Uma forma simplificada e bastante utilizada na literatura para classificar as inovações é a separação desta em duas categorias, as radicais ou revolucionárias e as incrementais (UTTERBACK, 1994; CHRISTENSEN, 2001). A inovação radical representa um produto ou processo inédito no mercado, capaz de revolucionar os hábitos de consumo e transformar seus idealizadores em donos do mercado. Este tipo de inovação ocorre algumas vezes e gera grandes mudanças no mercado, como foi, por exemplo, o caso da geladeira e sua precursora, a máquina de produzir gelo. Esta inovação alterou de forma drástica a vida das pessoas, além de determinar o fim da indústria de extração do gelo, que em meados do século passado, representava uma parcela significativa da economia americana, chegando a exportar sessenta mil toneladas de gelo em 1870 (UTTERBACK, 1994). Desde 1925, com a introdução no mercado das primeiras geladeiras elétricas, até os dias de hoje, ainda se convive com esta inovação. Mas comparando-se as primeiras geladeiras com os modelos que existem hoje no mercado, verifica-se que as diferenças são enormes. Essas diferenças são o resultado de melhorias implementadas durante mais de meio século e representam uma outra forma de inovação, a incremental.
Freeman (1987) por sua vez, definiu quatro categorias de inovação: inovação incremental, inovação radical, mudanças do sistema tecnológico e mudança no paradigma tecno-econômico (revolução tecnológica). Para o autor, a inovação incremental ocorre mais ou menos continuamente em qualquer indústria ou atividade de serviço. Embora muitas inovações incrementais possam surgir como resultado de programas organizados de pesquisa e desenvolvimento, estas inovações podem freqüentemente ocorrer não tanto como resultado de atividade de pesquisa e desenvolvimento, mas como resultado de invenções e melhorias sugeridas por engenheiros e outros profissionais envolvidos diretamente com o processo de produção ou como resultados de iniciativas e propostas de usuários. Inovações radicais são eventos descontínuos e são o resultado de uma atividade de pesquisa e desenvolvimento deliberada realizada em empresas e/ou universidades e laboratórios do governo. As mudanças do sistema tecnológico afetam um ou vários
setores da economia, assim como causam a entrada em novos setores. Elas são baseadas na combinação de inovação radical e incremental, junto com inovações organizacionais, afetando mais do que uma ou uma pequena quantidade de empresas. Algumas mudanças no sistema tecnológico são tão fortes que tem importante influência no comportamento da economia. A expressão paradigma tecno-econômico implica um processo de seleção econômica do âmbito da combinação de inovações tecnicamente factíveis e de fato isto toma um tempo relativamente longo. Um paradigma tecno-econômico é aquele que afeta a estrutura e as condições de produção e distribuição de quase todo o ramo da economia.
Seja a inovação de caráter tecnológico ou não, esta envolve muitas dificuldades e barreiras a serem vencidas para ir da sua etapa inicial de criação até a colocação do novo produto ou serviço no mercado ou mesmo um novo processo em operação. Mohr (1969) já havia identificado algumas forças associadas à inovação que agiam como dificultadores do processo de inovação nas organizações. Entre estas forças destacam-se a incerteza de resultados, o risco e os custos associados às inovações (MOHR, 1969).
Por outro lado, o resultado de uma inovação bem sucedida pode representar a sobrevivência ou liderança de uma empresa e pode até mesmo alterar os hábitos e comportamentos de uma sociedade. Assim, a “inovação é de uma só vez a criadora
e a destruidora de setores industriais e corporações” (UTTERBACK, 1994, p.XIV).
A seguir é tratada a questão da multidimensionalidade do conceito de inovação.
Ainda não existe uma definição universalmente aceita para inovação. Em geral, cada autor apresenta uma definição e a maior parte deles tem uma justificativa para sua escolha. Uma pequena amostra das diferentes definições do termo, ilustra as seguintes definições para inovação7:
• “Inovação implica trazer algo novo e pô-lo em uso” (MOHR, 1969, p.112)
7
• “Um processo de transformar oportunidades em novas idéias e colocá-las em
amplo uso prático” (TIDD; BESSANT; PAVITT, 1997, p.24).
• “É a ferramenta por meio do qual o empreendedor gera nova riqueza, seja
produzindo novos recursos ou encontrando novas aplicações para recursos conhecidos.” (DRUCKER, 2002 p. 95).
• “Uma idéia, método, ou objeto que é percebido como novo por um indivíduo
ou outra unidade de adoção” (ROGERS, 2003, p.12).
• “Oferecer saltos no valor para os compradores e para as próprias empresas,
que assim desbravam novos espaços de mercado.” (KIM e MAUBORGNE,
2005, p.13)
• “As empresas alcançam vantagem competitiva por meio de ações de
inovação, abordam a inovação em seu sentido mais amplo, incluindo tanto novas tecnologias, quanto novas formas de fazer as coisas” (PORTER, 1990,
p.74)
• “Envolve a exploração de oportunidades para produtos, processos ou
serviços sejam novos ou melhorados” (PAVITT, 2006, p.88)
• “As definições funcionais de inovação associam idéia e execução”. (KELLEY; LITTMAN, 2007, p.6)
• “É o processo de desenvolvimento e implementação de uma nova idéia” (VAN DE VEN; ANGLE; POOLE, 2000, p.12)
O Manual de Oslo (OECD, 2005), por sua vez, propõe uma definição de inovação bastante abrangente.
“An innovation is the implementation of a new or significantly improved product (good or service), or process, a new marketing method, or a new organizational method inbusiness practices, workplace organisation or external relations.” (OECD, 2005, p.46)
O mesmo Pavitt (2006), por sua vez, propõe uma complementação para as questões relativas ao enfoque da inovação, apresentando-a como a primeira tentativa de colocar em prática a ocorrência de uma idéia para um novo produto, serviço ou processo.
Desconsiderando algumas diferenças semânticas, em geral pode-se afirmar que inovação é a experimentação de uma idéia ou novidade em prática gerando resultado. Contudo, deve-se ter em mente que definir um conceito multidimensional não implica apenas em síntese literária, mais importante é o fato de que essa definição inclua todas as dimensões teóricas implícitas no constructo.
Outra definição que é igualmente importante foi formulada no início do século XX. Emergindo, naquela época, uma nova visão de inovação associada a desenvolvimento econômico com a obra do austríaco Joseph Alois Schumpeter (1982). Schumpeter é considerado um pioneiro na análise econômica da inovação, tendo concentrado mais esforços nesse tópico do que qualquer outro economista na primeira metade do século XX (FAGERBERG, 2003; PAVITT, 2006).
Schumpeter (1982), ao desenvolver a sua teoria do desenvolvimento econômico, separava a análise em duas situações distintas, que mereciam tratamentos diferenciados. A primeira situação trouxe uma análise voltada para o fluxo circular da vida econômica, com um modelo estático, onde a atividade humana se apresenta de maneira idêntica em sua essência, repetindo-se indefinidamente. A outra situação, ao contrário, representa um modelo dinâmico da economia, onde ocorrem as transformações geradoras do desenvolvimento econômico.
Essas transformações seriam as inovações (BARBIERI, 2003); e seu conceito abrange os cinco casos seguintes (SCHUMPETER, 1982):
1) A aceitação de um novo bem, ou seja, um bem ainda não familiar ao consumidor;
2) A adoção de um novo método de produção;
4) A conquista de nova fonte de suprimento dos insumos;
5) A reorganização de qualquer indústria.
As idéias de Schumpeter nortearam diversos desenvolvimentos subseqüentes nesse campo de pesquisa, e contribuíram ainda na tentativa de explicar o papel vital da inovação no crescimento e competitividade (PAVITT, 2006). Contudo os primeiros trabalhos de Schumpeter dão maior ênfase (FAGERBERG, 2003) ao papel dos indivíduos do que das organizações em relação ao processo de inovação. Processo esse que será tratado brevemente no tópico a seguir.