Tomando por referência as categorias analíticas teóricas definidas a partir dos conceitos e pressupostos adotados neste estudo, detalharei as categorias empíricas que foram identificadas no corpus da pesquisa. No entanto, para deixar claro a categorização que utilizei para a analítica do material de pesquisa produzido, esclareço antes, de forma resumida, a relação entre elas com a indicação das categorias teóricas e as correspondentes empíricas.
A primeira categoria analítica teórica trabalhada neste estudo refere-se à Educação e à Escola (como instituição educacional). Derivada desta categoria teórica temos as categorias empíricas “Uso da TV” e “Formação Docente”, onde os participantes da pesquisa mostraram como a mídia televisiva era utilizada em suas escolas, e como as formações docentes impactavam tanto na prática pedagógica quanto nas relações que eram estabelecidas entre os profissionais das duas instituições.
A segunda categoria analítica teórica do trabalho relaciona-se à Mídia, TV e suas influências na sociedade pós-moderna. Vincula-se a essa categoria teórica a categoria empírica “Concepção acerca da Mídia Televisiva”, onde professores e gestores apresentaram suas visões a respeito da mídia televisiva, e como essas visões eram influenciadas pelo discurso da própria mídia a respeito do que significa ser professor.
Finalmente, a terceira categoria teórica da pesquisa é a Educomunicação. A esta última categoria corresponde a categoria empírica “Interpretação da Educomunicação”, onde os docentes participantes deste estudo apresentaram sua própria visão a respeito da Educomunicação e de como achavam que ela poderia auxiliar a prática docente. Essa foi a categoria teórica utilizada para analisar o discurso dos professores, uma vez que caracterizou- se como principal suporte teórico do estudo, abrangendo diversas situações presenciadas nas duas escolas (em Fortaleza e em Brejo Santo) no que diz respeito à prática docente relacionada ao uso da TV.
O uso da Educomunicação como categoria teórica e como um dos critérios de análise do discurso de docentes e gestores a respeito do uso da mídia televisiva, se dá justamente por nossa identificação com os presssupostos adotados por esse campo de conhecimentos, especialmente no que concerne às análises e reflexões que são propostas pela Educomunicação a respeito da relação entre as diversas mídias e o ensino formal escolar. Partimos do pressuposto de que, se antes a relação entre Mídia (encarada aqui de forma geral em suas várias plataformas) e Educação era considerada de maneira utilitária e mecânica (onde cabia ao professor ter o domínio técnico dessas ferramentas para utilizá-las em sala de aula), agora essa relação deve ser encarada de forma mais abrangente, política, menos tecnológica e mais humanizada, uma vez que o uso das Mídias na Educação pode ser feito sob diversos enfoques, tais como estimular a leitura crítica de diversas plataformas (computador, televisão, celular, tablets, etc.), refletir sobre o uso pedagógico e democrático das Mídias em sala de aula, e estimular o acesso ao manuseio dessas mesmas Mídias, facilitando o processo de inclusão digital entre crianças, jovens e adultos que tem dificuldades em acessá-las (OROZCO-GOMEZ, 2011). Assim, partimos da ideia de que os discursos analisados em nosso estudo, podem ser melhor discutidos se forem abordados a partir dos pressupostos teóricos educomunicativos, como forma de enriquecer as reflexões a respeito desses próprios discursos.
A análise dos dados obtidos nas atividades realizadas na pesquisa (entrevistas individuais e grupos focai) teve como suporte teórico a Teoria do Discurso apresentada por Bakhtin (2009), e de autores que tiveram o discurso com base de seus estudos (Faraco, 2009; Maningueneau, 2014). As declarações dos participantes da pesquisa foram analisadas a partir deste arcabouço teórico, onde consideramos o discurso como algo além do que é dito (as palavras), mas também essencialmente como aquilo que não é dito, mas explicitado através de ações, sempre sujeito ao contexto em que os enunciadores se encontram, já que as palavras enunciadas tratam apenas do tema dos discursos (de maneira superficial), mas não explicitam
o que o enunciador realmente quis dizer com aquelas palavras. Assim:
Para penetrá-lo completamente no seu conteúdo (conteúdo das palavras), é indispensável integrá-la na construção do discurso. Se nos limitarmos ao tratamento do discurso em termos temáticos, poderemos responder às questões “Como” e “De que falava Fulano?”. Mas “O que dizia ele?” só pode ser descoberto através da transmissão das suas palavras. (BAKHTIN, 2009, p. 150).
Para auxiliar a análise dos discursos dos participantes de nossa pesquisa (professores e gestores) fizemos uso da análise de vídeos a partir das filmagens que foram feitas dos grupos focais realizados nas duas escolas participantes do estudo. Todas as filmagens foram devidamente autorizadas pelos participantes (através de Termo de Consentimento assinado por professores e gestores escolares), e com isso pudemos trabalhar de forma mais clara sobre as posturas dos participantes dentro do contexto escolar (não nos limitando às suas declarações durante as entrevistas individuais).
A análise de vídeos foi feita de forma simples e objetiva: decididmos não transcrever todas as filmagens em sua totalidade, pois consideramos que inicialmente, era mais importante assistirmos todos os vídeos com atenção, ao invés de transcrevermos todas as sessões dos grupos focais nas escolas. Dessa forma, procuramos assistir os vídeos, analisando as declarações de docentes e gestores de forma minuciosa, demarcando os atos e declarações que considerássemos mais importantes em cada vídeo, de acordo com os objetivos do estudo.
Após identificarmos os trechos que nos tivessem chamado a atenção em cada vídeo, transcrevemos somente esses trechos como forma de nos aprofundar na análise detalhada das declarações e posturas dos participantes, dando atenção exclusiva aos discursos manifestados nas situações que escolhemos. Essa estratégia nos ajudou bastante na análise dos discursos dos participantes, pois percebemos que os discursos de professores, coordenadores e diretores escolares era contraditório e sempre sujeito a contra-argumentações que pareciam deixar os participantes receosos do que dissessem nos grupos focais e nas entrevistas. Assim, o trabalho de análise de pequenos trechos das filmagens realizadas, assim como a própria realização das ilmagens em si nos auxiliou de forma considerável na análise dos discursos dos participantes, uma vez que procurávamos justamente compreender como o discurso de professores e gestores se manifestavam no cotidiano das escolas participantes de nossa pesquisa, já que “todo discurso é uma prática social” (GILL, 2008, p. 248).
A construção das categorias analíticas empíricas e sua associação com as categorias analíticas teóricas correspondentes, só feita feita após todo o trabalho de seleção dos trechos considerados importantes, a partir das filmagens realizadas. Como tivemos uma
grande quantidade de horas filmadas junto aos participantes da pesquisa (quase 15 horas ininterruptas de filmagens dos grupos focais nas escols da Capital e no Cariri), transcrever todas as filmagens nos pareceu ser prejudicial para a melhor compreensão das declarações e ações dos participantes, uma vez que nem todas as suas declarações nos pareceram ser dignas de uma análise mais minuciosa (após termos assistido todas as filmagens por completo). Após isso, as análises dos pequenos trechos que foram selecionados tornou-se mais produtiva para os objetivos desta pesquisa, uma vez que facilitou a codificação dos dados (e a posterior criação das categorias empíricas de análise), já que “[...] a codificação é uma maneira de organizar as categorias de interesse” (GILL, 2008, p. 254).
Conforme descrito acima, o uso de vídeos na análise dos dados foi essencial para que pudéssemos alcançar com mais clareza (por conta das imagens) detalhes que muitas vezes não tínhamos captado quando da realização das próprias filmagens nas atividades da pesquisa. Todavia, o uso de vídeos para a análise dos dados não significou necessariamente nenhuma “facilidade” no que diz respeito à interpretação dos dados, propriamente dita; ao contrário: a análise dos dados a partir do uso de vídeos teve de ser constantemente repensada, pois é comum que se pense que as tecnologias podem “facilitar” análises de dados numa pesquisa. Na verdade, “[...] as imagens são uma contribuição, não um fim” (LOIZOS, 2008, p. 153). Por isso, procuramos sempre ter em mente que a análise minuciosa do discurso dos participantes a partir do uso de vídeos, tinha de ser feita de maneira coerente com os objetivos da pesquisa, e acima de tudo de forma cuidadosa, uma vez que a análise de imagens e declarações de terceiros (mesmo que devidamente autorizadas) é uma questão delicada capaz de levantar “[...] questões éticas nas mentes de defensoes de direitos humanos” (LOIZOS, 2008, p. 150).
4. TELEVISÃO E EDUCAÇÃO: UMA RELAÇÃO CONFUSA E CONTRADITÓRIA