5. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA
5.1. Halka Çekme Deneyi
As primeiras contribuições de Bori apontadas pelos entrevistados foram realizadas no início da década de 1950. Ela havia acabado de concluir o curso de mestrado na Graduate Faculty for Social Research, onde estudou sob orientação de Tamara Dembo, e estava lecionando a disciplina “Psicologia Experimental” para alunos de graduação em filosofia da Universidade de São Paulo. Esta era a mesma instituição em que Annita Cabral havia estudado durante o seu curso de doutorado tendo Max Wertheimer como professor.
Na época, não havia cursos de graduação em psicologia no Brasil e existiam duas cadeiras de psicologia na Universidade: uma delas era Psicologia Educacional e estava sob regência de Noemy da Silveira Rudolfer25; a outra era Psicologia, “mais geral”, afirma Walter Hugo da Cunha, que estava sob regência de Annita Cabral e era a cadeira para a qual Carolina Martuscelli (na época) havia sido contratada para dar Psicologia Experimental. Alguns dos depoentes foram alunos nessa época e afirmaram que, nas aulas, os alunos eram levados a fazer experimentos clássicos da Psicologia da Gestalt, adaptados para as condições que a universidade tinha na época. Isaias Pessotti foi aluno nesta época e falou sobre as aulas dela:
como gestaltista, ela conhecia os experimentos do Köhler26, da Gestalt, com macacos que pegavam a banana com pedaço de pau. Eu me lembro de um experimento do qual eu fui sujeito. Ela pegou as carteiras pesadas (...) formou um círculo na sala, na Maria Antonia e pôs lá um livro e disse: “Você agora precisa alcançar aquilo lá”. Eu falei: “Posso pular as cadeiras?” “Não”. Ela tinha explicado o tal insight do Köhler, que, num certo momento o macaco percebe que o pau serve para alcançar a banana. Num certo momento eu falei: “Mas eu não posso pular?” “Não” “Posso usar o que tiver na sala?” “Pode”. Então, peguei uma cadeira, empurrei, empurrei, empurrei, empurrei até o livro ser empurrado até o outro lado, dei a volta e peguei o livro. Pronto, tinha comprovado o principio do insight. Era assim que ela ensinava experimentação.
Outro aluno de Bori no começo da década de 1950 foi Walter Hugo da Cunha que descreveu seu interesse nas aulas que assistia da seguinte maneira: “Eu gostei muito do curso da Carolina porque ela me mostrou que era possível fazer observação e fazer experimentação com a psicologia. Eu só conhecia a psicologia de falação, teórica, de filósofos, de reflexão”.
Além das aulas de Psicologia Experimental, a partir de 1956, Bori integrou o CBPE. Neste centro, realizou várias pesquisas como psicóloga social e aplicou testes de personalidade em indivíduos de diferentes grupos. Alguns dos depoentes tiveram contatos com ela neste período e avaliaram a atuação que ela teve. Maria do Carmo Guedes, por exemplo, foi aluna de Bori na década de 1950 e disse que “ela era conhecida como psicologia social. As disciplinas que eu fiz eram em psicologia social e experimental. Então, a social da Carolina, voltada para educação. É assim que eu conheço Carolina Bori”. Isaias Pessotti também descreve este momento da vida de Bori:
25
Noemy da Silveira Rudolfer (1902 – 1980) foi responsável pela cadeira de Psicologia Educacional após a incorporação do Instituto de Educação à Faculdade de Filosofia. Em 1936 defende sua tese de cátedra, A
evolução da psicologia educacional através de um histórico da psicologia moderna.
26
Wolfgang Köhler (1887 – 1967) foi um dos principais teóricos da Psicologia de Gestalt. Publicou, em 1917, um livro chamado The Mentality of Apes, discutindo como macacos poderiam resolver problemas a partir de
E ela tinha muita ligação com Psicologia Social. Com pesquisas sociais, não Psicologia Social. Pesquisa sociológica. Era muito ligada ao professor Hutchinson, um filão do período em que ela se dedicou muito a isso e ai ela ficou muito ligada ao Octavio Ianni e a outros sociólogos da Maria Antonia. Todos respeitavam a Carolina pela seriedade, simpatia, sobretudo, sobriedade. Com o Hutchinson ela tinha um cubículo na biblioteca municipal de São Paulo.
Walter Hugo da Cunha disse ter sido diretamente beneficiado pelo trabalho que ela desenvolveu neste centro quando, em uma atividade que desenvolveu junto à Companhia Municipal de Transporte Coletivo, de São Paulo, selecionou funcionário. Na ocasião, ele havia usado a técnica de Karen Machover para seleção de motoristas de ônibus e foi buscar apoio de Bori: “Carolina que me andou emprestando livros de estatísticas, me dando algumas preleções sobre como fazer estatística e tudo. Então, nesse ponto ela era muito prestativa”. Além disso, o uso da técnica tinha o objetivo de identificar patologia mental nos candidatos ao cargo de motorista de ônibus e, para isso, convidou Carolina Bori para ser juiz na correção do teste:
Então, ela conhecia do teste de Machover. Então, eu resolvi usar a Carolina como juiz, para ela poder me discriminar entre o que era o grupo A, o grupo B e o grupo C, que era patologia...
E achei muito interessante porque a Carolina entendia mesmo do teste de Machover e ela funcionou assim, ela foi capaz de discriminar, com grande porcentagem de acerto, quem era de um grupo, quem era do outro, o que era patologia mental ou não.
Ainda nesta década, integrou grupos que trabalhavam pela regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil. Como presidente da Sociedade de Psicologia de São Paulo (SPSP), ajudou a elaborar um projeto de lei regulamentando a profissão e formação de psicólogo e, em colaboração com outras associações científicas e instituições, discutiu as condições necessárias para esta regulamentação. Este tópico foi comentado por diversos depoentes. Arno Engelmann participou de algumas dessas discussões sobre a regulamentação da profissão: “uma vez, fui com ela no momento em que queríamos a profissão de psicólogo”. Em algumas dessas discussões, teriam se encontrado com Lauro Cruz que foi um deputado e, posteriormente, senador que trabalhou na defesa do projeto de lei que regulamenta a profissão e formação em psicologia.
Maria Helena Souza Patto comentou esta participação:
Olha, eu acho que a própria criação dos cursos de Psicologia, porque em toda verdade, foi uma luta difícil, porque os Médicos não queriam, e a luta foi encabeçada pela Annita Cabral, mas eu tenho certeza que a
Carolina estava nos bastidores da coisa, eu acho então, que a própria criação dos cursos de Psicologia, eu apontaria como uma dessas coisas
Em 1962 foi aprovada a lei 4119/62, regulamentando a profissão e formação em psicologia. A partir de então, Bori integrou uma comissão que reconheceria profissionais que já atuavam com psicologia. Geraldina Porto Witter disse também ter colaborado neste momento da história da psicologia no Brasil em contato próximo de Bori:
Quando eu fui aluna dela no primeiro ano, eles estavam já buscando conseguir assinatura de pessoas para conseguir sair a profissão. Tinha que arranjar, naquela época, vinte mil assinaturas de pessoas que fossem profissionais, de profissão já reconhecida, que dessem o número de título de eleitor e número de título de qualquer coisa dele lá certo? (...) Não, que trabalhasse a criação de uma nova profissão, mas preferencialmente da área de Educação e de Saúde. Então, ela dava as folhas para a gente e a gente saía por aí, catando assinatura. Eu consegui um monte em Mogi, eu fui em todos os médicos de Mogi, assinaram para mim lá que eles concordassem que surgisse a nova profissão. Tinha umas folhas já preparadas, não? A gente ia, punha o nome legível punha todos os dados, endereço, tudo para a gente mandar para Brasília. É, e a gente conseguiu, mas não foi fácil não. Então, em Rio Claro também a gente conseguiu um monte de assinatura
Entretanto, os depoentes apontam que a relação entre os profissionais das cadeiras de Psicologia e Psicologia Educacional era muito conflituosa. Walter Hugo da Cunha comentou sobre uma grande rivalidade dentro da USP envolvendo as catedráticas Annita Cabral e Noemy Rudolfer:
A grande rival dela (Annita Cabral) era a Noemy da Silveira Rudolfer. Ela tinha sido aluna da Noemy e acho que tinha sido assistente da Noemy na Escola Normal e a Noemy foi chefe da cadeira de Psicologia Educacional. Então, como eu disse, eram duas cadeira. Uma pertencia à sessão de Filosofia e outra à sessão de Educação. Depois elas se desmembraram, se tornaram autônomas. A cadeira, realmente teórica, era a cadeira da Dra. Annita. Era mais ligada à psicologia fundamental. E a Dra. Annita tomou mais providência, ela foi quem propôs o curso de psicologia e isso é uma coisa que a Noemy não perdoava. Que ela tivesse proposto o curso de psicologia. Era uma coisa. Ela dizia que em vez dela propor o curso de psicologia, que era prematuro, ela deveria se submeter ao concurso [de livre-docência]. E a dona Annita disse: “Eu não vou fazer isso porque eu vou entregar minha cabeça numa bandeja”. Porque quem ia compor, a presidente da banca ia ser ela, a Noemy, que já era catedrática. Então, a situação era essa.
Além disso, a cadeira de Psicologia era regida por Annita Cabral de modo autoritário. Isaias Pessotti a descreveu como “uma fazendeira laica. Annita era antipática, arrogante.(...) Agora, a Annita era antipática a quase todos, mas era temida. Ela tinha relações políticas, certo? Fazendeira quatrocentona, de Penápolis”.
Outro depoente a descrever a atuação de Annita Cabral foi Arno Engelmann: “houve um momento que todos os assistentes não aguentavam mais a Annita. Ela era uma pessoa muito inteligente, muito. Mas...” e “ela era uma pessoa muito capaz, mas ela... e eu realmente... mas eu não... ela brigava com todos nós”. Por fim, descreveu um episódio exemplificando suas afirmações. Ao ser questionado sobre o curso sobre análise experimental do comportamento que Keller deu na USP em 1961 (discutido no próximo tópico), ele afirmou:
eu comecei a fazer [o curso], mas eu era assistente da dona Annita. A dona Annita disse assim: “ou o senhor continua no meu departamento ou faz o curso”. Era assim, direta. E eu me dava tão bem com eles... Era um gestaltista, não era... mas ela não aceitou de jeito nenhum.
Em uma ocasião, Annita Cabral “gelou a Carolina”, segundo Isaias Pessotti devido a um desentendimento pessoal que a catedrática teria tido com o marido de Bori. Este gelo resultou no afastamento de Bori da universidade, já no final da década de 1950. Com isso, em 1958, Bori foi convidada a coordenar o Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, posição que ocupou até por volta de 1962. Ela estava nesta instituição quando teve contato com Fred S. Keller, professor estadunidense que introduziu a análise experimental do comportamento no Brasil. Esta instituição marca o início de uma atuação que gerou o desenvolvimento de uma nova área na psicologia no Brasil.
Assim, como os relatos apontam, Bori teve atuação em três diferentes áreas durante década de 1950: era professora assistente na cadeira de psicologia, lecionando psicologia experimental na faculdade de filosofia da USP; desenvolvia pesquisas como psicóloga social, ao lado de importantes sociólogos, no CBPE; e participou da luta pelo reconhecimento da profissão de psicólogo no Brasil. Todas estas três linhas de atuação continuaram presentes em outros momentos da vida Bori. Relatos de pessoas que conheceram Bori a partir da década de 1970 apontam que ela era reconhecida pela defesa do método experimental, tinha grande preocupação com questões sociais, usava o conhecimento científico como meio de solucionar estas questões e pensava que o método experimental era fundamental para a formação de psicólogos.
9.2. FACULDADE DE FILOSOFIA CIÊNCIAS E LETRAS DE RIO CLARO E O