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Diante da proposta de refletir a perspectiva sobre acontecimento assumida por uma Semântica de base enunciativa, pensamos ser fundamental iniciar nossa análise com a exposição das ideias defendidas por Émile Benveniste, afinal, em sua enorme contribuição aos estudos linguísticos, destaca-se o conceito de enunciação. Segundo ele, o indivíduo coloca em funcionamento as formas da língua ao utilizá-la. “A enunciação é este colocar a língua em

funcionamento por um ato individual de utilização.” (BENVENISTE, 1989, p.82).

Sua teoria é a de que, quem enuncia, enuncia para alguém, em algum lugar e em algum tempo. É, pois, em torno desses três eixos que se configura a enunciação: as pessoas (eu-tu), o espaço (aqui-lá) e o tempo (agora-depois). O locutor apropria-se da língua, cuja materialidade pertence ao aparelho formal, e a coloca em funcionamento em determinado tempo e espaço. Nesse sentido, é fácil percebermos que, para Benveniste, o ato de enunciar é de responsabilidade do locutor, sendo ele o centro da enunciação, capaz de constituir o outro como seu interlocutor.

O ato individual pelo qual se utiliza a língua introduz em primeiro lugar o locutor como parâmetro nas condições necessárias da enunciação. Antes da enunciação, a língua não é senão possibilidade da língua. (...) Enquanto realização individual, a enunciação pode se definir, em relação à língua como um processo de apropriação. O locutor se apropria do aparelho formal da língua e enuncia sua posição de locutor por meio de índices específicos, de um lado, e por meio de processos acessórios, de outro. (BENVENISTE, 1989, p.83-84).

Em outras palavras, nos pressupostos teóricos traçados por Benveniste, a língua prepara marcas para a entrada do sujeito. Sendo assim, enunciar é entrar no aparelho formal da enunciação, apropriar-se da língua, individualizar-se e, ao mesmo tempo, assumir uma intersubjetividade linguística. Vale-se ressaltar que essa intersubjetividade conferida ao

sujeito não é percebida pelo autor como um processo de interação. Não se trata de um “eu” e de um “tu” considerados como falantes. O “tu” é invocado pelo “eu”, já no aparelho formal

da enunciação. Isso permite afirmar que na própria língua estão os instrumentos de individualização e que eles são pré-existentes ao sujeito.

Diante disso, Benveniste não precisa suscitar a noção de acontecimento em sua teoria. Para ele, acontecimento seria apenas a perspectiva da entrada do sujeito na língua e essa entrada constitui-se como condição inexorável para que o homem ganhe a dimensão de indivíduo e para que a formas linguísticas adquiram status de unidade.

Como podemos observar, a teoria de Benveniste é uma teoria subjetivista porque se centra predominantemente em apenas uma das faces do sujeito da enunciação: o locutor. Daí decorre o questionamento de Guimarães (2005) a essa proposta de tratamento da enunciação:

diria que este aspecto faz parte dos problemas do tratamento enunciativo de Benveniste, ao qual se acresce para mim, como para outros linguistas e para a análise de discurso, a questão da centralidade deste sujeito da enunciação. Não se trata de um sujeito psicológico, não se trata de um sujeito pragmático, por exemplo, mas trata-se de um sujeito que tem a capacidade de apropriar-se da língua e semantizar, e fazer significar. (GUIMARÃES, 2005, p. 47).

Para Guimarães, mesmo sendo esse um posicionamento teórico que prevê no processo de constituição do sentido a presença da exterioridade linguística, ou seja, que prevê a entrada do sujeito29 na língua ainda há um elemento que é excluído dessa constituição, a história. E, segundo o autor, é exatamente a inclusão da história que determinará o sentido.

29 Vale dizer que a concepção de sujeito, proposta por Benveniste, sofrerá alterações e será ampliada em Guimarães (2002).

Nesse momento, ao suscitarmos a presença da história como um dos fundamentos da Semântica da Enunciação é preciso que seja trazido para o campo das discussões aqui estabelecidas, Oswald Ducrot. A retomada das contribuições teóricas propostas pelo autor se

justifica porque seu conceito de enunciação como um “acontecimento histórico, isto é, o fato

de uma frase ter sido objeto de um enunciado” (DUCROT, 1987, p.369), parece sinalizar não só para o aparecimento da noção de acontecimento no ato enunciativo, como também para a inclusão da história nesse processo. Segundo o autor, uma língua se organiza em torno de um conjunto de frases, que corresponde a um conjunto de estruturas. O acontecimento seria, então, a atualização dessas frases pelo enunciado.

A grande questão a ser analisada, na proposta trazida por Ducrot, é a tese de que o enunciado é individual, ficando o caráter da recorrência circunscrito apenas à frase. O autor considera

que “a realização de um enunciado é de fato um acontecimento histórico: é dada existência a alguma coisa que não existia antes de falar e que não existirá depois.” (DUCROT, 1987,

p.168). Assim, a historicidade suscitada no conceito de enunciação se configuraria apenas porque o acontecimento é marcado no tempo e no espaço. Nesse sentido, a mesma frase, atualizada em tempo cronológico diferente, constitui um novo enunciado porque o tempo histórico não é o mesmo. Em outras palavras, o acontecimento é histórico porque o enunciado tem o caráter da irrepetibilidade.

O conceito de história apresentado por Ducrot deve sofrer um deslocamento, uma vez que, conforme delineado, o autor percebe o acontecimento apenas como a efetivação de um ato, ou

seja, apenas como a passagem da frase para o enunciado. Sob esse viés de análise “a enunciação é vista como o lugar do sempre novo.” (GUIMARÃES, 1989, p. 73).

Mesmo quando Ducrot, no decorrer de seus trabalhos, apresenta a proposta de que consideremos como anterioridade discursiva o conjunto de enunciados produzidos historicamente, ele pressupõe que esses enunciados anteriores são apenas matéria-prima para direções argumentativas, âncoras de sentido que se fixam para produzir as bases da argumentação, ou seja, há uma recorrência de sentido do passado, que legitima a argumentação presente, no dizer do autor. Esse fato distancia a irrestrita filiação conceitual dessa pesquisa aos pensamentos ducrotianos, uma vez que em nossa perspectiva o acontecimento enunciativo constitui-se, também, da historicidade sintática presente nos enunciados anteriores. Em outras palavras, uma sintaxe de base semântica considera a necessidade de um olhar histórico, também, no que se refere à materialidade linguística.

Sendo assim, o olhar para o passado, na posição enunciativa que assumimos, é um olhar que capta enunciado e sentença; enquanto para Ducrot, a historicidade do enunciado era suficiente no que se referia aos princípios de análise por ele empreendidos. Vale ressaltar que, mesmo na fase inicial de seu trabalho, o autor ao se apropriar do conceito de frase não a percebia como sentença, ou seja, não se preocupava com a análise da configuração sintática daquela materialidade linguística, interessava-lhe apenas o esquema argumentativo aí estabelecido, os marcadores de argumentação que constituíam essa frase.

A proposta à qual se vincula a Semântica da Enunciação pretende, portanto, guardar a relação com as formas linguísticas, conforme propõe Benveniste e a com a inclusão da história, de acordo com as formulações de Ducrot. Entretanto, para uma Semântica de bases histórico- enunciativas, torna-se importante romper com as duas marcações de individualidade que as teorias anteriores postulam: a individualidade do sujeito, que acontece pela entrada do homem no aparelho formal da enunciação e a individualidade do enunciado, que, ao surgir, apaga os enunciados anteriores efetivando-se como singular.

Nesse sentido, nos filiamos à perspectiva de que o acontecimento não pode ser visto como algo pontual e linear, e sim como um construto histórico que, por meio de inúmeros entrecruzamentos, é capaz de construir um estado de coisas. Trata-se, portanto, de algo relacional, mas que, ao surgir, é capaz de originar alterações no já posto, no já estabelecido. Nesse sentido, o acontecimento faz surgir o novo, traz dentro de si uma atualidade porque ele interfere no estado de mundo, com repercussões de maior ou menor magnitude. Entretanto, para que ele realize essa interferência é preciso que se constitua, também, de uma carga de dizer já marcada anteriormente.

Passemos agora a explicitar melhor os pontos que acabamos de sinalizar sobre a perspectiva que adotamos acerca do que seja acontecimento enunciativo.

Benzer Belgeler