• Sonuç bulunamadı

O quadro do desenvolvimento da animação no Brasil pode ainda ser considerado tímido. Em função da escassa documentação da história do cinema de animação no Brasil, tem-se dificuldade em fazer uma exposição precisa de sua constituição. Atualmente, a professora Cláudia Bolshaw (PUC- RJ), juntamente com a Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), tem pesquisado dados históricos da animações no Brasil. Sabe-se que Kaiser de Álvaro Seth Marins (1917), foi o primeiro curta-metragem de animação brasileiro exibido nos cinemas. Naquele mesmo ano, Chiquinho e o jagunço, da Kirs Films, com personagens da revista Tico-tico, também foi lançado (RAMOS, 2000).

Em 1953, foi lançado o primeiro longa-metragem de animação produzido no país e idealizado por Anélio Lattini Filho, Sinfonia amazônica. Esta produção contou apenas com a dedicação de Anélio Lattini, envolvendo seis anos de trabalho, até ser concluída. Apesar de desafiadora, a técnica da animação pouco se desenvolvia, naquela época, no Brasil. Alega-se ter sido o baixo investimento financeiro o maior empecilho à animação brasileira. Em 1977, ao tentar relança-lo, deparou-se com a lei brasileira que proibe o relançamento de filmes nacionais depois da primeira censura de cinco anos. Contraditóriamente, filmes norte-amercicanos podem ser relançados anualmente, como foi o caso de “Branca de Neve e os sete anões” que, desde 1937, foi várias vezes exibido (MORENO, 1978).

Na década de 1950, outros artistas passaram a integrar o grupo de animadores brasileiros, dedicados à produção de longa-metragens, curtas experimentais e filmes animados destinados à educação. Influenciado pelo canadense Norman McLaren, Roberto Miller passou a realizar filmes

experimentais com animação em película. Rubens Francisco Lucchetti e Bassano Vaccarini, primeiro com a colaboração de Miller, depois com produções independentes, destacaram-se com Abstrações (1959) e Rinocerontes (1961) (RAMOS, 2000, p. 25). Durante os anos da década de 1960, a animação gradualmente passou a ser incluída na publicidade, incitando a formação dos primeiros profissionais da área.

Intitulado Presente de Natal, o segundo longa-metragem de animação brasileiro foi apresentado ao público em 1971. Desenvolvido por Álvaro Henriques Gonçalves, ficou reconhecido como a primeira animação brasileira em cores. Anteriormente, o animador já havia produzido alguns curta- metragens de animação como A cigarra e a formiga (1956) e Índio alado (1967), que, em decorrência de empecilhos na distribuição, acabaram por ficar no anonimato. Na década de 1970, após a lei do curta-metragem, observou-se uma explosão nas produções dos curta-metragens de animação (http://www.quadroaquadro.ufmg.br/panorama, acesso: 20/05/2008).

Ypê Nakashima, japonês radicado no Brasil, desenvolveu também experimentos no curta-metragem de animação, entre eles A lenda da vitória- régia (1956), O reino dos botos (1956) e O gorila (1958), mas foi em 1972, após seis anos de trabalho intenso, lançou seu primeiro longa-metragem, Piconzé. O cenário desta filmografia era composto por colagens que sugeriam noções de profundidade. A partir de 1975, Wilson Lazaretti e Maurício Squarisi, juntamente com o Núcleo de cinema de animação de Campinas, passaram a se dedicar a produções de cunho educativo (RAMOS, 2000).

Maurício de Sousa, criador das histórias em quadrinhos da Turma da Mônica, lançar-se-ia em direção à animação. De 1983 a 1988, produziu alguns desenhos animados com seus personagens. Neste período, criou o Estúdio Black & White, através do qual lançou oito longa-metragens: As aventuras da turma da Mônica, A princesa e o robô, Chico Bento, Óia a onça!, Mônica e a sereia do rio, As novas aventuras da turma da Mônica, O bicho-Papão e outras histórias e Turma da Mônica e a estrelinha mágica (RAMOS, 2000). A técnica de animação utilizada na produção destes desenhos foi a tradicional,

própria dos tempos áureos da animação, caracterizada por desenhos a lápis, com pequenas diferenças entre um e outro, e filmados quadro a quadro.

O movimento a favor do desenvolvimento do cinema de animação era freado pela inflação, pela falta de controle das bilheterias, pela inexistência de financiamento e pelo escasso apoio à filmografia de animação. A tudo isso, acrescente-se a lei de reserva do mercado da informática, imperativa na época, que obstaculizava o acesso à tecnologia de ponta, necessária para a animação moderna. Como conseqüência de tais impeditivos, Mauricio de Sousa interrompeu sua investida junto aos desenhos animados, concentrando novamente seus esforços nas histórias em quadrinhos. Seu estúdio de animação foi desativado, interrompendo um projeto promissor, mas naquele momento, inviável (http://www.monica.com.br/mauricio/cronicas/cron54.htm; acesso: 14/03/2008).

Após um longo período de intervalo, Maurício de Sousa retomou suas produções cinematográficas com Cinegibi, o filme: A turma da Mônica, lançado em 2004. Em parceria com dois grandes estúdios internacionais, a Paramount International Pictures e a United International Pictures (UIP), esta produção caracterizou-se pela expressividade estética. Gradualmente, as produções brasileiras vêm se apropriando das novas tecnologias, aprimorando continuamente o grafismo técnico e estético, e expandindo a participação no mercado cinematográfico. Dando continuidade a esse novo momento da animação brasileira, em 2005 foi lançado o longa-metragem Xuxinha e Guto contra os monstros do espaço (WARNER BROSS, 2005), fruto da parceria entre Xuxa Produções, Diler & Associados, Warner Bros., Labo Cine e Globo Filmes. A produção valeu-se de técnicas em 2D e 3D. Despertando encantamento em Maurício de Sousa, sua próxima investida, no cinema de animação, também foi resultado de um acordo entre a Labo Cine, os estúdios Buena Vista Internacional e o produtor brasileiro Diler Trindade. Se, anteriormente, Mauricio de Sousa mantinha e concentrava toda a produção animada sob uma mesma estrutura, A turma da Mônica em: Uma aventura no tempo (2007) inaugurou uma nova fase, na qual as etapas da produção foram terceirizadas. “Fazer animação é caro e exige constante investimento em

arte e tecnologia. Tive que encontrar um caminho mais rápido e viável para aumentar a produção”. Maurício de Sousa continuou responsável pela arte, criação e conteúdo, enquanto os estúdios contratados, capacitados tecnologicamente e habilitados na animação tradicional e em 3D, dedicaram-se à animação propriamente dita. Esta produção de Maurício de Sousa tornou-se a quarta maior bilheteria entre as produções nacionais (http://www.telaviva.com.br/revista/178/anima%C3%A7%C3%A3o.htm; acesso em 09/03/2008).

Em 1995, o paulistano Clóvis Vieira conclui Cassiopéia (NDR, 1996), primeira animação brasileira totalmente em formato digital, gerada na plataforma PC. Cassiopéia levou quatro anos para ser concluída, tendo início em janeiro de 1992, com o modelamento dos ambientes, dos personagens, a criação da história e do roteiro. Em 1993, começou o processo de animação, concluído em agosto de 1995, com o processo de geração de imagens. Em janeiro de 1996, a primeira cópia de Cassiopéia ficou pronta. A produção foi orçada em aproximadamente US$ 1,5 milhão. O enredo, bastante simples, se comparado com as produções dos estúdios americanos, traz a história de um grupo de robôs e sua luta para defender seu planeta de um malfeitor. De todo o processo, os maiores desafios revelaram-se nas dificuldades orçamentárias e na dificuldade de encaixar o filme na programação das redes de cinema no Brasil, tendo sido escassamente exibido na época, concorrendo com as transmissões das Olimpíadas de Los Angeles. O período das Olimpíadas é conhecido como um momento no qual se verifica uma diminuição de público às salas de cinema. A pequena distribuição no mercado cinematográfico refletiu a negligência governamental e os incentivos para com o cinema brasileiro,

notadamente no gênero da animação (http://www.mci.org.br/historia/cassiopeia/cassiopeia.html; acesso 14/03/2008).

Outros animadores vinham se destacando junto ao mercado nacional. Entre eles, Cao Hamburger que se dedicou à animação com bonecos. Ganharam notabilidadae através dele, programas como Castelo Rá-Tim-Bum e Frankestein punk (1987) (http://www.caohamburger.com/curtas.html; acesso 15/06/2008). Otto Guerra foi ganhando visibilidade. Produtor de Rocky &

Hudson: Dois caubóis gays (1994), filme ainda praticamente inédito no mercado nacional, na seqüência, desenvolveu Wood & Stock: Sexo, orégano e rock’n’roll (2006), produção que se inseriu na retomada do cinema nacional. Vencedor do concurso do Ministério da Cultura para filmes de baixo orçamento, a produção revisita o mundo do cartunista Angeli, transpondo para a tela uma aventura composta por personagens consagrados por milhares de leitores, há pelo menos vinte anos (http://www.ottodesenhos.com.br/; acesso, 14/02/2008). Wood & Stock: Sexo, orégano e rock’n’roll (2006) foi a primeira animação brasileira classificada pelo Ministério da Justiça como não indicada para menores de 18 anos. Mas uma reconsideração viabilizou sua projeção para maiores de 16 anos e menores, se acompanhados por seus responsáveis. Antes, Guerra já havia produzido Natal do burrinho (1984), As cobras (1985), Treiler (1986), Reino azul (1989), Novela (1992), O arraial (1997), Nave mãe (2004) – animação 3d (www.woodstock.etc.br; 16/09/2007). Diferentemente de Otto Guerra, que privilegia a animação tradicional, Cao Hamburger trabalha com a animação de bonecos, tanto em seus curtas como nos trabalhos para a TV.

Do premiado publicitário Walbercy Ribas, O grilo Feliz (Start Desenhos Animados, 2001) é outra animação nacional que merece destaque. A produção da Start Desenhos Animados levou vinte anos para ser concluída, tendo um custo de US$ 3 milhões e conta a história de um grilo compositor. Permeada por valores e ensinamentos, a história dá lições de cidadania. Mesmo envolvida por uma magia comparada àquela apresentada pela Disney, o longo tempo de produção deixou reflexos na construção narrativa.

Em 2007, Alê Abreu finalizou o longa-metragem de animação Garoto cósmico. Idealizado desde 1999, esta animação foi concluída após sete anos de trabalho. Sozinho, Alê Abreu produziu cerca de quinze minutos dos 77 que compõem o filme, fato que contribuiu para a redução de custos. Tendência nas animações, o talento de conhecidos artistas brasileiros deu voz aos personagens de Garoto cósmico. Assim, o cantor Belchior, Vanessa da Mata, Arnaldo Antunes e Raul Cortez tiveram participação neste projeto (http://www.aleabreu.com.br; acesso: 13/04/2008). Com importante presença

no Anima Mundi (2007), festival nacional de cinema de animação, esta produção só foi lançada no circuito comercial em fevereiro de 2008. No entanto, sua distribuição e veiculação restringiu-se a algumas cidades. A magia, o colorido e a musicalidade presentificam-se nesta obra que apresenta contrastes entre uma vivência marcada pela rotina e uma outra, construída constantemente através das diferenças.

No mercado nacional, em função dos custos orçametários, observa-se uma expressividade maior dos curta-metragens animados. Participando de peças publicitárias, tais animações alcançam sucesso junto a seu público, tornando visível o potencial criativo de seus animadores.

Ainda com elevados custos, a animação brasileira continua atendendo massivamente peças publicitárias. Assim, o sonho de uma indústria de longa- metragens de animação nacional é adiada por mais um período. Mas animadores talentosos e corajosos continuam desafiando os obstáculos técnicos e financeiros, para darem vida a novos enredos, ao mesmo tempo em que contribuem para aprimorar a arte da animação no Brasil.

Benzer Belgeler