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“O caso da vara” (1891) narra de maneira breve a fuga do jovem Damião do seminário e a conseqüente busca por ajuda para não mais voltar. Sem ter a quem recorrer, lembra-se da “amante” de seu padrinho João Carneiro, que poderia fazê-lo interceder junto a seu pai. No entanto, paralela a esta história, temos outra, na qual Damião, à espera de uma resposta de seu padrinho, que fora falar com seu pai, compadece-se por Lucrécia, escrava de Sinhá Rita (a “amante”) ameaçada de castigo, caso não termine seu trabalho. A primeira resposta do padrinho não é boa, pois seu pai ficou furioso e Damião se vê dependente de Sinhá Rita, que pressiona ainda mais João Carneiro. Chega então o momento de conferir os trabalhos e, como Lucrécia não terminara o seu, Sinhá Rita, enfurecida, visa castigá-la, e sai em busca da vara com a menina presa pela orelha. Damião está próximo ao objeto e Sinhá Rita pede que ele o dê a ela, Damião hesita, mas entrega a vara.

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Ver Nicolau Sevcenko (1995, p. 161-166). Neste trabalho o autor dialoga com as obras de Euclides da Cunha e Lima Barreto para discutir as “tensões históricas” e os “dilemas culturais” na Primeira República. Sobretudo, na sua análise de Lima Barreto notamos inúmeros paralelos entre este escritor e Machado de Assis, inclusive os trechos citados de Lima Barreto foram percebidos a partir da leitura da referida análise.

Nesse esquema conciso vemos a força do conto machadiano, pois, como afirma Ricardo Piglia, (1994, p. 37) “um conto sempre conta duas histórias” uma história visível e outra secreta, sendo que o autor precisa ter em mente a segunda história, a fim de que a primeira apresente os elementos da história secreta que se está narrando, de modo elíptico. Assim, a tensão que se cria a partir dos elementos que constituem as duas histórias, deve ser mantida até que a história secreta desponte. O que era acessório na história visível se mostra essencial à história secreta. A história visível da fuga de Damião, e da sua expectativa com relação à decisão do pai, esconde a história secreta de sua situação em relação ao sofrimento de Lucrécia, narrada fragmentariamente, e que só ao final surge como fundamental.

A narrativa de um conto de enredo possui uma trama na qual vemos as relações de causa e efeito, uma vez que encerra uma diferença entre a situação inicial e a situação final, ou seja, há um desenlace. A personagem Damião foge do seminário e busca meios para não voltar. A narrativa apresenta uma trama que provoca uma preocupação com seu desfecho. No entanto, a outra característica de um conto de enredo típico: a resolução do impasse, não acontece, visto que, ao final, não sabemos se Damião volta ou não ao seminário. Trata-se, portanto, de um conto de atmosfera? Veremos que não. Um conto de atmosfera típico não tem trama, o destaque está na situação, não no enredo.53 Todavia, a supremacia da situação, cuja tensão e dramaticidade se fazem sentir no interior das personagens, também não podemos afirmar que esteja completamente ausente no conto.

Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano; foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. (ASSIS, 1997, v. 2, p. 577).

Acima extraímos o primeiro trecho do conto, no qual o narrador apresenta o quadro inicial da situação que contará. Quando Damião atina sobre a possibilidade de pedir socorro a seu padrinho João Carneiro, vemos a ironia se delinear com a descrição do momento em que esse mesmo padrinho o apresentara ao reitor do seminário e, novamente, a descrição desse rapaz no meio da rua, espantado e tenso.

A ironia é um recurso largamente utilizado por Machado de Assis. Nesse conto, ela também está presente, não circunscrita apenas em uma frase ou outra, mas em todo o texto. Ela se faz sentir mais intensa na dureza dos fatos (Damião se compadece do sofrimento de

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Os contos de enredo se ligam mais a um projeto “realista”, exemplos clássicos desse tipo de conto são os de Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant. Já os contos de atmosfera ligam-se à literatura moderna, especialmente Virginia Woolf, James Joyce e, no caso brasileiro, Clarice Lispector.

Lucrécia, mas é justamente ele quem entrega a vara à algoz), pois, mais relevante do que a ironia que aparece nas frases, isoladamente, a partir da tensão entre literal e figurado, é sua disseminação textual.

Considerando-se a ironia como um fenômeno discursivo que joga com a lógica dos contrários e que pode funcionar como um princípio de organização de um texto, é possível observar alguns mecanismos de construção textual cujo conjunto pode produzir efeitos irônicos e humorísticos. (BRAIT, 1996, p.90).

Este conto se volta para o fato real, não com o intuito de retratar um dado momento da realidade, mas observá-lo, atendo-se à dimensão da ação humana, sem procurar moralizar ou ensinar nada. É essa perspectiva que Alcides Villaça (2006) desenvolve em seu artigo sobre esse mesmo conto, pois não é possível estabelecer um julgamento claro entre o que é “interesse condenável” e “necessidade incontornável”.

Fosse nítida essa fronteira, satisfaríamos nosso impulso para aquele tipo de dualismo primário mas cômodo, que separa drasticamente o joio do trigo. Mas o compromisso de Machado para com a complexidade dos fatos, responsável mesmo pela concreção com que se determinam, impede-o de estabilizar os valores (ao modo romântico ou ao modo naturalista, por exemplo), de os atrelar a uma perspectiva puramente subjetiva ou estritamente materialista. (VILLAÇA, 2006, P. 22).

O modo como o narrador nos apresenta esta trama é crucial para entendermos porque não se trata de uma simples escolha entre interesse ou necessidade, mas como essas duas dimensões se complexificam no interior de uma sociedade pautada na violência da escravidão, bem como no patriarcalismo, que hierarquizam as relações entre os indivíduos de maneira praticamente inexorável.

Como vimos acima, segundo Roberto Schwarz (1977), a estrutura social brasileira se pauta pela relação social do “favor”, assinalando como, no século XIX, nossa sociedade se baseia em idéias liberais, mesmo quando as pessoas ainda são dependentes. O liberalismo no Brasil, no entanto, não foi capaz de emancipar o indivíduo, posto que este continuava dependente dessa relação, na qual, todos, inclusive os próprios dependentes, partilhavam do mesmo imaginário.

Mesmo o mais miserável dos favorecidos via reconhecida nele, no favor, a sua livre pessoa, o que transformava prestação e contraprestação, por modestas que fossem, numa cerimônia de superioridade social, valiosa em si mesma. Lastreado pelo infinito de dureza e degradação que esconjurava – ou seja a escravidão, de que as duas partes beneficiam e timbram em se diferençar – este reconhecimento é de uma conivência sem fundo, multiplicada, ainda, pela adoção do vocabulário burguês da igualdade, do

mérito, do trabalho, da razão. Machado de Assis será mestre nestes meandros. (SCHWARZ, 1977, p.18-19).

O pai de Damião não aparece em nenhum momento do conto, contudo sua presença é ubíqua e é ela que determina o desenvolvimento da história. O patriarcalismo da sociedade brasileira aparece claro, pois o pai de Damião o punirá com violência, se necessário, a fim de que ele cumpra suas ordens de voltar e permanecer no seminário. Como Damião não tem condições, devido à sua posição de dependência enquanto filho, não tem autonomia. Sendo assim, Damião lança mão das relações sociais, nas quais o favor é a única saída.

Damião lembra-se de seu padrinho, João Carneiro, mas também que ele, por si só, não o ajudaria. Então, busca em sua memória quem levaria seu padrinho a ajudá-lo, e lembra-se de Sinhá Rita.

Afinal, Damião contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.

- Como assim? Não posso nada. - Pode, querendo.

- Não, replicou ela abanando a cabeça; não me meto em negócios de sua família, que mal conheço; e então seu pai, que dizem que é zangado! (ASSIS, 1997, v. 2, p. 578).

Por fim, Damião consegue a proteção de Sinhá Rita, lisonjeando-a, mas principalmente, por tocar no ponto principal de sua relação com o padrinho, o que aparece nesse diálogo:

- Meu padrinho? Esse é ainda pior que papai; não me atende, duvido que atenda a ninguém...

- Não atende? interrompeu Sinhá Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro se atende ou não... (ASSIS, 1997, v. 2, p. 578).

A partir desse diálogo e da descrição seguinte de Sinhá Rita, o narrador nos leva a crer numa relação amorosa entre ela e João Carneiro, e com base nessa relação Sinhá Rita se vê apta a conseguir de João Carneiro o favor necessário ao moço que está numa posição de dependência em relação a ela. Note-se que Damião está à mercê de um capricho de Sinhá Rita. “Não há exagero portanto em afirmar que o favor pessoal, incluída nele a parte inevitável e já então imperdoável de capricho, vem colocado em primeiro plano pela estrutura social do país ela própria.” (SCHWARZ, 1990, p. 84).

Desta forma, foram traçadas as relações sociais que informam e definem o comportamento das personagens: Damião quer54 sair do seminário, mas não pode fazê-lo por não ter autonomia; Sinhá Rita pode ajudá-lo, contanto que o padrinho João Carneiro atenda um capricho seu. No entanto, estamos lidando com uma obra literária que, enquanto tal, não pode ser pensada como mero reflexo da realidade, no caso, relações sociais assimétricas em uma estrutura social pautada na escravidão e no patriarcalismo, cuja mediação conhecida e reconhecida por todos é o favor. Com isso, percebe-se na análise de “O caso da vara” a complexidade das relações sociais ao se observar a ação das personagens envolvidas.

Após Sinhá Rita ter aceitado ajudá-lo, o narrador apresenta a personagem fundamental da trama. Sinhá Rita “ensinava” moças e escravas a fazerem renda e bordado e Lucrécia é uma de suas escravas. Damião, já mais tranqüilo, faz rir as moças da casa, inclusive Lucrécia que recebe a ameaça de Sinhá Rita, caso não cumpra o trabalho.

Damião olhou para a pequena; era uma negrinha, magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão esquerda. Contava onze anos. Damião reparou que tossia, mas para dentro, surdamente, a fim de não interromper a conversação. Teve pena da negrinha, e resolveu apadrinhá-la, se não acabasse a tarefa. (ASSIS, 1997, v. 2, p.579).

Essa descrição, em meio às “angústias” de Damião, fica minimizada, mas pontua de forma explícita a violência da escravidão, sobretudo quando observada sobre a criança escravizada, pois aponta para as marcas presentes na pele e na alma de quem as sofre, mas que, como Lucrécia, não deixa de ser criança. “Esta surge nomeada pelos signos do apequenamento e fragilidade do físico, que convivem, entretanto, com a leveza de espírito que a faz rir e se divertir com a situação do jovem e com as anedotas que ouve.” (DUARTE, 2007b, p. 258).

O “narrador onisciente neutro”, como nos define Norman Friedman (2002) – ou não tão neutro assim, pois para que haja ironia a proximidade é essencial – de forma sarcástica, descreve a reação do padrinho quando se vê diante do afilhado e sob a pressão de duas forças opostas. De um lado, as chantagens sentimentais de Sinhá Rita, e de outro o poder do pai de Damião:

Por que lhe não pedia outra cousa? Por que lhe não ordenava que fosse a pé, debaixo de chuva, à Tijuca, ou Jacarepaguá? Mas logo persuadir ao compadre que mudasse a carreira do filho... Conhecia o velho; era capaz de lhe quebrar uma jarra na cara. Ah! se o rapaz caísse ali, de repente, apoplético, morto! Era uma solução – cruel, é certo, mas definitiva.

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Alcides Villaça (2006) desenvolve seu argumento a partir da utilização dos verbos “querer, poder e precisar” que permeiam todo o conto.

- Então? insistiu Sinhá Rita.

Ele fez-lhe um gesto de mão que esperasse. Coçava a barba, procurando um recurso. Deus do céu! um decreto do papa dissolvendo a Igreja, ou, pelo menos, extinguindo os seminários, faria acabar tudo em bem. João Carneiro voltaria para casa e ia jogar os três-setes. Imaginai que o barbeiro de Napoleão era encarregado de comandar a batalha de Austerlitz... Mas a Igreja continuava, os seminários continuavam, o afilhado continuava cosido à parede, olhos baixos, esperando, sem solução apoplética. (ASSIS, 1997, v. 2, p. 580, grifo do autor).

Nessa passagem, de uma ironia sádica, vemos a importância da maneira figurativa do texto que, para além do tema, ou seja, da exposição das relações de dominação nessa sociedade – cuja base é Lucrécia e o topo o patriarca inominado que nos lembra o Coronel Felisberto55 de “O enfermeiro” (1896) – estão o humor e a ironia que descrevem de maneira ambígua, a hipocrisia da sociedade brasileira.

Durante o período de espera, Damião fica entristecido, mas é logo animado por Sinhá Rita até a chegada da carta de João Carneiro falando sobre a reação do pai de Damião, que não se mostrou nada acessível. O padrinho apenas conseguira persuadi-lo a esperar um dia, antes de mandá-lo novamente ao seminário. Com isso, os elos da cadeia se apertam ainda mais, Damião só pode se apegar em Sinhá Rita, que manda um novo bilhete a João Carneiro, pressionando-o mais. Entretanto, chega o momento de pegar o trabalho das escravas e Lucrécia não conseguiu terminar. Sinhá Rita enfurecida pega-a pela orelha e sai à procura da vara a fim de castigá-la. Eis que Damião está próximo ao objeto e Sinhá Rita, enraivecida, pede que ele o pegue. Lucrécia suplica ajuda a Damião em meio a um acesso de tosse. “Damião sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à marquesa, pegou na vara e entregou-a a Sinhá Rita.” (ASSIS, 1997, v. 2, p. 582).

A cadeia foi rompida, pois, nessa relação de favor, como já citamos anteriormente com Roberto Schwarz (1977), nenhuma das partes é escrava, uma vez que esta parte está envolvida na relação produtiva, garantida e mantida pelo uso da força. No favor, o que se reconhece é a pessoa livre, mesmo sendo o elo mais fraco. Antonio Candido (1995, p. 34) admite que um tema que o atrai nos livros de Machado é “a transformação do homem em objeto do homem, que é uma das maldições ligadas à falta de liberdade verdadeira, econômica e espiritual”. Para Alfredo Bosi (1982, p. 456), “O bem-estar de uns parece fundar-se na desgraça de outros”.

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A associação é inevitável. O narrador situa esse conto por volta de agosto, antes de 1850, a história que Procópio nos conta data de agosto de 1859, nove anos antes da morte do Coronel Felisberto. Além disso, o comportamento do patriarca nesse conto é apenas aludido pelos personagens que o temem e o Coronel Felisberto é descrito minuciosamente pelo narrador-personagem de “O enfermeiro”. Assim, atirar moringas ou jarras em seus subordinados é característico de ambas as personagens situadas no cume da pirâmide social. Não fosse o fato de Coronel Felisberto não ter parentes próximos, poderíamos seguir com essa conjectura.

No momento da apresentação de Damião ao reitor, no início do conto, temos esse diálogo entre João Carneiro e o reitor do seminário: “- Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor. - Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã”. Na versão publicada na Gazeta de Notícias, de 01 de fevereiro de 1891, Machado de Assis é bastante minucioso e descreve toda a conversa entre o padrinho João Carneiro e o reitor56 do seminário. Nos trechos omitidos, vemos delineadas a superficialidade e a retórica vazia de ambos, no caso do padrinho, descrito logo no início como “homem bem fallante, amigo de palavras bonitas [...]”, isso é ainda mais perceptível. Nesse sentido, o narrador chama a atenção para a humildade necessária ao futuro grande homem, que o padre aconselha e o padrinho endossa. Note-se que não passa de pura falácia, pois ambos, aparentemente, não o são e passam a tratar exclusivamente da importância da oratória57. Sem se ater à realidade, a ênfase recai sobre o ornato, uma vez que não se questiona a vocação do rapaz, embora já se aponte para a grandeza do futuro “grande homem”. “Espero que elle saia o grande homem que todos esperamos. Nem será outra cousa, se puder beber dos sagrados labios de Vossa Reverendíssima as profundas lições que ha meia hora me fortalecem a alma e levo para o meu tugurio...”. (ASSIS, 1891, p. 1).

A ironia precisa zomba de todo esse discurso, pois, apesar da ênfase do padrinho, não há muito para “beber” das palavras do padre. Assim, opondo à máxima de João Carneiro a real situação do rapaz, o narrador evidencia, por meio da ironia, a subjetividade da personagem em conflito com o ambiente religioso.

Damião não teve igual fortuna, apezar dos esforços do padre, que tentou cumprir as esperanças de João Carneiro e da familia do seminarista. Não era bronco o rapaz, aprendia bem. Mas era um captivo do mundo e dos seus regalos, avesso à vida ecclesiastica, virtualmente profano, e sem docilidade nem resignação. As lembranças de fóra vinham espial-o, e a austeridade da casa aborrecia-o. Tudo n’elle pendia para o mal. (ASSIS, 1891, p. 1).

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Nesta versão, o reitor não estava no momento da chegada de Damião e todo o diálogo, inclusive as partes mantidas na versão final, é estabelecido entre João Carneiro e o Padre B... Agradeço à seção de periódicos da Biblioteca Nacional pela consulta e à Coordenadoria de Pesquisa da FBN por disponibilizar uma cópia em cd.

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A título de ilustração, citarei aqui, o trecho referido e omitido por Machado de Assis. “O padre elogiou especialmente as grandes boccas de pulpito, Chrysostomo, Bosset, Vieira... Vieira, - que podia o Sr. João Carneiro dizer do Illustre Vieira? Oh, certamente nada mais que louvores; tudo havia n’elle, eloquencia, saber, linguagem. Que magníficas roupagens de estylo! que elevação! Que sublimidade! Mas sua Reverendíssima devia fazer igual justiça á loquella profana. Um Cícero, por exemplo? – Não, ah! não! o padre não contestava os meritos de um Cícero, nem por ser profano, nem por ser pagão. A intelligencia era semelhante á tocha, que tanto pode arder no templo, como na sala. Ao cabo, a Igreja tinha certo amor particular ás artes latinas. Não eram latinas as suas vozes? Não, não desadorava Cícero, nem qualquer outro orador grave do século. João Carneiro acudiu com muito boas maneiras, que também elle prezava os Cíceros do púlpito; e dizia isto com palavras longas e aceladas, emquanto o gesto macio do padre ia sublinhando os seus assentimentos, – ambos risonhos, ambos compassados. Afinal despediram-se com muitas ceremonias”. (ASSIS, 1891, p. 1).

Ademais, o aspecto mais interessante dessa situação é que os enlevos profanos do rapaz são detalhadamente descritos e, mesmo correndo o risco de deixar a análise um pouco debilitada, vale a pena citar mais esta cena.

Um dia, assistindo a uma predica, ouviu contar a visita da rainha de Sabá ao rei Salomão. O prégador tirou d’essa entrevista uma lição espiritual; mas Damião descreveu comsigo a rainha, rasgou-lhe os olhos, contornou-lhe a espádua, desfez-lhe os cabellos, e adorou-a. Buscou meio de lêr o episodio no proprio texto biblico. A narração tinha a magnificencia apenas narrativa da Escriptura; mas quando elle viu ao pé da rainha as mulheres moabitas, ammonitas, iduméns, sidonias, hetheas, as setecentas esposas e as tresentas concubinas de Salomão, esta só indicação deu-lhe rebate á fantasia. Estudo e somno eram perturbados por aquella multidão de creaturas que bracejavam diante d’elle as suas graças finas, tranzendo-lhe as alfaias e os cedros, os tapetes e os ouros, [...] toda a pompa do filho de David. (ASSIS, 1891, p. 1).

Aqui, notamos uma semelhança com a própria cena mantida na versão final do conto, quando Damião, em meio a todas as moças que trabalhavam na casa de Sinhá Rita (esta como uma espécie de rainha de Sabá), conta anedotas, ouve músicas, etc. Talvez, a supressão tenha- se dado para dar mais força ao conto, deixando o estritamente necessário para a emersão da “história secreta”, da situação central que apenas subjazia em meio às desventuras do rapaz. Todavia, evidencia que Damião, tal qual o padrinho e o padre, já era um membro típico da elite da época. Ele de fato adquiriu certa humildade, mas peculiar, pois, já no final – quando

Benzer Belgeler