Os dezessete anos que viveu pelas terras da Capitania da Bahia, o que o fez um grande negociante, como observamos nas cartas anexas a seu processo, levou-o a alçar voos mais ambiciosos para os sertões da Capitania de Pernambuco, o que acabou por levá-lo à vila do Icó, onde possuía alguns devedores. A vila do Icó foi criada em 1738 e tinha, dentre seus moradores, grandes proprietários de terras e gados. Talvez, por isso, naquelas terras decidisse ficar do ano de 1749, de onde foi, segundo o próprio Antônio Portugal, em busca de cobrar dívidas, e ficou até o ano de 1761, quando retornou a Portugal, cuja trajetória acompanhamos resumidamente no mapa subscrito:
Figura 1 – Mapa da trajetória de Antônio Correia Araújo Portugal na Colônia (1732-1760)
Fonte: Elaborado pelo autor.
É importante salientar que nem sempre o serviço de recobramento de débitos era uma tarefa fácil, já que não existia a prisão prevista pelas leis do reino para os devedores. Henry Koster (2003) conta um episódio nos anos de 1810 que ilustra esse fato, que descreve que
56 Um rapaz pouco antes da minha chegada, fora a uma distância de 30 léguas no interior, acompanhado por dois oficiais de justiça, para executar uma sentença sobre a propriedade de um devedor. Viajaram em bons cavalos, a fim de alcançar seu fim antes que tivessem conhecimento do seu desígnio e, consequentemente, tentassem contra suas vidas. É um serviço perigoso ir ao interior cobrar dívidas. As leis portuguesas não autorizam a prisão por dívidas, mas em virtude da sentença, pode-se apreender todas as mercadorias que o devedor enviar à vila para embarcar106.
Passado algum tempo, no ano de 1750, naquela vila de Icó, volta a ouvir notícias de Felipa. O portador da informação era um de seus cunhados, chamado Pedro Ribeiro da Silva Portilho, assistente na vila do Itapicuru, que mandou uma carta dizendo estar em seu poder a licença pedida à mulher para demorar mais três anos.
Contudo, havia uma condição para o envio da licença. Antônio Portugal devia mandar duzentos mil réis e uma negra107. Para que não houvesse nenhum problema, a resposta foi afirmativa. O envio seria feito. A partir daí, não teve mais resposta e nem notícias do cunhado, nem de Felipa108.
Somente no ano de 1753 é que ressurgem novas referências ao nome de Felipa com o recebimento de uma nova correspondência, destinada a Antônio Portugal, vinda de Itapicuru dando notícias da sua consorte. O remetente era seu irmão João Correia de Araújo Santiago. Ele também assistia na vila do Itapicuru e lá cuidava dos negócios do irmão entalhador. No conteúdo da carta, as linhas propalavam, segundo Antônio, a informação de que era morta sua mulher.
A notícia era importante para o português vindo da freguesia de Chorense, pois, naqueles tempos, estava vivendo em “trato ilícito” com Joana Rodrigues, quem conheceu na vila de Itapicuru. Viver ilicitamente na sociedade colonial, correspondia, na maioria das vezes, à prática do concubinato109. A concepção formada a partir de determinadas condições
numa época em que a rede marido-mulher, homem-concubina e senhor-escrava permeavam os respectivos contextos que acabavam por generalizar os conceitos.
O concubinato simples compreendia solteiros ou viúvos que viviam como marido e mulher, mesmo sem promessa de futuro casamento. Da mesma forma que ocorria na América hispânica, quer para fazer frente a necessidades materiais femininas, quer para concretizar uniões que contavam com desigualdades sócio-raciais ou com impedimentos canônicos, esse amancebamento era um comportamento muito
106 KOSTER, op. cit., p. 187-88.
107 ANTT, Inquisição de Lisboa, proc. nº 6269, f. 52 v. 108 Id.
109 Sobre o concubinato ver: ALGANTRI, Leila Mezan. Honradas e devotas: mulheres da Colônia – Condição
feminina nos conventos e recolhimentos do Sudeste do Brasil, 1750-1822. 2. ed. Rio de Janeiro: Olympio, 1999. TORRES-LONDOÑO, Fernando. A outra família: concubinato, igreja e escândalo na Colônia. São Paulo: Loyola, 1999. TEIXEIRA, Paulo Eduardo. O outro lado da família brasileira (1765-1850). São Paulo: Unicamp, 2004.
57 arraigado110.
Longe de pensar um comportamento sólido e coeso, os modos de agir dos homens e suas escolhas em relação a seguir uma relação baseada no matrimônio ou no concubinato poderiam ser diferentes, se considerarmos o cenário social que estava inserido. Havia um jogo de interesses na escolha por um ou por outro. De modo geral, a disposição de optar pelo concubinato ou casamento define, com precisão, a função do casamento e do concubinato na sociedade colonial, como expressa Brügger:
Casamento e concubinato parecem ter sido instituições que como, tais, tinham funções e objetivos próprios na sociedade. O casamento era acima de tudo, um arranjo familiar calcado em interesses de ordem socioeconômica e/ou política. Era, portanto, um projeto e uma escolha que visavam à satisfação da família. Já o concubinato, um projeto que abria espaço para a satisfação de interesses pessoais, inclusive os de cunho afetivo e sexual. É claro que se podem encontrar situações de relações não sancionadas pela Igreja, que de longe estavam preparadas a atender exclusivamente aos interesses pessoais, mas que também podiam satisfazer à unidade familiar como um todo111.
Além da confiabilidade em que a escrita de uma carta apresentava a veracidade da informação da morte da primeira mulher, também estava associada a quem transmitiu a notícia, no caso, o irmão João Correia de Araújo. Da primeira carta de 1753 não temos conhecimento se ela de fato existiu, visto não ter sido anexada ao processo de Antônio Portugal, mas apenas relatada por ele em depoimento. Sabemos, entretanto, que, em três de abril de 1759, João Correia de Araújo mandou, de Missão da Canabrava, na Bahia, uma correspondência ao seu irmão Antônio Portugal, expressando seus lamentos de ter este acreditado que era Felipa, a sua primeira mulher, a falecida, quando, na realidade, as informações dadas na carta referiam-se ao falecimento da esposa do remetente, ou seja, da esposa de João Correia de Araújo.
Cabe, então, perguntar: as enormes distâncias entre aquelas vilas poderiam provocar distorções nas informações obtidas por Antônio Portugal? Seriam as notícias verdadeiras ou frutos de especulações, burburinhos e fofocas no povoamento onde passou dezessete anos? A carta realmente disse sobre a morte ou era essa a notícia que o português gostaria que tivesse? A chegada de uma carta podia confirmar ou desmentir boatos ou até mesmo afirmar os desejos, mas acima de tudo demonstrava a supremacia da palavra escrita sobre a falada e a circulação de uma sociabilidade vivida, apresentada nas correspondências.
110 GOLDSCHMIDT, Eliana Maria Rea. Convivendo com o pecado na sociedade colonial paulista. São Paulo:
Annablume, 1998.
111 BRÜGGER, Silvia Maria Jardim. Minas patriarcal família e sociedade (São João Del Rei, Século XVIII e
58
Antônio Portugal aparentava ser um homem bastante fiel aos princípios da Igreja, como deveriam ser os moradores da América Portuguesa. Uma importante faceta dessa religiosidade apresenta-se com a notícia da morte da primeira mulher. Com a certeza de ser viúvo, ou na intenção de demonstrar ser, como primeira providência, vestiu-se de luto e pagou missas112.
O movimento dado por Antônio Portugal espelha o cuidado que os homens do período colonial tinham com o destino da sua alma e de seus parentes após a morte do corpo. Isso era um ritual necessário para apresentar as boas intenções de um cristão benevolente. No mundo setecentista, as almas que se desuniam do corpo pecador precisavam de orações para conseguir a passagem para o céu e não se tornarem almas penadas no purgatório113.
O pagamento de missas era uma providência sempre necessária, sendo a Igreja a mediadora da ligação, recebendo moedas temporais para orquestrar o ritual do bom encaminhamento da salvação da alma. José Carlos Reis (1991) apresenta essa tradição como parte dos hábitos que se encontrava com a doutrina católica, que “prescrevia o sacrifício da missa como recurso apropriado ao resgate das almas do purgatório”114.
Depois do tempo de luto, viúvo, ou achando ser, Antônio Portugal não tardou em casar de novo. Logo, se ajustou com Joana Rodrigues, moradora na vila do Icó, filha de Silvestre Rodrigues e de Isabel da Mata, já defuntos na época, naturais da vila do Itapicuru.
No entanto, a história do migrante português nas terras da América portuguesa mudariade rumo. Após viver quatro anos com a segunda mulher, recebeu umas cartas remetidas da Bahia de pessoas que conhecia lá, que consignavam ser a primeira mulher ainda viva. Não tardou muito para que o tribunal inquisitorial de Lisboa soubesse também da notícia. Consequentemente, em 1760, Antônio Portugal foi preso pelo Tribunal do Santo Ofício, retornando, assim, a sua terra natal. As informações sobre o resto da sua trajetória, o leitor poderá acompanhar mais adiante, no quinto capítulo, pois aqui faremos uma pausa para conhecer outras viagens e outros viajantes.
Para começar, partiremos para os sertões do Siará grande, à freguesia de Russas. Lá começaremos a história de outro português, que, como Antônio Portugal, seguiu para o Brasil em busca de novas oportunidades, uma nova vida, diferente da vivida primeiramente. O que ele fez, saberemos a seguir.
112 ANTT, Inquisição de Lisboa, proc. nº 6269, f. 53r.
113 Para saber mais ler: LE GOFF, Jacques. O Nascimento do Purgatório. São Paulo: Estampa, 1995.
114 REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo:
59