2. HALK BİLGİSİ
2.7 Halk Tedavileri (Halk Hekimliği)
Além das questões relacionadas ao coletivo, a falta de interesse demonstrada pela apatia e alienação acentuava as dificuldades nas aprendizagens teatrais. Nesse sentido, o foco estava nas situações e comportamentos protagonizados pelos participantes do grupo. Isso posto, levantamos a seguinte indagação: “no campo da Pedagogia Teatral, qual é a validação de processos artístico-pedagógicos que se pautam na formação do coletivo?”. Ao elucidar a práxis teatral, Januzelli afirma:
Nossa atividade é sempre coletiva. Momentos de reflexão do grupo sobre os caminhos seguidos, os problemas surgidos. Serem frequentes para que nada fique por baixo dos panos, no plano das relações pessoais, pois os conflitos permanecem no ar (correntes invisíveis), mesmo sem a sua verbalização, minando as condições de trabalho se não forem digeridos. Desencantar o medo de se expor; momento de aprofundar análises e autocrítica. Avaliação constante, de cada momento, de cada etapa (JANUZELLI, 1986, p.72).
A elucidação do autor sublinha os processos artísticos que se pautam no enfrentamento das relações para que se torne possível a formação do coletivo. Deste modo, as ações pedagógicas exigiram ações didáticas, cujo foco era direcionado em uma relação dialógica no enfrentamento da situação, para que nada ficasse por “baixo dos panos”, no grupo.
Embora já tivessem estudado as linguagens artísticas, no decorrer da experiência escolar, muitos alunos davam pouca ou quase nenhuma importância ao ensino de arte. No relatório semestral da estagiária que nos acompanhou, verificamos o seguinte depoimento de uma aluna:
Mesmo que partamos só da análise das aulas de arte que deixavam de acontecer, podemos perceber qual é a importância que a escola dá para as aulas de arte. Muitos alunos pensam assim, como no depoimento de Joana em sua carta de final de ano: ‘Ah, e vou confessar, antes eu era uma das pessoas que achavam que aula de artes seria como aula vaga’. Muitos acreditam que aula de arte é ‘perfumaria’, que as professoras não ‘exigem muito’ porque alunos que tem médias ruins em todas as outras disciplinas muitas vezes vão muito bem nas aulas de artes.
A recusa dos alunos em fazer uso da palavra se mantinha, no decorrer das aulas, evidenciando que o “desvendamento”, isto é, a “exposição” se constituía, de fato, em uma barreira a ser transposta pelo grupo. Nessa fase preparatória, somente a tomada de consciência os levaria à autorreflexão e, consequentemente, às possibilidades de descobertas. É oportuno recorrer a Januzelli, em sua ênfase sobre o processo de aprendizagem, afirmando que:
Existe uma senda muito particular no processo da aprendizagem humana que possibilita uma experiência de auto-investigação do indivíduo, cuja proposta não se situa na área de terapia, mas sim no domínio do laboratório dramático teatral, e que tem nos jogos, nas improvisações o seu centro de gravidade. (JANUZELLI, 1986, pp.7-8)
Do mesmo modo, acreditávamos que os jogos e improvisações pudessem levá-los às experiências de autoinvestigação e/ou autorreflexão, buscando alguns princípios que os ajudassem a se conscientizarem das relações estereotipadas do grupo.
O educador, pedagogo e filósofo Paulo Freire, ao elucidar a responsabilidade em educar, chama a atenção para que a educação respeite “no homem a sua ontológica vocação de ser sujeito” e que somente a autorreflexão poderá levá-lo “ao aprofundamento consequente de sua tomada de consciência e de que resultará sua inserção na História” (FREIRE, 1980, p.36) como sujeito atuante na pluralidade de suas relações com a sua realidade, com o seu mundo.
Era exatamente o que entrevíamos, ou seja, a inserção desses sujeitos no próprio grupo como cidadãos responsáveis, respeitosos e atuantes. Deste modo, a práxis coletiva, aliada ao caráter processual do teatro, diferenciou-se, pois, de procedimentos do teatro tradicional e/ ou formal. Ao invés de “darmos conta” de um texto, de personagens, ou, ainda, de apresentações teatrais, o cerne das aprendizagens objetivou a transparência nas relações para a formação do coletivo, por meio de jogos e improvisos.
Portanto, para alcançarmos um diálogo coletivo, faziam-se necessárias práticas de aprendizagens teatrais que exercitassem a horizontalidade das relações, na cooperação e no
coletivismo. Portanto, assumir as ações imbricadas nas relações entre os participantes era o desafio a ser enfrentado.
Apresentamos abaixo, excerto do relatório da estagiária que nos acompanhou:
A partir do estágio de observação com uma turma de primeiro ano do ensino médio da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, de textos e debates das aulas de licenciatura, escrevo este pequeno relato que, discutindo o trabalho realizado com uma turma pretende discutir uma questão fundamental para o ensino de teatro: para fazer teatro precisamos de seres humanos que saibam trabalhar juntos. Para as outras disciplinas isso também deveria ser prerrogativa. Mas não sendo, quando os estudantes chegam para a aula de teatro absolutamente distantes de sua própria humanidade, presos em “grupinhos”, disputas, ofensas e… Como ensinar teatro? A melhor resposta que encontro é: ensinando os estudantes a serem humanos. A se ouvirem e respeitarem, aprendendo a trabalhar juntos. Ensinar qualquer outra técnica sofisticada ignorando o fato de que não existe um grupo não é nada além de reproduzir a lógica presente na maior parte das disciplinas e que tem levado a escola para a encruzilhada presente de falta de sentido e perspectiva.