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4. BULGULAR

4.4. Gruplararası örneklem karakteristiklerinin karşılaştırılması

Os empreendedores sociais responsáveis pela criação das iniciativas estudadas compartilham características muito comuns. Mobilizados pela identificação de oportunidades para contribuir com a transformação social de um dado grupo de pessoas, buscaram desenvolver ou aplicar metodologias que concretizassem suas crenças e aspirações pessoais. Observou-se que a motivação subjacente a estas ações não foi caracterizada pela indignação com a desigualdade e a pobreza, embora este fator esteja presente. Aqueles empreendedores tiveram sua ação

muito mais orientada pela constatação de que o grupo-alvo de sua ação detinha potencialidades e capacidades que precisavam ser mobilizadas, e o papel do empreendimento social seria o de catalisar este processo.

Ir além da proteção social e dos limites da ação estatal são fundamentos que nortearam a criação dos empreendimentos sociais estudados. A Interação identificou na metodologia de intervenção do SDI uma forma de complementar com mais eficiência a ação do poder público na área de habitação. O Fundo Zona Leste e a Aliança Empreendedora propõem estratégias de intervenção orientadas para o fomento do empreendedorismo local, como mola propulsora para a inserção de pessoas e grupos no sistema econômico vigente. Essas abordagens para as questões com as quais lidam os empreendedores sociais conferem à sua ação o caráter inovador, emancipador e pragmático já amplamente ressaltado na literatura sobre o tema (ALVORD et al, 2002; OLIVEIRA, 2004b; FISCHER, 2011). O que os casos revelam, adicionalmente, é a influência exercida pelas trajetórias individuais destes empreendedores na concepção de desenvolvimento social e no tipo de ação realizada.

Os empreendedores sociais entrevistados para este estudo têm suas trajetórias fortemente marcadas por ciclos contínuos de experimentação e aprendizagem. Nos três casos, as iniciativas estudadas são a concretização de novos patamares de compreensão sobre os problemas sociais em foco.

Ao conceber o Fundo Zona Leste Sustentável, a Fundação Tide Setúbal busca superar a filantropia que caracteriza sua atuação na região de São Miguel Paulista. Além de prever a captação de recursos junto a atores locais e de focalizar sua ação na esfera econômica, a Fundação começa a dar um passo na consolidação de um modelo de ação em que há retorno sobre o investimento, ainda que este retorno não seja integralmente financeiro. Ele pode se caracterizar pelo compromisso dos parceiros com o funcionamento do Fundo, ou pela contribuição dada pelos empreendimentos apoiados para incrementar a geração local de emprego e para criar mecanismos de sustentabilidade ambiental, por exemplo.

A aplicação da metodologia desenvolvida pela SDI foi a forma encontrada pelos fundadores da Interação para obter agilidade ao efetivar o direito de comunidades vulneráveis à habitação. Tendo trabalhado com esta questão na esfera do Estado, aqueles empreendedores compreenderam os obstáculos que se colocam à implantação de políticas efetivas para

redução do déficit habitacional. A ação por meio da organização da sociedade civil, com uma metodologia amplamente testada, foi o salto de inovação aportado pelo empreendimento social como forma de compensar a ineficiência do governo.

A experiência com o empreendedorismo de baixa renda abriu caminho para que os jovens fundadores da Aliança Empreendedora decidissem criar e aplicar um conjunto de metodologias que dessem sustentação à visão de “fazer da economia um local para todos”. Ainda que o repertório de vivências práticas deste grupo de empreendedores sociais fosse bastante limitado a projetos inicialmente desenvolvidos em âmbito acadêmico, a constante avaliação dos processos empregados os levou a rever crenças e princípios de ação, propondo novas abordagens em seu campo de atuação. A metodologia empregada junto às cooperativas de reciclagem, por exemplo, foi adaptada às características presentes na iniciativa desenvolvida em São Paulo, refletindo uma concepção mais realista das potencialidades e limitações da ação empreendida.

Os pressupostos subjacentes às atividades realizadas pelos empreendimentos sociais estudados são reflexos dos ciclos de aprendizagem vivenciados pelos empreendedores sociais e enfatizam diferentes ângulos do desenvolvimento local. Com alcance mais ambicioso, a missão da Aliança Empreendedora está orientada para a promoção do desenvolvimento econômico e social por meio do empreendedorismo individual:

Unir forças e viabilizar acessos para que pessoas e comunidades de baixa renda possam ser empreendedoras, promovendo a inclusão e o desenvolvimento econômico e social. (ALIANÇA EMPREENDEDORA, 2012)

Sem fazer menção a uma perspectiva mais ampla de desenvolvimento, a Interação tem sua missão bastante focalizada na garantia de direitos de cidadania e moradia:

Contribuir para que as comunidades em assentamentos precários no Brasil conquistem seus direitos de cidadania e moradia por meio da organização comunitária e reconhecimento de seu potencial transformador e multiplicador. (INTERAÇÃO, 2012)

A preocupação com o desenvolvimento vai surgir apenas no desenho dos objetivos pretendidos pela Interação, sendo um deles exclusivamente voltado para a “promoção do desenvolvimento econômico, social e combate à pobreza.” (INTERAÇÃO, 2012)

A missão do Fundo Zona Leste Sustentável, por sua vez, foi desenhada a partir de uma perspectiva orientada para o fomento de iniciativas produtivas locais como meio para geração de trabalho e renda:

Canalizar recursos de pessoas físicas e jurídicas com interesse em contribuir para a região e aplicá- los de forma monitorada em iniciativas produtivas locais, de modo a permitir que elas atinjam competitividade no mercado e gerem oportunidades duradouras de trabalho e renda no território. (FUNDO ZONA LESTE SUSTENTÁVEL, 2011)

Ainda que as missões dos empreendimentos sociais enfatizem diferentes objetivos, os meios expressos nestas declarações assemelham-se em dois aspectos: a ênfase no protagonismo das iniciativas apoiadas e a soma de esforços dos atores envolvidos. Esses elementos sinalizam a existência de uma crença comum aos empreendedores estudados, que é a vinculação dos processos de desenvolvimento local à mobilização de recursos humanos, materiais e financeiros existentes nas localidades em que se desenvolvem as iniciativas. Desta forma, os empreendimentos sociais colocam-se expressamente como agentes capazes de influenciar o contexto, oferecendo condições para que as pessoas ou grupos-alvo da ação assumam papel ativo no seu próprio desenvolvimento, o qual ocorrerá por via da articulação com sistemas e atores relevantes no campo onde atuam.

As concepções de desenvolvimento adotadas pelos três empreendimentos estudados fundamentam-se em pressupostos de desenvolvimento local: a transformação social como processo de construção coletiva; a mobilização de potencialidades e recursos locais; o protagonismo da comunidade ou grupo de pessoas. (BROSE, 2005; HADDAD, 2004; LOURENÇO, 2003).

A perspectiva do desenvolvimento local é patente na iniciativa realizada pela Interação junto à Comunidade dos Portais. A participação ativa da comunidade desde o planejamento das ações, incluindo o conhecimento e o diagnóstico de sua situação, é característica deste processo (GOMES, 2005). Também se destaca, no caso, o empoderamento das comunidades e

a promoção da democracia direta, associados a negociações entre os atores envolvidos no processo de desenvolvimento, como observa Sachs (2004).

Por outro ângulo, o fomento ao cooperativismo e ao empreendedorismo – os quais caracterizam as iniciativas da Aliança Empreendedora e do Fundo Zona Leste Sustentável –é um processo que guarda algumas características dos conceitos de economia solidária. Nesse sentido, destaca-se o incentivo a formas de produção orientadas para a sobrevivência e para a reciprocidade, cujos resultados beneficiam um grupo de pessoas, influenciando positivamente os relacionamentos entre os atores envolvidos direta ou indiretamente. (SINGER, 2004; FRANÇA FILHO; LAVILLE, 2004)

A ampliação de capacidades por meio da remoção de condições que causam privação de liberdades econômicas, sociais e políticas – como propõe Sen (2000) para os processos de desenvolvimento – é a diretriz expressamente adotada pela Fundação Tide Setúbal em suas ações junto a comunidades da Zona Leste. Esse princípio inspirou a criação do Fundo Zona Leste Sustentável como um meio para trabalhar as potencialidades existentes no território. (FUNDAÇÃO TIDE SETÚBAL; GIFE, 2010)

As concepções de desenvolvimento adotadas pelos empreendimentos sociais estudados influenciam as disposições presentes nos campos onde operam as iniciativas apoiadas. Tanto o Fundo Zona Leste Sustentável quanto a Interação foram responsáveis por mudar crenças subjacentes à forma como as pessoas se posicionavam no campo. Com isso, criaram oportunidades para que se estabelecessem novas formas de relação entre os agentes, facilitando ou viabilizando o acesso a recursos que garantiram a melhoria em indicadores de desenvolvimento social em âmbito local.

A Interação propiciou um diálogo legítimo entre a Comunidade dos Portais e a Secretaria Municipal de Habitação, o que foi fundamental para que aquelas pessoas deixassem de se sentir manipuladas e negligenciadas. Construindo um novo patamar de negociação, representantes da comunidade passaram a ser bem recebidos pelo poder público, tendo suas reivindicações ouvidas e acatadas, o que representou o grande passo dado para a urbanização da favela e a conquista de moradias dignas e definitivas. Essas conquistas levaram um grupo de pessoas, representantes da comunidade local, a abandonarem atitudes passivas e apáticas

frente à sua realidade social, experimentando condutas orientadas para a gestão democrática e participativa. A consolidação destas novas disposições, entretanto, enfrenta resistências e parece enfraquecer quando a presença do empreendimento social se reduz.

O Fundo Zona Leste Sustentável contribuiu decisivamente para que os negócios por ele apoiados deixassem de operar no campo de maneira informal e pouco profissionalizada. Oferecendo formação técnica e assessoria especializada, convenceu as pessoas envolvidas a buscarem um novo posicionamento para os produtos e serviços oferecidos por seus empreendimentos. Esse processo resultou na adoção de novas condutas, pautadas pela adesão à legislação comercial vigente e pela implantação de planos de negócios estrategicamente fundamentados. Ainda que essas novas disposições enfrentem resistências pontuais, os benefícios identificados pelos empreendedores parecem ser suficientes para que o posicionamento dos agentes se consolide em patamar mais profissionalizado que o anterior. A própria interação entre os empreendimentos contribui para este processo, na medida em que cria uma rede de apoio mútuo.

O Fundo Zona Leste Sustentável também ambiciona mudar disposições entre outros agentes presentes no campo – os parceiros animados a participar dos Comitês que compõem estruturalmente o Fundo. Fomentando a interação entre agentes privados, públicos e oriundos da sociedade civil, o Fundo estimula a adoção de condutas voltadas para a colaboração, para a soma de competências e para a responsabilização dos distintos agentes frente à promoção do desenvolvimento local sustentado. Entre os parceiros, a colaboração já se vê presente em variados graus. Mas ainda não se observa a consolidação de novas disposições no campo, sobretudo no que diz respeito à efetiva distribuição de papéis e responsabilidades entre a Fundação Tide Setúbal e os demais agentes frente ao próprio Fundo.

A resistência à adoção de novas condutas que levem a mudanças em disposições nos campos está presente nos três casos estudados. Os agentes envolvidos, seja o grupo-alvo da ação, sejam parceiros e apoiadores, reconhecem a existência de oportunidades para a construção de processos de mudança orientados para o desenvolvimento local. Entretanto o sistema de disposições presente no campo ou o habitus, conforme acepção de Bourdieu, impõe regularidades que não são regidas pela razão e não são produto de estratégias conscientes (BOURDIEU, 1990; MICELI, 2007). Esse sistema confere certa rigidez à conduta dos

agentes no campo, o que contribui para que resistências se manifestem, mesmo quando a mudança é compreendida e desejada.

As oficinas de capacitação e a assessoria permanente oferecidas pela Aliança Empreendedora aos trabalhadores da cooperativa Vira Lata não resultaram em mudanças visíveis nas disposições presentes no campo. A relutância à adoção de novas condutas, presente entre os trabalhadores de nível operacional e de nível administrativo da cooperativa, fez com que muito pouco do que foi proposto na ação da Aliança Empreendedora fosse compreendido e aproveitado na cooperativa. A vulnerabilidade social que caracteriza o grupo-alvo da ação parece tornar o conjunto de disposições presentes ainda mais rígido que nos outros casos. Além disso, os agentes ocupam posições fixas no campo, com interações pautadas pelas relações comerciais que se estabelecem. Diferentemente da experiência que o empreendimento social teve em Curitiba, onde implantou com sucesso a metodologia para desenvolvimento das cooperativas de catadores, em São Paulo os fatores elencados, dentre outros, parecem ter levado a um recrudescimento das objeções à mudança.

Benzer Belgeler