• Sonuç bulunamadı

Existe vasta literatura abordando as dificuldades enfrentadas pelas MPEs.

FENWICK e col. (2007) avaliam em publicação da OIT que pesquisas relacionadas à produtividade e empregos nas pequenas empresas revelam três características: 1. a produtividade tende a crescer com o tamanho das empresas, ou seja, MPEs apresentam menos produtividade que MGEs; 2. pequenas empresas representam grande proporção de todos os setores privados empregando normalmente entre 45% a 65% da força de trabalho, sendo importante fonte de emprego, seja em países desenvolvidos ou em desenvolvimento; 3. os salários são menores e os direitos e condições dos trabalhadores são menos adequados quando comparado a grande empresa. Conjugando estas três características, significante porção da força de trabalho de muitos países está empregada em estabelecimentos pequenos e com baixa produtividade, onde trabalhadores ganham menos e tem menos direitos do que trabalhadores de grandes empresas.

SANTOS (2006) cita que vários problemas no segmento de pequenas empresas são comuns em diversos países como baixa intensidade de capital, menor produtividade, falta de capital de giro e de recursos adequados para compra de bens de capital modernos, problemas de acesso ao crédito, problemas na gestão, dificuldades de informatização, problemas associados à representatividade de seus interesses, dentre outros.

CACCIAMALI (1999) destaca o pequeno faturamento, tecnologia obsoleta e a grande sensibilidade das empresas a retração do ciclo econômico e fatores de sazonalidade, que implicam em alto índice de mortalidade dessas unidades produtivas.

O SEBRAE (1998) realizou pesquisa de campo com 1.817 empresas, sendo 63 % delas micro e pequenas e 37 % médias e grandes, abrangendo os setores da indústria, comércio e serviços, tanto da capital como do interior do Estado de São Paulo. Foi constatado que a média de escolaridade dos empresários das MPEs é inferior aos das MGEs, sendo que nas pequenas apenas 36 % possuem nível superior contra 56% nas médias e grandes. As MPEs são mais jovens, com média de 14 anos de existência dos estabelecimentos contra 25 anos de média para as MGEs, sendo que normalmente os imóveis onde estão localizadas as micro e pequenas empresas são alugados (em 61% dos casos) enquanto que nas MGEs na maior parte dos casos o imóvel é próprio (55% das empresas). Ao avaliar as máquinas e equipamentos utilizados pelas empresas, o SEBRAE observa que o percentual de utilização de máquinas nacionais é maior nas MPEs comparado às MGEs (88 % e 70%, respectivamente), o que poderia ser um indício que o parque produtivo é mais moderno nas médias e grandes empresas, já que na avaliação da referida instituição as máquinas importadas tenderiam a ser relativamente mais modernas que as nacionais. No entanto, independente desta hipótese ser ou não procedente, foi constatado na pesquisa que nas MPEs 70 % das máquinas foram consideradas antigas, com mais de 5 anos de uso (contra 65% nas MGEs), 24 % são “quase novas”, entre 2 e 5 anos de uso (contra 25% das MGEs) e apenas 6% são novas, com menos de 2 anos de uso (10% nas MGEs). Quanto a infra-estruturar de informática, na ocasião 99% das MGEs possuíam computador e 67 % acessavam a internet, contra 63 % e 21%, respectivamente, nas MPEs.

Já no que se refere a relação das empresas com os empregados, apenas 24% dos trabalhadores das MPEs receberam treinamento nos últimos 12 meses anteriores a

pesquisa, contra 44 % nas MGEs, já quanto aos empresários, apenas 35% dos micro e pequenos empresários tinham participado de algum curso, contra 66% dos das MGEs. Na média, os empregados nas MPEs paulistas recebiam 4,2 salários mínimos, contra 7,3 nas médias e 8,4 nas grandes empresas. Foi constatado ainda que a rotatividade dos trabalhadores é maior nas MPEs, já que nas grandes, a média de permanência do trabalhador é de 5 anos, contra menos de 3 nas pequenas empresas.

O SEBRAE conclui com esta pesquisa comparativa entre as micro e pequenas empresas, contra médias e grandes que de fato as MPEs enfrentam uma série de dificuldades que são mais fortes para este segmento, tais como baixas escalas de produção, defasagem tecnológica, burocracia e escassez de informações.

É importante observar que provavelmente as MPEs que fizeram parte desta pesquisa já apresentam relativa estruturação comparado ao segmento das micro e pequenas, uma vez que as literaturas anteriormente apresentadas neste trabalho (SANTOS, 2006; CACCIAMALI, 1999) apontam enormes dificuldades para viabilizar a continuidade destas empresas. A idade média das unidades de negócios, por exemplo, que é de 14 anos é um dos indicadores, nos chamou atenção também a comparação entre o parque produtivo das empresas, pois apesar das máquinas das MPEs apresentaram maior tempo de uso, a diferença não foi muito grande comparado às máquinas da grande empresa. Evidentemente que estas considerações não interferem na validade da pesquisa realizada, mas apenas ressaltamos que ao considerar estabelecimentos da construção civil (que não foram incluídos no estudo) e empresas que ainda lutam para se constituir formalmente, as dificuldades das MPEs apontadas na pesquisa do SEBRAE seriam potencializadas e as precariedades ficariam ainda mais em evidência.

Quanto às questões de segurança e saúde , WALTER (2002) avalia que o trabalho nas pequenas empresas apresenta riscos proporcionalmente maiores para a saúde e segurança, devido a combinação de fatores que contribuem para a má gestão da prevenção e da insuficiente aplicação das normas neste tipo de estabelecimentos. O autor pondera sobre as diferenças entre MPEs e MGES, tanto na maneira em que abordam a gestão de segurança e saúde no trabalho, como com relação ao contexto econômico e regulador em geral, que contribuem conjuntamente para explicar os maiores riscos nas pequenas empresas. Citando Nichols (Nichols, 1997, p.154) é

utilizado o conceito de estruturas de vulnerabilidade, para referir-se a geral e multifacetária carência de recursos nas pequenas empresas, não se tratando apenas do tamanho, mas sim do efeito de uma “constelação de fatores” (Walter, 2002, p.24) que tem como consequência a limitação de recursos disponíveis para os patrões e trabalhadores conjuntamente.

Os fatores compreendem:

x Desenvolvimento limitado de recursos de gestão de segurança, tais como competência a respeito, informação, formação, equipamentos industriais seguros e em boas condições;

x Dificuldade de acesso dos trabalhadores e suas representações para defesa de seus interesses;

x Acesso limitado a serviços externos com competências em prevenção de riscos; x Limitada experiência de trabalhadores e patrões, devido ao curto ciclo de vida

de muitas pequenas empresas; e

x Escassa frequência de inspeções e controles.

Os efeitos destes problemas são potencializados devido a outros aspectos de vulnerabilidade, entre os quais cabe ressaltar a insegurança do trabalho em muitas MPEs, a sensibilidade econômica, a presença constante do desemprego, sua limitada rentabilidade e a grande quantidade de trabalho ilegal e, portanto, não regulamentado.

Algumas das dificuldades apontadas por Walter, como na gestão das questões relativas à SST e acesso a serviços externos que tratam da prevenção de riscos também ficaram evidentes em pesquisa realizada pelo CESIT (Centro de Estudos de Economia Sindical e do Trabalho) da UNICAMP (2004) em parceria com o SEBRAE, que destacou os seguintes problemas enfrentados pelas empresas:

x Ausência de racionalização dos programas de segurança e saúde do trabalhador (SST), ou seja, não há uma simplificação nos diversos programas que leve em consideração as peculiaridades das MPE; a inexistência de um sistema de financiamento para aquisição de máquinas novas e protegidas ou para a instalação de dispositivos de proteção em máquinas usadas;

x Falta de conhecimento técnico para implementação de melhorias no processo produtivo que conduzam a melhores condições de trabalho, além das medidas individuais e coletivas de proteção dos trabalhadores;

x Dificuldades na contratação de assessorias técnicas em saúde e segurança do Trabalho (SST), visando a correta elaboração, implementação e acompanhamento dos programas de gestão de SST, face ao alto custo dos serviços prestados pelas empresas de assessoramento ou para a realização de alguns serviços necessários à melhoria dos ambientes de trabalho; e

x Dificuldades na obtenção de orientação quanto ao fiel cumprimento da legislação trabalhista e previdenciária.

As MPE não têm a obrigatoriedade de possuir os SESMT2, devido ao número reduzido de empregados, assim todas as suas obrigações relacionadas à segurança no trabalho são realizadas com a contratação de serviços externos de empresas de consultoria ou por profissionais liberais que atuam nesta área.

Os empregadores contratam as prestadoras de serviço normalmente para elaborar o PPRA e o PCMSO3, apenas com o intuito de cumprir a exigência legal de possuir os referidos documentos, e as prestadoras de serviço, por sua vez, elaboram programas de caráter burocrático ou com meras repetições das Normas Regulamentadoras, sem qualquer rigor técnico, cujo objetivo se desvia daquele estabelecido pela legislação, ou seja, o de promover a prevenção das condições de segurança e saúde dos trabalhadores por meio destes programas de gestão de riscos (MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2008).

2

A legislação trabalhista brasileira (Norma Regulamentadora N.º 04 do MTE) obriga as empresas a constituírem o Serviço Especializado em Segurança e Saúde no Trabalho – SESMT - em função do número de empregados e do grau de risco da atividade desenvolvida. O SESMT é composto por profissionais especialistas na área de SST que auxiliam as empresas na prevenção dos riscos ocupacionais.

3 O PPRA é regulamentado pela Norma Regulamentadora n.º 09 ( NR 09 ) do MTE que estabelece a obrigatoriedade da elaboração e implementação, por parte de todos os empregadores e instituições que admitam trabalhadores como empregados, do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais - PPRA, visando à preservação da saúde e da integridade dos trabalhadores.

Já o PCMSO é regulamentado pela Norma Regulamentadora n.º 07 ( NR 07 ) do MTE que estabelece a obrigatoriedade de elaboração e implementação, por parte de todos os empregadores e instituições que admitam trabalhadores como empregados, do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional - PCMSO, com o objetivo de promoção e preservação da saúde do conjunto dos seus trabalhadores.

Assim, o empregador suporta o ônus financeiro da elaboração de documentos que não são capazes de auxiliá-lo no gerenciamento dos riscos e da melhoria das condições de saúde de seus trabalhadores.

Desta forma, as duas situações mais corriqueiras observadas na prática da fiscalização das MPES são a inexistência dos programas de gestão de riscos e saúde dos trabalhadores exigidos por lei ou documentos desprovidos de informações relevantes e que não são capazes de contribuir com a prevenção das condições de SST.

Independente da elaboração ou não do PPRA e do PCMSO, os empresários deixam de reconhecer os riscos existentes no ambiente de trabalho, avaliá-los ou quantificá-los e, portanto, não adotam medidas administrativas, de engenharia ou de outra natureza para eliminar ou controlar tais riscos de forma a manter seu ambiente laboral dentro dos parâmetros legais existentes e prevenir a ocorrência de doenças ou acidentes que muitas vezes acarretam prejuízos humanos e materiais que, em alguns casos, comprometem inclusive a manutenção da própria empresa. É bem verdade que as irregularidades envolvendo questões de segurança e saúde dos trabalhadores não são exclusivas das MPEs, já que médias e grandes empresas às vezes deixam de implementar medidas básicas de gerenciamento dos riscos nesta área. No entanto, a situação é mais complexa para as micro e pequenas, uma vez que elas normalmente não tem acesso a serviços técnicos de qualidade, não possuem conhecimento adequado de suas obrigações trabalhistas principalmente as relacionadas a SST, tem dificuldade em obter orientações sobre estas questões e fazem uso de processos produtivos ultrapassados, máquinas e equipamentos obsoletos, fatores estes que costumam ser determinantes na ocorrência de acidentes e doenças.

Avaliando a questão de uma forma mais ampla, podemos concluir que no panorama econômico atual e no sistema de relações do trabalho brasileiro porção considerável das MPEs encontra dificuldades para sobreviver. Não é nosso objetivo avaliar nesta seção as políticas públicas de apoio e incentivo as micro e pequenas empresas, mas certamente estas precisam ser aprimoradas no nosso país.

Muitos estabelecimentos, independente de estarem ou não em concorrência direta com médias e grandes empresas, utilizam a precarização do trabalho como maneira de manutenção no mercado, em alguns casos por falta de opção, em outros, por falta de punição.

Portanto, quando consideramos o ambiente externo às empresas, ampliamos o leque de dificuldades encontradas pelas MPEs, algumas delas inclusive nos ajudam a compreender os problemas observados no interior da empresa, análise esta que é mais familiar aos técnicos da área de SST. Todas estas questões de forma direta ou indireta podem estar relacionadas com a ocorrência de acidentes.

Benzer Belgeler