• Sonuç bulunamadı

Os homens tentam se camuflar atrás de suas palavras segundo Saint-Preux. Contudo, não se faz necessário perscrutar seu âmago para lhes conhecer e adivinhar o teor de seus discursos; basta apenas tentar descobrir seus interesses, isto é, aquilo que os motiva a jogar com as palavras: “Não é necessário conhecer o caráter das pessoas, mas somente seus interesses, para adivinhar aproximadamente o que dirão de cada coisa”. (ROUSSEAU, 1994, p. 212). Há uma desnudada desconfiança de Rousseau em relação ao homem civilizado48 incutida nessa passagem; porém é preciso entender que sua cisma recai sobre os cidadãos parisienses e não, por exemplo, sobre os camponeses que habitam os campos ou vilarejos, como é o caso de Júlia e Saint-Preux. Ora, porque se faz necessário conhecer o interesse das pessoas ao invés de simplesmente esperar o que dirão sobre tal assunto? É bem lógico que para o genebrino não se pode confiar nas palavras uma vez que não passam de uma forma de obstáculo que apenas se presta a esconder aquilo que cada um tem de autêntico. Com isso, é fácil compreender a repulsa que o amigo de Júlia manifesta em relação ao ambiente citadino de Paris: “Entro com um secreto horror neste vasto deserto do mundo”. (ROUSSEAU, 1994, p. 210). Saint-Preux ao rejeitar o ambiente estrangeiro, na verdade, está negando sua falta de autenticidade, isto é, está refutando a hipocrisia. Desta forma, não se trata somente de um simples ato de repúdio sem justificação, o que o jovem filósofo rejeita é a postura incoerente que observa e que dista dos padrões de seu ambiente natal a ponto de gerar uma situação quase de caráter incomunicável: “Meu coração desejaria falar, sente que

48 Sobre a falta de transparência da sociedade civilizada considera Starobinski: “A mentira, ficção,

ilusão formam o próprio meio em que evoluem as sociedades civilizadas”. (STAROBINSKI, 1991,

não é ouvido; desejaria responder, nada lhe dizem que possa chegar até ele. Não compreendo a língua do país e ninguém aqui compreende a minha”. (ROUSSEAU, 1994, p. 210).

O mal estar gerado pela indignação de sua nova situação faz Saint-Preux aos poucos revelar uma proeminente desconfiança no que concerne à convivência com seus novos concidadãos. Desta forma se estabelece uma nova relação em que o homem já não é mais passível do merecimento de confiança. O dualismo entre o que se diz e o que se faz estabelece na percepção do amigo de Júlia um senso crítico que o leva a estar sempre precavido contra tudo aquilo que se lhe apresenta, a princípio, como algo favorável e convidativo. Por mais bem intencionadas que as pessoas possam parecer a que se compreender que tudo faz parte apenas de uma forma conveniente de se manter as aparências e uma falsa noção de harmonia. Saint-Preux se coloca não em uma atitude de pessimismo diante do que o envolve, porém em uma posição realista com respeito a um excesso de solicitude: “Não é que não me ofereçam uma boa acolhida, amizades, cortesias e que mil cuidados obsequiosos não pareçam ao meu encontro. Mas é disso justamente que me queixo. Como ser logo amigo de alguém que nunca me viu ?” (ROUSSEAU, 1994, p. 211). É preciso relembrar que a questão da cortesia é a mesma da polidez em que se tenta esconder os desejos egoístas e o ambiente hostil em que está mergulhada a sociedade através de palavras sutis e relações de conveniência. Rousseau destaca um ponto muito interessante que marca acentuadamente uma singular distinção entre as relações verdadeiras e aquelas pautadas em convenções de cortesia; a saber, essa diferenciação pode ser definida pela palavra efêmero. Laços que se contraem com o anteparo da sinceridade perduram, ao passo que relações pautadas apenas em palavras ou em gestos cuja única intenção é camuflar logo se extinguem e revelam seus verdadeiros interesses:

Tenho muito medo de que aquele que desde o primeiro momento me trata como um amigo de vinte anos não me trate, ao final de vinte anos, como um desconhecido se tiver de pedir-lhe um grande favor, e quando vejo homens tão distraídos ter um tão terno interesse por tantas pessoas, presumiria facilmente que não o têm por ninguém. (ROUSSEAU, 1994, p. 211).

É possível corroborar claramente a partir da passagem acima mais uma vez a presença da reiterada contradição entre os interesses e as palavras tão criticada por Rousseau em sua obra. Basta uma simples tentativa em pôr em prática aquilo que dita os enunciados para que se caia por terra a máscara de uma índole forjada socialmente. Tudo está condenado à superficialidade das palavras e das atitudes e já não existe o compromisso com o esclarecimento da verdade49. Saint-Preux observa a necessidade que as pessoas em Paris têm de expressarem suas opiniões a respeito daquilo que não guarnece de importante interesse simplesmente pelo fato de poderem participar do diálogo:

Fala-se de tudo para que cada um tenha alguma coisa para dizer, não se aprofunda as questões por medo de entediar, elas são propostas como por acaso, são tratadas com rapidez, a precisão leva à elegância; cada um diz sua opinião e a fundamenta em poucas palavras, ninguém ataca a de outrem, ninguém defende obstinadamente a sua; discute-se para esclarecer a si mesmos. (ROUSSEAU, 1994, p. 211-212).

49 Mais uma vez nessa parte do estudo se faz necessário citar a posição de Bento Prado em relação à questão da importância da verdade: “A mentira não é um buraco na rede da linguagem,

mas um gesto que pode ter efeitos tantos positivos como negativos. Não é a verdade que importa, mas a maneira de dizer e seus efeitos. Não é o que se diz que importa, mas o que você faz com o que você diz”. (PRADO JUNIOR, 1983, p. 47). Há que se ressaltar que a análise expressa por

Bento manifesta uma latente preocupação acima de tudo com a questão da linguagem enquanto uma mentira do real, no sentido de que a palavra não é o objeto propriamente a que se refere.

A crítica rousseauniana se debruça sobre a indiferença para com a verdade presente nos círculos sociais parisienses, ou seja, através de Saint-Preux, pode-se ver Rousseau preocupado com uma retórica mal intencionada e egoísta preocupada apenas com a elegância50. A autenticidade e os valores estão perdidos e já não se pode mais confiar mais nos discursos que se assiste não ser como sinônimos mentira:

Mas no fundo, o que pensas que se aprende nessas conversas tão encantadoras? [...] Aprende-se a advogar com habilidade e causa a mentira, a abalar, à força de filosofia, todos os princípios da virtude, a colorir com sofismas sutis as próprias paixões e os próprios preconceitos e a dar ao erro certa feição que está na moda segundo as máximas do dia. (ROUSSEAU, 1994, p. 212).

Benzer Belgeler