KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.4. Grafik Tasarım ve Tarihçes
Todos os homens ficam presos numa engrenagem de injustiça e de culpabilidade ao pensar que a vingança é a única reação possível à injustiça recebida. Essa petição, mostra que é possível romper essa engrenagem. Para o efeito, a pessoa ofendida deve fazer com que o amor seja mais forte que a ofensa e a ira que roem o seu coração: procurando dialogar com quem lhe ofendeu com o intuito de dar-lhe uma oportunidade para se resgatar. Essa oportunidade será benéfica para quem a recebe quanto para quem a dá.
144 Cf. RAFAEL A. Direito humano à alimentação adequada em Moçambique: “quo vadis”. “Um outro
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3.5.6.1 O perdão
O perdão é uma possibilidade nova, pois não se conta entre as variáveis normalmente consideradas em situação de conflito (cf. Africae Munus, 19-21). A ofensa, o dano, a injustiça clamam ao céu pedindo reparo e vingança. Existe uma dinâmica perversa que multiplica os efeitos dessa negatividade, até fazer dela uma força destrutiva não só do ofensor, mas também do ofendido, pois nesta dinâmica se atinge com facilidade um ponto grave no qual já não é possível discernir o ofensor do ofendido. O mal chama o mal, a violência a violência, a ofensa a resposta adequada, e, deste modo, todos acabam resultando ofensores e ofendidos. Só o perdão e a reconciliação são capazes de romper essa dinâmica diabólica e destrutiva.
A reconciliação não é um acto isolado, mas um longo processo em virtude do qual cada um se vê restabelecido no amor; um amor, que cura por acção da Palavra de Deus. Deste modo a reconciliação torna-se uma maneira de viver e, ao mesmo tempo, uma missão (Africae Munus, 34).
Mas, de onde tirar a força para deter essa tempestade de maus sentimentos? O caminho é vencer o mal com o bem e jamais cansar-se de fazer o bem. Essa dinâmica garante a todos o poder incalculável do perdão, feito aos outros e principalmente a quem perdoa. Visto que guardar ressentimento - diz W. Shakespeare - é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra. Deus exige que o perdão seja liberado (cf. Mt 18,21-22). Essa é a lógica de Deus que contagiou o povo moçambicano.
Diante da complexidade dos dramas que afligem Moçambique e das cumplicidades que as alimentam, há quem preferira se calar e convidar à prudência. Mas os filhos desta terra, discípulos dos seus antepassados, não podem nunca ficar calados. Porque a voz daquele que está nos céus nos interpela a resolver pacificamente qualquer que seja o conflito. Cada ser humano é chamado a ser instrumento do perdão e da reconciliação do Altíssimo na vida dos indivíduos e dos povos145.
De fato, em Moçambique depois das duas grandes guerras: a de Independência (1964-1974)146 e a Civil (1976-1992)147 ninguém foi excluído ou marginalizado porque a
145 BONICELA, F. Resolução de conflitos. Tribunal Tradicional. Muvamba, 20 de Novembro de 2012. 146 Cf. FILIPE, J. O fim da guerra colonial em Moçambique. Maputo: F. Letras U. E. M, 1997; GOUVEIA, F.
M. Analise global de uma guerra (Moçambique 1964-1974). Porto: Universidade Portucalense, 2001.
147 Cf. Ata do Acordo Geral de Paz de Moçambique, assinado pelos signatários da FRELIMO e da RENAMO.
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exclusão e a marginalização, do ofensor, não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. O amor e a misericórdia são a solução mágica usada pelo povo moçambicano para sarar as mágoas, ódio e vinganças cujas marcas só o tempo pode apagar148.
3.5.6.2 Perdoa-nos as nossas dívidas
O perdão é a cura das mágoas causadas pelo descaso, pelos conflitos e pela cultura da indiferença para com a situação concreta do próximo. É por isso que a cultura e as religiões tradicionais do povo moçambicano sugerem e exigem a prática do perdão e da reconciliação onde houver ofensa, conflitos, ódio ou desentendimento. Pelas suas aspirações se depreende que a alma desse povo se orienta constante e incondicionalmente a percorrer com toda a raça humana o caminho do perdão e da reconciliação, tal como o Pai celeste o traçou, ao revelar em si mesmo a sua infinita misericórdia e o seu amor de Pai149.
Em Deus, todos os caminhos em direção ao homem, tais como foram confiados de uma vez para sempre a todos os povos, no contexto variável dos tempos e lugares, são ao mesmo tempo um caminhar ao encontro do Pai e do seu amor.
Para o povo moçambicano, esse caminhar ao encontro do Pai e do seu amor deve desembocar na necessidade de ouvir e compensar o ofendido, ouvir e compreender o ofensor, facilitando a sua posterior reintegração na família ou na sociedade por uma justiça restauradora e não criminal. Esse espírito de abertura ao perdão e reconciliação baseia-se também no conceito do “eu em tu e tu em mim” que parte da idéia tradicional de que a humanidade de uma pessoa está intrinsecamente ligada à humanidade da outra, salientando a necessidade do perdão, da reconciliação e do acolhimento do ofensor e a eliminação dos desejos de vingança150.
3.5.6.3 Como também nós perdoamos aos nossos devedores
Uma exigência de igual importância leva o povo moçambicano a valorizar cada vez mais e a promover o espírito do perdão a quem ofende os seus irmãos, porque é perdoando
148 Cf. CHISSANO, J. Um modelo de reconciliação e paz. Moçambique para todos, Maputo, p. A1, 06 de Maio
de 2010.
149 MENSAGEM DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE MOÇAMBIQUE. Apelo à reconciliação e perdão.
Maputo: Rádio Maria, 25 de Junho de 2014. Vaticano Informativo.
150 Cf. MACAMO, M. E. Reflexão sobre plano de reconciliação nacional. Moçambique para todos, Maputo, p.
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que se é perdoado. Para o efeito, a pessoa ofendida coloca-se no lugar de quem a ofendeu e avalia de forma consciente tudo o que ocorreu de errado e memoriza as experiências ruins para não as repetir no futuro. E, em seguida, concede o perdão a quem a ofendeu como forma de lhe dar nova oportunidade para nascer de novo. Porque “sem o perdão não há futuro para o relacionamento entre indivíduos nem entre nações”151.
O perdão das ofensas restaura as sãs relações quebras por algum motivo. Como a repercussão das desavenças de duas pessoas ou mais atinge toda a comunidade e a Deus, o perdão e a reconciliação dessas pessoas, são o perdão e a reconciliação de toda a comunidade e com Deus. Visto que o perdão faz bem e alivia o estresse causado pelo ódio.
Esse processo é um dos princípios fundamentais, e talvez o mais importante que orienta a vida e o agir do povo moçambicano nas suas relações com Deus e com os demais.
Concluindo, se pode cogitar que o perdão é uma prova de amor cujo seu impacto tem uma repercussão coletiva, pois, para o povo moçambicano, o verdadeiro perdão individual, deve tornar-se capacidade de perdão coletivo porque as desavenças de duas ou mais pessoas têm uma repercussão coletiva. O perdão, por um lado, significa escolher amar mesmo quando há todos os motivos para odiar e por outro, o perdão significa porta aberta para sair dos becos sem saída em que duas ou mais pessoas se enfiaram por desavenças que geraram discórdia e ódio.