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Em 11 de março de 1725 foi instituída através do Conselho Ultramarino a Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, instalada em 13 de abril de 1726 pelo Capitão-Mor Manuel Francês, segunda vila criada no Ceará, posterior à de Aquiraz que foi estabelecida em 1700. Ao processo de criação dessas duas vilas no litoral cearense, vinculam-se articulações, vínculos e tensões entre proprietários locais e agentes metropolitanos sendo possível apontar a hipótese de que a escolha da aglomeração urbana litorânea de Fortaleza para ser a sede da Capitania, vinculou-se dentre outros fatores, à busca de autonomia das autoridades metropolitanas diante das pressões sociais dos proprietários com base local de poder, radicados prioritariamente nos sertões, mas também, em menor número, em Aquiraz.69 Lemenhe (1991, p. 78) defende essa interpretação, afirmando que as “vilas criadas pela administração portuguesa no período colonial com seus corpos burocráticos e militares tinham como função assegurar a dominação metropolitana”. Ao mesmo tempo, e de forma ambígua, a constituição da estrutura de poder das vilas adquire o sentido de legitimar o exercício do poder pelos proprietários locais, viabilizando a instituição de uma ordem social, que subordina e controla os segmentos não proprietários da população local e reproduzindo os processos de produção, distribuição, comercialização e arrecadação (Lemenhe, 1991, p. 41).

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No decorrer dos séculos seguintes, após a Independência e até os anos 1930, essas articulações, vínculos e tensões englobariam prioritariamente as oligarquias estaduais e regionais, as autoridades imperiais e os proprietários com base local de poder.

A passagem para a condição de Vila estabeleceu uma autonomia político- administrativa de Fortaleza, evidenciada através da implantação da Casa de Câmara, da Cadeia e do Pelourinho – símbolos do poder no Brasil colônia (Moura Filha, 2000, p.37). A emancipação de Pernambuco, em 1799, assim como o desenvolvimento da agricultura, principalmente da cultura do algodão, impulsionaram a expansão urbana de Fortaleza e, no decorrer do século XIX, a pequena Vila iria superar os demais núcleos urbanos cearenses em importância territorial. Lemenhe (1991, p. 50) avalia que o período entre 1790 e 1820 foi central para a criação de condições econômicas e administrativas que permitiriam à Vila de Fortaleza, através de um longo processo, romper com a hegemonia de Aracati – principal vila cearense à época –, e afirmar a sua própria hegemonia.

Neste sentido, a criação e acesso a cargos, órgãos e espaços institucionais como os de sede da capitania e da ouvidoria, capitães-mores, câmaras municipais, pelourinho, dentre outros, expressa reconstituições nas hierarquias sociais e nas correlações de força, evidenciando processos e dinâmicas decisórios, relacionados, por exemplo, à concessão de sesmarias, julgamento e mediação de conflitos sociais, atribuição de postos e cargos, legislação sobre as práticas sociais, normatização da produção e do comércio, efetivação da arrecadação fiscal e regulamentação do acesso à força de trabalho indígena, dentre outras questões.70 A vila é atravessada por instituições, relações e marcos simbólicos que efetivam, reproduzem e legitimam o poder metropolitano e dos segmentos sociais proprietários e a subordinação dos grupos e classes não proprietários.

A emancipação de Pernambuco foi essencial para a nucleação e expansão urbana e para o fortalecimento territorial de Fortaleza, destacando-se os aspectos de centralização da intermediação comercial e de arrecadação fiscal. Neste sentido, Lemenhe (1991, p. 62) indica: Desde o início das transações diretas com Lisboa, por volta de 1803, a administração da Capitania dota a vila de infra-estrutura para as transações mercantis: são feitos estudos do porto e construção de mole. Para controlar o movimento das mercadorias instala-se alfândega e cuida-se do Prédio da Tesouraria da Fazenda. No que se refere às transações internas, constrói-se mercado público e regula-se a realização de feiras semanais. Inaugura-se na vila uma repartição de correios, agregada à Tesouraria da Fazenda, possibilitando, com os limitados recursos da época, ligar a vila-capital com outras vilas e as unidades de produção

Enquanto capital estadual, o crescimento e a consolidação urbana de Fortaleza articulam-se ao seu papel de intermediação e apropriação dos excedentes econômicos e de

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Em relação às tensões, conflitos e disputas de poder no território cearense, entre os séculos XVII e XVIII, vide Lemenhe (1991).

controle da ordem social e política (Lemenhe, 1991). Essa centralização vincula-se ao fato de que Fortaleza, na segunda metade do século XIX, assume algumas funções importantes, tais como as de centro político-administrativo da província, lugar onde ocorre a dinâmica científica e cultural, centro comercial-financeiro e de exportação e importação, lugar de centralização do processo de reprodução do capital e de apropriação privada. Essas tendências exacerbam-se no decorrer do século XX e no início do século XXI, evidenciadas na enorme concentração populacional e centralização econômica capitaneada por Fortaleza e com influência em todo o estado. Apesar disto, há algumas tendências de descentralização econômica e político-administrativa, vinculadas principalmente à região norte e à região sul/cariri no interior do estado do Ceará.

Pinheiro (2002, p. 43) indica como a transformação do núcleo urbano em Vila constituiu uma nova estrutura de poder, estabelecendo uma divisão de funções e de poderes entre o governador e a câmara municipal, evidenciando tensões, conflitos e negociações entre o poder central e o poder local, envolvendo a Metrópole e posteriormente o Império, as oligarquias regionais e os proprietários com base local de poder. Dentre as atribuições do governador destaque-se a organização militar, inspecionar as câmaras e justiças territoriais no cumprimento de suas obrigações e sem intervir nas suas decisões, prover interinamente os ofícios de justiça e os postos de ordenanças e, principalmente, a distribuir terras através das cartas de sesmarias. Dentre as atribuições das Câmaras, destaque-se a realização das obras públicas (caminhos, pontes, chafarizes, calçadas, etc.), o controle do abastecimento e a delimitação das taxas públicas, realizados através das posturas – normatizações universais que definiam elementos centrais à estruturação e organização urbana. Pinheiro (2002, p. 45) enfatiza o enfrentamento das questões urbanísticas como função das câmaras municipais. Apesar das mudanças que a Câmara Municipal vivenciou, permanece a importância dessa instituição no campo do planejamento urbano, posto que já nos séculos XIX e XX a sua presença era recorrente nos processos de elaboração e aprovação das cartografias e das legislações urbanas do período.

Um elemento importante que compõe a gênese e estruturação territorial que constitui a cidade de Fortaleza vincula-se à emergência das instituições capitalistas – propriedade privada, mercado e capital –, nos processos de produção social do espaço urbano. Neste sentido, Pinheiro (2002) indica como entre 1679 e 1824 foram distribuídas no território cearense 2.378 sesmarias para agricultura e/ou pecuária, evidenciando o processo de apropriação privada da terra pelos europeus e seus descendentes, em confronto com os povos

indígenas nativos. Associado a isto configura-se e reproduz-se um processo de constituição da propriedade privada da terra urbana através da cessão estatal de grandes extensões territoriais a entidades e indivíduos/famílias específicas, inclusa a legitimação jurídica dessa situação e abrindo espaço para um mercado fundiário privado. Nesse processo, a criação das aldeias indígenas pelos missionários, para as quais o governo de Portugal doava uma légua em quadro, também cumpriu um papel importante. Essas determinações se fizeram sentir na gênese estrutural do território e na evolução urbana de Fortaleza, como indica Fuck Jr. (2004), referindo-se ao papel dos aldeamentos indígenas e das grandes propriedades fundiárias na produção social do espaço em Fortaleza.

Outro processo importante que interferiu na constituição de um campo do planejamento urbano na cidade foi o da emergência dos técnicos e o do fortalecimento das normas urbanísticas, porém sem uma correspondente constituição de uma sistema político- técnico de planejamento. Esse processo atravessa os séculos XIX e XX. Na Vila de Fortaleza, a partir de 1800 um arruador – um arquiteto leigo – detinha a função de organizar o traçado das ruas, evidenciando a presença originária do que podemos caracterizar como especialistas ou técnicos participantes de um campo em formação.

Em si, o termo Plano Diretor não é uma inovação no planejamento urbano no Brasil, sendo usado desde o século XIX, inclusive na cidade de Fortaleza. Porém, até os anos 1930 e 1940, o que era chamado de Plano Diretor correspondia a peças cartográficas que definiam a estrutura e a expansão urbana de cada cidade. Portanto, somente faz sentido falar em Plano Diretor na perspectiva atual, a partir dos anos 1930, com a sua gênese associada à constituição do Estado interventor. De forma mais ampla, em Fortaleza podem ser listados os seguintes “planos diretores”: a) Silva Paulet em 1818; b) Manuel Riego Medeiros em 1856; c) Adolfo Herbster em 1859, 1875 e 1888; d) Nestor Figueiredo em 1933; e) Saboya Ribeiro em 1947; f) Hélio Modesto em 1962/1963; g) o Plano Diretor de 1979; e h) o Plano Diretor de 1992. O século XXI assiste ao nascimento de um novo Plano Diretor, aprovado em dezembro de 2008, ao final da primeira gestão Luizianne Lins (2005-2008).

As primeiras iniciativas de estruturação e de organização urbana de Fortaleza se articulam à presença de técnicos ou especialistas de origem militar ou religiosa. Em um primeiro momento, a Igreja Católica e as Forças Armadas geram os especialistas/técnicos que produzem os documentos, os dados e as análises que compõem a legislação e os conteúdos das intervenções urbanas do período. Para exemplificar, basta fazer referência à Planta da Vila, elaborada por Antônio da Silva Paulet, militar, em 1818, e à planta organizada pelo

padre Manuel Riego Medeiros em 1856. A "Planta da Villa" do engenheiro Silva Paulet, contratado pela Câmara Municipal, instituiu o desenho espacial do traçado xadrez, que conformaria a matriz territorial básica de expansão urbana da cidade. Já alguns anos antes:

Quando aqui chegaram em 1812, o Governador e Coronel Manuel Inácio de Sampaio e seu ajudante de ordens, o tenente-coronel, Engenheiro Antônio José da Silva Paulet, suas primeiras intenções voltaram-se para reconstituir a velha fortaleza no monte à margem esquerda do Rio Pajeú, o Forte Schoonenborch, construído pelo holandês Matias Beck, que deu lugar a sucessivas fortificações.

Em 1835, a Câmara de Fortaleza aprovou “o primeiro Código de Posturas da cidade, disciplinando o alinhamento e limpeza das ruas, a construção e conservação das casas e o comportamento dos moradores” (Souza, 2005, p. 57). Posteriormente, alterações foram feitas a este Código, através de leis complementares e novos códigos de postura foram aprovados em 1865, 1870 e 1879. Em 1856 realiza-se um levantamento cadastral da cidade, resultando na planta organizada pelo padre Manuel Riego Medeiros.71 A partir do final dos anos 1850 e durante as décadas seguintes, até os anos 1880, algumas mudanças indicam que a perspectiva modernizadora inscrita na cidade, inclusive em articulação com processos de industrialização e de modernização cultural, deslocou as forças armadas e a Igreja como instituições essenciais ao campo. A partir deste período, já se percebe a formação acadêmica civil, no Plano Diretor de Adolfo Herbster, na verdade três plantas datadas de 1859, 1875 e 1888. Entre 1843 e 1859, sob a presidência na Câmara Municipal de Antônio Rodrigues Ferreira –o Boticário Ferreira – , as diretrizes indicadas por Silva Paulet foram parcialmente executadas, inclusas a abertura de ruas, a demolição do Beco do Cotovelo e também de casebres e vielas, e o aformoseamento das praças mais importantes na cidade. Costa (2004, p. 63) avalia que:

Por meio de códigos de posturas disciplinava-se o crescimento da cidade e o comportamento dos habitantes e definiam-se normas de construção. Com base nos tratados de higiene pública aterravam-se alagados e pântanos, calçavam-se ruas, construíam-se cemitérios, jardins, lazaretos, escolas e quartéis. As edificações insalubres – hospital, cadeia, cemitério – eram localizadas a sotavento do centro da cidade. Essas normas, calcadas no discurso médico, interferiram decisivamente na forma da expansão urbana de Fortaleza.

Adolfo Herbster em 1859 elaborou a “Planta Exata da capital do Ceará”, efetuando o levantamento das vias de acesso à cidade, da denominação dos Logradouros públicos (as Ruas

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Nesse levantamento se constata que a área urbana vai pouco além dos limites: Oeste, Rua 24 de Maio (Rua da Lagoinha); Sul, Rua Clarindo de Queiroz até a Rua Barão do Rio Branco (Rua Formosa) e da Pedro Pereira até a Cidade da Criança (Largo do Garrote); Leste, ao longo da margem esquerda do riacho Pajeú; e uma já mais acentuada expansão entre a Avenida Pessoa Anta (Rua do Chafariz) e a Praia

de sentido Leste-Oeste são chamadas travessas) e registrando os equipamentos urbanos públicos e privados existentes.72 Essa planta indicou vetores de expansão urbana para oeste e para o sul, com a resultante se dirigindo para o sudoeste. Na Planta de 1875, caracterizada como um plano de expansão urbana, Herbster introduziu um conjunto de avenidas circundando o espaço urbano efetivamente habitado.73

Na constituição de um urbanismo na cidade de Fortaleza, também adquiriu importância o higienismo e a intervenção dos profissionais de saúde. Ao final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, através de um conjunto de intelectuais74, o higienismo foi bastante influente em Fortaleza (CE), fundamentando e legitimando intervenções urbanas na cidade:

Fundamentados naquelas teorias, esses profissionais propuseram um projeto de higienização física e moral da cidade, capaz de contribuir também para o disciplinamento do espaço urbano. A análise dos códigos de posturas, dos relatórios dos inspetores de higiene pública e dos governantes revela a real influência do discurso médico na administração de Fortaleza (Costa, 2004, p. 61).

Percebe-se que, no período entre a segunda metade do século XIX e os anos 1920, deslocando-se e articulando-se entre o simbólico e o funcional, as intervenções urbanísticas impactaram a recriação das distinções e estratificações classistas na cidade de Fortaleza. Desta forma, a ordenação urbana modernista se inscreveu em um processo mais global de constituição das classes sociais, de gênese e evolução de segmentos e grupos sociais que se definiam e se representavam enquanto elites, distinguindo-se dos segmentos populares através de padrões, valores, gostos, posses e propriedades singulares. O pertencimento às elites vinculou-se de forma crescente ao estabelecimento de hierarquias e distinções sociais, materiais e estéticas, que reproduziam as estratificações sociais também através da construção física e imaginária das cidades, inscrevendo a arquitetura e o urbanismo nos conflitos e nas lutas sociais em situação.

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Esse levantamento constatou que o arruamento efetivamente implantado até então se limitava, aproximadamente, pelas Ruas Senador Pompeu (Rua Amélia), Liberato Barroso, e persistindo a Leste, a barreira exercida pelo Riacho Pajeú.

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As Avenidas do Imperador (Bulevar do Imperador), Duque de Caxias e Dom Manuel (Bulevar da Consolação); também foi proposto e implantado o Bulevar do Jacarecanga, composto por dois trechos de vias: Avenida Padre Ibiapina e Avenida Filomeno Gomes, conectadas pela Praça Gustavo Barroso (Praça Fernandes Vieira). Nos arredores da Praça e ao longo da Avenida Filomeno Gomes, surgiu, algum tempo depois, uma zona residencial de alto padrão, deslocando do Centro as moradias da classe social mais elevada.

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Destaquem-se o médico e historiador Barão de Studart, autor de Geografia do Ceará (1924) e de Climatologia, Epidemias e Endemias do Ceará, (1909), e o farmacêutico baiano Rodolfo Teófilo, que escreveu A fome (1890), História das secas do Ceará 1877-1880 (1883) e Seccas no Ceará (1901) (Costa, 2002, p. 03; 07).