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Vale ressaltar, porém, que o apoio social é apenas um dos elementos que compõem as relações humanas, em parte constituídas de “esperas interessadas”, e em parte também de gratuidade e de espontaneidade. É a dinâmica das relações humanas que alicerça a estrutura das redes e das diferentes formas de apoio social. Desse modo, as redes sociais não podem ser isoladas do contexto que as faz emergir, tampouco da dinâmica das relações interpessoais, ou seja, da empatia, das relações afetivas, das relações de companheirismo, dos gestos gratuitos dificilmente quantificáveis (GERHARDT, 2009).

O apoio social pode ampliar a autonomia, responder aos fatores estressantes, lidar melhor com as adversidades, auxiliar no enfrentamento dos processos de saúde-doença, na busca do autocuidado, de ambientes saudáveis e de práticas de promoção da saúde. Tais relações podem ser desenvolvidas pela mobilização sistemática do conjunto de recursos emocionais, materiais e de informação provenientes de relações íntimas e familiares, ou até mesmo de grupos sociais maiores (fontes de apoio formal ou informal). Dessa forma, a prática do apoio social deve ser permeada por momentos de afeto, união, afinidade, empatia, diálogo, escuta, contato físico, calor humano, informação e respeito às diferenças. Todas essas relações são responsáveis pela formação de um vínculo entre os integrantes da rede que pode contribuir para a manutenção do bem-estar individual e coletivo, minimizar situações estressantes e, por conseguinte, melhorar a saúde e a qualidade de vida de seus membros.

O apoio social favorece a recuperação da pessoa doente na medida em que esta é capaz de entender o cuidado como acessível quando necessário; ou a faz acreditar que é aceita pelo grupo de relações ao qual pertence, realçando assim o papel que os indivíduos podem desempenhar na resolução de situações cotidianas em momentos de crise devido à sua função mediadora, que favorece a prevenção por meio da solidariedade e do auxílio mútuos, sobretudo nas situações de saúde-doença. Em contrapartida, a pobreza de relações sociais

constitui fator de risco à saúde comparável a outros que são comprovadamente nocivos, como o fumo, a pressão arterial elevada, a obesidade e a ausência de atividade física, que também acarretam implicações clínicas para a saúde individual e coletiva (SLUZKI, 1997; VALLA, 1999; ANDRADE e VAISTMAN, 2002; PESCE et al., 2004; ANTUNES; FONTAINE, 2005; ANDRADE et al., 2005; JUSSANI et al., 2007; SIQUEIRA; BETTS; DELL AGLIO, 2006; SCHWARZER; KNOLL, 2007; LEVER; MARTINEZ, 2007; MACIEL, 2010; PEREIRA, 2010; PRUITT; ZOELLNER, 2008; ZANINI; VEROLLA-MOURA; QUEIROZ, 2009; VIERA et al., 2010; GOMES, MERHY, 2011; STROZIER, 2012).

Apesar dos esforços realizados no Brasil nos últimos anos, buscando incorporar aspectos socioeconômicos e culturais aos estudos epidemiológicos, as dimensões relacionadas à rede de apoio social e saúde permanecem largamente inexploradas. Desse modo, o presente estudo empenhar-se-á em analisar a Rede de Apoio Social no autocuidado em saúde como parte dos Itinerários Terapêuticos, considerando também uma dimensão sócio-histórico- cultural, ausente em outras pesquisas.

Pelo seu aspecto material, simbólico e relacional (dos vínculos sociais interpessoais e institucionais), o conceito de território vai ao encontro da noção de redes sociais entendidas como “teias de relações e trocas de obrigações postas pela organização social e pela cultura, e não somente como elos entre indivíduos favorecidos pelos vínculos e ligações afetivas entre eles”. Nesse sentido, o território é visto como um suporte de redes, e estas podem se configurar como recursos de apoio social – material, cognitivo, afetivo e emocional – disponíveis ou mobilizados pelas pessoas em situações cotidianas, configurando-se de formas e feitios completamente diferentes, conforme o seu tempo, espaço e cultura (VALLA, 2000; BURSZTYN; RIBEIRO, 2005; JUSSANI et al., 2007; SHERMAN; KIM; TAYLOR, 2009; SIQUEIRA et al., 2009; MACIEL, 2010; CANESQUI; BARSAGLINI, 2012; PIGNATTI et

al., 2011).

O conceito de território passou por mudanças significativas até a contemporaneidade. Neste trabalho, optamos por adotar a perspectiva epistemológica, proposta por Milton Santos (2006, p. 22), isto é, não o território em si mesmo, que faz dele objeto de análise social, mas o

território “usado, experienciado pelo ator social, sem perder de vista sua historicidade” e que

se configura como espaço social, no qual os atores ocupam posições sociais como base de trabalho, de residência, de trocas materiais e espirituais e de vida, bem como no cotidiano

vivenciado (territorializado), na forma como acessam ou não esse território (a relação dos usuários com o serviço de saúde), suas dimensões, seu espaço cultural e simbólico.

Como as relações sociais não são estáticas, a conformação da rede pode ocorrer de formas distintas, de acordo com as necessidades do indivíduo em cada momento de sua vida.

Vale lembrar que condições de vida correspondem aos recursos à disposição das pessoas, às condições materiais necessárias à sua subsistência e que estão relacionadas a habitação, saneamento, condição do meio ambiente e produção (material). Por outro lado,

situações de vida remetem ao imaterial, contemplando as estratégias que as pessoas utilizam para adaptar-se ou modificar as condições de vida (GERHARDT, 2009). Podemos pensar que a situação de vida é modelada a partir da condição de vida, influenciada pelos diferentes níveis de mobilização de recursos pessoais e sociais.

A compreensão do ambiente (ou território) em que a pessoa vive, do papel dos atores sociais nesse meio e das concepções de saúde e doença torna-se fundamental para o exercício profissional e para a efetivação das políticas públicas de saúde. Tais concepções podem contribuir significativamente para explicar comportamentos individuais e coletivos, uma vez que as ações são baseadas no entendimento de determinadas situações sócio-históricas que são trazidas pela população quando do seu atendimento no serviço de saúde, incluindo as singularidades ou particularidades da sua rede de apoio social e que fazem parte do seu cotidiano, do seu itinerário de busca e cuidado.

Acreditamos que o papel do indivíduo frente às desigualdades sociais e de saúde não se dá passivamente; existem estratégias, muitas vezes desconhecidas pelos serviços de saúde, que motivam a busca de cuidados seja no estabelecimento de vínculo com as redes de apoio na comunidade, seja na mobilidade em busca de práticas terapêuticas e de serviços que satisfaçam suas necessidades de saúde. Nesse sentido, observa-se que a população vem desenvolvendo movimentos, muitas vezes imperceptíveis, que compreendem experiências construídas a partir de sua lógica de ação e que podem ser identificadas nas práticas de saúde. Se considerarmos que as necessidades de saúde são heterogêneas, as práticas empreendidas para satisfazê-las correspondem a diferentes estratégias, tais como a mobilização de recursos – por meio de apoio social – das práticas terapêuticas adotadas pelos grupos sociais estabelecidos nas relações de apoio, e que configuram as redes sociais, as quais definem

práticas de colaboração no enfrentamento de “situações de vida” cotidianas (RIQUINHO; GERHARDT, 2008).

A análise das práticas dos itinerários terapêuticos permite a compreensão do enfrentamento das questões de saúde e doença, as quais se moldam a partir do contexto em que as pessoas vivem, bem como dos aspectos históricos, sociais e culturais que organizam suas vidas, resultantes de um espaço de ação e interação social (GERHARDT, 2000).

3 AS PRÁTICAS DE CUIDADOS DA REDE DE APOIO SOCIAL NA “TRAMA” DOS

Benzer Belgeler