• Sonuç bulunamadı

Num trabalho de 2005, Badiou nos mostra que as mesmas condições de engajamento e de originalidade das quais falávamos há pouco estavam presentes, de um modo geral, em outros campos do saber no século XX. No balanço proposto pelo autor, algumas categorias lacanianas vêm em auxílio ao seu diagnóstico do que ocorria então. Como o século XIX foi o século do imaginário, ou das constru- ções simbólicas utópicas, esperava-se que o século XX fosse o século de sua realiza- ção, que fosse, portanto, o século do real.514 O novo século não poderia mais convi- ver com as velhas utopias. Essa paixão do real seria a chave para a compreensão de tudo o que ocorreu no século XX.515 A tarefa que o século parece ter assumido fren- te ao real foi a de fazer o pensamento interromper a repetição. Sua determinação subjetiva maior foi inventar uma nova realidade aqui e agora. Cumprir o imperativo de instaurar um novo começo e “apagar os velhos dias”516.

Badiou propõe que os desenvolvimentos do marxismo e da psicanálise te- riam sido exemplares para ilustrar o que ocorreu. Inicialmente, foram os marxistas que deram uma extraordinária importância à noção de ideologia para designar a potência de disfarce da falsa consciência em relação ao real. A ideologia seria uma � gura discursiva pela qual a violência das relações sociais era mascarada, uma montagem imaginária para manter a consciência separada do real da exploração, da opressão e da desigualdade cínica. O conceito mesmo de ideologia cristalizava a certeza “cientí� ca” de que as representações e os discursos deveriam ser lidos como máscaras de um real que eles denotavam e dissimulavam.517

A psicanálise também teria seguido um caminho semelhante. Segundo Ba- diou, Althusser foi o primeiro � lósofo a abordar o conceito marxista de ideologia a partir do efeito imaginário, que Lacan atribui às formações do inconsciente para reconhecer a existência de um dispositivo sintomático em ação. A representação seria um sintoma ou a localização subjetiva de um desconhecimento (méconnais-

sance) de um real a ser decifrado.518 A palavra “sintoma” indica evidentemente que

há sobre essa potência de desconhecimento algo de comum entre o marxismo do

514 Cf. LACAN. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos, p.

254 – 255.

515 Cf. BADIOU. Le siècle, p. 35. 516 Ibidem. p. 54.

517 Cf. BADIOU. Le siècle, p. 75 – 76.

século e a psicanálise. Lacan deixou isso claro ao mostrar que o eu é uma constru- ção imaginária. O sistema real das pulsões só seria acessível ao ego por construções que promovem todo tipo de descentramentos e transformações. Nesse sentido, a psicologia da consciência seria também uma espécie de ideologia pessoal, isso que Lacan chamou de “mito individual do neurótico”519. Vê-se, portanto, que, em ambos os casos, o reconhecimento do real não seria imediatamente acessível. Contra o otimismo cognitivo do século XIX, que só conhecia a “efetividade”, foi necessário um certo tipo de engajamento para ensinar a reconhecer os mecanismos de dis- farce em ação.

Entretanto, o mesmo engajamento necessário ao desenvolvimento do mar- xismo e da psicanálise acabou provocando um desejo radical de depuração em várias situações ao longo do século. Havia na paixão do real uma busca pela verda- deira identidade. Uma paixão pela autenticidade que alimentava a busca da iden- tidade real, que comandava a ação de desmascarar suas cópias e de desacreditar as falsas aparências (semblants).520 A consequência disso é que o século XX, tomado por essa paixão, foi, de todo modo, o século da destruição.521

Badiou lembra que o próprio Lacan reconhecia que a experiência do real é sempre em parte uma experiência do horror.522 Mas o horizonte absoluto dessa paixão já havia sido antecipado muito antes por Hegel em seu comentário sobre o terror revolucionário na Fenomenologia do Espírito.523 A depuração foi, no campo político, uma das grandes palavras de ordem do século XX. Nessa perspectiva, o real alcançado jamais parecia ser su� ciente para que não houvesse mais suspeição sobre os semblants. Badiou demonstra que todas as categorias políticas revolucio- nárias, como “convicção”, “lealdade”, “virtude”, “posição de classe”, “obediência ao partido”, “zelo revolucionário” etc, são marcadas por esse tipo de suspeição. Diante disso, fazia-se necessário, a todo o momento, depurar os sujeitos que reclamam para si a categoria em questão. E parecia ser importante fazê-lo publicamente, se- gundo um cerimonial que se destinava a um ensinamento moralizante sobre as in- certezas do real. Nesse sentido, Badiou lembra que as palavras de ordem de Stalin eram “O partido só se reforça ao se depurar”524.

Na verdade, a violência depurativa posta em ação por Stalin para extermi- nar uma parte importante do próprio establishment comunista no � nal dos anos 1930, como sabemos, é também uma forma de gozo. Isso nos leva mais uma vez

519 Ibidem. p. 77.

520 Cf. BADIOU. Le siècle, p. 87. 521 Ibidem. p. 85.

522 Ibidem. p. 36.

523 Cf. BADIOU. Le siècle, p. 82, nota 1.

a questionar se essa seria a única experiência possível do real. Entretanto, Badiou demonstra que a versatilidade do século conheceu nas artes outro tipo de experi- ência. O pensamento como distância entre o semblant e o real, posto em ação pelo próprio semblant, teria sido um axioma da arte de vanguarda no século. Houve um empenho em se fazer � cção da própria potência da � cção. Mostrar a distância entre a facticidade e o real tornou-se a questão principal da facticidade. Era preciso fazer a experiência dessa própria distância. Foi por isso que o século XX propôs gestos artísticos que seriam anteriormente impossíveis, apresentando como arte o que antes não seria considerado mais que um dejeto. Em síntese, esse tipo de gesto artístico demonstrava ser possível promover um “arrombamento” (eff raction) do semblant, por seu próprio uso.525

No que diz respeito à psicanálise, sabemos que Lacan também se deu conta disso. A� nal, era vital para a psicanálise encontrar uma forma de lidar com o real do desconhecimento (meconnaissance) e do engano (méprise) sem pretender depu- rar e nem apelar para o desejo puro. Depois dos impasses gerados pelo fato de ter associado o desejo do analista, como objetivo � nal de uma análise, ao desejo puro, Lacan reti� ca sua posição para a� rmar em O seminário XI que “o desejo do analista não é um desejo puro”, mas o desejo de obter a diferença absoluta526. Além disso, sabemos que, nos anos que se seguiram imediatamente a este seminário, Lacan se dedicou à formulação de uma lógica para demonstrar “não haver outra entrada para o sujeito no real senão a fantasia”.527

Na verdade, a a� rmação feita no Seminário XI já indicava que sua nova orientação se voltava para uma direção oposta àquela da identidade depurada. Mas como nos esclarece Zizek, é somente na fase � nal de seu ensino que se torna clara a maneira como devemos conceber a tese de que “o desejo do analista não é um desejo puro”528. Todas as de� nições lacanianas anteriores do momento � nal do processo analítico, isto é, do “passe” do psicanalisante à psicanalista, ainda implica- vam uma espécie de “puri� cação” do desejo. Primeiro, tínhamos que nos livrar dos sintomas como formação de compromisso, e, depois, tínhamos que “atravessar” a fantasia como o plano que determina as coordenadas de nosso gozo. Em outras palavras, o “desejo do analista” deveria ser um desejo purgado do gozo. Entretanto, na fase � nal, a perspectiva inteira se inverteu: devemos nos identi� car precisamen- te com a forma particular de nosso gozo.529 A análise termina quando nos identi- � camos precisamente com a singularidade patológica de um gozo destituído de

525 Cf. BADIOU. Le siècle, p. 77 – 78.

526 Cf. LACAN. O seminário, livro XI: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 260. 527 Cf. o Resumo de O seminário de LACAN. A lógica da fantasia. In: Outros escritos, p. 326. 528 ZIZEK. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia, p. 178.

sentido. No lugar de uma identidade de signi� cação fechada constituída a partir de uma rede de signi� cações, temos apenas uma identi� cação com um traço iso- lado do sintoma fora de seu contexto. Para tratar o gozo estúpido, basta isolá-lo de seu contexto. Fazer ver a sua profunda estupidez. O tratamento, portanto, não deveria pretender a desconstrução do caráter ideológico arti� cial para revelar a “verdade”. O sujeito só precisaria perder o fascínio que tem em relação à signi� ca- ção de seu sintoma. Pode então se identi� car com esse resto da fantasia que não é mais que um dejeto, um fragmento de real desprovido de sentido.530 Voltaremos a essa questão mais adiante.

A descoberta de Lacan de que saber como lidar com o real é não ter a pre- tensão de ultrapassar a dimensão ideológica do semblant é acompanhada de duas outras conclusões. A primeira é a de que a perspectiva libertária implica também um gozo, colocando em dúvida se ela, efetivamente, jamais produzirá a destitui- ção do sintoma. A pretensão de nos vermos livres das representações enganosas também é colocada em xeque. Somos obrigados a operar com os semblants e é isso que faz com que sejamos, de certo modo, reféns da linguagem. Entretanto, isso não signi� ca que só nos resta o conformismo resignado. Não é necessário � car inteiramente assujeitado ao Outro e à signi� cação do sintoma. Nada indica que a aspiração libertária de uma completa suspensão do efeito da cadeia signi� cante sobre o sujeito seja atingida, mas talvez seja possível produzir um gozo alternativo àquele do comando superegoico. É isso que nos conduz à segunda conclusão: o fato de reconhecer a necessidade de lidar de algum modo com a dimensão ide- ológica do semblant para produzir outro tipo de gozo levou Lacan a reavaliar a questão da utilidade.

Benzer Belgeler