciência Jurídica, que é uma das componentes essenciais do mundo da cultura, passou a abandonar a colocação de seus problemas de maneira abstrata,
evitando discussões meramente verbais, e, por conseguinte, certas contraposições genéricas ou absolutas que suscitaram, até bem pouco tempo, polêmicas infecundas.(gn)
Daí falar-se, especialmente nas últimas décadas, em Direito como experiência, terminologia que prefiro, e que é, aliás, o título de uma de minhas obras principais; em concreção jurídica, ou no Direito como vida humana objetivada, todas expressões que, apesar da ideia que as distinguem, correspondem, porém, a uma mesma aspiração no sentido de harmonizar a lógica das regras jurídicas com as exigências reais da vida social.(gn)
Nesse sentido, verificam- se, campo jurídico, algumas alterações de fundo, como a afirmação, por exemplo, de uma verdade, esquecida no clima individualista anterior, de que o legislador e o jurista devem ter sempre presentes alguns pressupostos básicos de ordem moral. [...] É impossível reduzir a vida jurídica a meras fórmulas lógicas ou a um simples encadeamento de fatos, devendo reconhecer-se a essencialidade dos princípios éticos, o que explica o frequente apelo que se volta a fazer a ideias, como de equidade, probidade, boa-fé etc., a fim de captar-se a vida social na totalidade de suas significações para o homem situado "em razão de suas circunstâncias".
Nesse contexto parece-me lícito afirmar que o tridimensionalismo jurídico tem o mérito de evitar a redução da Ciência do Direito a uma vaga Axiologia Jurídica, pelo reconhecimento de que não são menos relevantes os aspectos inerentes ao plano dos fatos ou à ordenação das normas, o que implica, penso eu, uma compreensão dialética e complementar dos três fatores operantes na unidade dinâmica da experiência jurídica.(gn)
Adotada essa posição, o problema da "concreção jurídica" adquire mais seguros pressupostos metodológicos, permitindo- nos apreciar, de maneira complementar, as interdisciplinariedades das diversas pesquisas relativas à realidade jurídica, sob os prismas distintos da Filosofia do Direito, da Sociologia Jurídica, da Ciência do Direito, da Etnologia Jurídica etc. A compreensão unitária e orgânica dessas perspectivas implica o reconhecimento de que, não obstante a alta relevância dos estudos lógico-linquísticos, tudo somado, o que há de essencial no Direito é o problema de seu conteúdo existencial106. (gn)
Como todos os outros direitos econômicos e sociais, o direito à alimentação diz respeito à dignidade humana que fundamenta a Declaração Universal de Direitos Humanos. Também diz respeito à luta pela "Terceira Liberdade" do presidente Franklin Roosevelt - "Estar livre das necessidades e da fome".107
Por não ter natureza jurídica de um tratado, a Declaração Universal proporcionou o fundamento para o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, segundo o qual incuti no direito à alimentação força legal. Apesar de os instrumentos internacionais em si não terem mecanismos para a aplicação da lei, esses acordos internacionais criam um precedente legal nos países que os ratificam, o que possibilita aos cidadãos ou às cortes cobrarem Estados para cumprirem a obrigação acordada. Esses documentos são negociados nos órgãos internacionais, mas a obrigação de cumprir, como, por exemplo, o direito à alimentação, ou mesmo os direitos humanos em geral, permanece intimamente ligada aos direitos de cidadania e é dependente da aplicação legal em nível nacional.108 (gn)
106 REALE, Miguel. Teoria Tridimensional do Direito, situação atual, 5 ed. rev. e aum. - São Paulo: Saraiva,
1994,p.XIII/XV
107 ZIEGLER, Jean. The fight for the Right to Food: Lessons Learned, Palgrave Macmillan, 2011. ISBN:978-
0-230-28464-7.p.15.
108 FAO, Cuaderno de Trabajo sobre el derecho a la alimentación 1. El derecho a la alimentación en el marco
A ideologia da Guerra Fria, estruturante do regime pós-guerra, também teve uma função decisiva no desenvolvimento (ou na insuficiência) do direito à alimentação e na erradicação da fome. Depois da criação da DUDH 1948, uma fissura desenvolveu-se entre as duas categorias de direitos que a Declaração tinha estruturado. Enquanto os Estados Unidos favoreciam os direitos negativos "civis e políticos" (que dizem respeito ao direito que um indivíduo tem de estar livre de violações), a União Soviética apoiava os direitos positivos "econômicos, sociais e culturais" (que dizem respeito ao direito que o indivíduo tem face ao Estado). A recusa de cada lado de reconhecer a categoria de direito apoiada por cada lado significou que, quando chegou o momento de elaborar os deveres dos Estados em relação aos direitos humanos, as Nações Unidas elaboraram dois Pactos Internacionais de direitos humanos separados109.
Dentre os instrumentos jurídicos internacionais, os tratados de direitos humanos constituem uma categoria especial em razão de ter como características, entre outras coisas, o fato de que as pessoas aparecem como as titulares dos direitos e os Estados como os titulares das obrigações110.(gn)
109 WITTMAN, Hannah. Food Sovereignty: reconnecting food, nature and community. ISBN 979-1-55266-
374-5.p.20
110 FAO, Cuaderno de Trabajo sobre el derecho a la alimentación 1. El derecho a la alimentación en el marco