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«CONTO DE UM SÁBADO DE ALELUIA»103

Uma sala onde funciona uma sessão de espiritismo em que tomam parte cinco personagens. Há muito que se descobrira, ao fundo da porta, ajudada por dois cães ovais de grandes proporções, a tarefa extraordinária de uma multiplicação sem fim através dos quartos da casa, de resto iluminadíssima. Ao fundo, uma cortina de pássaros azuis no sentido vertical reverberava luzes mecânicas, entre o rolar de dois seixos enormes. E, efectivamente, quando a porta se abriu, apareceu uma ravina profundíssima.

As encostas do abismo estavam cobertas de plantas gordas que deitavam uma aguadilha pegajosa onde se iam prender as moscas que saíam daquela casa. As flores de cada um tombaram no silêncio da noite catastrófica, esquecida para lá da cortina. Nada parecia extravasar daquela ausência de burburinho e os pingos de água, soltos como rimas do poema premeditado e sem origem, retiniam na planície, em baixo, vazia de outras imagens.

O primeiro espírita era um grande coxo de olhos fitos e sem pálpebras comendo permanentemente azeitonas e cuspindo os caroços para distâncias incalculáveis. Era de resto sujeito a vertigens e costumava aconchegar-se cuidadosamente aos muros para o seu acto habitual. O segundo era uma pulga-do-mar omnipotente e carnívora, que apreciava esconder- se numa nesga do retrato do dono da casa. Este, o mais velho, tinha cosido o braço direito na balbúrdia das dobras da túnica verde que usava para simplificar uma nudez exaustiva e porca. Havia também uma rapariga e um homem magro vestido de preto que passava as mãos sobre um osso muito branco e limpo colocado num estojo de veludo à sua frente.

1 dact.; s.d.; 1.ª publicação: CESARINY, Mário (org) (1989) Antologia do Cadáver Esquisito, Lisboa: Assírio & Alvim;

desconhece-se o paradeiro do exemplar original.

O texto conta com a colaboração de Alexandre O’Neill; Fernando de Azevedo, Mário Cesariny e António Pedro e consta da Antologia do Cadáver Esquisito cuja organização e recolha das experiências colectivas ao nível da escrita foi da responsabilidade de Mário Cesariny.

Para bem esclarecer o leitor das particularidades do projecto, com vista à elucidação do título bem como de alguma terminologia afim, Cesariny achou por bem aditar uma secção à Antologia, sintomática do poder subversivo do jogo linguístico, na qual apresenta um «Léxico», híbrido e provocatório, cujas fontes variam entre o saber instituído e convencional (Dicionário da Língua Portuguesa; Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa), os postulados estéticos do surrealismo (Dictionnaire Abrégé du Surréalisme) e a tradição oral da época (1926-1974):

«CADÁVER – Corpo sem vida, especialmente do ente racional.

ESQUISITO – Achado com dificuldade ou raramente. Precioso. Excelente. Primoroso.

CADÁVER ESQUISITO – Jogo de papel dobrado que consiste em fazer compor uma frase ou um desenho por várias pessoas, sem que nenhuma delas possa aperceber-se da colaboração ou colaborações precedentes. O exemplo, tornado clássico, que deu o nome ao jogo, está contido na primeira frase obtida deste modo: O cadáver-esquisito- beberá-o-vinho-novo.

HETERODOXO – O oposto aos princípios de uma religião. Diz-se dos botânicos que não tomaram a frutificação como base das suas classificações.

ORTODOXO – Conforme a doutrina definida.

PEVIDE – P.I.D.E. – Polícia de Investigação e Defesa do Estado (Estava sempre um ao lado a ler o jornal).»

À constituição do texto do Cadavre exquis subjaz, portanto, a uma técnica de colocação gratuita de frases cuja formulação decorre do fluxo automático, logo, instantâneo e inconsciente dos participantes, que devem preocupar-se apenas em respeitar a ordem gramatical e a pontuação do discurso. Assim, todas as aproximações linguísticas são possíveis e todas as analogias admitidas.

As cinco personagens não estiveram muito tempo naquela conjuntura sem que cada uma por si se recordasse da infância. A rapariga encaminhou-se para a porta, afastando os pássaros azuis da cortina com um passo cadenciado e sonolento. Na ravina, em baixo, dormiam duas mulheres atravessadas uma por cima da outra. Ao vê-las, escorregou nos caroços do coxo e foi estatelar os olhos no osso do coleccionador. Longa, laboriosa e secreta conversação se entabulou entre os dois.

Não era a primeira vez que, depois de inúmeros e esfalfantes apelos, os espíritos se recusavam a converter-se em imagens, seguindo-se então colóquios intermináveis, frases minúsculas e breves, entre os assistentes. Por exemplo, a pulga-do-mar carnívora e omnipotente já se havia instalado no capilo-mensor do dono da casa, esperando prudentemente que o fumo saísse do estranho maquinismo. Quem te avisa meu amigo é. O dono da casa, realmente, não podia permitir, por causa da moralidade, aquela visão cuidadosa. Assim, o primeiro personagem, ante a possibilidade de avaliar a sangue frio a trajectória do primeiro caroço, expelido pela manhã, volteou sobre si mesmo duas vezes e especou-se de olhos abertos.

A paisagem estendia-se sem interrupção até às ruínas do castelo do marquês de Sade. De casa a casa, do pátio misterioso e sem janelas fechadas ao histórico castelo, tudo era como se a distância não fosse. Estranhos cavalos-marinhos, com seios de mulher, impediam o acesso às ruínas, e então, Catarina, pegando no osso do coleccionador, arremessou-o naquela direcção.

Entre o dono da casa e a rapariga nada havia que os aproximasse, salvo um gesto dele, que a amedrontava sempre, gesto recôndito, premeditado desde a infância e sempre suspenso, em que desdobrava os dedos como numa panóplia.

Mas ninguém estava ali por acaso. Falhada a invocação de alguns espíritos de reconhecido interesse, quatro das personagens, seguindo o olhar espantado do coxo, tiveram que sair. E imediatamente, avançando com a irregularidade de um insecto, surgiu na paisagem, através de uma grande ponte em arco, um automóvel negro muito lento com o aspecto das bestas do dilúvio. Dele saíram, sucessivamente, uma tesoura branca, dois pares de formigas excessivamente ingénuas (a ponto de trazerem os laços debaixo do sovaco) e um cão que tinha de extraordinário a cabeça de um homem morto durante o Directório.

Eis que chegam os espíritos! - exclamou o dono da casa.

Na verdade, tratava-se apenas de polícia que a municipalidade enviara para arruinar o intento, aos naturais suspeito, daquelas reuniões sucessivas e prolongadas. Catarina lançou-se num vai e vem de corpo livre. O homem magro mostrou-lhe a meia balaustrada que trazia escondida e dobradinha em quatro voltas sobrepostas, depondo-lha aos pés. Com um acesso de despedida, ela içou-se sem esforço e, transformando-se em águia, voou para as ruínas ante o pasmo dos companheiros e da polícia. Quando regressou, trazia os seios apartados por um pedaço de lua e resplandecia da cintura para cima.

Não havia nada a fazer. Com terrível angústia, o cão de cara humana expressou-se nestes termos: senhores, eu nunca me teria aproximado desta casa pestífera, se não estivesse

há muito submerso na mais total vertigem. Não teria dito às minhas patas que avançassem, obedientes às provas de tontura em que a região é fértil, se esta vossa casa fantasmática não abrigasse nela a memória das noivas que eu possuí em jovem.

O choque foi tremendo. Nada do que podia suportar-se eterno e respeitável correu jamais o risco de uma desintoxicação tão completa. Ao contrário do cão, os agentes da autoridade usavam gestos expressivos de combate, e os espíritas, sedentos de outro mundo, nem cuidavam de arregaçar a sombra, na confusão do atropelo. Andava assim trocada a mancha de cada um. Só o coxo, impretérrito, cuspinhava caroços na confusão das imagens.

Quem vem lá?

No vale amedrontado as irmãs sobrepostas aceleraram o ritmo da respiração. E, como eco do seu alvoroço inconsciente, retiniam quase em surdina todos os instrumentos de tortura espalhados pelo campo.

Ouviu-se então, e sabe-se lá donde vinha, uma canção de embalar: dorme dorme meu menino

dorme no mar dos sargaços que mais vale o mar a pino

que as serpentes dos meus braços

E então a paisagem alongou-se extraordinariamente, enquanto os cavalos-marinhos acenavam com grandes lenços vermelhos.

Benzer Belgeler