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We Feel Fine34 é um site, criado em agosto de 2005, que rastreia e capta - a cada poucos minutos - expressões que refletem o que as pessoas estão sentindo em blogs de qualquer parte do mundo. Seu sistema, quando acionado, busca ocorrências de frases com os termos 'I feel’ ou ‘I am feeling'35, extraindo também, quando disponível, imagens relacionadas, o sexo de quem as reportou, a localização de onde a frase foi escrita, a idade do autor e a data de publicação. Ainda num processo de cruzamento dos dados, fornece também a previsão do tempo do lugar onde se originou a frase. Todas as informações disponíveis relacionadas ao sentimento são gravadas num banco de dados próprio. O resultado é um banco de dados com o registro de milhões de sentimentos humanos, que cresce dia após dia, em uma média que varia de 15 a 20 mil novos sentimentos.

Criado por Jonathan Harris e Sep Kamvar, o We Feel Fine é considerado o termômetro de como a rede se sente. Coletando variáveis tão específicas, esse projeto tem como objetivo mostrar o quanto as pessoas são parecidas emocionalmente, independente do lugar onde vivem, da condição à que estão sujeitas e demais fatores que diferenciam cada uma delas. Nas palavras dos autores do projeto: "Nós esperamos que isso faça o mundo parecer um pouco menor, e esperamos que ajude as pessoas a verem beleza nos altos e baixos do cotidiano da vida" (HARRY & KAMVAR, 2006).36

Os autores também destacam as inúmeras possibilidades de relacionar os dados coletados através da interface do projeto e assim oferecer respostas bem específicas, caso o usuário queira. De acordo com eles:

Usando uma série de interfaces lúdicas, os sentimentos podem ser pesquisados e classificados através de um número de fatias demográficas, oferecendo respostas a questões específicas como: os europeus se sentem tristes com mais freqüência do que os americanos? As mulheres se sentem gordas com mais freqüência do que homens? O tempo chuvoso afeta a forma como nos sentimos? Quais são os sentimentos mais representativos de mulheres nova-iorquinas nos seus 20 anos? O que as pessoas estão sentindo agora mesmo em Bagdá? O que as pessoas estavam

                                                                                                                34

Disponível em: http://www.wefeelfine.org/ 35

Os termos “I feel” (eu sinto) e “I am feelling” ( eu estou sentindo) não foram traduzidos no corpo do texto para destacar que o rastreamento se dá nesses termos, escritos necessariamente dessa forma, ou seja, o rastreamento se dá apenas na língua inglesa. (nota da autora)

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We hope it makes the world seem a little smaller, and we hope it helps people see beauty in the everyday ups and downs of life.

sentindo no Dia dos Namorados? Quais são as cidades mais felizes do mundo? E as mais tristes? E assim por diante. (HARRY & KAMVAR, 2006)37

A interface inicial do site oferece uma navegação que faz analogia a um sistema de partículas, que pulsam fervorosamente pela tela. Cada partícula presente na tela representa um sentimento único publicado por um único indivíduo. Além disso, as propriedades visuais dessas partículas – a cor, o tamanho, a forma e a opacidade - indicam a natureza da sensação. Por exemplo, se um sujeito se sente triste e escreveu uma frase longa sobre esse sentimento, o seu círculo será azul e maior do que boa parte das partículas vizinhas. Se a frase foi coletada de um post com imagem, a imagem também será agregada ao sistema e a partícula ganha o formato de um retângulo, o que indica que, além do texto, há também uma imagem relacionada àquele sentimento. Se algum usuário clicar nessa partícula, será exibida a frase coletada e a imagem relacionada, e ainda haverá um link que direciona o usuário para o post completo, caso ele queira.

FIGURA 05 – We Feel Fine – Captura de tela Madness (default)

                                                                                                                37

Using a series of playful interfaces, the feelings can be searched and sorted across a number of demographic slices, offering responses to specific questions like: do Europeans feel sad more often than Americans? Do women feel fat more often than men? Does rainy weather affect how we feel? What are the most representative feelings of female New Yorkers in their 20s? What do people feel right now in Baghdad? What were people feeling on Valentine's Day? Which are the happiest cities in the world? The saddest? And so on.

FIGURA 06 – We Feel Fine

Exemplo de como é apresentando um sentimento que tem uma imagem agregada

Como já foi mencionado, o We Feel Fine coleta cerca de 15 mil novos sentimentos por dia, assim realmente pode-se afirmar que o resultado – uma tela multicolorida em fundo preto, onde partículas se movimentam caoticamente – é de fato um retrato poético e visual do humor da rede naquele determinado momento. Esse retrato pode ser visualizado através de vários filtros, que os autores denominam como os seis movimentos formais, são eles: Madness (por default do sistema se inicia com ele), Murmurs, Montage, Mobs, Metrics, e Mounds38.

FIGURA 07 – We Feel Fine – Captura das telas dos seis movimentos formais

Madness, Murmurs, Montage, Mobs, Metrics, e Mounds                                                                                                                

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A beleza de We Feel Fine está na capacidade de expor padrões coletivos de sentimentos, ao mesmo tempo que também permite o acesso ao sentimento detalhado de alguém em particular. Isso significa dizer que o projeto lida, ao mesmo tempo, com dados estatísticos e qualitativos numa interface de visualização de dados lúdica e interativa.

Assim como o Conductor - MTA.me, esse projeto exige do usuário uma imersão na interface. O usuário aqui é concebido com um explorador e não um mero consumidor de dados “rasos” e facilmente esgotáveis. Um dos autores do projeto, em entrevista ao Gustavo Mini, assim explana essa questão:

As pessoas desenvolveram um tempo de atenção muito curto na internet, então geralmente elas esperam tirar conclusões a respeito do que elas vêem em poucos segundos. Mas meu trabalho não se parece com nada que elas viram antes, então leva algum tempo até você se orientar. Isso é normal. Eu luto para produzir trabalhos que são, como diz Golan Levin39, “instantâneos no reconhecimento e infinitos no potencial de maestria”. Por exemplo, o piano e o pincel: são ferramentas que uma criança pode pegar e usar, mas que um virtuose vai passar sua vida inteira tentando dominar. Além disso, eu não quero que meus trabalhos recebam a mesma atenção superficial que recebe um vídeo no You Tube. Eles demandam mais de quem entra em contato com eles, mas por outro lado também oferecem muito mais. Há muitas sutilezas, muitas camadas, há reentrâncias e fissuras a serem exploradas. (HARRIS apud MINI, 2007)

O We Feel Fine leva ao extremo aquilo que Whitelaw (2008) coloca como experiência dos dados, possibilitando não apenas o estabelecimento de um vínculo sensorial com os sentimentos expostos, mas tornando processual a formação das imagens dos dados através da interferência do usuário que escolhe os filtros, e daqueles que, muitas vezes sem saber, são coletados e tornam-se a matéria do projeto. Para os autores do We Feel Fine:

Mais concretamente, as observações do estudo sobre usuários sugere uma tipo de visualização que nós chamamos de Visualização de Dados Experiencial. Visualizações desse tipo, partilham de três propriedades: primeiro, elas comunicam ideias que são frequentemente comunicadas em palavras, mas muito mais poderosas quando comunicadas por exemplos visuais; segundo, eles se concentram em modelos de interação direta que estimulem a interação com cada dado; e terceiro;

                                                                                                                39

Golan Levin é um artista e professor. Leciona na Carnegie Mellon University, onde também dirige o Estúdio Creative Inquiry, um centro de artes de pesquisa interdisciplinar. Disponível em http://www.flong.com/

eles se concentram na influência do afeto ao invés da cognição. (HARRY & KAMVAR, 2011)40

Pode-se dizer que a confluência da lógica com a estética que se apresenta nesse trabalho, é, antes de tudo, o resultado de interesses pessoais dos autores do projeto, mas, além disso, também se alinha com toda uma tendência das práticas expressivas da rede de encontrar beleza na organização de dados, como já exposto no capítulo 1.

Além disso, esse projeto se estrutura em uma cultura de observação do outro, e ao mesmo tempo, de exposição de si próprio. Como Sibília (2008) afirma em seu livro “O show do Eu – A intimidade como espetáculo”, as experiências de vida de uma pessoa – mesmo que desconhecida ou comum – podem atrair um vasto público, principalmente na rede onde podemos observar, muitas vezes sob o véu do anonimato. No caso do We Feel Fine, os fragmentos de sentimentos tem a qualidade de estabelecer conexão instantânea entre o usuário que estava navegando pela interface com uma outra vida, com as angústias, compromissos ou amores de um outro ser. O We Feel Fine, assim como no Post Secret, é uma surpreendente experiência de como podemos nos entender nós mesmos, seres humanos, através dos meios de comunicação digitais contemporâneos.

Por fim, de fato, vale destacar que seria ingênuo da nossa parte acreditar que o We Feel Fine seja um retrato fiel do sentimento do mundo como um todo. Mesmo porque o mapeamento que esse trabalho faz é parcial dentro da própria rede e mais parcial ainda se formos olhar pelo espectro de que nem todas as pessoas estão conectadas, especialmente as localizadas no terceiro mundo. Entraríamos aqui, numa questão política, que não é o escopo desta pesquisa. Entretanto, considera-se válido fazer essa ressalva. O próprio autor, inclusive, pontua essa questão: “Eles representam o mundo dos blogs, que de fato não é uma representação exata do mundo offline. Mas, no momento, é a melhor representação da realidade de sentimentos, do ponto de vista global, que existe. (HARRIS apud MINI, 2007)

                                                                                                                40

More concretely, the observations from the user study suggest a class of visualizations that we call Experiential Data Visualization. Visualizations of this type would share three properties: first, they would communicate insights that are often simply communicated in words, but much more powerfully communicated by example; second, they would focus on interaction models that encourage direct interaction with individual data items; and third, they would focus on influencing affect rather than cognition.