No âmbito da ação do Centro de Educação Profissional, participação e filantropia têm sentidos semelhantes, especialmente por ser filantrópico- educativa, como percebe F1:
[...] A educação tem o sentido de ampliar a participação em todos os ângulos. Acredito que pelo fato dela ser educativa, seria contraditório ter- se um sistema, um regime antidemocrático ou ditatorial, ou um sistema em que não dê liberdade para as pessoas. Então eu acredito que a filantropia tem muito a ver com ação participativa. (F1)
A percepção de F1 deixa claro que a missão da Organização filantrópica é unir educação e participação. Observe-se que F1 não afirma “sim” ou “não”, mas diz “acredito que”, ou seja, utiliza a lógica da Missão da Organização, o que seria sinônimo de dizer: se a Organização se propõe deve estar cumprindo. E o que diz o enunciado da Missão da Organização? Afirma:
Evangelizar as crianças, os adolescentes e os jovens economicamente desfavorecidos e portadores de deficiência, integrando-os à sociedade, através da formação profissional, humana e cristã, possibilitando o cultivo de valores e o desenvolvimento de suas potencialidades para crescerem como pessoas conscientes, responsáveis e solidárias. (RELATÓRIO ANUAL, 2006, p. 5)
O sentido dado pela Organização às palavras “valores”, “pessoas conscientes, responsáveis e solidárias” é explicitado no enunciado da Visão da Organização: “ser um agente de transformação, capaz de integrar as crianças, os adolescentes e os jovens economicamente desfavorecidos e/ou portadores de necessidades especiais, apostando nos mesmos como sujeitos da nova sociedade”. (CENTRO DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL, 2006, p. 5). Em outras palavras, a Organização aposta em uma sociedade nova e transformada cuja ação intermediadora para essa transformação é realizada pelos sujeitos que ali recebem formação, mas solidárias com outros sujeitos sociais que têm as mesmas metas.
Na percepção de F2, o objetivo da Organização filantrópica é desenvolver nos jovens do Centro de Educação Profissional uma formação integral, “[...] ou seja, além da parte técnica [forma] também a parte humana e a parte cidadã; e isso com certeza gera participação. Eu acredito que eles também possam participar dentro do nosso processo de educação, com algumas sugestões” (F2), o que é diferente de participar da caixinha de sugestões.
O depoimento de F2 demonstra uma análise do que é lógico quanto ao sentido da atividade da Organização filantrópica, que é o de ampliar o espaço de participação. Nesse momento, F2 não se posiciona a respeito de sua realização concreta ou não, o que ocorrerá posteriormente.
Na percepção de F1, os atendidos filantropicamente podem reivindicar seus direitos; e a organização não impõe, pois
a formação ideal é aquela na qual se tem a vez e a voz. E se a gestão não for participativa, ela não dá a oportunidade de se ter nem vez nem voz; são sistemas que caem de cima. Então, se se tem um sistema mais horizontal e de participação, isso tem influência sim, e torna ainda mais filantrópica a participação, porque a pessoa participa da sua própria ação formativa. (...) Acredito que a filantropia leva em consideração o direito de ser atendido, mas de uma forma participativa. Os atendidos podem muito bem reivindicar os seus direitos e serem atendidos nos seus direitos, de uma forma participativa naquilo que eles precisam. E não a organização impor aquilo que acredita ser de direito, aquilo que ela acredita que eles precisem. A Organização não impõe. (F1)
No entanto, no item 2.2.2, letra e) do questionário (Anexo), F1 opta pela resposta não, ou seja, não concorda que a comunicação existente na Organização “possibilita a prática da agilidade para a solução de problemas”, embora concorde que a comunicação oferece canais de consulta para que as reclamações sejam encaminhadas à Organização e que esta proporciona a convivência harmoniosa entre as manifestações pessoais dos atendidos e os aspectos normativos da organização.
Diante disso, sugere-se que a Organização, além de oferecer espaço para que os atendidos reivindiquem seus direitos de forma participativa, aperfeiçoe também a agilidade na solução dos problemas.
Cabe observar também que F1 concorda que os dirigentes consultam obrigatoriamente os demais, em algumas ocasiões, e que a decisão final pertence aos diretores (opção c), no entanto, contraditoriamente, concorda que os diretores se obrigam a justificar sua postura ao aceitar ou rejeitar as propostas elaboradas
pelos não-diretores (opção d), posicionamento também assumido por F2. Ambos os entrevistados concordam que aqueles que não pertencem à administração exercem função direta na eleição de um plano de ação (opção e). F2 não concorda com a afirmativa b), por esta afirmar que a consulta dos membros da Organização por parte dos dirigentes ocorre de modo facultativo ou depois que as decisões já foram tomadas. Mas tanto F1 e F2 concordam que na Organização há uma participação parcial das pessoas quanto à formulação das políticas internas atuais, bem como com o estabelecimento de objetivos e de metas, com a elaboração de planos e com as alocações de recursos.
Quanto às contradições das respostas dos entrevistados, lembra-se de uma observação significativa realizada por Bourdieu (2002, p. 55). Trata-se de uma cena apresentada num palco na qual participantes desenvolviam as mais diferentes estratégias para terem sucesso na luta simbólica, que no caso se referia
[...] à capacidade reconhecida de dizer a verdade a respeito do que está em jogo no debate; são expressões das relações de força objetivas entre os agentes envolvidos e, mais precisamente, entre os campos diferentes em que eles estão implicados (...). A interação é a resultante visível e puramente fenomênica da intersecção dos campos hierarquizados.
Da mesma forma, não se pode esquecer que muitas vezes os entrevistados preferem, diante do entrevistador ou do questionário, responder aquilo que não entre em dissonância com o que o público sabe positivamente e/ou publicamente de uma Organização. E isso faz parte de sua maneira de perceber os fatos, mas que em uma análise de mestrado não pode ficar despercebida.
F2 aponta também um diferencial na Organização filantrópica em relação às não-filantrópicas:
Eu penso que a nossa organização é diferente de um outro tipo de empresa que tem simplesmente o objetivo do lucro, o objetivo econômico. E existe toda uma outra preocupação pelo fato ser uma entidade filantrópica. Naturalmente que se visam os resultados econômicos para manutenção da atividade, mas existe uma preocupação com o ser humano que é hoje, vamos dizer assim, o diferencial de uma entidade de Terceiro Setor, que se propõe a trabalhar com pessoas. Por outro lado, é importante que essas pessoas também sejam agentes de transformação. (F2)
Em outras palavras, como refere o Planejamento Circunstancial para 2006a, da Organização, “o Centro objetiva proporcionar aos jovens e adolescentes condições favoráveis para exercerem sua cidadania [...]”. (CENTRO DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL, 2005, p. 6)
Então a Organização já teria atingindo totalmente a maturidade? Na percepção de F2, a maturidade ainda não é suficiente, pois
[...] como temos bastante colaboradores facilmente podem se infiltrar outras necessidades e talvez não se consiga realizar um trabalho efetivo em curto prazo. Mas eu penso que nós, enquanto entidade formativa que trabalha com essa clientela mais necessitada, devemos buscar em médio prazo e longo prazo, que tanto colaboradores, como educandos futuramente possam também expressar mais suas necessidades. (F2)
Lembra-se aqui que a maior expressão das necessidades ocorre pela maior participação, pois, como refere Pateman (1992, p. 75), “[...] O desenvolvimento de um senso de eficiência política parece depender do fato de sua situação de trabalho lhe proporcionar alguma perspectiva de participar das tomadas de decisões”.