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4. HALI KURUTMA MAKİNASI TASARIMI

4.3. Halı Kurutma Makinesi Prototipi İmalatı

4.3.3. Halı numuneleri kurutma deneyleri

Optei por começar pelo mito de Pandora que representa a dualidade feminino/masculino e, como fenômeno cultural, a transição do mundo das tradições e da

cultura oral para o mundo da história e da cultura escrita. Essa relação marcou a história das mulheres que, por longo tempo, permaneceram nos espaços privados e na oralidade. Se a história das mulheres é uma história de silêncios, como afirma Perrot (2005), isso se repete nas histórias de leitoras. É necessário descobrir nas entrelinhas a sua presença quase invisível.

De acordo com Brandão (1999), o mito é um relato de um acontecimento ocorrido nos tempos do princípio, uma representação coletiva para explicar o mundo. Um deles conta a história da primeira mulher de carne e osso, dotada de linguagem humana, Pandora. Zeus dirigindo-se a Prometeu, para se vingar do fogo roubado, teria enviado em lugar do fogo uma mulher, criada com a finalidade de ser castigo para a humanidade. A primeira referência escrita do mito de Pandora está na obra de Hesíodo, escritor grego do século VII a.C. O Autor narra que

Antes vivia sobre a terra a grei dos humanos a recato dos males, dos difíceis trabalhos, das terríveis doenças que ao homem põe fim; mas a mulher, a grande tampa do jarro alçando, dispersou-os e para os homens tramou tristes pesares. (HESÍODO, 1991, p.29).

Essa primeira mulher, modelada na argila e animada pelo deus Hefesto com a colaboração de todos os imortais, a quem o mensageiro dos deuses deu o dom da palavra e o nome de Pandora, aquela que possui todos os dons, trouxe para a humanidade a velhice, o trabalho, a mentira, a paixão e a loucura. Até então os homens viviam em paz, livres do mal, das doenças, da fadiga, mas quando Pandora movida pela curiosidade feminina abriu a jarra que havia trazido do Olimpo, presente de núpcias de Epimeteu, a desgraça e as calamidades abateram-se sobre a humanidade; apenas a esperança restou no jarro, encerrando a Idade de Ouro da humanidade. (BRANDÃO, 1999).

Em Trabalhos e dias de Hesíodo (1991), o mito de Pandora pode ser lido como um momento de transição da civilização grega. Surgida em um momento de mudanças, a obra de Hesíodo retrata o conflito da passagem do mundo das tradições e da oralidade, para o mundo da história e da escrita, do monetarismo. Ao situar o mito no período de transição das tradições de uma sociedade agrícola para uma sociedade de mercado, ampliam-se suas possibilidades de leitura.

O aparecimento da agricultura mudou a organização tribal-familiar ao redor do patriarca e da terra. Um patriarca precisava de várias mulheres para uma prole numerosa que o ajudasse nas tarefas agrícolas. O principal papel das mulheres era exatamente a geração de

filhos ao patriarca. Os conceitos de espaço e tempo, vinculados à terra, eram regrados por valores concebidos numa totalidade orgânica. O grande, o belo e o bom, o verdadeiro e justo não podiam ser separados e tomados individualmente. (ALMERÍA, 2006).

O conflito entre esses valores da cultura agrária e a nova cultura mercantilista está presente no mito de Pandora. Assim, o castigo de Prometeu, por ter-se rebelado contra Zeus, supõe a ruptura da unidade de valores beleza/bondade, porque o monetarismo destruiu os valores da tradição ameaçados pelo novo valor, a sedução. Se nas tradições a beleza era vinculada à figura das mulheres, Hesíodo retirou da beleza de Pandora osvalores agregados. Segundo Almería (2006), depois de Hesíodo, os gregos entenderam a figura do homem bom como essencialmente masculina, ignorando que Pandora representava esse ideal supremo de alma bela.Por isso, o mito de Pandora, visto como a separação irremediável da unidade de valores do mundo das tradições, é também a separação do homem e da natureza.

Lessa (2004) revela uma face feminina das mulheres atenienses, que chamou de modelo de Mélissa, dando-lhes contornos próprios e desconstruindo o modelo idealizado que excluía as mulheres dos espaços públicos, durante os séculos V e IV a.C. Para o Autor, a esposa bem-nascida não era apenas a mulher silenciosa, mantida reclusa no interior de sua casa para cuidar dos filhos e das artes de fiar, tecer e bordar. O Autor mostra como as mulheres se constituíram em grupos femininos mais ativos na sociedade políade, que constituía uma unidade de oposições onde conviviam cidadão e não-cidadão, livre e escravo, pobre e rico, civilizado e bárbaro, homem e mulher, com participação informal na pólis que era a cidade. Estabelecendo relações no espaço público, ainda que informais, as esposas bem-

nascidas nem sempre permaneceram silenciosas no interior do gineceu, embora fossem

destinadas a se casar muito jovens para gerar filhos e administrar o oîkos, o espaço doméstico em que passavam a maior parte do tempo. Segundo Lessa (2004, p.12), essas mulheres

eram as esposas legítimas dos cidadãos atenienses, através de táticas, criaram lugares sociais de participação e fala, organizaram espaços específicos de validação social, constituíram redes sociais informais cujo elemento de coesão era a amizade – philía – e atuaram na integração e reprodução da estrutura políade através das práticas rituais e das festas cívicas públicas e políticas.

Atuando indiretamente na estrutura da políade, as atenienses saíram do espaço privado para o público, lugar social destinado ao homem, espaço de poder masculino. Para essas mulheres havia o espaço de esposas bem-nascidas atenienses no oîkos e os lugares de participação e de fala, tendo como elemento de coesão a philía, a amizade com vizinhas,

parentes e associações religiosas na sociedade políade. As esposas legítimas conquistaram seu espaço cívico na pólis. Para Lessa (2004, p. 13), o cívico

excede os meios formais de participação, bom como os espaços físicos tradicionais para tais práticas e os segmentos sociais masculinos. Ele engloba as formas de participação informais e a diversidade de grupos sociais que compõem a pólis, favorecendo a desconstrução da noção fixa de passividade feminina.

As táticas utilizadas pelas esposas bem-nascidas, constituindo grupos informais de participação e fala, colaboraram para que elas criassem uma identidade feminina própria dentro do sistema hierarquizado e pluralista da estrutura da pólis, sem enfrentar diretamente a ordem estabelecida ateniense e o poder masculino no espaço público. Assim, alcançaram relativa autonomia dentro do espaço social, ampliando para além do oîkos sua participação ativa. (LESSA, 2004).

Apropriar-se da palavra nos espaços públicos foi uma luta árdua para as mulheres mélissas. Sempre associada ao masculino, a palavra era o “equipamento político” para a comunicação entre os cidadãos nos espaços públicos, usada como ferramenta para o debate, o discurso, a oratória, uma vez que a política se baseava na palavra. Assim, a palavra transformou-se em instrumento de poder que se estendeu a toda Koinonía3, unidade cívica

entre os cidadãos na pólis. Restou às mélissas, por meio de táticas, criarem formas indiretas de comunicação como a tecelagem.

Entretanto como boas mães e esposas junto ao cidadão pleno, as mulheres mélissas não podiam se furtar ao uso da palavra como forma de afirmar a identidade de cidadãos exemplares de maridos e pais, e legitimar a cidadania do homem grego. Coube então a elas desempenhar dois papéis: de um lado, como filhas e esposas precisavam estar sempre atentas às consequências de uma informação que circulasse fora do oîkos, isto é, do espaço privado, doméstico; de outro, como vizinhas e parte de uma comunidade, deviam veicular informações para legitimar a cidadania masculina nos espaços públicos.

Na Idade Média, segundo Perrot (2007), pertencer ao espaço público era uma honra para um homem, mas uma vergonha para uma mulher. A divisão de espaço público e espaço privado que marcava o lugar social de homens e mulheres permaneceu, ainda que as relações sociais houvessem sofrido mudanças significativas. As mulheres ocupavam uma posição

3 Lessa (2004, p.92), citando Lewis (1996), esclarece que “pertencer a uma Koinonía significava

dividir entre si as informações disseminadas, ou seja, implicava estar inteirados dos acontecimentos e dos saberes da sociedade”.

secundária em relação aos homens na Idade Média. No campo ou na cidade, elas eram vistas pela igreja, pelos homens e por elas mesmas como figuras instáveis, desconfiadas, frágeis. (KLAPICH-ZUBER, 2002).

Para Piponnier (2002), na Idade Média, a igreja incorporou o feminino como uma categoria abstrata, em uma sociedade em que a ordem estabelecida estava subordinada à idéia de hierarquia. O feminino era algo inferior em relação ao masculino, construindo dessa forma uma imagem inferior e negativa das mulheres que se opunha à imagem positiva e superior dos homens. Fundamentos teológicos, como a inferioridade de Eva, sustentaram o feminino/masculino dos primeiros tempos do cristianismo e explicavam os preconceitos contra a mulher. Foi um tempo marcado pelo cristianismo, com uma presença muito forte da igreja, em que o próprio tempo foi cristianizado: missas aos domingos e festas religiosas que definiam o calendário de religiosos e leigos, dias que celebravam a memória de santos, horas marcadas pelos Livros de horas que se multiplicaram chegando até as mulheres.

Segundo Manguel (1997), as mulheres da Idade Média eram educadas para o lar. Se pertencessem a uma família aristocrática ou de mercadores eram treinadas para damas de companhia ou para administrar uma propriedade, o que exigia alguns rudimentos de leitura e escrita. Filhas de artesãos e comerciantes aprendiam as artes com seus pais. As camponesas não recebiam nenhuma instrução. As religiosas exerciam atividades intelectuais, mas eram vigiadas pelos superiores das ordens religiosas.

No século XIX, a cidade burguesa configurou-se como espaço masculino e a casa como espaço feminino, o estreito território em que as mulheres circulavam vigiadas de perto pelo olhar masculino. Nos espaços públicos, economia e política eram assuntos de homens que se reuniam nos cafés, bancos, clubes e bibliotecas. As mulheres pobres só eram percebidas em grupos, como entidade coletiva e abstrata, quando iam às feiras, às peregrinações religiosas, casamentos. A maioria vivia no mundo da oralidade, eram analfabetas; só bem mais tarde, as operárias deixariam traços de sua vida pública, mas quase nada sobre suas práticas cotidianas. Mulheres burguesas foram inseridas nos espaços públicos inicialmente como ornamento. Desfilavam roupas e adereços que tinham como finalidade exibir a posição social ou a fortuna de seus maridos, enquanto as mulheres do povo apareciam publicamente apenas quando “seus murmúrios inquietam em caso de pão caro, quando fazem algazarra contra os comerciantes ou os senhorios, quando ameaçam subverter com sua violência, uma passeata de grevistas.” (PERROT, 2005, p. 34).

Portanto, até o final do século XIX, o que se vê é uma história de mulheres pautada por silêncios, eventualmente vozes que soam ameaçadoras nos espaços públicos. Apesar desse

processo de apagamento, as mulheres avançaram. Aprender a ler e a escrever trouxe uma nova perspectiva de vida; vieram os livros de reza, os diários, os romances, as revistas femininas, a correspondência. Passaram a frequentar a escola, foram para a universidade, para o trabalho nas fábricas, para as ruas, ganharam o mundo.

No Brasil, com a ascensão da burguesia no século XIX, a família, as atividades femininas e suas tarefas domésticas se reorganizaram no interior de novas alternativas de convivência social no período de urbanização do país. O ideal de um ambiente familiar sólido, um lar acolhedor, uma esposa e mãe dedicada ao marido e aos filhos, longe do trabalho produtivo e alicerçado nas relações senhoriais transformaram as relações sociais do tipo burguês que implicavam abolir comportamentos tradicionais de família, vizinhança, compadres e tutelagem para a modernização da cidade. Nesse contexto, a rua configurou-se como novo espaço público em oposição ao espaço privado da casa, marcando um processo de privatização da família e consequentemente das práticas de leitura das mulheres. A mulher burguesa, pertencente à elite, circulava com mais freqüência nos cafés, encontros sociais, bailes. (D’INCAO, 2004).

Ainda no século XIX, no sertão nordestino, mulheres de famílias abastadas, como as filhas de fazendeiros, não frequentavam escolas; apenas uma minoria aprendia a ler com professores particulares que se deslocavam até à casa da aluna para ensinar as primeiras letras. Essas mulheres, muitas vezes, apenas assinavam o nome. Reclusas em casa, bordavam, costuravam, tocavam piano, enquanto os homens da família saíam para estudar, liam os clássicos em latim e conheciam o grego. (FALCI, 2004).

Nas primeiras décadas do século XX, as mulheres e crianças constituíam boa parte do proletariado no Brasil. As operárias da indústria têxtil tinham extensas jornadas de trabalho, eram mal remuneradas e sofriam constantemente assédio sexual. Parte delas militava no movimento anarquista e lia matérias sobre mulheres anarquistas, como Emma Goldman e outras leituras, nos periódicos A terra livre, A lanterna, A plebe, A voz do trabalhador. (RAGO, 2004).

No final do século XX, décadas de 1980 e 1990, as mulheres brasileiras estavam definitivamente no mercado de trabalho, nas escolas, nas ruas, nos movimentos sociais. Mesmo com a conquista de direitos trabalhistas e melhores condições de vida, continuaram ganhando salários bem mais baixos que os homens para realizar o mesmo trabalho e, ainda encontravam dificuldades para ingressar em diversas áreas de trabalho devido à falta de escolarização. (GIULIANE, 2004).

Benzer Belgeler