30. D: ((silêncio, enquanto examina o prontuário do paciente)) dá licença um
pouquinho ... ((dirigindo-se à auxiliar)) você pode só me dizer um pouquinho do
histórico dele? ele tratou na Humaitááá ...
Os diminutivos poderiam ter várias interpretações, na situação considerada aqui: um modo de atenuação do problema odontológico de J., face ao seu problema médico (câncer de próstata),turno 79; uma infantilização do diálogo, turnos 85 e 203; e/ou uma atitude de paternalismo e condescendência, turno 265:
79. D: hu:::m ((examinando o local apontado)) fizeram um enxertozinho aí 85. D: foi só esse dentinho que o senhor tratou?
203. D: é:: então tá mais do que na hora de começar a tratar ... () só que ele vai fazer radioterapia ... ... pode tirar sua mãozinha ((pedindo que o paciente retire a mão da boca)) que eu só vou olhar ... tá bom?
265. D: e agora o senhor espera pra C. dá uma orientação pro senhor ... se tiver oportunidade de passar ... bom a gente aí já dá uma geralzinha aí na gengiva...
As ambigüidades
A escolha de recursos discursivos que têm por efeito atenuar os fatos, potencialmente ameaçadores, de o paciente não ser encaminhado de imediato para tratamento clínico, de o paciente ter de ir para uma longa lista de espera, ou de o paciente não ser um caso interessante para os cursos da EAP, disfarça a ambigüidade dessa situação e sugere que a própria dentista poderá fazer o procedimento de raspagem nos dentes do paciente (turno 261), caso ele não seja atendido na clínica, por aluno de algum curso, no próprio dia da consulta (3ª-feira), ou caso ele não consiga ser atendido como paciente extra, na 5ª-feira:
247. D. ((para auxiliar)): pergunta ... pergunta pro professor S. ... ou pra B. se existe
algum professor ... algum aluno ... que tá sem fazer nada ... né? ... se ((o aluno)) tem
raspadores pra poder ... explica que ele ((paciente J.)) vai fazer a radioterapia ... se ele ((aluno)) não podia fazer uma raspagem ... só pra dar um apoio ((ao paciente J.))
248. Auxiliar: eu vou fazer isso que a doutora tá pedindo ... tá mandando ... senão ... se
não tiver ninguém pra raspar ... se o senhor puder vir como paciente extra ...
249. D: extra
250. Auxiliar: 5ª-feira ... eu converso com ele ((professor S.)) pra ver ... mas paciente
extra
251. J: 5ª-feira?
252. Auxiliar: é ... às vezes tem um paciente marcado que falta ... aí a aluna fica sem
paciente ... ela raspa
253. D: eu gostaria muito que o senhor fizesse isso
254. Auxiliar: sabe por que? é de 5ª-feira ... tem que esperar e é como paciente extra ... pode ser que não falte ninguém e eu não consiga encaixar o senhor
255. J: agora ... é depois de amanhã? 256. Auxiliar: isso
257. D: se já tiver hoje ótimo ...senão o senhor vem hoje e vem na 5ª também ... se der
pra passar hoje passa hoje ... aí vem na 5ª como extra também
258. J: tá bom (...)
No entanto, como a dentista havia dito que o paciente precisaria ser examinado também pela Semiologia (turnos 224, 226-7), cujo dia de atendimento seria na próxima 3ª-feira, e o encaixe a ser feito na clínica, para o procedimento de raspagem, é na 5ª-feira, o paciente fica confuso (turnos 278-280):
224. D: e ... a hora que o senhor passar pela Semiologia ... que é o pessoal que vai avaliar esse essa relação do tratamento radioterápico com o dente ... tá?
(...)
276.J: tudo bem ... agora tem ... ã:: um:: pra passar com eles eu tenho que marcar ... 277. D: não não você ... você passa ... vem na 3ª-feira às duas da tarde
278. J: na 3ª ou na 5ª?
279. D: espera ... eu vou anotar aqui procê não esquecer ... que é muita informação não
é? ((riso)) tá bom?
280. J: tá bom ... por favor
Há ambigüidade também quando a dentista dá a entender que J. será atendido na clínica de algum curso, quando não é ela quem decide sobre a necessidade de um caso clínico como o dele, nem sobre o agendamento de pacientes para os cursos. A recusa de resposta negativa ao que o paciente solicita (a dentista não diz ao paciente que ele não será atendido imediatamente) é, aqui, exemplo vivo do trabalho como “uso de si”, no sentido em que a execução da tarefa de fazer a consulta na Triagem requer uma implicação social do sujeito muito mais complexa do que a simples execução dos prescritos. Essa produção linguageira na interação dentista-paciente poderia começar a estabelecer um efeito de sentido de atendimento mais “humanizado”.
215.J: eu ... queria muito recuperar esse dente ... 216. D: é lógico
217. J: e... vê o que ... o que ... se podia fazer a respeito desse aqui 218. D: tudo bem ...
6.3. As vozes dos interlocutores
Os diálogos que ocorrem durante a atividade de preenchimento do prontuário do paciente se inserem em práticas profissionais e sociais, são componentes constitutivos do contexto de
enunciação integrantes do enunciado (França, 2002: 125). Isso possibilita que a articulação entre a prática discursiva, a prática profissional e a prática social vinculem a linguagem à
situação avaliada na pesquisa, explicitando as “vozes” de “outros” discursos, provenientes de locutores social e ideologicamente diferentes .
Nas interações face a face, nos setores de serviço, os saberes e as relações de poder são assimétricos, e essas forças em tensão se materializam discursivamente. A linguagem usada na Triagem tem uma descontinuidade temática, já que há ali dois tipos de ações: um trabalho físico (único e diferente para cada paciente examinado) e um trabalho de linguagem, com interrupções permanentes, com silêncios, com imbricações entre dizer e fazer, entre oral (interação linguageira), leitura (da ficha cadastral da assistente social, das radiografias do paciente, dos tratamentos clínicos anteriores), e escrita (dos dados de anamnese, do encaminhamento para tratamento numa seqüência indicada, de um eventual pedido de atendimento em outro serviço). Sendo a única responsável pela Triagem, tanto pelo atendimento clínico, como pelos trabalhos de organização e gerenciamento dos pacientes, a profissional se engaja na situação de atendimento dentro dos limites fixados tanto pelos prescritos da EAP (da qual ela é a porta-voz) e pelo tempo estabelecido de consulta (determinante ecológico), como também por autoprescrições (limites do próprio conhecimento específico, cansaço, horário de atendimento matutino, vespertino ou noturno, etc.). Assim, na voz da dentista D., locutora empírica, recuperam-se diferentes vozes, que expressam lógicas e ideologias diferentes: a da instituição EAP, a da Semiologia, a do paciente, a dos médicos e dentistas que atenderam o paciente J., a dos professores e alunos dos cursos, a da auxiliar e a da própria dentista.
A voz da EAP aparece refletida no comentário que a dentista faz, ao atender uma paciente não agendada, no dia da gravação da consulta do paciente J.:
• você ((pesquisadora)) ouviu o que ela ((coordenadora)) disse; ou refratada no que ela diz, na primeira entrevista na sala da Coordenação:
• a filosofia pedagógica da Coordenação da EAP estimula interdisciplinaridade entre os vários serviços;
• em casos complicados, eu recorro aos especialistas da Semiologia.
Há uma relação profissional de compromisso assumido e de colaboração entre os vários setores da EAP, vozes em diálogo da Assistência Social, da Radiologia, da secretaria, da Semiologia, etc.:
177.D: mas .. e ... acho que seu primeiro encaminhamento vai ser pra Semiologia ... porque eu acho que não sei se é muito compatível você tratar o seu dente ... e
passar por esse tratamento ((radioterápico)) que por si só já é uma coisa pesada
178. J: sei::
179. D: então eu acho que uma avaliação com o pessoal da Semio ... é importante 180. J: perfeitamente
181. D: pra que a gente possa ter um controle maior da situação não é? pra ver como é
que ... porque eu desconheço ... eu não entendo muito bem ... 182. J: sei
183. D: a correlação entre esse negócio desse tumor ... e o tratamento dentário ... e a terapia ... e ... esse pessoal ((da Semiologia)) é o:: que manja disso
222.D: então eu acho que uma avaliação com o pessoal da Semio ... é importante 224. D: e ... a hora que o senhor passar pela Semiologia ... que é o pessoal que vai
avaliar esse essa relação do tratamento radioterápico com o dente ... tá?
225. J: certo
226. D: dependendo do que eles forem falar pra gente ...
271. D: aí ... aí:: temos uma:: possibilidade de ... até ... vai depender do que aquela
turma que entende de radioterapia disser ... entendeu?
273. D. porque dependendo do que eles falarem a gente pode optar por um caminho ... ou por outro compreendeu?
Embora o paciente J. esteja preocupado com seu tratamento odontológico, uma vez que o radioterápico já está agendado e garantido, a dentista D. insiste em respeitar a avaliação (a voz) da Semiologia:
268. J: eu queria ... há possibilidade de ... de recuperar esse ((dente)) aqui ... né? 269. D: ... ã:: há ... lógico que dá ... dá::
270. J: e aqui seria:: ã::: seria:: é::
271. D: aí ... aí:: temos uma:: possibilidade de ... até ... vai depender do que aquela
turma que entende de radioterapia dizer ... entendeu?
272. J: ah sim
273. D. porque dependendo do que eles falarem a gente pode optar por um caminho
... ou por outro compreendeu?
274. J: pois não ... compreendi
275. D: é:: é:: a avaliação deles é muito importante
A voz do paciente está subentendida na queixa, na necessidade e na expectativa que ele tem, em relação ao atendimento na clínica da EAP:
188. J: a minha preocupação é porque quando eu vim aqui ... esse dente aqui era inteiro 189. D: é:::
190. J: eu tinha um dente aqui 191. D: sei ... quebrou né?
192. J: eu tinha um dente aqui ... era ... ã::: ã:: ele era muito sensível ... 193. D: ãhã:::
194. J: né? foi até encaminhado por uma dentista ... que mora ... ela tem consultório ... 195. D: tá
196. J: como eu não podia pagar ... então ela me encaminhou pra cá ... () 197. D: aí você fez o canal desse ...
198. J: eu vim aí ... acharam por bem fazer o canal ... 199. D: uhum ...
200. J: e eu perdi o dente ...
201. D: é ... porque faz tempo ... o senhor fez o canal foi em novem... foi o ano passado 202. J: foi o ano passado ... foi em outubro ...
203.D: é:: então tá mais do que na hora de começar a tratar ... () só que você vai fazer radioterapia ...
215. J: eu queria muito recuperar esse dente...
A voz a dos médicos (turnos 43, 151, 169 e 233), que indicaram o tratamento do problema oncológico, e a de diferentes especialistas, que fizeram (turno 64) ou vão fazer (turno 243) tratamentos odontológicos no paciente J., são recuperadas na da locutora empírica:
43. D: é essa parte eu vou ver ... primeiro estava vendo a parte médica ...
151. D: você toma alguns remédios?
169. D: a sua radioterapia ... ou quimioterapia ((indicação do médico oncologista)); 232. D: a gente não pode atuar enquanto o senhor estiver fazendo isso ... ((tratamento oncológico))
64. D: fez canal ... fez a extração desse aqui; fez cirurgia periodontal; restauração no curso do Dr. P.
243. D: pois é:: ... mais importante até que coroa ((tratamento protético)) aqui seria
raspar ((tratamento periodontal)) porque a influência da radioterapia ((tratamento
oncológico)) tá na cicatrização ((gengival))
A voz dos professores e dos alunos dos cursos está expressa no turno 40 da
autoconfrontação:
40. D: são muitos caras ((pacientes)) que os cursos ((EAP)) não pegam porque não é o ideal ((para os cursos)) é muito complexo ... uma das funções aqui ((Triagem)) é tentar fazer com que aquela pessoa ((paciente)) CHEGUE a um
curso ((EAP)) ... o professor RECEBA o que ele ((professor)) deseja ... o aluno