3.2. Nurettin Topçu’da İnanç Ve İman Temelinde İsyan Anlayışı
3.2.4. Hallâc’ın İsyanı, Mistiğin İyimserliği
Como o objetivo deste capítulo foi elaborar um balanço sobre a produção científica sobre o tema, algumas questões foram levantadas. Sem se prender à análise interna das obras constituintes das Fontes,236 procurou-se estabelecer, de uma forma confiável, o volume da produção, destacando, ao longo da periodização proposta,237 quais religiões mereceram maior atenção da comunidade científica, em fenômeno religioso, mas da re-elaboração, em solo nacional, de perspectivas em voga no exterior. Dito de outro modo, o termo paradigma aqui se refere à fundação, em solo nacional, de uma frente de pesquisa no interior, sobretudo, das ciências humanas. A frente de pesquisa, ao ser formada, passa a gozar do reconhecimento dos pares que a compõem (em geral de cientistas de disciplinas que passaram a se devotar à problemática). O reconhecimento dos pares, portanto, garante o estatuto de ciência às abordagens feitas sobre o novo objeto de estudo (religiões). Um dos corolários desse processo é a criação de novas disciplinas. Neste caso, o exemplo mais conhecido é a existência, em algumas universidades, da especialização “Ciência da Religião”, que forma pesquisadores em seus cursos de graduação e pós-graduação.
235 Roger Bastide, na introdução da obra “As religiões africanas no Brasil : contribuição a uma sociologia
das interpenetrações de civilizações. São Paulo : Pioneira, 1971. V.1”, faz um comentário crítico aos referenciais teóricos que balizaram os primeiros estudos sobre a religião no Brasil. Destacam-se, no tocante às contribuições brasileiras aos estudos sobre Religiões Afro-brasileiras, sobretudo pela posição de vanguarda que ocupam, o próprio Nina Rodrigues, Arthur Ramos, René Ribeiro, Manuel Querino, Edison Carneiro, Gonçalves Fernandes e Vicente C. A. Lima. Nas Fontes desta dissertação, pode-se acompanhar, ano a ano, as contribuições dos diversos autores, do início ao final do século XX.
236 A análise interna das Fontes, em extensão e profundidade, merece um ou mais projetos especificamente voltados para esse fim. Neste sentido, a presente organização histórica da produção científica, na forma de um balanço geral sobre as religiões estudadas no período, pode facilitar futuros interessados por uma análise interna das obras.
237 A periodização estabelecida inicia-se em 1900 (data da publicação, na forma de livro, da obra “O animismo fetichista dos negros baianos”, de Nina Rodrigues) e termina em 2000. A obra de Nina Rodrigues saiu antes, entre 1896 e 1897, na forma de artigos publicados na “Revista Brazileira”.
quais períodos e por quais razões. Em segundo lugar, no que se refere à produção científica no interior das instituições de pesquisa – as universidades, procurou-se determinar quais se sobressaíram em termos quantitativos, bem como se houve predileção, em seu interior, por algum grupo religioso em especial.
As Fontes foram levantadas a partir de catálogos físicos e eletrônicos de universidades públicas e particulares, sendo organizada sob os princípios da Bibliometria.238 O termo “Bibliometria” foi cunhado pela primeira por Paul Otlet, em 1934. Segundo o autor, “A Bibliometria será a parte definida da Bibliografia que se ocupa da medida ou da quantidade aplicada ao livro.”239 No entanto, o termo acabou sendo consagrado por Alan Pritchard, em 1969, designando “o ‘tratamento quantitativo das propriedades e comportamento dos textos registrados’”.240
Num universo composto por 574 obras produzidas com rigor científico, o seu estudo estatístico foi capaz de revelar as “frentes de pesquisa”241 formadas em torno do campo das religiões não Católicas. Tais frentes de pesquisa são reveladoras dos “lugares” da produção erudita voltada para a temática, sobretudo a partir dos anos setenta, quando se constituíram os primeiros programas de pós-graduação nas universidades.
Detectou-se, dessa forma, quais os grupos religiosos mereceram maior atenção dos pesquisadores, quais as instituições se envolveram com a temática, bem como as lacunas existentes no interior da produção geral.
238 Em “Ciência da informação”, periódico editado pelo IBICT, existem vários artigos sobre o conceito de Bibliometria, assim como sobre suas aplicações. Os artigos consultados e utilizados neste projeto encontram- se arrolados na “Bibliografia”.
239 Citado em FONSECA, Edson Nery (org.). Bibliometria : teoria e prática. São Paulo : Cultrix, 1986., p. 20.
240 Cf. RODRIGUES, Maria da Paz Lins. Citações nas dissertações de mestrado em ciência da
informação. Ciência da Informação, Rio de Janeiro, v.11, n.1, p. 35-45, 1982., p 36.
241 As frentes de pesquisa em questão foram divididas em quatro, a saber, “Religiões Evangélicas”, “Espiritismo Kardecista”, “Religiões Afro-brasileiras” e “Outras Religiões”. Trata-se de uma divisão arbitrária, cujo único propósito foi o de se desenhar o grau de envolvimento dos pesquisadores por cada grupo de religiões. Não é raro que pesquisadores se interessem por mais de um grupo religioso, como pode ser constatado analisando-se as Fontes.
A documentação constituinte das Fontes foi constituída de livros publicados e teses defendidas por estudiosos sobre a temática entre 1900 e 2000. Foram relacionadas 574 obras. Dessas, 288 são livros e 286 são teses (dissertações de mestrado, teses de doutorado e de livre docência).242
O levantamento bibliográfico inicial teve por objetivo determinar a documentação, ou o conjunto de obras a ser computada. Este procedimento resultou da necessidade de se delimitar o número de obras que compreenderiam a documentação básica a ser processada estatisticamente.
No caso de livros, foram incluídas no banco de dados as 1as.edições de cada obra.243 Não foram computadas as vezes em que ela teve novas edições. Desta forma facilitou-se o procedimento estatístico, uma vez que cada trabalho (livros e teses) recebeu um único número de registro.
A “moda” estatística teve três variáveis: 1) grupo religioso estudado; 2) data; e 3) instituição (no caso das teses). De acordo com as flutuações em que o “grupo religioso” se apresentou no interior da linha cronológica cobrindo toda a periodização, detectou-se quais grupos religiosos mereceram maior atenção e em quais épocas. No tocante às teses, o mesmo procedimento foi efetuado. No entanto, além dos fatores “data” e “grupo religioso”, determinou-se quais universidades mais se envolveram com tais estudos.
242 Não foram incluídos artigos de periódicos e “papers” de congressos pelas seguintes razões. Em primeiro lugar devido à “dispersão” que ocorre na produção científica em títulos de periódicos de disciplinas distintas. Além disso, o surgimento de periódicos especializados na temática é muito recente, assim como o de congressos, o que comprometeria metodologicamente as pesquisas. Por fim, considerou-se que os livros e as teses correspondem a uma base mais “sólida”, cujo rigor teórico e extensão das análises se ajustam mais aos objetivos deste trabalho.
Evolução da Produção Científica
Os números relativos à proporcionalidade entre cada religião estudada, entre os períodos e, por fim, entre as instituições científicas que se dedicaram a tais estudos revelaram algumas tendências:
Se considerarmos a produção no seu conjunto (livros e teses), notaremos que é a partir dos anos trinta que se acentua a preocupação relativa à temática, a qual permanece estável daí até o início dos anos setenta. Nessa década a produção é três vezes superior à década anterior. Na seguinte ela é quase duas vezes a dos anos setenta. Já nos anos noventa nota-se igualmente um crescimento significativo da produção, representando quase o dobro da década dos oitenta:
Gráfico 1: Crescimento da Produção Científica - século XX
0 50 100 150 200 250 300 1 Sem data 1900-1910 1930-1938 1941-1950 1951-1960 1961-1970 1971-1980 1981-1990 1991-2000
Das dezoito obras editadas nos anos trinta, doze são sobre Religiões Afro- brasileiras, sendo que no período que vai de 1900 a 1940 a produção concentra-se no Nordeste, com destaque para Salvador e Recife, em estudos efetuados sobre o Candomblé e o Xangô. Os trabalhos de Nina Rodrigues e de sua “escola” ocupam lugar de destaque pela precedência e pelas contribuições originais de seus “discípulos”, sobretudo os de Arthur Ramos.
Nos anos cinqüenta, entretanto, o Sudeste passa a contribuir, em pé de igualdade, com a produção antes eminentemente nordestina. Na década anterior Roger Bastide já havia publicado suas primeiras obras sobre a temática.
A partir dos anos sessenta o Sudeste passa a liderar a produção científica, sobretudo no eixo Rio-São Paulo. No entanto, é nos anos setenta que a produção aumenta significativamente de volume, sendo que as Religiões Evangélicas começam a se destacar em meio à produção geral, tendo sido objeto de oito estudos, o dobro de tudo o que fora produzido sobre elas até então.
Nos anos oitenta o crescimento da produção foi geral, crescimento não interrompido na última década do século. Nestas duas últimas décadas todos os quatro “grupos religiosos” referidos foram contemplados pelo incremento da produção científica:
Quadro 1: Distribuição da produção em livros e teses por datas em cada grupo religioso Religiões Evangélicas Espiritismo Kardecista Religiões Afro- brasileiras
Outras Religiões Diversas 1906: 1 1930: 1 1967-1970: 3 1972-1979: 8 1981-1990: 37 1991-2000: 88 Sem data: 1 1910: 1 1931: 1 1961: 1 1982-1990: 6 1991-2000: 17 Sem data: 10 1900: 1 1932-1938: 12 1941-1950: 12 1952-1960: 11 1961-1970: 18 1971-1980: 60 1981-1990: 89 1991-2000: 106 1967: 1 1974-1978: 4 1981-1990: 9 1991-2000: 35 1904: 1 1932-1938: 4 1949-1950: 2 1961-1970: 2 1973-1980: 2 1982-1990: 7 1991-2000: 23
O aumento significativo da produção científica a partir dos anos setenta coincide com a criação dos programas de pós-graduação nas universidades.244 A produção científica, fundamento da titulação em níveis de mestrado e doutorado, foi dinamizada desde então. Se nos anos sessenta as teses se limitam a 3, nos anos setenta, com a criação dos programas referidos, elas sobem a 29. Nessa década, das universidades que mais se dedicaram a pesquisas sobre religiosidade, a UMESP e a PUC-SP ainda não tinham contribuído com nenhuma tese. Nos anos oitenta, quando essas duas universidades passaram a contribuir com trabalhos a respeito, a produção geral de teses passou a 67, chegando a 184 nos anos noventa.
Dessa produção, correspondente ao conjunto das universidades brasileiras e estrangeiras, cinco delas se destacam. São elas, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP, a Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, a Universidade Metodista de São Paulo UMESP, a Universidade de Campinas UNICAMP e a Universidade de São Paulo USP, todas elas pertencentes ao eixo Rio-São Paulo. No quadro a seguir tem-se uma visão de conjunto da produção científica sobre a temática no interior das universidades.
Quadro 2: Distribuição da produção em teses por datas em cada grupo religioso
Religiões Evangélicas Espiritismo Kardecista Religiões Afro- brasileiras Outras Religiões Diversas 1967: 1 1972-1979: 7 1981-1990: 28 1991-2000: 80 1982: 1 1988: 1 1991-2000: 11 Sem Data: 3 1970: 1 1971-1980: 19 1981-1990: 29 1991-2000: 52 1967: 1 1974-1978: 3 1983-1990: 6 1991-2000: 25 1988: 1 1990: 1 1991-2000: 16
Total: 116 Total: 13 Total: 104 Total: 35 Total: 18
244 Cf. FICO, Carlos, POLITO, Ronald. A historiografia brasileira nos últimos 20 anos – tentativa de
avaliação crítica. In: MALERBA, Jurandir (org.). A velha história: teoria, método e historiografia. [S.l.]: Papirus, [s.d.]; e Dissertações e teses em sociologia na USP : 1945-1996. Revista Plural, São Paulo, n. especial, 1º semestre de 1997.
Por exemplo, percebe-se com clareza que o aumento da produção relativa às Religiões Evangélicas ocorreu basicamente a partir da esfera universitária, em particular da Universidade Metodista, com 90% de sua produção voltada para esse grupo religioso:
Quadro 3: Produção nas universidades por grupos religiosos
PUC/SP UFRJ UMESP UNICAMP USP Outras Total
P: 17 E: 5 A: 20 O: 6 D: 3 P: 11 E: 3 A: 23 O: 9: D: 4 P: 53 E: 1 A: 1 O: 2 D: 2 P: 9 E: 0 A: 7 O: 2 D: 4 P: 12 E: 4 A: 26 O: 6 D: 5 P: 14 E: 0 A: 27 O: 10 D: 0 P: 116 E: 13 A: 104 O: 35 D: 18 Total: 51 Total: 50 Total: 59 Total: 22 Total: 53 Total: 51 Total: 286
[Sendo P: Religiões Evangélicas; E: Espiritismo Kardecista; A: Religiões Afro-brasileiras; O: Outras Religiões; D: Diversas (mais de um grupo religioso estudado)]
Se, contudo, excetuarmos a Universidade Metodista, a produção universitária sobre Religiões Evangélicas cai de 116 para 62 obras, representando pouco mais da metade da produção universitária sobre Religiões Afro-brasileiras. Nestas condições, no cômputo geral elas representariam cerca de 28% da produção, ao passo que as Religiões Afro-brasileiras representariam cerca de 45%.
Como a produção universitária deu-se, sobretudo, nas 3 últimas décadas do século XX, explica-se o enorme crescimento geral da produção científica sobre o tema nessas décadas. Ou seja, acompanhando a crescente produção de teses, a produção científica em livros também cresceu significativamente:
Quadro 4: Distribuição da produção em livros por datas em cada grupo religioso Religiões Evangélicas Espiritismo Kardecista Religiões Afro- brasileiras
Outras Religiões Diversas 1906: 1 1930: 1 1967-1970: 2 1973: 1 1981-1990: 9 1994-2000: 8 Sem data: 1 1910: 1 1931: 1 1961: 1 1982-1985: 4 1991-1997: 6 Sem data: 7 1900: 1 1932-1938: 12 1941-1950: 12 1952-1960: 11 1961-1970: 17 1971-1980: 41 1981-1990: 60 1991-2000: 54 1977: 1 1981: 1 1984: 1 1990: 1 1992-2000: 10 1904: 1 1932-1938: 4 1949-1950: 2 1961-1970: 2 1973-1980: 2 1982-1987: 5 1991-1997: 7
Total: 22 Total: 14 Total: 215 Total: 14 Total: 23
A relativa estabilidade da produção geral de livros até os anos sessenta altera- se a partir dos anos setenta e, sobretudo nos anos oitenta e noventa, ocorre um crescimento significativo. De um total de 288 livros computados, cerca de 74% deles foram editados nas três últimas décadas. Os fatores responsáveis por esse incremento podem ser buscados no crescimento do mercado editorial e no interesse do público pela temática. No entanto, acima desses fatores, há que se considerar este aumento enquanto reflexo da enorme produção intelectual nos meios universitários. Muitos livros publicados o foram por pesquisadores pertencentes às instituições universitárias referidas e a outras (vide Fontes).
Na verdade, o grande aumento geral é devido, sobretudo, à crescente produção no interior das universidades, quando da criação dos programas de pós-graduação no início da década dos setenta e, mais tarde, de sua consolidação, nos anos oitenta. Por outro lado, a distribuição dessa produção por instituições (cf. Quadro 3) se explica pela organização mais ou menos antiga dos programas em cada universidade, bem como pela sua continuidade ou não desde a sua criação.
O crescimento da produção científica no interior das universidades pode ser analisado com base em três fatores que se complementam. O primeiro relaciona-se com a questão da tradição. As condições para novas pesquisas originam-se, neste
sentido, pela presença de um corpo docente composto por estudiosos do tema. Essa tradição, no Brasil, teve como precursores os cientistas interessados pelas Religiões Afro-brasileiras.
Por outro lado, o segundo fator relativo ao crescimento das pesquisas relaciona-se com a criação dos programas de pós-graduação nas universidades. Neste momento, a partir dos anos setenta, o crescimento da produção científica tornou-se expressivo, pois novos pesquisadores surgiram das bancas de mestrado e doutorado.
Quanto ao terceiro fator, coincidente com a formação dos programas de pós- graduação, ele se refere à disseminação de novas crenças religiosas, bem como ao crescimento do número de seus adeptos (destacando-se as Evangélicas), em detrimento do Catolicismo romano.245
Por essa última razão, o interesse pelo tema cresceu dentro e fora do âmbito acadêmico, fomentando, inclusive, a produção de livros sobre a temática, que passou a crescer paralelamente ao crescimento da produção universitária, como pode ser observado no quadro a seguir:
Quadro 5: Produção Comparada
LIVROS TESES Sem data: 8 1900-1910: 4 1930-1938: 18 1941-1950: 14 1951-1960: 11 1961-1970: 22 1971-1980: 45 1981-1990: 81 1991-2000: 85 Sem data: 3 ... ... ... ... 1967-1970: 3 1971-1980: 29 1981-1990: 67 1991-2000: 184 Total: 288 Total: 286
245 O êxodo rural e a conseqüente urbanização, principalmente do Sudeste que se industrializava, trouxe consigo mudanças sócio-culturais significativas. Dentre elas destaca-se a expansão de novas seitas religiosas Pentecostais, bem como de cultos Afro-brasileiros. Aliado a este fator, a disseminação de novos valores filosóficos e religiosos pela Contracultura tornaria ainda mais complexa a configuração religiosa brasileira a
Ou seja, a cada ano os programas de pós-graduação formam novos pesquisadores interessados pela temática. Além disso, as condições sociais, culturais e políticas ensejam a proliferação de novas religiões e filosofias religiosas, com a conseqüente migração de adeptos de religiões mais antigas para outras, mais novas.
Em função, pois, de tais condições, é de se supor que a produção acadêmica, de livros científicos e de obras de divulgação está longe de ser interrompida. Pelo contrário, como se percebe pela evolução dessa produção nas três últimas décadas, a tendência geral é de crescimento.
No entanto, num universo composto por 574 obras246 ao longo de todo o período, a produção científica não se distribuiu uniformemente entre todos os grupos religiosos. Desse total, foram escritas 138 obras sobre Religiões Evangélicas, 27 obras sobre Espiritismo Kardecista, 319 obras sobre Religiões Afro-brasileiras, 49 obras sobre Outras Religiões e 41 obras sobre mais de um grupo religioso ao mesmo tempo.
Nota-se a expressiva preponderância para os estudos relacionados às Religiões Afro-brasileiras, cujo total corresponde a mais da metade da produção total sobre a temática, seguida pelos estudos sobre as Religiões Evangélicas (cf Quadro 1).
A seguir serão aventadas algumas hipóteses para se explicar a predominância de estudos de alguns grupos em detrimento de outros.
Religiões Afro-brasileiras
partir dos anos setenta. O crescimento dos estudos sobre tais religiões, portanto, está diretamente relacionado com os estudos sobre as transformações operadas na sociedade como um todo.
A predominância dos estudos sobre as Religiões Afro-brasileiras não se explica pelo número de seus adeptos,247 cujo montante foi sempre muito pequeno, de acordo com o Anuário Estatístico do IBGE. É claro que, por se tratar de religiões com fundo mágico, uma grande quantidade de adeptos de outros credos, principalmente o Católico, eventualmente passa pelas mãos dos seus sacerdotes, nos quais busca conselhos oraculares ou a solução de problemas através de passes, na Umbanda, ou do ebó, no Candomblé. No entanto, outras razões podem ser aventadas para se explicar a predominância de tais estudos.
A primeira delas refere-se à tradição de estudos iniciada no início do século XX, no interior da qual formaram-se e formam-se pesquisadores interessados pelo tema. Ou seja, devido à sua precedência, a frente de pesquisa orientada para o estudo das Religiões Afro-brasileiras ocupa uma posição privilegiada no interior das instituições de pesquisa, corroborando as perspectivas aventadas por Pierre Bourdieu e De Certeau248 sobre a questão do “lugar” enquanto determinante fundamental na consecução de projetos.
Por outro lado, a precedência dos estudos sobre as Religiões Afro-brasileiras, bem como a tradição de estudos decorrente, devem-se às peculiaridades de tais religiões. São religiões que, mais que quaisquer outras existentes no Brasil, surgiram do entrecruzamento racial e cultural de povos distintos, espelhando em seu interior questões relativas à identidade nacional brasileira.
A questão racial, a princípio sob a perspectiva “social-darwinista” de um Nina Rodrigues, p.e., e mais tarde sob a perspectiva da afirmação do negro na sociedade brasileira, balizou boa parte da produção científica. Por outro lado, tendo sido, pelo menos nas primeiras décadas do século XX, estigmatizadas pelo seu conteúdo mágico, atraíram pesquisadores interessados em debelar os preconceitos a seu respeito. Neste sentido ainda, por serem religiões que contam com uma grande parcela de seus adeptos constituída por pessoas de baixa renda, as questões sociais
247 1,3% da população brasileira nos anos noventa. Cf. PIERUCCI, Antônio Flavio ; PRANDI, Reginaldo. A
refletidas no interior de suas práticas tornaram-nas, mais uma vez, portadoras de um conteúdo singular para estudos sob as mais diversas perspectivas sociológicas.
Além de todas essas razões, contudo, há uma que as precede e determina. Trata-se do conteúdo simbólico e pragmático de tais religiões, cuja riqueza inspira os cientistas a empreenderem pesquisas sob os mais diversos enfoques. Pesquisas que se avolumam ano a ano sem, todavia, esgotarem o manancial de “problemas” que surgem à medida que os terreiros se multiplicam, muitos dos quais incorporando novas modalidades de acesso ao sagrado. À Umbanda que, desde os anos 30, integra concepções Afro-brasileiras e Kardecistas, sucedem-se movimentos no sentido inverso, de africanização dos rituais.
Tratam-se, pois, de religiões cuja vitalidade e dinamismo ainda não foram controlados no interior de dogmas que se instalam, geralmente, pela codificação escrita de seus credos e práticas, bem como pela sua institucionalização e hierarquização. A transmissão do conhecimento sagrado, no interior das Religiões Afro-brasileiras, está longe de perder seu caráter oral, sendo religiões eminentemente iniciáticas.
Eis por que, a cada ano, surgem diversos estudos sobre a mitologia dos orixás, o sacerdócio, o transe, a organização dos terreiros etc., tudo enriquecido por novíssimas pesquisas etnográficas, antropológicas, psicológicas, históricas e sociais.
Em suma, as Religiões Afro-brasileiras, por suas características distintivas, possibilitaram e ainda possibilitam estudos sob os mais variados enfoques, sejam eles culturais, étnico-raciais, sociais, da identidade nacional ou outros. A partir dessas possibilidades, nasceu e se consolidou uma frente de pesquisa que se estabeleceu, a princípio, no Nordeste, espalhando-se em seguida pelo resto do país.
Atualmente tal frente, concentrada em universidades que contam com uma forte tradição de pesquisa, principalmente no Sudeste, se encontra em congressos e