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Permeados por esta cultura pós-moderna ou como afirma Rudiger: pós-humanista - cuja força e interesse provêm do fato de ter como base as engrenagens empresariais e tecnológicas, onde as exigências universais deixaram de existir - os desafios, encruzilhadas são notórios. ―Em virtude disso, assistimos, nos últimos anos, a uma volta à ética‖70. Presencia-se a uma torrente invasionista nos meios de comunicação os quais alimentam esta reflexão com intensidade cada vez maior. ―Hoje, o referencial ético está na ordem do dia; por isso, o que parecia um tanto ridículo e tinha ares de conversa fútil de comadres ou diretores de empresa, até isso acabou adquirindo amplos foros de legitimidade‖71

.

Observa-se, neste momento, uma revitalização dos valores essenciais. A dimensão ética se torna uma forma de expressar o espírito de nossa época. Neste contexto, segue Junges:

69 ANJOS, Marcio Fabri dos. Teologia e novos paradigmas. Encruzilhadas da ética teológica hoje. (org). São

Paulo: Loyola, 1996, p. 161.

70

JUNGES. José Roque. Evento Cristo e ação humana. Temas fundamentais da ética teológica. São Leopoldo: Unisinos, 2001, p. 23.

Há décadas, o que eletrizava era a libertação coletiva, e a moral era vista como farisaísmo e repressão burguesa. Hoje a ética recupera o seu protagonismo. [...] Concomitante com a volta à ética, desenvolve-se um discurso alarmista que estigmatiza a quebra dos padrões morais e o individualismo deslavado. Aparecem discursos contraditórios: por um lado, uma revitalização da moral e, por outro, discursos catastróficos sobre a decadência moral. A efervescência ética pode ser uma reação à decadência moral, a recuperação da consciência diante da irresponsabilidade individualista. Mas, se a aspiração individualista e narcisista e sua cultura correspondente dominam e se alargam sempre mais, como explicar a aspiração coletiva por condutas morais?‖72.

Percebe-se que a volta à ética é algo consolidado nas reflexões e discursos desta sociedade pós-moderna, mas é bom lembrar o que o próprio Junges previne que: ―antes de mais nada, é necessário afirmar que o retorno da ética não significa um retorno à velha moral. Segundo ele, ―não é um restabelecimento dos velhos padrões da moral tradicional [...], não é uma ruptura total das tabuas de valores e normas‖73

.

Faz-se salutar para melhor embasamento, trazer a observação de Juremir Machado quando afirma que:

A sociedade pós-moralista olha para trás e fica chocada [...] como foi possível [...]. No eterno fluir e refluir [...] o superado volta como um fantasma para aterrorizar aqueles que dele se julgavam livres. A violência surgida como reação ao avanço da

‗moral sem Deus‘ gerou um novo desejo de Deus e uma nova necessidade de

segurança74.

Também como norteador trazer presente o que a Conferência de Aparecida cita no número 44 do documento:

Vivemos uma mudança de época, e seu nível mais profundo é o cultural. Dissolve-se a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo e com Deus; aqui esta precisamente o grande erro das tendências dominantes do último século...- presentes na globalização - Quem exclui Deus de seu horizonte, falsifica o conceito

72

JUNGES. José Roque. Evento Cristo e ação humana. Temas fundamentais da ética teológica. São Leopoldo: Unisinos, 2001, p. 24.

73 JUNGES. José Roque. Evento Cristo e ação humana. Temas fundamentais da ética teológica. São Leopoldo:

Unisinos, 2001, p. 24.

74 SILVA. Juremir Machado da. Em apresentação O vazio do crepúsculo na cultura hiperespetacular. São

da realidade e só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas75.

Por certo, aumenta os discursos nesta linha a cada dia que passa, por todos os continentes como a referida pelo cardeal Jean-Louis Tauran: ―A unidade da família humana é o fundamento último de uma solidariedade mundial e a base da busca de valores éticos comuns, que, felizmente, suscitam agora um interesse crescente‖76

. Segue o cardeal afirmando que alguns temas devem ser mais aprofundados ainda neste início de século: ―o reconhecimento de valores éticos e espirituais para uma ética universal, os possíveis âmbitos de diálogo e de cooperação, e as perspectivas de solidariedade, especialmente em tempos de crise‖77.

Assinalou ainda com veemência: ―Os crentes sustentam que a ética pode não só produzir as normas de comportamento, mas também deve modelar a consciência humana e contribuir a descobrir as exigências da Lei Natural: devemos fazer o bem e evitar o mal‖78. Deste modo conclui o cardeal Tauran: ―A forma e o alcance destas tradições podem diferir

consideravelmente segundo as culturas e situações, mas apesar disso, nos recordam a existência de um patrimônio de valores morais comuns a todos os seres humanos‖79.

Estes são alguns aspectos que hoje se frizam como fundamentais no desenvolvimento de um pensamento que perceba o que se possui como patrimônio comum nesta sociedade ambígua em relação aos valores, à dignidade da pessoa. Para referendar, cita-se a Conferência de Aparecida: ―As mudanças culturais alteram os papéis tradicionais de homens e mulheres, que procuram desenvolver novas atitudes e estilos de suas respectivas identidades,

75 CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO. V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano

e do Caribe. Texto conclusivo. São Paulo: Paulinas/Paulus, 2008, 44.

76ZENIT. Artigo Congresso de líderes religiosos mundiais. Disponível em: www.zenit.org/article-

22097?l=portuguese Em: ZP09070811-08.07.2009. Acesso em: 7.8.2009. Foi o que afirmou o presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, cardeal Jean-Louis Tauran, em sua intervenção na terceira edição do Congresso de líderes de religiões mundiais e tradições, realizado em Astana nos dias 1º e 2 de julho.

77 Ibidem.

78. ZENIT. Artigo Congresso de líderes religiosos mundiais. Disponível em: www.zenit.org/article-

22097?l=portuguese Em:ZP09070811-08.07.2009. Acesso em: 7.8.2009. Foi o que afirmou o presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, cardeal Jean-Louis Tauran, em sua intervenção na terceira edição do Congresso de líderes de religiões mundiais e tradições, realizado em Astana nos dias 1º e 2 de julho.

potencializando todas as suas dimensões humanas na convivência cotidiana, na família e na sociedade, às vezes por vias equivocadas‖80.

Perante isso há aspectos positivos:

Entre os aspectos positivos dessa mudança cultural aparece o valor fundamental da pessoa, de sua consciência e experiência, a busca de sentido da vida e da transcendência [...] essa ênfase na valorização da pessoa abre novos horizontes, onde a tradição cristã adquire renovado valor, sobretudo quando a pessoa se reconhece no Verbo encarnado81.

Para tal, percebe-se que existem encruzilhadas e se nota um processo reorganizador da ética, da moral. Complementa Bauman: ―e assim agora sentimos falta daquilo a que antes ressentimos [...] nessa vida precisamos de conhecimento e capacidades morais com mais freqüências, e com mais urgência‖82.

Benzer Belgeler