Manyetik anomaliYapma gravite anomalis
3.1.7 Yapma Gravite Dönüşümü (Pseudo Gravity)
Como vimos, Ludwig Joseph Hohann Wittgenstein dedicou-se a discutir questões próprias à linguagem. Dentre os livros mais importantes, podemos destacar o Tractatus
Logico-Philosophicus e as Investigações Filosóficas. Segundo Fann (1975), a filosofia de
Wittgenstein refere-se a uma ruptura do modelo filosófico tradicional. Isso porque o filósofo deteve-se, de um modo diferente, a analisar sistematicamente as questões próprias da filosofia, na tentativa de dissolver os problemas filosóficos, que, para ele, eram frutos do mau uso da linguagem. Nas palavras de Wittgenstein (1979, p.54), “A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento pelos meios de nossa linguagem.” Segundo essa perspectiva, a filosofia de Wittgenstein diferenciar-se-ia dos estudos filosóficos da época por dois motivos: primeiro porque Wittgenstein, de modo semelhante a outros filósofos (Russel, Frege, Moore), realiza sua discussão filosófica no campo da linguagem; segundo porque o filósofo apropria-se da linguagem e a utiliza para retomar as questões discutidas em filosofia, num exercício de questionar o que estava estabelecido.
Na primeira Guerra Mundial, quando se alistou como voluntário, Wittgenstein dedicou-se intensamente aos escritos do manuscrito Tractatus Logico-Philosophicus (Logische-Philosophiche Albhandlung). Em 1918, aprisionado pelas tropas italianas, escreveu para Russel e enviou uma cópia para John Maynard, na tentativa de ver seu livro publicado. Depois que foi libertado, ainda insistiu algumas vezes na publicação, mas foi em vão. Em 1921, Russel garantiu a publicação do Tractatus Logico-Philosophicus nos Anais de Filosofia Natural, dirigido por Wilhelm Ostwald, bem como redigiu a introdução da obra. Segundo Schmitz (2004), isso não teria deixado Wittgenstein muito satisfeito. O filósofo considerou que os escritos de Russel na introdução mostravam que, apesar de terem lido o manuscrito juntos, em 1919, na Holanda, ele não havia entendido o seu pensamento.
Nesse livro, Wittgenstein procurou mostrar que os problemas da filosofia podem ser resolvidos na medida em que conhecemos a estrutura lógica da linguagem e sua relação isomórfica com o mundo, caracterizando a linguagem como um instrumento de representação. Segundo Moreno (2000, p. 25), “o tema central do filósofo do Tractatus é, assim, a forma lógica ou forma de representação”.
Foi com esse livro que, em 1929, como assinalamos anteriormente, Wittgenstein recebeu o título de doutor. Conjuntamente, o ensaio Algumas Observações sobre Forma
diferente de análise da linguagem que, em seu livro subseqüente, também é problematizado. Isso se verifica na longa produção das Investigações Filosóficas, vista anteriormente, na qual o filósofo reelabora a própria concepção de filosofia.
O Tractatus Logico-Philosophicus e as Investigações Filosóficas são livros produzidos em contextos filosóficos distintos. Enquanto no Tractatus Wittgenstein apresenta uma Teoria do Significado apoiada em uma fundamentação última da linguagem, nas Investigações
Filosóficas, o filósofo analisa os usos que fazemos da linguagem, na tentativa de se
desvencilhar da preocupação com a essência da linguagem.
No primeiro livro, é possível reconhecer que suas considerações no campo da linguagem devem-se aos estudos que realizou sobre a fundamentação lógica da matemática e, particularmente, aos pensamentos de Frege e Russel, que Wittgenstein conheceu enquanto estudava em Cambridge. A teoria das descrições, de Russel, segundo Grayling (2002), tem papel fundamental no Tractatus, na medida em que permite a compreensão da estrutura lógica que fundamenta a linguagem e ajuda a estruturar a natureza da linguagem e do pensamento.
Investigações Filosóficas é um livro que começou a ser escrito após certo afastamento
da Filosofia, entre 1920 e 1929, e até hoje não se sabe ao certo quais as razões desse distanciamento de Wittgenstein: se aconteceu porque o filósofo sentenciou que, com o
Tractatus, todos os problemas filosóficos estavam resolvidos, ou se foi um distanciamento
próprio de seu projeto filosófico. Todavia, pode-se dizer que, as reflexões contidas nas
Investigações Filosóficas são frutos desse momento de silenciamento vivido pelo filósofo. Ao
mesmo tempo, a incerteza e a revisão constante de suas idéias, registradas em notas diárias, nas suas seleções e organização, muitas vezes ditadas aos seus alunos em suas aulas, contribuíram para o amadurecimento do pensamento de Wittgenstein.
O pensamento filosófico de Wittgenstein foi reconhecido e tornou-se consagrado por meio desses dois livros: o Tractatus Logico-Philosophicus e as Investigações Filosóficas. São livros que não apenas caracterizaram sua filosofia, como também, e principalmente, podem ser considerados como uma divisão de águas em seu pensamento. Muitos estudiosos do filósofo consideraram o Tractatus Logico-Philosophicus a obra em que Wittgenstein apresentou seu primeiro estilo filosófico, e o livro Investigações Filosóficas, o responsável pelo segundo modo de fazer filosofia. É por isso que os intérpretes, quando se remetem à filosofia de Wittgenstein, tomam o cuidado de identificar qual a filosofia tratada, se a do primeiro ou do segundo Wittgenstein. Contudo, atualmente, essa preocupação tem mais uma função didática do que de distinção de estilos filosóficos. O resultado disso é que, segundo
Schmitz (2004), os intérpretes do filósofo inseriram-se na polêmica dessa divisão e tecem seus comentários ao se perguntarem se essas duas filosofias são realmente opostas, ou se é possível reconhecer uma continuidade nesses pensamentos.
Alguns estudiosos declaram que o livro Investigações Filosóficas é um trabalho que retoma o que foi escrito no Tractatus Logico-Philosophicus, ao considerarem que, no segundo livro, o filósofo aprofunda a análise das questões que já haviam sido comentadas no primeiro. Outros intérpretes, no entanto, atentam para a idéia de que não há uma continuidade lógica entre esses dois livros, mas sim uma verdadeira ruptura lógica, ao defenderem que o pensamento do segundo Wittgenstein nega o do primeiro. No embate entre essas duas interpretações, os recortes temáticos que as justificam são os mais variados, como veremos a seguir.
No livro Wittgenstein. On Human Nature, Hacker (1999) apresenta algumas observações acerca da filosofia de Wittgenstein, segundo as argumentações filosóficas descritas no livro Investigações Filosóficas, dando especial atenção ao tema da linguagem privada. Ao se referir ao Tractatus Logico-Philosophicus, o autor declara que o livro foi a principal fonte de inspiração para os adeptos do Círculo de Viena e que seus estudos deram origem à virada lingüística que, como sabemos, caracterizou a filosofia analítica do século XX, na medida em que direcionou “a investigação e a metodologia filosóficas para o estudo da lógica de nossa linguagem e do uso que fazemos dela.” (HACKER, 1999, p. 7). Quanto às
Investigações Filosóficas, Hacker (1999) admite que se trata de um trabalho revolucionário na
filosofia, que explora uma nova maneira de pensar a filosofia da linguagem e a filosofia da mente, necessária para dissolver problemas criados por empiricistas, cartesianos e behavioristas. Assim, ao escrever esse livro sobre Wittgenstein, o objetivo de Hacker (1999) é apresentar a filosofia do segundo Wittgenstein, em particular, suas contribuições à filosofia da mente, pois acredita que as distorções da nossa linguagem estão expostas nos mais variados temas estudados pela filosofia e podem ser fortemente expressas no nosso discurso sobre o mental. Para ele, uma análise detalhada desse assunto lança luz sobre as questões que nos confundem.
Para Marcondes6 (2004), um dos intérpretes brasileiros do filósofo austríaco, a filosofia wittgensteiniana está inserida no âmbito da filosofia analítica e integra os seus dois círculos. O primeiro está centrado na idéia de semântica clássica, da qual participam Frege, Russel, o Wittgenstein do Tractatus e os pertencentes ao Círculo de Viena. No segundo círculo, conhecido como filosofia da linguagem ordinária, encontramos os filósofos Moore, Gilbert Ryle, o segundo Wittgenstein, Jonh Lang-shaw Austin e a Escola de Oxford. Assim, Wittgenstein participa dos dois círculos da Filosofia Analítica, porque cada um de seus livros está relacionado a um deles.
O Tractatus Logico-Philosophicus apresenta uma análise da linguagem muito próxima ao que Frege e Russel pensaram, considerando que os problemas filosóficos são decorrentes do mau entendimento da linguagem, ou seja, nós não conhecemos sua forma lógica, sendo papel da filosofia a decomposição de seu complexo estrutural em elementos simples que a constituem. Isso nos permite conhecer a linguagem quanto à sua organização lógica e nos possibilita resolver problemas filosóficos. Já a respeito das Investigações Filosóficas, Marcondes (2004) diz que a linguagem não é vista em sua essencialidade, mas, ao contrário, em sua multiplicidade. O que caracteriza a linguagem é a pluralidade de jogos de linguagem, pois não há mais a constatação de uma lógica comum na linguagem, mas um emaranhado de jogos que se constituem a partir das relações com as situações em que são usados. Dessa forma, para esse intérprete, embora seja preservada a idéia de clarificação e elucidação dos conceitos nos dois livros de Wittgenstein, no Tractatus, o filósofo se vale de um método de decomposição que vai do complexo ao simples, com o propósito de encontrar a lógica da linguagem, enquanto que nas Investigações, a elucidação realizada refere-se aos usos que fazemos da linguagem e aos seus inúmeros modos de funcionar.
Com propósito semelhante, Grayling (2002) caracteriza o pensamento do filósofo Wittgenstein e delimita seu lugar no cenário da filosofia analítica do século XX. Grayling (2002, p. 27) declara que o objetivo de Wittgenstein, ao escrever o Tractatus e as
Investigações, “consiste em mostrar que os problemas de filosofia podem ser solucionados
quando se chega a uma compreensão adequada de como a linguagem funciona.” Quanto à sua interpretação das Investigações Filosóficas, Grayling (2002) explicita que Wittgenstein
6
Em seu pequeno livro intitulado Filosofia Analítica, publicado em 2004, Danilo Marcondes realiza um mapeamento dessa corrente filosófica, ao apresentar as contribuições de vários pensadores. Inicialmente elabora uma caracterização da filosofia analítica e segue suas considerações acerca da contribuição de Frege para a filosofia analítica, da teoria das descrições de Bertrand Russel, da análise segundo G. E. Moore, da filosofia de Austin e a Escola de Oxford até chegar à concepção de análise de Wittgenstein.
preserva em seu segundo livro algumas argumentações realizadas no Tractatus Logico-
Philosophicus, como as de que os problemas filosóficos são conseqüências do nosso mau
entendimento da linguagem. Para ele, o segundo livro foi o modo que Wittgenstein encontrou para atacar a visão de linguagem descrita no Tractatus e repudiar as atitudes filosóficas que foram defendidas nesse primeiro livro. Contudo, diferentemente dos intérpretes anteriormente apresentados, ele declara que os conceitos que sustentam o pensamento wittgensteiniano das
Investigações são vagos e metafóricos. Segundo o autor, conceitos como jogos de linguagem
são metafóricos e as noções de uso e formas de vida são pouco específicas. Grayling (2002) realiza críticas frente à filosofia desenvolvida nas Investigações Filosóficas, descartando a possibilidade de caracterizá-la como relativista. Para o autor, o aprofundamento das questões apresentadas por Wittgenstein, nas Investigações, intensifica a idéia de que a filosofia do segundo Wittgenstein, por suas incoerências, não convence. Segundo ele,
Como muitos outros, não posso deixar de me impressionar pelo caráter incomum dos escritos de Wittgenstein, que dão um feitio estranhamente original até mesmo para idéias e pontos de vista que, numa roupagem mais prosaica, são bastante familiares. Penso porém que, quando se avança para além da forma e se reflete sobre o conteúdo, a sensação irresistível é de que a jornada através das negações e sugestões indiretas, metafóricas, às vezes opacas, é longa; mas ela não leva ninguém muito longe. (GRAYLING, 2002, p. 151-152).
Grayling (2002) constata que, embora haja na literatura sobre Wittgenstein uma série de expressões que caracterizam o pensamento do filósofo como uma influência marcante no século XX, isso não se sustenta. Os filósofos analíticos recentes e contemporâneos foram muito mais influenciados pelos escritos de Frege e Russell do que por Wittgenstein. O autor atribui esse problema ao fato de Wittgenstein escrever as Investigações Filosóficas, livro que destituiu todo o pensamento elaborado no Tractatus Logico-Philosophicus, pensamento este muito mais acreditado pelos filósofos que teciam análises acerca da linguagem. Mesmo o estudo da filosofia da linguagem comum, que teve seu início em Oxford, na década de 1950, não foi influenciado por Wittgenstein, como muitos consideram. Segundo Grayling (2002), tal investigação filosófica deve-se à influência dos escritos de J. L. Austin.
Se, para esses intérpretes, ao defender tanto o primeiro quanto o segundo Wittgenstein, pelos motivos e recortes apresentados, a divisão de águas do pensamento do filósofo é acentuada, demarcando a existência de duas filosofias em um mesmo projeto filosófico, para outros, as suas interpretações não apenas atenuam essa divisão, como também compreendem as reformulações das filosofias como parte de um mesmo projeto.
É o que se nota, talvez, de modo mais persistente, em Fann (1975). Segundo ele, tanto a interpretação que considera as Investigações uma continuidade dos escritos do Tractatus,
quanto a que considera que a segunda obra nega por completo a primeira, estão equivocadas. Para ele, devemos olhar com cuidado para os dizeres de Wittgenstein, no Prefácio das
Investigações Filosóficas, pois acredita que a intenção do filósofo, ao considerar importante o
contraste das duas obras, diz respeito à análise que encontra, ao mesmo tempo, divergências e convergências nas obras citadas. Dessa forma, Fann declara que
Es completamente cierto que sus formas nueva y antigua de pensar son polos opuestos. El Tractatus sigue los métodos de construcción teorética tradicional (aunque sea solamente para construir una “escalera” que abandonara al final), mientras que en las Investigaciones emplea lo que podría ser adecuadamente descrito como el método dialéctico.7 (1975, p. 17).
Nesse sentido, Fann (1975) entende que esses livros diferem quanto à questão do método de análise usado por Wittgenstein, pois entende que, no Tractatus, Wittgenstein utiliza um modelo metodológico similar ao que conhecemos dos modelos filosóficos padrões, remetendo-se à estrutura organizada de um sistema, enquanto nas Investigações, ele resolve inovar, na pretensão de assinalar a ruptura ao modo tradicional de se fazer filosofia. Segundo o autor, a divergência quanto ao método é justificada, na medida em que reconhecemos que, no Tractatus, Wittgenstein utilizou proposições elementares dadas a priori, enquanto que, nas
Investigações, realiza seus estudos tendo em vista os fenômenos próprios da linguagem
ordinária, ou seja, examina a linguagem segundo situações reais com seus elementos contingentes. Ademais, esse intérprete também reconhece algumas convergências em relação a esses dois livros de Wittgenstein, que são capazes de expressar em que medida as
Investigações Filosóficas dizem respeito à continuidade daquilo que foi escrito no Tractatus Logico-Philosophicus. Segundo Fann,
De todas formas, hay una importante continuidad en la concepción wittgensteiniana de la naturaleza y objetivos de la filosofia. Las perspectivas alcanzadas en el Tractatus (que los problemas filosóficos surgen de nuestra forma errónea de entender la lógica de nuestro lenguaje; que la filosofía no es una ciencia, sino una actividad de elucidación y clarificación, etcétera) continúan sirviendo como hilo conductor del trabajo posterior de Wittgenstein.8 (1975, p. 17).
Dessa forma, é possível constatar que, no estudo realizado, K. T. Fann (1975) faz uma análise global do pensamento de Wittgenstein. Na primeira parte, o autor apresenta sua interpretação da obra Tractatus Logico-Philosophicus, em que aborda os temas da lógica, da
7 “É completamente certo que suas formas novas e antigas de pensar são pólos opostos. O Tractatus segue os
métodos de construção teórica tradicional (mesmo que seja somente para construir uma ‘escada’ que será abandonada no final), enquanto que nas Investigações emprega o que poderia ser adequadamente descrito como o método dialético.” (Tradução nossa).
8 “De qualquer maneira, há uma importante continuidade na concepção wittgensteiniana da natureza e dos
objetivos da filosofia. As perspectivas alcançadas no Tractatus (que os problemas surgem de nossa forma errônea de entender a lógica da nossa linguagem; que a filosofia não é uma ciência, senão uma atividade de elucidação clarificação etc.), continuam servindo como fio condutor do trabalho posterior de Wittgenstein.” (Tradução nossa).
linguagem e do mundo. Em meio ao texto, caracteriza a linguagem como o limite para o filosofar e declara que a filosofia de Wittgenstein tem como objetivo buscar a essência da linguagem, que, nesse caso, remete-se à função e à estrutura da linguagem. Nesse momento do texto, o autor explicita de que modo Wittgenstein relaciona a lógica da linguagem com a lógica do mundo.
Na segunda parte de seu livro, Fann (1975) apresenta as convergências e divergências que reconhece na relação entre o Tractatus Logico-Philosophicus e as Investigações
Filosóficas, para depois apresentar suas interpretações do segundo livro citado. Acreditamos
serem essas as considerações mais valiosas do livro de Fann (1975), pois, na medida em que compara os dois livros do filósofo, não os analisa isoladamente, de tal maneira que nos são apresentadas inúmeras considerações de extrema relevância para a interpretação da filosofia de Wittgenstein, o que possibilita um novo olhar aos escritos do filósofo.
Ao caracterizar a filosofia de Wittgenstein, segundo os escritos das Investigações
Filosóficas, Fann (1975) reporta-se aos escritos no Tractatus Logico-Philosophicus e
considera que o pensamento expresso nesse livro trata da imagem particular da essência da linguagem humana, uma forma de garantir correspondência direta entre o objeto e a palavra que carrega seu significado. Wittgenstein dirige sérias críticas a esse modelo de linguagem que ele chama de concepção agostiniana da linguagem. Nesse momento, o autor faz uma explicitação do modelo de definição ostensiva criticado pelo filósofo. Também nessa segunda parte, é possível reconhecer suas observações frente à questão do uso, muito comentada na obra do filósofo, a ponto de ser vista, por alguns, como pertencente à corrente pragmatista, embora não haja nenhum comentário sobre esse assunto em seu livro.
Também inserido na polêmica de relacionar os dois trabalhos de mais notoriedade, Moreno (2000) explicita sua interpretação a partir de um modelo bastante peculiar: na primeira parte do livro, ele apresenta a filosofia de Wittgenstein descrita no Tractatus Logico-
Philosophicus, em seguida, relata a vida do filósofo e finaliza ao apresentar a filosofia de
Wittgenstein abordada nas Investigações Filosóficas. Essa divisão, adotada pelo intérprete em seu livro, busca relacionar as reflexões de Wittgenstein durante seu percurso filosófico, por considerar muito importante estabelecer convergências e divergências nos dizeres do filósofo e compreender que o modo como Wittgenstein viveu está intimamente relacionado com tudo o que ele pensou e escreveu. Publicar uma obra com a interpretação do pensamento de Wittgenstein, segundo uma organização que coloca os relatos de sua vida entre as interpretações de suas obras, mostra que devemos investigar as considerações do filósofo em
relação ao seu modo de vida, pois, dessa maneira, garantimos um entendimento senão coerente e coeso, ao menos real.
Moreno (2000) realiza uma análise do pensamento de Wittgenstein, destituindo a idéia de formar o quebra-cabeça de sua vida e de sua filosofia. Sua idéia é a de que, talvez, nossa vida não seja um emaranhado de peças de um quebra-cabeça, de um único jogo, à espera de organização, mas “uma multiplicidade de jogos, nem sempre coerentes e nem bem delimitados” (MORENO, 2000, p. 9) e é sob essa perspectiva que ele se propõe a investigar os escritos de Wittgenstein, ao longo de sua trajetória intelectual.
Ao explicitar sua interpretação acerca do pensamento de Wittgenstein no Tractatus, Moreno (2000) caracteriza a linguagem segundo uma definição que faz com que a percebamos como uma forma de representar as coisas do mundo, uma maneira de dar significados aos objetos. A propriedade da representação, nesse caso, é comum a todos os elementos lingüísticos:
O termo linguagem designa um conjunto de elementos – nomes, proposições – que, combinados entre si de uma determinada maneira, têm uma significação, possuem vida; como que saem de si próprios para evocar outros objetos, ou as mais variadas situações que compõem o mundo em geral. (MORENO, 2000, p. 14).