6 WEB TABANLI ÇALIġMALARDA SUNUCU ve ĠSTEMCĠ TARAF
6.8 Google Maps API
O caminho teórico e empírico adotado nesta pesquisa procura observar essa nova concepção de esfera pública, que se constitui a partir da internet e, mais especificamente, dos blogs políticos. Um dos requisitos necessários à existência dessa esfera dialógica é a palavra, a comunicação. Isso implica diretamente as interações, as trocas de conhecimento imaterial entre os sujeitos enunciadores.
Sob esse viés, é fundamental buscar o pensamento e a teoria da sociedade de Georg Simmel (1983). O autor não utiliza o conceito de sociologia como uma ciência global, pois acredita que nem tudo que acontece na sociedade merece o nome de social. Seguindo esse raciocínio, Simmel defende que a sociologia deve ter por objeto a multiplicidade de interações, numa vida de aproximação e separação, de consenso e conflito. Portanto, ele acredita que o objeto da sociologia são esses processos sociais, já que é apenas através das interações de uns-com-os-outros, contra-os-outros e pelos- outros que se constitui a sociedade como realidade inter-humana. Assim, a sociedade somente é possível pela existência de formas de sociação. A sociação só começa a existir quando os indivíduos adotam formas de cooperação e de colaboração, acabando por cair sob o conceito geral da interação.
Simmel (1983) trabalha com duas proposições para descrever a sua sociologia formal: a primeira é que em toda sociedade é possível fazer a distinção entre forma e conteúdo e a segunda revela que a própria sociedade se refere à interação entre seus
membros, a qual é originada a partir de certos impulsos ou propósitos. Dessa forma, os instintos eróticos, os interesses objetivos e os impulsos religiosos fazem com que os homens vivam com outros homens, ajam por eles e com eles, influenciando-se mutuamente. São essas interações que promovem a aproximação entre os indivíduos que possuem determinados instintos e interesses, ajudando a formar uma unidade, ou melhor, uma sociedade. O autor define como conteúdo e matéria de sociação tudo que existe nos indivíduos e nos lugares concretos de sua realidade histórica. As matérias que preenchem a vida, com as motivações que a impulsionam, não são consideradas sociais. Segundo Simmel (2006, p. 60),
A fome, o amor, o trabalho, a religiosidade, a técnica, as funções ou resultados da inteligência não são, em seu sentido imediato, por si sós, sociais. São fatores de sociação apenas quando transformam a mera agregação isolada dos indivíduos em determinadas formas de estar com o outro e de ser para o outro que pertencem ao conceito geral de interação.
Nesse sentido, a sociação é a forma como os indivíduos, em virtude de seus interesses e motivações, acabam se aproximando para desenvolver-se conjuntamente em direção a uma unidade. Esses interesses podem ser temporários ou duradouros, conscientes ou inconscientes, sensoriais, ideais e constituem a base da sociedade. A partir das condições e das necessidades práticas, os indivíduos trabalham sua inteligência, vontade, criatividade e relações afetivas sobre os materiais da vida, elaborando-os, assim, de acordo com os usos específicos de cada um. Portanto, esses materiais ganham determinadas formas, tornam-se autônomos e ganham vida própria, independente dos propósitos originários.
Simmel destaca a autonomização dos conteúdos. A matéria determinava as formas e, a partir das exigências da vida societária, as formas passaram a ser determinadas pela matéria. Sob essa lógica, Simmel acredita que os fenômenos que ocorrem na categoria de jogo parecem funcionar da mesma maneira. Considerando essa distinção entre forma e conteúdo, o conteúdo da sociedade vem a ser o estar com o outro motivado pelos impulsos e propósitos individuais ou materiais. As formas ganham vida própria e são liberadas de todos os laços com os conteúdos. Essa desvinculação vai caracterizar o fenômeno da sociabilidade. O sociólogo compreende a sociabilidade como uma forma autônoma ou lúdica de sociação.
Interesses concretos e necessidades específicas são fatores que levam os homens a se unirem em associações e irmandades. Mas além dos conteúdos, todas essas
possíveis sociações também são permeadas por sentimentos entre seus membros, de estarem sociados, e pela satisfação do momento. As verdadeiras motivações da sociação não têm importância para a sociabilidade. As condições e os resultados que importam para a sociabilidade são as pessoas que se encontram numa reunião social. Os aspectos que são levados em conta dizem respeito à amabilidade, à cordialidade e ao refinamento. Sob esse prisma, nenhum outro interesse individual ou egoísta deve prevalecer. Os atributos objetivos dos participantes são proibidos. Riqueza, posição social, cultura e fama não podem representar qualquer papel na sociabilidade. Assim, na interação de sociabilidade, os participantes entram apenas munidos de sua humanidade, renunciando a suas qualidades, qualificações e personalidade.
A discrição é a primeira condição da sociabilidade e sua violação provoca a degeneração da sociabilidade. Portanto, se um participante interage visando apenas interesses objetivos, os limiares da sociabilidade são transpostos. A sociabilidade exige um tipo claro e atraente de interação, que supõe que todos os participantes são iguais. Para Simmel (2006), é um jogo de faz de conta, em que há a ilusão de que todos são iguais. Na sociabilidade, está compreendido tudo o que pode funcionar com base na sociologia do jogo, é um jogo da sociedade.
Maia (2002) também compreende a sociabilidade como forma espontânea de interação, livre de qualquer interdependência entre os indivíduos.
Sociabilidade é a forma de interação social que não possui um fim definitivo, nem conteúdo e nem resultado fora dela mesma. Os indivíduos, por sua vez, são atores socializados, assimetricamente inseridos nas estruturas sociais. [...] Como um jogo social, a sociedade pode tomar muitas formas, desde as mais universais, presentes no instrumento mais abrangente da vida comum da humanidade – a conversação – até as mais específicas, tal como o jogo da sedução (MAIA, 2002, p. 5).
O processo de sociabilidade define “espaços”, lugares sociais. O espaço estimula
a sociabilidade: salões, cafés, praças, tabernas, vida familiar, igrejas, associações, lojas maçônicas, agrupamentos políticos, teatro. Nesse contexto, novos espaços surgem para dar vazão à necessidade de estar com outro e para o outro. O computador passa a ser o dispositivo requerido para suprir o caráter dialógico das novas formas de comunicar. Por meio dos diversos produtos apresentados na rede, como, por exemplo, vídeo, texto e
chat, o indivíduo passa a estabelecer relações sociais com diversas pessoas que mantêm
as mesmas motivações e interesses comuns. Dessa forma, recupera-se a sociabilidade, na medida em que as atribuições do dia a dia não permitem que as pessoas se encontrem
nos espaços de sociabilidade tradicionais. Tal sociabilidade é, então, realizada no ciberespaço; a vivência em comunidade realiza-se num outro espaço que não o físico, mas que amplia e alarga as relações sociais: o virtual acaba por complementar o espaço real (NORA, 1997, p. 81).
Rodrigues (1994) sugere que a mediação dos novos dispositivos tecnológicos está substituindo as relações imediatas de vizinhança. Porém, enfatiza que a ligação às redes telemáticas não implica a perda de sociabilidade, visto que
as relações face a face, que definiam a vizinhança, de que se alimentava tradicionalmente a sociabilidade imediata, fundamentada na pertença a uma comunidade de enraizamento, uma nova forma de sociabilidade pode estar a substituir-se, uma forma aparentemente dependente, não da pertença a uma mesma comunidade de vida, mas de escolhas individuais aleatórias, ao sabor dos interesses e disposições do momento [...] (RODRIGUES, 1994, p. 196).
Diante das questões defendidas por Simmel (2006), surgem algumas interrogações quanto às interações que ocorrem nos espaços virtuais. Quais são as motivações dos indivíduos para participarem das discussões em blogs? Como eles interagem? Nesse sentido, não se trata apenas de compreender as mudanças nas práticas discursivas que se estabelecem nessas novas arenas dialógicas, mas também de refletir sobre as motivações e os interesses que levam indivíduos a esse estar junto.
Nos blogs, é possível observar que, além dos vínculos afetivos que se formam nesses espaços discursivos, as interações tendem a politizarem-se, os interlocutores sentem a necessidade de se posicionar diante do outro, de formular argumentos e de justificar suas preferências partidárias ou mesmo os seus anseios pessoais. Desse modo, a conversação surge como importante forma de interação. Os sujeitos encontram na rede não somente a possibilidade de pertencer a algum grupo, mas também de expressar suas demandas, compreender suas necessidades e negociar com outros sujeitos, de forma a ampliar seu entendimento de mundo.