Ke (comunicação, 2007) demonstrou a utilidade da representação em redes na compreensão de vários fenômenos complexos, como o desenvolvimento e estruturação de uma língua. Ke conduziu uma breve análise dos nossos dados de freqüência verbal e construções acima relatados em forma de redes de palavras (tais redes, chamadas de egonets, foram originalmente desenvolvidas e usadas para a interpretação de relações humanas e sociais complexas). Este tipo de representação é especialmente adequado à discusssão teórica que embasa esta tese, baseada em redes conexionistas e no desenvolvimento de construções emergentes. Tal representação também é ideal na discussão sobre a estruturação emergente de nosso léxico mental (como vimos na proposta emergentista de Elman, 2004, discutida no capítulo 4 desta tese).
Em sua análise, Ke construiu redes (VL e VOL) utilizando todas as palavras para cada uma das construções identificadas em nosso subcorpus do Projeto ESF. O objetivo foi uma verificação inicial de colocações adjacentes, fórmulas e esquemas pivô (que seriam, como discutido anteriormente, a gênese de construções abstratas ou estrutura argumental numa dada língua).
Num exemplo de rede deste tipo exibido a seguir, as palavras são as unidades e as colocações adjacentes são os links. A espessura dos links entre as palavras reflete a freqüência de ocorrência de uma dada colocação. Desta maneira, tem-se uma análise e representação em forma de rede que revela a freqüência de co-ocorrência das palavras (e pesos entre tais conexões) nas construções VL, VOL e VOO identificadas em nossos
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Um lembrete importante: os gráficos em rede exibidos a partir deste ponto não são exemplos de redes conexionistas, como vimos no Capítulo 2. Entretanto, acredito que tal representação gráfica em forma de redes de conexões entre palavras (ou colocações freqüentes) torna mais palpável, a meu ver, a apreensão do princípio hebbiano básico de aprendizagem (princípio fundamental da plasticidade sináptica), discutido no capítulo 1 desta tese, que se resume na idéia de que se dois neurônios forem ativados simultaneamente a conexão entre eles (sinapse) será reforçada (o que, conseqüentemente, inibirá ativações entre outros neurônios), de forma que, em ocorrências subseqüentes do mesmo estímulo, tais conexões terão um nível de ativação maior dentro do sistema neural, pois se constituirão em configurações neuronais específicas já estabelecidas ou entrincheiradas. Finalmente, reforço aqui que tais representações não são atômicas, mas emergentes, como vimos em nossa discussão teórica.
dados e discutidas no capítulo 5 desta tese. Veja no exemplo a seguir o Gráfico 16 gerado para a rede VL
Gráfico 16
Rede de relações entre todas as palavras presentes nas 436 construções VL dos aprendizes em nosso subcorpus ESF. In: Ke (2007) 69.
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A reprodução deste e de outros gráficos de Ke (2007) foi devidamente autorizada pela autora. Agradeço a Jinyun Ke pela paciência e delicadeza chinesas em me ensinar a utilizar o complexo programa NetDraw, versão 2.043, que possibilitou a geração de outros gráficos em rede exibidos nas análises das páginas seguintes. Principalmente, sou grato pelo seu insight em apontar a utilidade de tais redes na análise das colocações em nosso subcorpus. A análise de Ke (em arquivo no formato ppt) está disponível em http://www-personal.umich.edu/~jyke/presentELI070126_network.pps
Como vemos acima, a rede que emerge é um tanto caótica, o que dificulta uma ‘leitura’ adequada de suas relações internas. Há uma enorme superposição de palavras em vários níveis no exemplo de rede dado acima, o que a torna um emaranhado confuso. O nódulo em vermelho indica os verbos que ocorrem na construção VL no corpus dos aprendizes analisados (ou seja, go, come, sit, look, get, etc.).
Agora veja uma sub-rede gerada para as construções VL apenas com o verbo come, nas ocorrências come, coming e came (Gráfico 17). Na verdade, a rede exibida encontra-se “embutida” no emaranhado de conexões da rede mostrada anteriormente
Gráfico 17
Rede de relações entre todas as palavras presentes nas 52 construções VL envolvendo o verbo come (incluindo as ocorrências coming e came) produzidas pelos aprendizes do
corpus ESF
O refinamento probabilístico de co-ocorrência de palavras exibido no Gráfico 17 permite a identificação de colocações, esquemas pivô ou ilhas verbais numa dada construção (observe que tais esquemas se revelam pela espessura dos links entre as
palavras). Portanto, utilizaremos este tipo de representação em rede ao final da análise qualitativa para cada construção feita ao longo deste capítulo com o intuito de ilustrar o papel das colocações mais freqüentes no entorno dos verbos prototípicos verificados. Com isto, buscaremos ampliar ainda mais o foco nas colocações mais freqüentes em torno do verbo prototípico usado nas construções, utilizando informações resultantes da frequência de co-ocorrência de palavras ao adicionarmos algumas restrições à rede de forma a excluir totalmente os links estatisticamente não significantes (ou seja, abaixo do valor ≥ 5 de ocorrência, tal qual exibido no Gráfico 18). Veja que o resultado obtido é um gráfico em rede que nos permite visualizar claramente certos padrões observados nas construções (i.e., construções ancoradas numa colocação verbal de alta freqüência ou ‘ilha verbal’ tomaselliana).
Este refinamento maior exibido no Gráfico 18 envolvendo o verbo come na construção VL nos permite, em última instância, visualizar mais claramente um esquema agente-
ação-locativo (refletido nas categorias sujeito-verbo-preposição), no qual se observa a
freqüência de co-ocorrência de certos pronomes no slot/categoria agente e certas preposições no slot/categoria locativo.
Gráfico 18
Rede de colocações de pronomes e preposições nas 52 construções VL com o verbo come produzidas pelos aprendizes no subcorpus ESF
Como vimos na discussão de Tomasello (2003, 2000) e outros autores, estes esquemas pivô e ilhas verbais seriam a gênese de construções envolvendo categorias abastratas, como observado na estrutura argumental de uma língua. As demais redes geradas para as construções VOL e VOO com base nos nossos dados do projeto ESF seguem o mesmo padrão verificado para a construção VL exemplificada acima, com seus respectivos verbos prototípicos e colocações específicas. Esta ilustração em redes será adotada ao longo das análises das sessões dos sujeitos no projeto ESF para as construções VL, VOL e VOO.
Nas páginas a seguir será feita uma análise qualitativa da produção dos sujeitos buscando iluminar um possível desenvolvimento da L2 que se inicia em fórmulas fixas e esquemas pivô baseados em verbos prototípicos (como vimos acima na ilustração em rede) até as construções VL, VOL e VOO identificadas. Analisaremos, principalmente, as tarefas nas quais as construções VL, VOL e VOO ocorrem mais freqüentemente com seus respectivos verbos prototípicos, ou seja, go na tarefa A (77/233); put na tarefa E (79/152); e finalmente give na tarefa A (8/22).
O Quadro 6 ilustra a distribuição das construções de acordo com as atividades específicas realizadas ao longo das 234 sessões do grupo
Tarefa VL (go) VOL (put) VOO (give)
a 77 5 8 b --- 2 --- c 1 --- --- d 9 8 2 e 8 79 --- f --- --- --- g 18 6 2 h 9 16 2 i 52 9 6 j 2 1 2 k 4 --- ---
l 34 --- --- m 2 14 --- n --- --- --- o 2 --- --- p 9 1 --- q 5 11 --- r 1 --- --- Total 233 152 22 Quadro 6
Tarefas nas quais os verbos prototípicos go, put & give ocorrem em suas respectivas construções VL, VOL & VOO.