NĠĞDE DÖRDÜNCÜ DÖNEM MĠLLETVEKĠLLERĠ VE MECLĠSTEKĠ SĠYASĠ FAALĠYETLERĠ
MADDE 1 Hükümetçe idare edilen inhisarların 1660 numaralı kanunun
Após o primeiro contrato que define a publicação de Cinq semaines en ballon, Jules Verne é pouco a pouco inserido, não sem seu próprio consentimento, nas vias do romance didático, uma vez que o científico já se apresentara em Jules Verne sendo, inclusive, o motivo pelo qual ele chama a atenção do editor. Assumindo esse posicionamento, o escritor não poderá escapar à contaminação da sua criação literária pelos traços do instrutivo e do divertido, próprios à definição de P.-J. Hetzel da literatura para jovens. Além de ser qualificado como erudito, como vimos, e de ser designado para a seção “Educação” do magazine de Hetzel, o discurso que vincula o escritor a uma colaboração contratual exclusiva “por longos anos” é sintomático. Certamente, essa projeção a longo prazo assegura ao público assinante da revista a longevidade da sociedade editorial cuja ambição pedagógica supõe a perenidade de uma equipe de redação capaz de orientar a revista. Questionamo-nos, assim, se a justificativa editorial da divisão das responsabilidades é suficiente para atender aos anseios do romancista, cujo objetivo no campo literário não visava intencionalmente posicioná-lo como um savant écrivain. De fato, os outros romances de Verne serão publicados no mesmo gênero do romance Cinq Semaines en ballon, como reza o seu segundo contrato (ver 6.1.2).
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O contrato de 11 de dezembro de 1865132 (ver 6.1.3) é o divisor de águas na
carreira de Jules Verne. Ele define seis anos de engajamento com a editora a contar do dia 1º de janeiro de 1866 (o que se estenderá por mais de quarenta anos, com sucessivas renovações). No artigo segundo do contrato, o editor exige do escritor “três volumes por ano escritos no mesmo gênero dos romances precedentes (Cinq semaines en ballon e Les voyages et aventures du capitaine Hatteras), e ainda assinados com o mesmo nome de autor, feitos para o mesmo público e tendo a mesma extensão”. Pagando ao autor o valor de três mil francos por cada volume ou setecentos e cinquenta francos mensais, o que perfaz o total de nove mil francos por ano, Hetzel se autoriza a publicá-los “nos jornais que melhor lhe convier, com ou sem ilustrações”. O artigo terceiro prevê que cada volume será propriedade exclusiva da editora de Hetzel pelos dez anos que seguem a contar da sua data de publicação. Sobre as edições ilustradas, o artigo quarto, que faz referência às gravuras, prevê que as ilustrações dos romances de Jules Verne poderiam ser reutilizadas pelo editor. Com essa cláusula, Hetzel poderia republicá-las como e onde melhor lhe conviesse, de acordo com esclarecimentos do Professor Jean-Yves Mollier, sem ter que incluir Verne na transação.
O contrato de 1865, proíbe Verne de “publicar qualquer outra obra, em qualquer outro veículo, suporte ou editora sem o consentimento de Pierre-Jules Hetzel.” No que diz respeito às novelas que Verne publicou no periódico Musée des familles, a última cláusula é definitiva: o editor deixa claro que o autor ainda poderá publicar uma por ano, se assim o desejar; no entanto, só poderão ser republicadas ou serem objeto de um volume se o forem pela editora Hetzel. Tendo comprado a propriedade dos romances anteriores a esse contrato por cinco mil e quinhentos francos, em 1865, Hetzel garante para sua editora o poder total sobre a produção de Jules Verne, enquanto este se beneficia de uma quantia fixa por volume.
O contrato de 1865 será renovado em 1868, antes mesmo do seu término, que deveria ser em 1871. Esse documento não existe nos arquivos manuscritos da BNF. Só sabemos dessa informação através de um contrato-resumo datado de 1875. Nesse documento, cujo conteúdo transcrevemos no item 6.1.4, Hetzel resumirá e acrescentará cláusulas que guiarão o futuro da obra de Verne. Desse resumo em 1875, depreendemos informações sobre negociações contratuais feitas entre o período de 1865 e 1875. Ora, o contrato de 1875 menciona dois detalhes renegociados até aquele momento: em 1868,
132 O contrato pode ser consultado na BNF, Dépt. de manuscrits, Archives Hetzel, dossier “Contrats, reçus et pièces comptables”, NAF 17007, fº17.
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Verne passou a receber 10 mil francos anuais e, em 1871, passou a entregar anualmente dois volumes ao invés de três, e a ganhar doze mil francos por esse acordo. Era da preferência de Jules Verne receber o montante fixo por volume desde 1865 e não depender dos valores aleatórios das vendas, o que poderia lhe garantir mais estabilidade financeira.
Após esse resumo feito dos detalhes contratuais, Hetzel estabelece as projeções que guiarão em definitivo a produção de Verne dos anos seguintes. A modificação contratual mais considerável, entre 1865 e 1875, tange à maneira pela qual Hetzel pagará Jules Verne. Afirmando estar desejoso em dividir lucros, Hetzel, argumenta que o escritor deveria aproveitar da excelente vendagem de Le Tour du monde en 80 jours (1874)133 e convence Verne a rescindir a cláusula de 1871 de receber um valor fixo pela entrega de volumes. A partir de 1875, o escritor passa a receber somente por venda de exemplar. Porém, o artigo 10 esclarece que nos dois primeiros anos dessa nova convenção firmada, Jules Verne ainda receberá mais mil francos mensais. As informações adicionais desse contrato de 1875 esmiuçam, ainda, os ganhos sobre essas vendas: em 1875, Hetzel, a pedido de Jules Verne, anuncia um “acerto de contas” que será realizado em 1882 sobre os volumes in-18 (volumes não ilustrados). Até então, em aproximadamente doze anos de produção romanesca, Jules Verne não ganhava sobre as vendas desses volumes. A rubrica “Règlement pour les oeuvres antérieures à ce jour non illustrées” prevê que somente em 1882 Verne receberá cinquenta centavos por volume vendido do conjunto de obras publicadas até aquele momento, isto é, 13 romances a contar de Cinq semaines en
133 Há alguns detalhes que devemos levar em conta para se definir o que foi um “best-seller” na carreira de Jules Verne. As estatísticas de vendas das Viagens extraordinárias vão variar de acordo com, por exemplo, o formato do volume (in-18 para as primeiras tiragens), se se inclui ou não nessa contagem as reimpressões realizadas, ou ainda, se é levado em consideração o número das tiragens das famosas edições ilustradas in- 8. Isso sem contar com a pré-publicação em folhetim em jornais, caso de Le Tour du monde em 80 jours que foi publicado, em 1872, no jornal Le Temps, ou no Magasin d'Éducation et de Récréation. Para tentar chegar a uma resposta, diria que muitos romances de Verne poderiam ser considerados como best-sellers, mas Le Tour du monde en 80 jours (1873), Cinq semaines en ballon (1863) e Vingt mille lieues sous les mers (1871) encabeçariam a lista. Martin Lyons que estudou os best-sellers do século XIX (CHARTIER & MARTIN, 1985, p. 409-448), para seus estudos no ano de 1850. Excluindo os clássicos e os livros escolares, Lyons cita como best-sellers Les trois mousquetaires, de Dumas, Le juif errant, de Sue e Histoire des Girondins, de Lamartine, todos tendo tido como primeira edição algo em torno de 15 ou 20 mil exemplares e em cinco anos, nada além de 35 mil. Para se ter uma ideia do sucesso de alguns romances de Jules Verne, a primeira edição in-18 sem ilustração de Cinq semaines en ballon (1863) tem tiragem de 40 mil exemplares, Voyage au centre de la terre (1864) de 32 mil, Les aventures du Capitaine Hatteras (1866) de 36 mil e Le Tour du monde em 80 jours de 121 mil exemplares. Usar os números desse último romance como argumento foi suficiente para convencer Verne a rescindir com a cláusula que previa o recebimento de um valor fixo pelos volumes escritos. Sobre as tiragens em Jules Verne remetemos a DEHS, Volker.
“Les tirages des éditions Hetzel: une mise au point” Revue Jules Verne. Amiens: Encrage éditions, nº5,
1998, p. 89-94. Este artigo é tomado como referência para responder sobre as estatísticas de venda dos romances de Jules Verne.
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ballon (1863) até L’île mystérieuse (1875). Concernente às obras futuras, ainda sobre os volumes in-18, a nosso ver para não acumular débitos, o editor já iniciará o pagamento a Verne dos mesmos cinquenta centavos por exemplar vendido a partir da publicação do Courrier du Czar (1º volume de Michel Strogoff – 1876). O contrato reza ainda que sobre as famosas edições ilustradas, Verne ganhará 5% do bruto dos primeiros vinte mil exemplares vendidos e 10% sobre os outros e, ainda, ganhará 50% com a publicação em revistas e jornais, na França e no estrangeiro.
A análise desses contratos nos permite perceber que, aos poucos, Verne se fideliza à editora Hetzel. Dois períodos marcariam essa fidelização: de 1862 a 1865 com os contratos para Cinq semaines en ballon e Voyages et aventures du capitaine Hatteras - momento de testes da parte de Hetzel; e de 1865 a 1875, com os contratos de três volumes, depois de dois volumes anuais. Em uma relação mútua, editor e escritor investem nos potenciais um do outro, beneficiando-se dos resultados, cada qual com seu objetivo. A análise desses contratos, na perspectiva da trajetória, evidencia que, em 1875, Jules Verne já acumulou capitais financeiros e sobretudo simbólicos suficientes para fazer as exigências que desejasse junto ao editor. Embora ambos tenham se beneficiado financeiramente, fica claro que Jules Verne representou grandes lucros para a editora de Hetzel, pelo menos pelo período aproximado de doze anos (1863 – 1875).
Entre esses dois momentos da fidelização de Verne à editora, temos de ressaltar um aspecto. O primeiro momento é marcado ainda pela submissão do manuscrito de Paris au XXe siècle. As cláusulas contratuais de 1865 encerram Verne, antes de tudo, em um rítmo de escrita e gênero específicos. Esse fato está na base da discussão sobre a recusa do romance Paris au XXe siècle. A crítica tem documentada a troca de correspondência que envolve o manuscrito de Paris au XXe siècle que citamos, em parte. Sabe-se que foi no ano de 1863 que se deu a recusa de publicação deste romance futurista avant la lettre. Poderíamos inferir, portanto, que a discussão entre escritor e editor tenha estabelecido uma relação circunstancial com a escrita e publicação do “Avis de l’éditeur”, acima citado.
Caso pudesse ser confirmada, essa hipótese permitiria situar no eixo diacrônico o traço genético do “Avis” relativo a essa discussão ocorrida no fim de 1863, considerando como limite cronológico da redação do paratexto a data do lançamento do Magasin d’Éducation et de Récréation - 20 de março de 1864. Assim, no período de três meses, aproximadamente, definiu-se o futuro literário de Jules Verne. As repercussões da crítica ferrenha que Hetzel faz ao romance e ao escritor não provam a anterioridade do seu
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“Avis” em relação ao envio do manuscrito de Paris au XXe siècle. Ainda que escrito nesse período de tensão, a redação pode ter sido interrompida quando Jules Verne finalmente aceita abandonar a escrita no gênero do romance visionário para tomar um posicionamento literário adaptado à estratégia de promoção de uma literatura para jovens através do canal de uma revista de vulgarização literário-científica. Endossando sua colaboração na rubrica didática do periódico de Hetzel, o argumento anunciado no “Avis de l’éditeur” (ver 6.2.2) adverte também Verne de que ele não pode mais ignorar as regras coercitivas às quais estará ligado por seu contrato de exclusividade com a editora Hetzel, a partir de 1865. A publicação em fascículo de Les Anglais au Pôle Nord – primeira parte do romance Voyages et aventures du capitaine Hatteras, em 1864, no primeiro número do Magasin d’Éducation et de Récréation, é o primeiro sinal de fidelidade do romancista às exigências do seu diretor literário. A tática de Hetzel foi produtiva, pois Jules Verne entra neste sistema de razão prática que obedece às coibições do Magasin d’Éducation et de Récréation. Contudo, só poderá se dar conta das implicações sobre sua criação literária quando Hetzel finalizar sua lógica editorial, levando o romancista à gênese programática do ciclo das Viagens extraordinárias, lançadas publicamente em 1867. Esse processo complexo que se deu em meio a conflitos e negociações, que fez Jules Verne entrar em um sistema do qual também se beneficiou, pode ser caracterizado como sua “hetzelização”.
A ideia de uma hetzelização de Jules Verne deriva da leitura de um artigo escrito por Michel Contat, escritor, cineasta e crítico literário, especialista entre outros, na obra de Jean-Paul Sartre. “De «Melancholia» à La nausée: la normalisation NRF de la Contingence”134 trata da trajetória da publicação do romance La Nausée, de Sartre, que, inicialmente com o título “Melancholia”, foi submetido e recusado pelas edições NRF, em 1936, mas aceito por Gaston Gallimard, em 1937. Na ocasião, Brice Parain, encarregado na Gallimard para a publicação do livro, incita Sartre a excluir passagens de inspiração “populista” e a suavizar partes do texto de cunho sexual. Sartre consente às condições sugeridas, pois gostaria de ser publicado. Através de um retorno aos manuscritos desse romance, Michel Contat, que editou as obras completas de Sartre para a Bibliothèque de la Pléiade, em 1982, mostra que os cortes que dizem respeito à “estética literária” foram feitos por Sartre com boa vontade. Contat chega a essa conclusão depois
134 CONTAT, Michel. “De “Melancholia” à La Nausée: la normalisation NRF de la Contingence”. Genesis, n° 21, 2003, p. 75-94. Disponível no site do Institut de textes et manuscrits modernes (Item): http://www.item.ens.fr/index.php?id=27113. Última consulta: 10/10/2015.
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de analisar as correções feitas no manuscrito antes dos cortes do editor. No caso de Sartre, segundo ele, parece impossível definir um “espírito NRF” por uma uniformidade no seu estilo, mas não há dúvida que a obediência a uma certa estética exclui a publicação pela Gallimard de textos que se oponham a essa estética difusa. Sartre, cedendo às injunções da Gallimard, procede a uma relativa “gallimardização” de seu romance. Contat conclui que, se o romance fosse publicado como seu autor o escreveu primeiramente, o texto pareceria com uma obra compósita, mais barroca e mais original do que aquela que foi finalmente publicada.
Observamos, em aspectos gerais, semelhança desse acontecimento com o caso de Jules Verne e seu editor P.-J. Hetzel. Embora não sejam objetos de nossa análise, os manuscritos dos romances de Jules Verne, organizados na casa-museu na cidade de Nantes, guardam as marcas das muito discutidas intervenções do editor em sua obra. A título de exemplo, afim de verificarmos em que nível se davam as “sugestões de correção” nos textos de Verne, segue um fac-símile de uma página manuscrita que transcrevemos em seguida.135 Trata-se do manuscrito de L’Île mystérieuse, publicado em volume em 1875, cujo título original era “Robinson”. Em 2 de fevereiro de 1873, em carta ao seu editor, Verne presta conta do que está fazendo - verificando as últimas provas du “Tour du monde” e remanejando o Pays des fourrures, e anuncia o “novo” título do romance:
Je suis tout entier au “Robinson”, ou pour mieux dire à L’Île
mystérieuse. [...] Ce sera un roman chimique. Je ménage avec le plus
grand soin l’intérêt dû à la présence ignorée du capitaine Nemo sur l’île,
de manière à voir un crescendo réussi, comme des caresses à une jolie
femme que l’on veut conduire où vous savez. Voici mon état de
situation au 2 février, et je vous le fais connaître.136
Observa-se como Hetzel intervém criticamente, na coluna da direita, espaço frequentemente destinado às correções, e faz “sugestões” de modificação do texto:
135 Valemo-nos desse exemplo, mas poderíamos usar o manuscrito de qualquer outro romance de Verne - exceto o de Cinq semaines en ballon, pois não existe manuscrito deste romance -, para mostrarmos em que medida se dá a hetzelização de Jules Verne. Escolhemos este e não outro por tratar da incursão mais polêmica do editor e, portanto, mais discutida entre especialistas da obra verniana.
79 Fig. 14. Página do manuscrito de L’Île mystérieuse
Transcrevemos abaixo o fac-símile que trata da morte do capitão Nemo no romance L’Île mystérieuse, em que o personagem reaparece, seis anos depois da publicação de Vingt mille lieues sous les mers, e profere sua polêmica última frase. Sublinhamos as incursões diretas do editor – marcadas em azul no texto, e sinalizamos seus cortes:
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La nuit était venue, bien qu’il fut impossible de s’en apercevoir dans
cette immense crypte, toujours éclairée par les feux électriques du Nautilus. Aucun des colonsmais ni Cyrus Smith, ni ses compagnons
n’avaient songé à la quitter, ni à voir si la tempête se déchaînait au dehors, si les feux du mont Franklin s’élevaient se déchaînait au
dehors! Ils étaient là comme s’ils avaient enfouis profondément dans les entrailles du globe./Le capitaine Nemo s’affaiblissait de plus en plus ne souffrait pas, mais il déclinait. Sa belle et noble noble figure, pâlie par les approches de la mort, était calme. [...] Une ou deux fois encore, il adressa la parole aux colons rangés près de lui, et qui l’observaient dans un douloureux silence. Il leur souriait de ce dernier sourire qui se continue presque dans la mort. [...] Puis, murmurant ces mots : « Indépendance », «Dieu et Patrie!» il expira doucement, sans agonie, sans que son visage ne décèle même une souffrance / Cyrus Smith,
s’inclinant alors, ferma les yeux de celui qui avait été « le prince
Dakkar » de ce grand patriote indien, de celui qi fut le capitaine Nemo
et qui n’était même plus le capitaine Nemo.
Harbert et Pencroff pleuraient. Ayrton essuyait une larme furtive. Nab était à genoux près du reporter, changé en statue.
Cyrus Smith, élevant la main au-dessus de la tête du mort: «Que Dieu ait son âme!» dit-il, et, se retournant vers ses amis, il ajouta:
«Prions pour celui que nous avons perdu!»
--- ---
Quelques heures après les colons remplissaient la promesse faite au capitaine.
A palavra-chave, não somente dessa cena, mas de toda existência do capitão Nemo é “Indépendance!”. Embora seja a modificação mais discutida de um texto de Jules Verne, William Butcher acusa os especialistas de nunca terem analisado essa correção minuciosamente. Em seu recente estudo sobre os manuscritos vernianos, Butcher afirma que essa mesma moral já está inserida nos subtítulos do capítulo XVII desse romance.137 O especialista diz que, de fato, no momento da passagem a limpo do manuscrito, o bloco gráfico guarda essa mesma proclamação “Indépendance!”, mas tem ainda uma rasura a lápis, feita pelo editor, seguida de uma espessa rasura azul autógrafa. Na margem, vê-se a nova versão em tinta azul - “Dieu et Patrie”-, escrita por Verne e sobreposta a uma versão aparentemente editorial, a lápis, quase completamente apagada. Butcher reitera que quem corrige - certamente o editor -, também modifica a lápis os vocábulos “ce mot” para “ces mots”, o que ainda é possível notar.138
Ora, tal modificação feita por Hetzel surpreende o leitor atento da obra verniana pela incoerência revelada. Em Vingt mille lieues sous les mers, Nemo passa a vida a se
137 BUTCHER, William. Jules Verne inédit: les manuscrits déchiffrés. Lyon: ENS éditions, 2015, p. 342. 138 BUTCHER, 2015, p.342.
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opor ao patriotismo, definindo-se por sua qualidade moderna de exilado universal, de apátrida ou de cidadão do mundo. A incoerência se intensifica quando o personagem menciona Deus. Tendo sua nacionalidade indiana revelada em L’Île mystérieuse, é pouco provável que o personagem acreditasse em um só Deus. Diante das incursões de Hetzel, Verne não se sente capaz de resistir e renuncia em tentar manter uma coerência em seu personagem. Verne cede à edição de Hetzel, como inúmeras vezes fará, assim como Sartre à Gallimard, em 1937.
Esse não é o primeiro aspecto de uma “hetzelização” de Verne. Aproximamos a situação de Verne do caso de Sartre pois este, na passagem de “Melancholia” a La nausée, fez sacrifícios para adotar o que Michel Contat qualifica como “escrita NRF”. Para Sartre, esse foi o primeiro passo para se responsabilizar em um engajamento NRF; para Verne, em 1875, essa foi apenas mais uma concessão. Sua “hetzelização” já havia acontecido e os traços se confirmam na medida do tempo.
A primeira disposição para essa normatização se dá quando Verne assina o