Após dissertar acerca de As bacantes, de Eurípedes, Girard (2008) constata que o objeto de disputa é a divindade, que resulta em destruição, em ruína. O autor reflete sobre essa relação que envolve a violência, o desejo e a divindade e afirma detectá-la muito antes, em Homero, a partir do nome kydos, definido
[...] em termos de prestígio quase divino, de eleição mística ligada ao triunfo militar. O kydos é aquilo que está sendo disputado nas batalhas e especialmente nos combates gregos individuais entre os gregos e os troianos (GIRARD, 2008, p.191).
68 Benveniste, em Le vocabulaire des instituitions indo-européennes, traduz o termo por “talismã de supremacia”, conforme cita Girard (2008) que, assim, conclui:
O kydos é a fascinação exercida pela violência. Onde quer que se mostre, ela seduz e atemoriza os homens; nunca é simples instrumento, mas epifania. Desde que ela apareça, a unanimidade tende a se realizar, contra ela ou a seu redor, o que significa o mesmo. Suscita um desequilíbrio, fazendo o destino inclinar-se para um lado ou para outro. O menor acontecimento violento tende a transformar-se em bola de neve, tornando-se irreversível. Os que detêm o kydos vêem sua força multiplicar-se, os que dele são privados têm os braços presos ou paralisados. Aquele que acaba de desfechar seu golpe sempre possui o kydos: o vencedor do momento, que faz que os outros acreditem, e que imagina também que a sua violência triunfou definitivamente. Os adversários do triunfador devem dispender um esforço extraordinário para escapar do encantamento e recuperar o kydos (GIRARD, 2008, p.191).
Conforme mencionado, quando a rivalidade torna-se exacerbada, o objeto concreto que se disputa desaparece e o que fica em seu lugar é a própria rivalidade40, o novo objeto que nada mais é do que o kydos. Girard (2008) observa que é comum traduzir o kydos por glória, mas se assim o fizermos, perdemos “o elemento mágico-religioso que dá todo o valor a este vocábulo”(GIRARD, 2008, p.191), conforme expressou Benveniste.
Mas os homens só terão temporariamente o kydos, “e sempre uns à custa dos outros” (GIRARD, 2008, p.192) e são os deuses que lhes conferem, “mas eles são também adversários que o disputam” (GIRARD, 2008, p.192).
Girard (2008) constata que, enquanto houver disputa pelo kydos, “o objeto de disputa supremo e inexistente” (GIRARD, 2008, p.192), não existirá “transcendência efetiva para estabelecer a paz. É a decomposição do divino na reciprocidade violenta que o jogo do kydos permite observar” (GIRARD, 2008, p.192). Assim, na Ilíada, os aqueus justificam sua “retirada estratégica” da seguinte maneira: ““Zeus, hoje, deu o kydos a nossos adversários, amanhã, talvez, ele no-lo dará”. A alternância do kydos entre os dois partidos não difere em nada da alternância trágica” (GIRARD, 2008, p.192).
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Ajax, como já mencionamos, já não quer mais armas de Aquiles e sim destruir quem o privou de tê-las. E isso ocorreu porque Atena conferiu o kydos a Ulisses.
69 Mostraremos que é dessa disputa sem vencedores de que nos fala tanto o coro composto por bacantes em Perdição, como também o seu personagem Tirésias.
Girard (2008) mostra-nos como isso ocorre em Eurípedes, mais exatamente, em Andrômaca (-425). Nesta peça a disputa não é física e sim espiritual, “invertendo a relação dominante e dominado” (GIRARD, 2008, p.192). De início, Hermíona, a esposa de Pirro e filha de Helena, mostra-se altiva em relação à concubina e escrava do marido, Andrômaca. Tenta livrar-se dela e do filho Molossos. Posteriormente, ocorre uma reviravolta trágica, após o fracasso de seu plano e quem se vê rebaixada é Hermíona diante de Andrômaca: “De que deus é preciso que eu, suplicante, abrace a estátua? É preciso prostrar-me, escrava, aos pés de uma escrava?” (GIRARD, 2008, p.193). Porém, sua Ama, prudente que é, diz-lhe: “Minha filha, não pude aprovar-te quando te abandonaste a um ódio excessivo contra a Troiana, nem agora, em teu excessivo terror” (GIRARD, 2008, p.193).
Levando em consideração que as “reações excessivas fazem parte das reviralvoltas” (GIRARD, 2008, p.193), Girard (2008), observa que elas não se limitam à Hermíona e lembra-nos de que Menelau travou debate trágico com Peleu, em torno da sua vontade de matar Andrômaca e o filho. Porém, Peleu, avô do ausente Pirro, intercede pela cativa, saindo vitorioso no debate e, ao dominar assim o “adversário”, “obtém o kydos” (GIRARD, 2008, p.193).
Girard não transcreve ou cita a passagem onde isso ocorre, mas vale citarmos:
Peleu – Pois tu medes-te com homens, ó vil malvado e descendente de malvados? Onde te é possível entrar no número de varões dignos? Ti que por um Frígio te viste privado da esposa, por não deixar a mansão do teu lar fechada, nem guardada por escravos, como se tivesses, em casa, uma mulher casta e não a pior de todas. Ainda que o quisesse, nenhuma donzela espartana poderia ser casta, porque abandonam as casas de coxas nuas e peplos flutuantes, e juntamente com os jovens, para freqüentarem estádios e palestras, o que para mim é intolerável. E, depois, devemos admirar-nos, se não conseguis educar mulheres castas? Deves perguntá-lo a Helena, que, deixando o teu deus familiar, fugiu de casa com um jovem para outra terra. E então, por causa dela, tão grande multidão de Gregos reuniste, para marchar
70 contra Tróia?! Devias repudiá-la e não pegar na lança, após descobrires que era malvada; deixá-la ficar lá e dar até uma recompensa, para jamais a receberes em casa. Mas tu de maneira nenhuma levaste teu pensamento a soprar nessa direção, e muitas e valentes vidas fizeste perecer, privaste as anciãs de sua descendência, em suas casas, e a encanecidos pais roubaste os nobres filhos. Eu deles sou eu, infortunado; e, em ti, eu vejo como que um gênio maligno, matador de Aquiles. Tu foste o único que nem ferido vieste de Tróia, e as tuas belíssimas armas, tais as levaste para lá nos belos estojos, iguais as trouxeste, aqui de novo. Bem lhe dizia eu, quando o casamento estava iminente, que a ti se não aliasse nem para casa trouxesse a cria de uma mulher malvada; pois reproduzem as vergonhas maternas. Cuidai-me, ó pretendentes, no seguinte: tomai filha de mãe honesta. E, além disso, que ultraje fizeste a teu irmão, exortando-o a sacrificar a filha da maneira mais estúpida?! Tanto receavas não ter a malvada esposa! E após tomar Tróia – pois irei contigo até esse ponto -, não mataste a tua mulher, quando a tiveste submissa, mas, logo que lhe olhaste o seio, lançaste fora a espada, recebeste o seu beijo a acariciaste essa cadela traidora, vencido por Cípria, miserável cobarde que és! (EURÍPEDES, s/d, p.23).
Como vimos, Peleu põe em dúvida até a honra de Menelau, visto que uma guerra foi feita por uma “cadela traidora” e ele foi o único a retornar de Tróia sem nenhum arranhão.
Sobre a oscilação do kydos, Girard afirma que ela nem é subjetiva, nem objetiva, pois
[...] ela é relação dominante a dominado, que nunca deixa de se inverter. Não deve ser interpretada nem em termos de psicologia, nem de sociologia. Não pode ser reduzida à dialética do mestre e do escravo, pois não possui nenhuma estabilidade e não implica nenhuma resolução sintética.
No limite, o kydos não é nada. Ele é o signo de uma vitória temporária, de uma vantagem imediatamente colocada em questão (GIRARD, 2008, p.193).
O autor compara o kydos aos troféus conquistados em eventos esportivos e que passam por vários vencedores, mas “que não precisam existir realmente para que se faça referência a eles” (GIRARD, 2008, p.193).
Como o objeto disputado, na verdade, não é nada, a disputa ganha ares de passatempo, já que aparentemente afeta “apenas superficialmente os protagonistas”(GIRARD, 2008, p.194). Mas para se corrigir esta impressão, diz
71 Girard que é necessário recorrermos ao termo thymós, que significa alma, espírito, cólera. A planta tomilho, que era queimada como incenso no altar (thymele), também era chamada assim. Sua fumaça, em sacrifício aos deuses, chamava-se thymos.
Sobre este vocábulo, Nascimento (2009) observa que
[...] thymos deriva da raiz indo-europeia dheu, que significa “acender em chamas”, “surgir em uma nuvem”, “fumar” (de uma pessoa indignada se diz que ela solta fumaça). Em sânscrito o vocábulo era dhuna, do qual vêm fumaça e perfume. Na Bíblia, e mais concretamente no Livro dos Reis, se faz também alusão a thymos como causa da raiva e da paixão (NASCIMENTO, 2009, p.66).
Como o kydos, o thymós possui um caráter alternativo, pois, quem demonstra um dinamismo irresistível, o possui. Caso contrário, se demonstra depressão ou angústia, dele está privado. Assim, fica-nos claro que “fazer fumaça, sacrificar e também agir com violência, perder o controle” (GIRARD, 2008, p.193) originam-se do mesmo termo e, com base nisto, podemos concluir que, ao sabor da violência, o thymós pode ir ou vir.