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Esse âmbito é propriamente onde se apreciam as correntezas profundas da longa duração (Braudel, 1980), que estruturam a ocupação de um território e que são importantes referenciais para o entendimento dos processos históricos de construção e manutenção de fronteiras culturais persistentes.

É a esse nível de resolução que lidamos com categorias analíticas como as tradições, que, vistas de uma perspectiva contemporânea, podem ser consideradas como práticas simbólicas que reafirmam uma continuidade entre passado e presente (Pauketat, 2001). Essa definição destaca o fato que as tradições não são passivas, pelo contrário, são maleáveis, sujeitas à politização e negociadas em múltiplas escalas. As tradições, nesse sentido, são parte do dinâmico e contingente processo de construção cultural, uma fluida reatualização do passado (vide Borofsky, 1987; Hobsbawn e Ranger, 1983; Pauketat, 2001; Sahlins, 1985; Toren, 1999; vide também Comaroff e Comaroff, 1991). Portanto, trata-se de processos históricos fundamentados na prática cotidiana, que predispõem os indivíduos a agir em determinadas maneiras, pelo fato que as próprias experiências são criadas sobre uma base social preexistente (ver Archer, 1996; Bell, 1997; Bourdieu, 1977; 1990; de Certeau, 1984; Giddens, 1979; 1984; Ortner, 1984; Sahlins, 1985). Reconhecer que existem estruturas que restringem o campo de reflexão e da ação não quer dizer que temos que pensar o processo de construção cultural como uma série de transformações limitadas por parâmetros objetivos e imutáveis, mas como algo que reiteradamente sintetiza tais parâmetros. O principal problema de usar o conceito de tradição como algo fator limitante os fenômenos morfogenéticos reside, então, no assumir a alta frequência de culturas amplamente compartilhadas, homogêneas e douradoras. Tal perspectiva disfarça o fato que a heterogeneidade cultural é a regra

91 antes da exceção; de consequência, é a continuidade cultural que demanda uma explanação.

Tomar uma posição desse tipo em relação ao conceito de tradição não equivale a negar a utilidade e o potencial heurístico das unidades descritivas histórico-culturais. De fato, como foi recentemente ressaltado no âmbito da arqueologia amazônica (Neves, 2011), o reconhecimento e a classificação de padrões abrangentes é o primeiro passo na direção de uma explanação processual. O que se torna necessário, a partir de tais pressupostos, é a mudança de perspectiva com a qual se aborda o estudo dos mecanismos identitários, que se presumem atuantes dentro dos limites de uma tradição no tempo. O reconhecimento que a variabilidade interna é regulada por práticas reflexivas e contextuais se torna, portanto, uma ferramenta heurística, no momento em que se considere que as culturas não são organismos que se desenvolvem em isolamento, já que, necessariamente, qualquer cultura está imersa no meio.

A ecologia cultural enfatiza o conceito de adaptação, moldado sobre as ciências naturais e a teoria da evolução, para explicar a variação cultural (Meggers, 1971; Moran, 1982; Sutton e Anderson, 2004). Tal modelo descreve fenômenos a um nível de resolução demasiado amplo para nossos propósitos e acaba desviando a atenção do impacto que as práticas cotidianas promovem sobre o ambiente ao longo do tempo. A ecologia histórica, pelo contrário, ressalta o fato que os indígenas da Amazônia criaram, transformaram e manejaram o meio ambiente, acumulando um conhecimento multigeracional (Erickson, 2010).

Nesse trabalho, o conceito de paisagem se torna então fundamental para a integração dos dados, porque aí convergem e se sintetizam todos os elementos que pretendemos considerar para interpretar a história da mudança cultural no baixo curso do rio Urubu. A perspectiva regional que pretendemos adotar nada mais é que uma arqueologia da paisagem política, ou melhor, uma arqueologia do território (Zedeño, 2008); portanto o foco procura estar apontado para os contextos onde se assume maior intensidade de práticas relativas à construção e negociação cultural. Esses últimos sugerimos possam estar ligados às áreas de controle dos recursos, como também de acesso à região; e, finalmente, propomos dirigir nossa atenção para o registro rupestre regional, o qual é uma rica fonte de informações produzidas com intento simbólico, caracterizada por exprimir um desejo de permanência no tempo. Por sua própria natureza estática e permanente, a arte rupestre é um canal muito importante para o estudo das relações entre as atividades e a percepção das paisagens pretéritas; e sua distribuição e estrutura

92 organizacional nos fala das relações entre espaço e lugares (Taçon 2010; Chippindale e Taçon 1998: Tilley 1994; Hodder 1993).

Como vimos, as variáveis ambientais serão aqui analisadas a partir de uma perspectiva histórica e contextual, onde o ambiente se torna objeto e meio de interação e disputa. Nessa ótica, os territórios não consistem de um uso indiferenciado da paisagem, mas podem ser parcelados em uma série de nódulos, ligados por corredores de acesso e cercados se fronteiras que se caracterizam como zonas de competição (Zedeno, 2008). Endereçamos, portanto, nosso foco analítico sobre algumas feições ambientais diretamente ligadas ao fluxo e à conexão entre diferentes nichos ecológicos e geográficos; procuramos investigar sua relação com a distribuição de diferentes sítios arqueológicos, caracterizados por certa intensidade na ocupação e por maior investimento simbólico. A esse nível de análise o conceito de lugar persistente (Moore e Thompson 2012), integrado em uma perspectiva teórica que considera a paisagem como culturalmente construída, socialmente reproduzida e politicamente ativa, se torna uma ferramenta analítica que direciona o levantamento e a interpretação dos dados (Stampanoni e Cavallini, 2013).

Para tanto propomos focar nossa pesquisa, de um lado, nas áreas que apresentam maior concentração de vestígios arqueológicos: mais no específico, nos sítios multicomponenciais com ocupação e cronologia mais profunda e nos sítios portadores de gravuras rupestres; do outro, nos canais fluviais sazonais (furos de captura, alguns ativos, outros abandonados), que conectam o baixo curso do rio Urubu com o médio Amazonas.

Tais locais oferecem a possibilidade de comparar diferentes ocupações, de refinar a cronologia regional e, segundo a perspectiva fractal, têm alto potencial de refletir mudanças estruturais. No caso da região do rio Urubu, como veremos nos próximos capítulso, parecem estar distribuídos na área de transição geológica entre a Formação Alter do Chão e a bacia sedimentar do rio Amazonas.

Se de um lado a produção de solos antrópicos, cerâmica e ferramentas líticas está tradicionalmente associada com atividades ligadas ao campo das interações entre homem e ambiente, do outro, a arte rupestre é considerada um registro indissoluvelmente ligado ao âmbito simbólico, de difícil interpretação inerente. Entretanto sua variabilidade técnica e formal e sua implantação no espaço são elementos passíveis de análise científica; além disso, no contexto do rio Urubu, foi possível o estabelecimento de parâmetros cronológicos para o fenômeno (Cavallini et al., 2015;

93 Cavallini, 2014; Stampanoni e Cavallini, 2015). De fato, o estudo dos processos morfogenéticos do rio permitiu, de um lado, a obtensão de uma datação para o sítio que apresenta a maior concentração de gravuras rupestres da região, pois se dispunha de uma relação direta na estrutura sedimentar; do outro, permitiu o controle cronológico para o processo geral de sedimentação, que está diretamente ligado à formação e obliteração de canais na várzea.

Resumindo, nossa proposta lida com a interpretação da variabilidade espacial, temporal e formal do registro arqueológico, posta em relação com as áreas chave para o manejo e o controle do território. Essa abordagem, além de possibilitar uma compreensão contextual das relações entre conjuntos arqueológicos, sugerimos possa favorecer a detecção de padrões para comparações a nível macrorregional.

Benzer Belgeler