Já foi dito que Lukács pretendia estabelecer a autonomia da atividade estética a partir de Kant, mas sem incorrer nas suas limitações, ou seja, sem tomar o juízo – uma categoria lógica – como plataforma e nem reduzir a esfera estética ao campo da pura reflexão. Vejamos um pouco mais de perto o teor dessa divergência. Tanto na primeira (1912-1914), quanto na segunda (1916-1918) redação da estética, Lukács reprova a via kantiana. Suas objeções se articulam, no essencial, em torno de dois argumentos. Em primeiro lugar, Kant não percebe que, com base no juízo, é impossível estabelecer a autonomia da obra de arte, já que esta relação entre arte e subjetividade é mediada pela vivência. O reconhecimento da obra de arte, portanto, nada tem a ver com o juízo, ainda que este vise transmitir um sentimento que se supõe comum, aplicável a todos, mas antes com a vivência imediata da obra. Nas palavras de Lukács:
De outro modo, um sujeito não poderia nunca se tornar um sujeito estético, já que o juízo sobre uma obra de arte, ainda que “artisticamente justo”, não pode fundar uma relação sujeito-objeto estética, da mesma forma que uma afirmação justa, mas teórica, sobre uma ação ou opinião – própria ou de outrem – não pode ser fundadora do comportamento ético349.
O sujeito estético não é aquele que ajuíza, mas aquele que vivencia, de forma ativa ou passiva, ou seja, como criador ou receptor. E a segunda objeção de Lukács se coloca a
partir deste ponto: a vivência da arte não é subjetivo-reflexiva, mas normativa e se relaciona com objetos que valem por si. Kant erra ao conceber a constitutividade dos objetos apenas através das “categorias racionais do âmbito teórico”, pois existe uma constitutividade própria da esfera estética, pela qual as vivências empíricas são elevadas ao plano normativo.
A vivência normativa, na qual a obra é criada como realização do valor estético, ou vem assumida como tal, equivale a um movimento do sujeito em relação a um mundo perfeitamente adequado às exigências da experiência, um mundo que se lhe contrapõe pelo objeto a ele normativamente ligado, ou seja, pela obra; para realizar em si a validade daquele, o sujeito é obrigado a desenvolver em si mesmo, levando ao máximo grau de intensidade, tudo o que se encontra sobre a diretriz de tal intensidade de experiência, potencializada e purificada, enquanto deve manter distante de si, ou melhor, deixar submergir na não-existência, na não-pensabilidade, tudo o que não pertence a esta corrente homogênea ou que possa obstaculizar o seu curso350.
O sujeito estético é o que se instaura pela relação com uma objetividade estética constitutiva e a ele correspondente, jamais através de um juízo reflexivo. Seu caráter mais essencial é a transformação da empiria imediata numa vivência normativa, cujo conteúdo são realidades vivenciais depuradas de tudo o que não faça eco às demandas da subjetividade, às suas necessidades de viver em si o sentido de sua humanidade.
Ao postular a constitutividade da objetividade estética e remetê-la ao plano da experiência vivida, Lukács ultrapassa a circunferência do pensamento kantiano, pisando, por assim dizer, em terra virgem. De fato, recorde-se, seu conceito de vivência também não se confunde com o da psicologia, não é mera vivência interior, como em Dilthey, mas sim vivência que, pela criação ou recepção da obra, eleva-se à norma. Neste sentido, sua preocupação fundamental é estabelecer uma diferenciação das esferas normativas: a lógica, a ética e a estética, com base na relação sujeito-objeto. “A construção interna de toda esfera de valor se diferencia entre si e da realidade ‘natural’ sobretudo – e do modo mais visível – pela modalidade que a relação sujeito-objeto assume”351.
Esta diferenciação é concebida “fenomenologicamente”. Especialmente na segunda redação, Lukács irá estatuir sua fenomenologia com base tanto em Husserl quanto em
350Ibid., p. 99. 351Ibid., p. 37.
Hegel, porém, com a predominância do segundo. Ele diz: “por ‘fenomenologia’, quando não for expressamente indicado o contrário, deve-se entender aquela de Hegel e não a de Husserl”352. Lukács assume explicitamente sua vinculação a Hegel, melhor dizendo, ao método fenomenológico, destacando-a, porém, do sistema. O que lhe interessa é a idéia do processo de alçamento do sujeito como vivência às esferas do valor. Contrapondo-se ao sujeito lógico de Kant e ao sujeito vivencial, mas psicológico, de Dilthey, Lukács avança até Hegel, pois também não encontra em Lask uma formulação efetiva da distinção entre teoria e estética.
Interpretando o conceito de fenomenologia unicamente como um processo individual, não como o auto-devir do espírito absoluto, eis como Lukács a define:
A questão fenomenológica de Hegel, com a qual deveremos estabelecer um elo aqui, significa (...) a exposição da necessidade, para a filosofia, de partir do Faktum, isto é, dos fatos estruturadores da subjetividade e da objetividade na Erlebniswirklichkeit, no intuito de alcançar, através dela, a correlação normativa do sujeito filosófico e seu objeto, que para Hegel constitui uma identidade; e o caminho dado aqui, assim como seu alvo, mostra-se como condição imprescindível de um sistema filosófico rigorosamente fundado353. É principalmente nos manuscritos da segunda fase – mais exatamente, no capítulo intitulado A relação sujeito-objeto na estética – que este esforço teórico obtém toda a sua clareza, antecipando, em vários e decisivos momentos, as formulações tardias do filósofo marxista. Façamos um breve resumo.
Segundo o autor, o sujeito da atividade teórica é impessoal. Para conformar-se à estrutura lógica do objeto, para elevar-se ao plano da teoria pela enunciação ou ao reconhecimento de proposições válidas, o sujeito deve ser capaz de despojar-se de suas particularidades subjetivas. O objeto, aqui, é o momento predominante da relação. Mas isso não é tudo: a adequação do sujeito à impessoalidade teórica é um processo inconcluso de infinita aproximação. Trata-se, pois, de uma relação aberta (impessoal) e inacabada, onde a objetivação do sujeito representa apenas um conceito limite, inatingível. Não é casual, observa ainda Lukács, que a idéia de um cumprimento absoluto do conhecimento, como em
352 Ibid., p. 37. 353 Ibid., p. 38.
Aristóteles, empurre a teoria para o campo da ética e da religião. Já na esfera da ética pura, o sujeito é o único fator decisivo. Aqui a relação se dá entre a subjetividade empírica, na totalidade de suas inclinações naturais, e a subjetividade normativa que se impõe um dever. O objeto, neste caso, é o próprio sujeito. Não se trata, pois, de um objeto autônomo, delimitado, mas de um objeto a ser aniquilado pela realização da norma – o eu normativo subsume o “eu criatural”. Trata-se também de um processo aproximativo, sem realização final. Na verdade, a efetivação da norma começa sempre da capo a cada novo ato, de maneira que o sujeito jamais se torna substancial, isto é, “alma”. A estrutura desta esfera é, assim, “utópico-postulativa”. A “vontade sacra” é também apenas um conceito limite. Isto significa dizer que uma dupla negatividade afeta o campo da ética: por um lado, o sujeito nega-se enquanto criatura e, por outro, jamais alcança uma expressão positiva, real, de sua pessoa, contentando-se em mirar a si próprio no espelho ideal do dever354.
Somente no âmbito da estética, sujeito e objeto podem se colocar face a face, numa relação de simetria e equilíbrio perfeitos. Aqui, o objeto não está ausente, como na ética, nem se limita a figurar como um tecido inacabado de proposições lógicas, como na teoria. Por sua vez, a subjetividade a ele correspondente não se despersonaliza, sendo sempre uma subjetividade singular, plenificada na vivência de um cosmos significante. A relação que aqui se constitui é entre a vivência do sujeito e um objeto autônomo, concluso, “rigorosamente isolado”. A fenomenologia da subjetividade estética é descrita por Lukács como um “paradoxo”, já que através dela norma e vivência podem se tocar e ocupar o mesmo espaço simultaneamente, ou melhor, a norma e sua realização, sua materialização, coincidem. Esta realização da norma não é encarnação de uma verdade metafísica, mas sim a purificação da vivência através da forma. Nos termos do filósofo:
Com isso, esclarece-se (...) a singularidade e ao mesmo tempo o paradoxo do pôr estético: ele produz um Erleben normativo. Visto pelo lado da objetividade, isso significa que sua forma de validação é conexa à vivência, é o tornar-se-forma, o significado imanente da vivência. Em relação às outras esferas de valor, o elemento paradoxal emerge com grande evidência: a forma de validação significa sempre – seja a contemplação teórica, seja a atividade do agir normativo – um distanciamento de qualquer vivencialidade355.
354 Cf. Ibid., p. 91 et seq. 355 Ibid., p. 80.
Com esse paradoxo fenomenológico, uma espécie de sujeito-objeto idêntico, Lukács consignava sua originalidade, deixando cravada a pedra angular de sua estética tardia. De fato, no capítulo 7 da Estética, intitulado O caminho do sujeito ao espelhamento estético, ele volta a se referir aos “paradoxos”, mas desta vez com o intuito de refutá-los, tomando- os como uma mera aparência, por trás da qual veríamos surgir a imagem de “autênticas contradições”356. Ao se apoderar efetivamente de seu objeto, a racionalidade “dialética” desfaz “o estado de coisas paradoxal”357. A dissolução dos paradoxos, entretanto, não modifica o teor geral do problema. Em termos amplos, ele é descrito da seguinte forma: uma “contradição entre o ato antropomorfizador de criação e recepção da arte e a reivindicação incondicional de sua validade objetiva (objektive Geltung)”358.
Ou seja, a arte nasce de um ímpeto antropomorfizador, isto é, de uma subjetividade que não abdica de suas ligações com o plano da vivência sensível; no entanto, as representações que surgem desse movimento, em vez de distorcerem e obliterarem o ser- assim das coisas, num ato de violência subjetivista, dão provas de uma singular e vigorosa capacidade, por parte desta subjetividade, de penetração, apropriação e elaboração da matéria tomada. A subjetividade auto-referida da arte é ao mesmo tempo subjetividade referida ao mundo, elevação à objetividade e apreensão de suas formas e conteúdos. Subjetividade e objetividade formam, no interior da esfera artística, uma unidade peculiar rica em contradições que nada tem de irracional, sendo, antes, deriváveis da própria racionalidade do fenômeno estético.
356 LUKÁCS, 1981a, I, p. 502. Observe-se que, ao dirimir os “paradoxos”, descobrindo em seu lugar “autênticas contradições”, Lukács não está apenas jogando com as palavras. Por detrás dessa distinção terminológica há uma mudança de eixo filosófica muito específica: do irracionalismo de Kierkegaard à dialética hegeliano-marxiana. Com efeito, quando o jovem Lukács considera como paradoxo os fenômenos típicos da esfera estética, a influência de Kierkegaard se faz direta. Em Temor e tremor, ao analisar o relato bíblico sobre a história de Abraão e Isaac, a fé é apresentada como um paradoxo, ou seja, como um fato que, não obstante verdadeiro, é absurdo, inexplicável, pois “capaz de fazer de um crime um ato santo e agradável a Deus” (KIERKEGAARD, 1979, p.140). É pela superação da moralidade que o paradoxo se caracteriza em Kierkegaard, pois se a moralidade representa para o indivíduo sua dissolução no geral, a fé consiste, por seu lado, numa superação da moralidade, na medida em que eleva o indivíduo acima do geral, pondo-o numa relação “absoluta com o absoluto”(Cf. Ibid., pp.140-149). Para o jovem Lukács, como veremos mais adiante, esta elevação do indivíduo acima do geral, ou antes, essa coincidência entre o individual e o geral (o universal) é o paradoxo supremo, mas seu locus transcendental não é, como em Kierkegaard, a religião e sim a arte. A propósito da influência de Kierkegaard sobre o jovem Lukács, Cf. MACHADO, 2004.
357 Ibid., loc. cit. 358 Ibid., loc. cit.
Ao rever o problema da relação sujeito-objeto na estética tardia, Lukács enfrentaria um complexo de questões correlatas, quase todas também discutidas no passado. Destes, o que merece destaque, pela sua centralidade no assunto, é o da relação entre singular e universal. Para finalizar essas rápidas considerações sobre a fenomenologia no jovem Lukács, convém agora pontuar o problema da singularidade e, com ele, o do conteúdo do conceito de autonomia.