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Estando aqui reunidos vários matutos, dos quais alguns vinham receitar,

entre conversas diziam: ‗Então os senhores vieram correr o Brasil?‘.

Queriam dizer todo o Ceará, porque para [f. 176] esta gente o Brasil é o Ceará; tudo o mais é estrangeiro. (...) Estando eu o Manoel colhendo algumas plantas, passavam dois sujeitos (pardos ou cabras) e chegando-se para nós perguntaram para que fazíamos aquilo, e dizendo-lhes nós, por graça, que estávamos descobrindo as riquezas do seu país, replicaram dizendo: Nós cá somos empedrados, não sabemos nada.38

O botânico viajante Freire Alemão, em toda sua trajetória pelo Ceará, resguardava o costume de registrar, em seu diário, o que considerava como as categorias raciais dos homens, mulheres e crianças que ele encontrava pelo caminho: ―Há aqui muito poucos pretos, quase todo o serviço é feito por mulatos e mamelucos‖. Conforme seguia em direção ao interior, este cientista ia caracterizando a gente do local como se eles apresentassem distintos aspectos que os dividissem em categorias diferentes, chegando a citar pelo menos cinco delas: pardo, preto, cabra, mulato e mameluco.

Os matutos, para o olhar analítico do viajante, traziam em suas tonalidades de peles as marcas de uma gente diferenciada. Esta percepção de camadas sociais, contudo, não estava apenas registrada nas tonalidades de suas peles, mas se faziam perceber principalmente pelas diferenças de costumes, comportamentos e culturas, que os constituía uma gente peculiar para a elite senhorial daquela época. A resposta do matuto que Freire Alemão fez questão de enfatizar Nós cá somos empedrados, não sabemos nada, indica que o que os fazia diferentes estava profundamente relacionado a questões sociais e étnicas, que ficaram endurecidas pelo olhar preconceituoso do viajante.

38

ALEMÃO, Francisco Freire. Diário de viagem de Francisco Freire Alemão. Fortaleza – Crato, 1859. Fortaleza: Museu do Ceará. Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, 2006, p. 228.

Contudo, aceitar estas questões como sociais não estavam na ordem dos estudos desenvolvidos em fins do século XIX. Se, por um lado, o viajante fez alusão, ainda que despropositada, das diferenças sociais e culturais entre os habitantes do Ceará, por outro lado, suas categorizações de cunho racial estavam balizadas e vinculadas às percepções oficiais sobre as raças, que se desenvolveram na segunda metade do século XIX.

A sociedade brasileira dos oitocentos, de acordo com Rangel Cerceau Netto, tinha sua distinção constituída na ―intensidade das misturas e dos trânsitos entre povos e culturas que aqui habitavam e dos que para cá vieram pela força, pela necessidade ou pela vontade própria em momentos diversos da nossa história‖.39

Ainda segundo Cerceau Netto, a definição de mestiçagem está ligada ao seu adjetivo latino ‗mixticius‘ que significa um sujeito que nasceu da mistura entre diferentes. Essa designação, no entanto, deu margem ao impasse percebido nos escritos de intelectuais dos oitocentos que, ao invés de tomar a ideia de mestiçagem relacionada a um campo de possibilidades e de mudança de conceitos, preferiu tomá-la pelo viés biológico e de hierarquização social.40

Conforme João de Figueirôa-Rêgo e Fernanda Olival, já entre os séculos XVI ao XVIII,

além de negro, preto e índio, mestiço, mulato, mameluco, cabra, pardo, baço, crioulo, etíope, guinéu, cafre, fusco, cafuzo, trigueiro, branco da terra foram algumas das formas vocabulares para designar não etnias, mas a presença de gente de cor em Portugal e no império atlântico. Desde logo, esta diversidade de denominações, algumas com carácter regional, outras oscilantes em funções de interesses em vista, configura uma dificuldade acrescida quando se pretenda observar o relacionamento sócio-racial. Na época, adjectivar seria, tanto ou mais do que descrever, classificar socialmente.41

No Brasil do século XIX, da mesma maneira, o entendimento do processo de mestiçagem permanecia atrelado à ideia de que este era oriundo exclusivamente de cruzamentos genéticos, dos quais intelectuais ‗cientificistas‘ chamavam de formadores de ‗raças humanas‘. No entanto, a elite senhorial da época percebia essa mistura, contudo, não como um processo arraigado em todos os setores sociais. Sua compreensão estava firmada na

39

CERCEAU NETTO, Rangel. População e Mestiçagens: a família entre mulatos, crioulos e mamelucos em Minas Gerais (séculos XVIII e XIX). In: PAIVA, Eduardo F; IVO, Isnara P. & MARTINS, Ilton C. Escravidão, Mestiçagens, Populações e Identidades Culturais. São Paulo: Annablume, Belo Horizonte: PPGH – UFMG; Vitória da Conquista: Edições UESB, 2010, p. 165.

40

CERCEAU NETTO. Op. Cit .p. 167.

41

FIGUEIRÔA-RÊGO, João de & OLIVAL, Fernanda. Cor da pele, distinções e cargos: Portugal e espaços atlânticos portugueses (séculos XVI a XVIII). In: Tempo [online]. 2011, vol.16, n.30, pp. 115-145, pp. 116 – 117.

ideia de que era o outro, sobretudo o indivíduo pertencente às classes pobres, que trazia as marcas da mestiçagem.

No período oitocentista, os debates políticos passaram a se coadunar com os debates intelectuais, pretensamente científicos. Africanos e indígenas eram entendidos nesses debates a partir de suas diferenças com a cultura eurocêntrica, que os intelectuais julgavam como a irradiadora da civilização e do progresso. Dessa maneira, era preciso resolver o entrave causado pela ‗mistura‘ dos sangues e, consequentemente, da mescla de culturas entendidas como inferiores à europeia, que, acreditavam, trazia muitos danos à vida social.

Essa preocupação se dava pelo aumento significativo de pessoas de cor na sociedade, comprovada pelos levantamentos populacionais durante todo o século XIX. Conforme Larissa Viana, o censo de 1872 atestava que mais de 70% da população brasileira era composta por pessoas de cor livres.42

Era perceptível que esse ‗problema‘ não estava restrito à população escrava.

Essa, todavia, não era uma percepção apenas discutida na segunda metade do século XIX. Tratava-se de uma discussão que se confundia com a instituição do Brasil enquanto Império, iniciado no ano de 1822, independente de forma oficial do reino português, e sua formação como espaço delimitado por fronteiras e organizado social e culturalmente. E, mais ainda, pela urgente necessidade de criar a imagem do cidadão nacional. Essa era a tônica de discursos proferidos na Assembleia Geral Constituinte e Legislativa, e também a Representação escrita por José Bonifácio em 1823:

é tempo pois, e mais que tempo, que acabemos com o tráfico tão bárbaro e carniceiro; é um tempo também que vamos acabando gradualmente até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações uma Nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes.43

A formação do Brasil como uma Nação – com letra maiúscula, no original - desde a primeira metade do século XIX se mostrava atrelada, de maneira visceral, ao aniquilamento da escravidão no país. Essa forma de extinção do trabalho escravizado e, como consequência, da entrada do elemento negro no Brasil, devia ser gradual, porém definitiva. Assim, ao se referir a uma Nação homogênea, José Bonifácio indicou a impossibilidade da constante inserção do africano na sociedade brasileira, que não poderia continuar contando uma história

42

VIANA, Larissa. O idioma da mestiçagem: as irmandades de pardos na América Portuguesa. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007, p. 22.

43

BRASIL. Senado Federal. Abolição no parlamento: 65 anos de luta. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Arquivo, 1988. 2 v, p. 1113.

de um povo degradado pela escravidão, pois, assim, a nação brasileira não seria respeitável e feliz.

O início do século XIX, nesse sentido, deveria marcar o momento da construção da nação e do povo brasileiro. Para que houvesse êxito nesse objetivo, era necessário que fosse narrada uma história que envolvesse os temas ―ordem‖ e ―progresso‖, e, em suma, fosse visionária. ―As esperanças‖, portanto, ―tinham que ser depositadas no futuro, entendido naquele contexto como o momento em que o país finalmente ultrapassaria o tempo de incompletude‖ 44 para que o seu futuro espelha[sse] essa grandeza.

Em última instância, a expectativa de José Bonifácio em relação à abolição do tráfico África-Brasil se mostrava muito mais vinculada a uma preocupação com a herança cativa, ou mesmo negra, uma vez que esses termos eram percebidos como sinônimos, na descendência brasileira. Nesse sentido, fazia-se imperioso apagar as marcas do cativeiro na construção da nação e do cidadão nacional.

A grande questão colocada por Bonifácio eram as vicissitudes trazidas pela mestiçagem aliada à escravidão. Em primeiro lugar, via como necessária a mudança por parte dos senhores de escravos, ―porque o homem, que conta com os jornais dos seus escravos, vive na indolência, e a indolência traz todos os vícios após si‖.45Em sua opinião, ―não pode haver indústria segura e verdadeira, nem agricultura florescente e grande com braços de escravos viciosos e boçais‖.46

A questão estava no estímulo à produção e a percepção de que a lavoura no Brasil não podia se restringir ao mercado interno.

Em segundo lugar, ainda em sua Representação, estava evidente o receio, assim como a incerteza quanto a classificação dos nativos e escravos como cidadãos brasileiros. Este apontava, em 1823, que

como Cidadão livre e Deputado da Nação dois objectos me parecem ser, fora a Constituição, de maior interesse para a prosperidade futura deste Império. O 1ª he hum novo regulamento para promover a civilisação geral dos índios do Brasil, que farão com o andar do tempo inúteis os escravos; cujo esboço ja communiquei á esta Assembléa. 2º Huma nova Lei sobre o Commercio da escravatura, e tratamento dos miseráveis cativos. (...) Mas como poderá haver huma Constituição liberal e duradoura em hum paiz continuamente habitado por huma multidão immensa de escravos brutaes e inimigos? (...) He da maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade physica e civil; cuidemos pois desde já em combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários, e em amalgamar tantos metaes diversos, para que saia hum

44

DE LUCA, Tânia Regina. A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999, 159, [grifo meu].

45

BRASIL. Senado Federal. Abolição no parlamento: 65 anos de luta. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Arquivo, 1988. 2 v, p. 20.

46

todo homogêneo e compacto, que se não esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política.47

Ao tentar apresentar soluções, o autointitulado Cidadão Bonifácio apontou para o que a sociedade entendia como problemática: civilizar os nativos para serem considerados brasileiros e acabar com o tráfico e a escravidão para homogeneizar o cidadão da nova nação. Sua intenção, no entanto, era mostrar a necessidade de se controlar e conformar a população brasileira para que autoridades e elites senhoriais pudessem governar sem o espectro de convulsões políticas causadas pelas diferenças sociais. Contudo, ele mesmo havia apontado, dez anos antes, que a gestação de uma identidade nacional para uma sociedade marcada pelo trabalho escravo e pela existência de populações indígenas envolvia dificuldades específicas, pois "amalgamação muito difícil será a liga de tanto metal heterogêneo, como brancos, mulatos, pretos livres e escravos, índios etc. etc. etc., em um corpo sólido e político".48

Em sessão da Câmara dos Deputados, no dia 29 de setembro de 1823, a dúvida acerca da classificação de Cidadão Brasileiro ou Habitante do Império foi trazida pelo senhor Nicolau Pereira de Campos Vergueiro. Em sua fala, propôs uma emenda na qual se dissesse ―Cidadãos - em lugar de Membro da Sociedade‖ no texto da futura Constituinte brasileira. ―Não foi apoiada‖.49

A essa proposta se manifestou um debate acerca da delimitação dos aspectos que deveriam definir o cidadão brasileiro. Na opinião do deputado da Bahia, Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, ser ―Brasileiro, he ser Membro da Sociedade Brasilica: portanto todo Brasileiro he Cidadão Brasileiro: convem sim dar á uns mais direitos, e mais deveres do que a outros; e eis-aqui Cidadãos activos, e passivos.‖ Quanto à exclusão dos escravos, de acordo com Montezuma, os motivos eram bem conhecidos por todos. Considerados como ―cousa, ou propriedade de alguém‖ e, assim eram tratados e reconhecidos pelas leis, ―como chamá-los brasileiros no sentido próprio? [...] Senhores, os escravos não passam de habitantes do Brasil‖.50

A ideia da divisão dos cidadãos em ativos e passivos agradou aos deputados, como ao deputado também da Bahia, Antônio Ferreira França, que confirmou a interferência de Montezuma com a declaração de que

47

Idem, p. 17 – 18 (grifo do autor).

48

Citado por DIAS, Maria Odila Silva. A interiorização da metrópole (1808-1853). In: MOTA, Carlos Guilherme (org.) 1822. Dimensões. São Paulo, Perspectiva, 1972. p. 174.

49

Diário da Assembleia Geral Constituinte, e Legislativa do Império do Brasil. Seção de 23 de setembro de 1823, p. 89.

50

nós não podemos deixar de fazer essa diferença, ou divisão de Brasileiros e Cidadãos Brasileiros. Segundo a qualidade da nossa população, os filhos dos negros, crioulos captivos, são nascidos no Território do Brasil, mas todavia não são Cidadãos Brasileiros. Devemos fazer essa diferença: Brasileiro he o que nasce no Brasil, e Cidadão Brasileiro he aquelle que tem direitos cívicos.51

A questão para esse deputado era mais profunda, não de tratava apenas de nascer no território brasileiro, mas, por suas palavras, ser de boa ―qualidade‖ – o que excluía os descendentes negros, ‗crioulos cativos‘ - e ter os chamados Direitos Cívicos. Estes direitos se constituíram essencialmente em critérios de renda, na Constituição de 1824, mas, em princípio, diziam respeito ao espaço de cada categoria na colonização e, em última instância, a participação de africanos degenerados pela escravidão para manchar o sangue europeu do brasileiro, como lembrava Bonifácio. 52

É válido ressaltar que Roberto Guedes, em Escravidão e cor nos censos de Porto Feliz (São Paulo, Século XIX), apontou que os padrões para classificação racial frequentemente utilizavam o termo ‗qualidade‘ como sinônimo de cor. Conforme o autor,

nas listas nominativas, os campos de preenchimento de informação onde os recenseadores registram a cor são nomeados como cores ou qualidades. Preferencialmente, usava-se cor, mas qualidade também era um campo no qual, nas listas nominativas, marcavam-se as cores, isto é, qualidade e cor eram sinônimas. Por isso, qualidade é entendida aqui como cor, embora o termo pareça impreciso. Assim, ainda em 1843, o censo se inicia do seguinte

modo: ―Relação dos habitantes deste Município, com declaração de sexo, idades, estados e qualidades‖.53

51

Idem ibdem.

52

O Deputado França, acerca dos índios, esclareceu a diferença que ele percebia e que, em sua opinião,

delimitava os lugares sociais. ―Agora pergunto eu, um Tapuia he habitante do Brasil? He. Um Tapuia he nascido

no Brasil? He. Um tapuia he livre? He. Logo é cidadão brasileiro? Não, [...] pois os Indios no seo estado selvagem não são, nem se pode considerar como parte da grande família Brasileira; e são todavia livres, nascidos no Brasil, e nelle habitantes. Nós, he verdade, que temos a Lei que lhes outorgue os Direitos de Cidadão, logo

que elles abracem nosso costumes, e civilisação, antes disso porém estão fora de nossa Sociedade‖. A submissão

à colonização e catequização os relegaria um espaço na sociedade, ainda que sendo considerados livres. Mesmo nascidos no Brasil, não lhes pertencia o território, pois este estava assegurado pela Lei, conforme França. O

deputado Montezuma, mesmo diferindo em algumas opiniões com França, apresentou a mesma percepção: ―Os

Índios estão fora do grêmio da nossa Sociedade, não são súbditos do Império, não o reconhecem, nem por conseqüência suas authoridades desde a primeira até a ultima, vivem em guerra aberta com nosco, não podem de fórma alguma ter direitos, porque não tem, nem reconhecem deveres ainda os mais simples, (fallo dos não domesticados) logo: como considera-los Cidadãos Brasileiros? Como considera-los Brasileiros no sentido político? Não he minha opinião que sejão despresados [...] Legislemos para elles; porém nesse sentido: ponhamos um capítulo próprio, e especial para isso em nossa Constituição; sigamos o exemplo dos Venezuelenses. Mas considera-los já neste capitulo! Isto he novo‖. Diário da Assembleia Geral Constituinte, e Legislativa do Império do Brasil. Seção de 23 de setembro de 1823, p. 90.

53

GUEDES, Roberto. Escravidão e cor nos censos de Porto Feliz (São Paulo, Século XIX). In: Cadernos de Ciências Humanas - Especiaria. v. 10, n.18, jul. - dez. 2007, pp. 489-518, p. 497.

Dessa maneira, uma sociedade de ‗boa‘ qualidade, para a elite senhorial e os representantes da nação, seria necessariamente uma sociedade branca, ou, o mais próxima disso.

Com relação aos representantes da Província do Ceará, sobre o problema da mestiçagem e também dos vícios da escravidão, José Martiniano de Alencar e Pedro José da Costa Barros evidenciaram leituras ainda mais rígidas que as Províncias que quantitativamente tinham mais escravos. Costa Barros, em sua interferência, em sessão do dia 27 de setembro de 1823, declarou:

eu nunca poderei conformar-me a que se dê o título de cidadão brazileiro indistinctamente a todo escravo que alcançou carta de alforria. Negros boçais, sem officio, nem beneficio, não são, no meo entender, dignos dessa honrosa prerrogativa; eu os encaro antes como membros damnosos à sociedade à qual vem servir de pezo quando lhe não cauzem males.54

Se era certo que o cativo não fazia parte do rol de cidadãos brasileiros, a grande questão ficava em como delimitar ex-escravos, invariavelmente mestiços, ficassem alheios a um título que para eles servia de distinção à sociedade da época. Na percepção de Costa Barros, a liberdade conquistada por um cativo não deveria ser prerrogativa para a consideração deste como membro da sociedade brasileira, o que não fazia deste propriamente cidadão. Seu ponto de vista aparentemente superficial, contudo, apontava o receio de que a disposição ao trabalho, uma vez que não estavam mais coagidos a isso, mudasse.

Não sei que seja injusto o exigir-se d‘aquelle a quem se faz a graça de chamar para o grêmio de nossa sociedade, que ele tenha em que se empregue para adquirir meios de subsistência, e não entre para ser entre nós simplesmente um vadio, mas desfructando as vantagens de que gosão os outros que estão empregados e uteis ao estado. Eu creio que todo cidadão he obrigado a trabalhar, ate para a conveniência geral da sociedade; o ociosos, o homem que não tem emprego ou modo de vida algum, também não tem virtudes sociaes, e sem estas nenhum individuo convem à sociedade, que não adquire por meio do trabalho ou indústria aquillo de que precisa, há de empregar meios criminosos, e é portanto perigoso e prejudicial ao estado. Ora para evitar que esta casta de gente entre na nossa sociedade é que eu propuz a minha emenda, eu sei que não há condição mais infeliz e horrorosa do que a dos escravos, mas nem por isso entendo que para indemnizarmos dos malles que nelas sofrerão, devamos recebe-los em circunstancias de serem damnosos.55

Da mesma forma que José Bonifácio apontou, em sua Representação, o medo desses homens causarem convulsões sociais, o receio do deputado era que o ócio do ex-escravo que

54

Diário da Assembleia Geral Constituinte, e Legislativa do Império do Brasil. Seção de 27 de setembro de 1823, p. 201.

55

Diário da Assembleia Geral Constituinte, e Legislativa do Império do Brasil. Seção de 27 de setembro de 1823, p. 205.

‗entrava‘ para a sociedade ao conquistar sua alforria o envolvesse em uma vida de crimes, trazendo danos para a mesma sociedade que o aceitou. Todavia, Costa Barros ainda se faz mais evidente ao citar tais homens pelo termo casta, indicando, aparentemente, como um grupo social distinto do que compunha a ‗sociedade brasileira‘.

Por outro lado, certamente tinha em mente as ocorrências da rebelião ocorrida em 1817, que ficou conhecida como Revolução Pernambucana, com adesão de escravos e camadas mestiças livres da população e que teve bastante espaço no Ceará; da revolta no Cariri Cearense, em 1821, contra a instauração do Império também pelos setores subalternos da população, também mestiça – evento irradiado como Cerca-igrejas e que será aprofundado no segundo capítulo; e, por fim, do chamado São Domingos francês. De acordo com Washington Nascimento, essa

rebelião ocorrida na parte leste da ilha de São Domingos (atual Haiti) foi a única feita por africanos na história americana que culminou em uma revolução, destruiu o sistema escravo de plantação e transformou o Haiti no primeiro país negro fora da África. Os seus impactos foram múltiplos: influiu sobre os preços do açúcar e gerou um grande medo de que uma insurreição daquela escala acontecesse em outros lugares da América escravista.56

A iminência de uma revolução dos negros/escravos no Brasil, por ironia, também era o medo do ex-chefe da Revolução Pernambucana no Ceará. José Martiniano de Alencar, deputado por esta Província e ‗perdoado‘ pelo Imperador Pedro I no crime de rebelião em 1817, apesar de mostrar-se com uma opinião aparentemente mais branda que a de Costa Barros, salientou a mesma preocupação que seu companheiro político. Conforme Alencar,

Benzer Belgeler