No que concerne ao tratamento da questão da biopirataria no plano internacional, mencionaremos um acordo, o qual foi o resultado de debates realizados acerca do acesso à biodiversidade. Trata-se da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), elaborada pela comunidade internacional após dois anos de intensos debates a respeito do problema do acesso à biodiversidade e que foi assinada por mais de 140 países quando de sua apresentação na Convenção das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro. Atualmente, a CDB encontra- se ratificada por 180 países, incluído o Brasil.
Alguns de seus dispositivos tratam especificamente da questão da pirataria do conhecimento tradicional, pelo que julgamos necessária uma menção a esse intento de vários países de discutir e elaborar soluções para o problema que ora nos ocupa.
A fim de que seja desenvolvido - e patenteado - um produto a partir de quaisquer recursos biológicos, é preciso um estudo prévio acerca da planta ou animal que disponibilizará o princípio ativo útil à confecção deste produto. São necessárias, portanto, investigações para que se descubra um ser vivo portador de algum princípio ativo interessante. Ao conjunto de pesquisas que tenham essa finalidade dá-se o nome de bioprospeccção.
Nesta tarefa, obter-se-á maior ou menor êxito conforme a metodologia utilizada, a qual pode ser a bioprospecção aleatória, bioprospecção racional, ou a etnobioprospecção. A primeira delas consiste na coleta ao acaso de plantas, método esse que apresenta reduzido grau de êxito, em torno de 1/10.000. A bioprospecção racional proporciona melhores resultados ao adotar critérios como a pertinência a um
determinado grupo de espécies cujas propriedades já são conhecidas, comparando-se suas características, como o formato das folhas, por exemplo.
No entanto, o método que oferece o maior grau de êxito e reduz consideravelmente o custo e o tempo das pesquisas científicas para o desenvolvimento de um determinado produto, é a etnobioprospecção, ou seja, o conhecimento das propriedades de plantas e animais obtido a partir das comunidades locais.
Nesse sentido, a CDB adquire relevância pelo pioneirismo no tratamento da questão do acesso à diversidade biológica e, conseqüentemente, do combate às atividades ilegítimas de bioprospecção.
No seu preâmbulo, a CDB reconhece o valor da biodiversidade e de seus vários componentes - ecológicos, genéticos, sociais, científicos, educativos, culturais, recreativos e estéticos - e preconiza-os como essenciais ao desenvolvimento socioeconômico dos países periféricos e à erradicação da pobreza.
O artigo 1º, sobre o qual repousam todos os demais princípios da convenção, estabelece a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de seus componentes e a repartição justa e eqüitativa dos benefícios oriundos da utilização sustentável dos recursos genéticos, mediante o adequado acesso a estes e a transferência de tecnologia por parte dos países desenvolvidos.
No que se refere especificamente à pirataria do conhecimento tradicional, o artigo 8j determina que, em conformidade com a legislação nacional, deve-se respeitar, preservar e manter o conhecimento, as inovações e práticas das comunidades locais e populações indígenas com estilos de vida tradicionais, relevantes à conservação e utilização sustentável da diversidade biológica; deve-se, ainda, incentivá-las mais amplamente, através da exigência de sua aprovação e participação para a utilização desse conhecimento, inovações e práticas; e, finalmente, deve-se encorajar a repartição eqüitativa dos benefícios provenientes dessa utilização.
Portanto, no que tange ao combate à pirataria do conhecimento tradicional, as diretrizes da CDB implicam um compromisso dos países signatários no sentido de envidar esforços para a implementação de duas medidas básicas quando da utilização desse tipo de conhecimento, quais sejam, a aprovação prévia por parte das comunidades tradicionais e o seu direito à participação nos benefícios daí advindos.
No mais, tem sido criticada a forma como foi tratada pela CDB a questão das patentes e da proteção aos direitos de propriedade intelectual, dada a pouca precisão
com que o acordo internacional trata este assunto, ensejando uma multiplicidade de interpretações por vezes conflitantes.
Num âmbito mais geral, existe a dificuldade de concretização dos princípios contidos na convenção, devido ao seu caráter de mero compromisso entre os signatários, sem a possibilidade de aplicação de sanções.
Ademais, a disparidade de condições e interesses entre os países e a ausência de uma maior união e cooperação entre os países em desenvolvimento constituem grandes empecilhos no combate à bioprospecção ilegítima. De fato, parecem ser mais vantajosas para as nações desenvolvidas a prática da pirataria de recursos biológicos e a indevida utilização do conhecimento tradicional, e um bom exemplo disso é o fato de que os Estados Unidos não figuram como signatários do tratado.
Nessa conjuntura, torna-se imprescindível a cooperação internacional a que alude a CDB em seus artigos 23 a 25, e a junção de esforços por parte dos países do sul, a fim de terem maior relevância no cenário internacional e fazerem valer a sua vontade.
Capítulo 3
Globalização e colonização
O modelo por nós criticado no primeiro capítulo - o qual reduz a criatividade bem como o conhecimento a um modelo oficial, digno de proteção por meio dos direitos de propriedade intelectual e que tende a considerar os componentes mínimos dos seres vivos, destacando-os do todo, ao excluir outras formas de conhecimento e interferir tanto na natureza, a ponto de homogeneizar culturas, engendra o que se poderia denominar terceira onda de globalização.
No entanto, antes de abordar o que se poderia considerar a colonização vivida nos tempos de hoje, façamos um histórico de outros modos de colonização que foram praticados ao longo da história. Todos eles refletem, mais ou menos, o mesmo pensamento, o qual continua, entretanto, sendo concretizado, através de práticas diversas ao longo do tempo.