E—HALKA ARZ
E.5 Sermaye piyasası aracını
8. GRUP HAKKINDA BİLGİLER
(2009)
Os estudos contemplados neste subtópico são fruto de pesquisas que têm como base um corpus constituído de textos da modalidade falada no nível culto, dado o interesse dos autores em descrever a gramática dessa variedade linguística. Ao tratar do sistema preposicional da língua, Ataliba T. de Castilho e Rodolfo Ilari, junto a outros autores, fazem uma descrição pormenorizada de todas as preposições, embora se dê maior destaque às preposições mais gramaticalizadas. Para a discussão aqui proposta, trago recortes de ambos os
textos – 2008 e 2009 – e exemplos ali fornecidos em que os falantes fazem uso da preposição
sem, por considerar que há semelhanças nos usos descritos pelos autores e aqueles
evidenciados no corpus constituído de textos da modalidade escrita – objeto de estudo desta pesquisa.
Antes de adentrar na explanação dos autores acima referidos, chamo a atenção para uma característica normalmente atribuída às preposições – o esvaziamento semântico, noção que, segundo Borba (1971, apud POGGIO, 2002), decorre da saliência da sua significação gramatical em relação ao seu valor semântico.
Poggio (op. cit.), examinando a literatura sobre o assunto, deparou-se com posicionamentos contrários. A afirmação de que as preposições são palavras vazias, segundo ela, parte de Tesnière (1976), que, ao distinguir palavras plenas e vazias, inclui as preposições neste segundo bloco, tendo em vista ser função desses elementos a) a transformação das palavras plenas e b) a regência das relações entre tais palavras. A esses argumentos alia-se c) a dificuldade de delimitar os valores expressos por cada uma das preposições, em virtude das diferenças semânticas serem muito sutis.
Dentre os linguistas que rejeitam essa tese está B. Potier, que defende que as preposições são plenas de sentido. Respaldada em Borba (1971), Poggio sintetiza a discussão, explicando que a manutenção de um único sentido é favorecida pela baixa frequência, fato evidenciado pelas preposições antes, após, desde e completando o grupo, o sem. De outro modo, a alta frequência conduz à abstração de sentido, pondo em relevo o valor gramatical, sendo exemplares as preposições a, de, em, entre outras.
Retomando os autores citados na abertura desta seção temática, particularmente em relação ao volume II da coleção Gramática do português culto falado no Brasil, dedicado ao estudo das classes de palavras, Ilari, ao apresentar o livro, esclarece que ao longo da exposição dos temas há referência não só aos princípios da vertente funcionalista como também da teoria multissistêmica da linguagem, representada por Castilho, mas, feitas algumas ressalvas, ainda se pode entender o conjunto como uma abordagem funcionalista cuja preocupação é explicar as escolhas linguísticas realizadas e qual a contribuição das palavras para a interpretação das sentenças. Nas palavras do autor:
Essa perspectiva obriga a considerar as palavras não apenas como peças de uma montagem sintática (isto é, como unidades passíveis de ocupar uma certa posição na estrutura da sentença) mas também como unidades dotadas de propriedades semânticas e pragmáticas próprias. (ILARI, 2008, p. 10)
A base de toda a discussão levantada por Castilho (2009) sobre o sentido das preposições reside na concepção da preposição como operador de predicação. Significa dizer que as preposições viabilizam ligações semânticas entre o antecedente (também denominado figura) e o consequente (ou ponto de referência); este último, por intermédio da preposição, predica a figura, que pode ser representada por um nome ou por um verbo. No primeiro caso, tem-se a predicação de primeira ordem, ou predicação de referente; no segundo, predicação de segunda ordem, ou predicação de outro predicado, como revelam os exemplos: “goiabada
com queijo”, “veio de casa”, respectivamente.
A predicação resultante da junção da preposição ao ponto de referência em relação à figura atua nos seguintes eixos: localização, aspectualização, temporalização, quantidade e tematização. Castilho (2009, p. 290-293) delimita cada uma dessas propriedades e indica as preposições representativas de cada classificação. Neste tópico, sinalizo brevemente as noções envolvidas nos três primeiros eixos, parafraseando o autor:
Localização: as preposições situam a figura em lugares precisos em estados de coisas dinâmicos (indicando os pontos inicial/medial/final do percurso), estáticos (em cima/em baixo; à frente/atrás) ou imprecisos (dentro/fora; perto/longe; ausência/copresença).
Aspectualização: as preposições sinalizam para a representação de lugares imaginados do
evento, situando a figura num espaço com movimento ou sem movimento, daí a distinção entre preposição de caráter durativo e de caráter pontual.
Temporalização: nesse caso, a noção de tempo se vincula à de espaço, por associação
metafórica, projetando-se sobre a figura as noções de passado, presente e futuro. Desse modo, ao passado liga-se a ideia de percurso acabado; ao presente, a ideia de percurso em andamento; e ao futuro, a direção do percurso a ser feito.
A compreensão de todo o funcionamento do sistema preposicional tão bem delineado por Ilari et al. (2008) e Castilho (2009) se ancora no cognitivismo. Nesse sentido, sendo a linguagem o produto da mente, três expedientes concorrem para essa construção linguística – as percepções físicas da espécie, a exemplo da audição; as experiências motoras, a exemplo do deslocamento; e as experiências culturais. Nesse sentido, Ilari et al. (op.cit., p. 649) delimitam três bases de conhecimento que propiciam o funcionamento das construções
linguísticas, a saber: “esquemas imagéticos, modelos cognitivos idealizados e a própria língua”.
Os esquemas imagéticos estão diretamente relacionados à percepção que têm os falantes de si próprios e do ambiente. A contribuição dessa propriedade é a de permitir ao falante determinar o que em um determinado evento deve ser considerado em primeiro ou
segundo plano. Isto é, “o que está sendo colocado em proeminência e o que está sendo
tomado como fundo para a compreensão de uma expressão determinada” (ILARI et al., op. cit., p. 649). Para esclarecer a relação entre espaço e cognição, de modo a justificar que a maioria dos esquemas imagéticos é de natureza espacial, os referidos autores explicam o conceito de hipotenusa, demonstrando que só a partir da consideração da imagem de um triângulo é possível entender a hipotenusa como a linha diagonal, ou seja, a que se opõe às duas linhas retas.
Conforme os autores, o espaço é uma experiência fundamental não só por favorecer aos humanos os movimentos corporais, mas a visão sobre as coisas que estão ao seu redor. E,
na condição de objeto da experiência, é o espaço que nos permite definir “relações como as de
continente/conteúdo, centro/periferia, proximidade/distância, co-presença e ligação” (ILARI et al., op. cit., p. 650). A aplicação dessas propriedades ao sistema preposicional do português resulta em quatro tipos de esquemas espaciais que representam os diferentes usos: o do trajeto, o de em cima/em baixo, o de caixa e o de ligação. Este último esquema é o que abriga as preposições com e sem, que traduzem a ideia de presença ou ausência de elementos que se relacionam no espaço.
A segunda base de conhecimento, os Modelos Cognitivos Idealizados (MCIs), consiste em um conjunto de conhecimentos que se constrói tendo por base as experiências físicas e sociais das pessoas, sendo, ao mesmo tempo, um mecanismo a partir do qual as pessoas vão enquadrando outras situações, categorizando-as, revelando a sua compreensão do mundo. Ilari et al. (2008, p. 652) ressaltam que a busca de categorização também era do interesse da Filosofia e da Psicologia, mas enquanto para essas correntes as categorias são
estabelecidas “conceitualmente e em abstrato”, os cognitivistas concebem o léxico como um
instrumento de categorização da realidade via MCI. Nesse caso, o significado de uma palavra não é determinado unicamente pela indicação de um somatório de traços semânticos que se aplicariam, a princípio, a um determinado objeto do mundo; é preciso observar a adequação dos traços a uma realidade específica. Um exemplo fornecido para esclarecer essa situação é o
condição de se casar, excluindo, por exemplo, padres católicos e Papas, já que o celibato é um requisito aceito por ambos.
Em se tratando da preposição enquanto um meio de categorizar a realidade, a importância dos Modelos Cognitivos Idealizados, de acordo com os autores, revela-se no momento em que esses modelos guiam as escolhas dos usuários. Os autores comentam o emprego das preposições a e de, que, embora sejam selecionadas por verbos de movimento, têm suas especificidades – se o deslocamento do indivíduo é feito através de um veículo, a preposição selecionada é de, se isso não ocorre, é selecionada a preposição a. Ainda que se trate de estruturas fixas na língua, novas estruturas que vão surgindo podem se enquadrar nos modelos existentes.
Além desse fato, os MCIs se mostram úteis para esclarecer a polissemia das preposições, pois se uma preposição exibe mais de um valor e a extensão de sentido foi motivada pelo mesmo modelo cognitivo, isso se deve à possibilidade de um determinado uso ser compreendido por associação a outro, ou seja, pelo mecanismo da metáfora. Prova disso é uso da locução prepositiva frente a, cujo valor originário é de natureza espacial “fica à frente”
e assume em outro contexto valor de comparação, dado que realidades que são postas frente a frente podem ser explicadas uma em relação à outra, por meio da comparação. Em outros termos:
Um aspecto que estava disponível na co-presença, a comparação, ganhou destaque graças a uma metáfora pela qual ver é compreender, uma das tantas que ilustram a ideia de que as operações mentais se guiam pela experiência
de operações físicas („mente como corpo‟).(ILARI et al., 2008, p. 655).
Por fim, a terceira base de conhecimento que auxilia a organização das estruturas linguísticas, refletindo como um evento ou uma ideia são percebidos pelos indivíduos, é a própria língua. Ilari et al. (2008) apresentam pelo menos três razões que evidenciam a relevância desse conhecimento.
A primeira razão diz respeito à disponibilidade, no próprio sistema linguístico, de recursos lexicais e morfossintáticos que estabelecem moldes para a transmissão do que se pretende comunicar. Logo, a escolha de uma preposição dá pistas sobre que ângulo de um determinado evento está sendo posto em destaque – considerando-se, por exemplo, um evento como uma viagem, o que vai determinar se a atenção é dirigida para a ida ou para a volta será a preposição selecionada, no caso, as preposições a ou de, respectivamente, como confirmam
as sentenças: “Cheguei à Bahia” e “Cheguei da Bahia”. Há ainda a possibilidade de a
preposição interferir na semântica de um verbo, fato que se observa em relação a “falar”
quando combinado com as preposições com e para, de maneira que, na estrutura “falar com”,
o verbo assume o sentido de conversa coletiva, por estar presente a ideia de concomitância; e
a estrutura “falar para” expressa o sentido de transmissão de informação, estando presente a
ideia de trajeto, entendendo-se que a informação se desloca ao longo de um canal.
A segunda razão corresponde ao fato de ser a língua que vai confirmar ou não os modelos cognitivos idealizados. Assim, entidades à primeira vista muito diferentes podem ser associadas, em virtude de algum traço cognitivo comum. Um exemplo é o da preposição ante,
cujo sentido é de “posição diante de” e que em outra circunstância, com o auxílio de um “S”, acomoda o sentido de “sequenciamento”, isto porque “o que está frente a frente pode ser percebido como sequenciado” (ILARI et al., 2008, p. 655). Portanto, há alguma semelhança
que aproxima esses dois valores.
Quanto à terceira razão, refere-se à responsabilidade que tem a língua de determinar quando é possível a extensão metafórica para um certo sentido. No caso, por exemplo, da metáfora tempo é movimento no espaço, tal como outras línguas, o português concebe a ideia de tempo como deslocamento ao longo de um trajeto, acrescentando em relação à noção de movimento duas possibilidades de direcionamento – a dos eventos em direção ao enunciador e a do enunciador em direção aos eventos, como ilustram os exemplos: “João, o fim do ano
está chegando” e “João, desse jeito você vai chegar esgotado ao fim do ano.” (ILARI et al.,
2008, p. 656).
Quando da abordagem do sentido das preposições, Castilho (2009) argumenta que as preposições têm um sentido original, vinculado às noções de espaço/tempo, mas dos quais derivam outros sentidos resultantes de extensões metafóricas, processo que também é decorrente da criatividade humana. Os exemplos até então elencados neste subtópico ratificam esse postulado. Eis a explicação do autor: “Processos de alteração semântica distanciam as Preps de seus sentidos de base, via alteração de esquemas imagéticos, levando-
as a desempenhar outros papéis” (CASTILHO, 2009, p. 293).
Uma outra observação feita em relação ao sem é de que essa preposição “pode
formar expressões atributivas, quase como prefixos” (sujeito sem graça; ... então o caso é um caso sem jeito...) (ILARI et al., 2008, p. 702).Conforme os autores, ocorre aqui a reprodução de transposição de esquemas evidenciada com a preposição com, uma vez que a proximidade de espaço tanto pode ser gramaticalizada pelo prefixo quanto pela repetição do com, a
exemplo de estruturas como: “... comentar comvocê”, “... correlação com a realidade”, “...
acompanhar com”, etc. (ILARI et al., 2008, p. 698).
Finalizando esta exposição, cabe observar que Ilari et al. (op. cit.) dedicam uma boa parte do capítulo sobre preposições à análise das que são mais frequentes, esclarecendo primeiramente os sentidos originários seguindo-se da explanação sobre as extensões de sentido e de como se dá a transposição de esquemas – do espaço para os variados sentidos. Nos dados analisados pelos autores, a ocorrência do sem é ínfima; esse fato aliado ao entendimento de que o único modelo cognitivo desta preposição “é uma forma de ligação (negada): a não-presença num mesmo espaço em que outro objeto está representado (representações da ausência são possíveis mas menos intuitivas)” termina obstaculando a feitura da sua diagramação. (ILARI et al., 2008, p.766). Mais adiante os autores acrescentam que o sem “pode desempenhar o papel de uma conjunção, intermediando entre sentenças.” (ILARI et al., op. cit., p.768). Essa afirmação reforça a proposição de que o sem diante de forma verbal infinitiva seguida de complemento ocupa lugar de conjunção. Na seção 3.2, analiso esse tipo de funcionamento, procurando demonstrar que, se, por um lado, ainda persiste o sentido de base, por outro lado, outros sentidos podem ser evocados a partir dessa partícula, nas cláusulas adverbiais objeto de estudo desta pesquisa.