Fonte: Revista Fagulhas, dezembro/janeiro de 1969.
Diante do convite, Vilhena orientou o prefeito para que preparasse um projeto de lei criando o departamento de assistência social, pois já existiam alguns como, por exemplo, o departamento da saúde e o de serviços municipais. No entanto, o prefeito Veloso solicitou que o próprio Vilhena o fizesse, o que ocorreu de fato.
E preparei o projeto de lei e a mensagem de encaminhamento do projeto de lei para a Câmara Municipal justificando. O artigo primeiro desse decreto lei, esse decreto-lei, eu não me lembro do número, mas é fácil, porque na Câmara você encontra isso, na Câmara Municipal, do ano de 1968, se eu não me engano. Decreto-lei que criou o Departamento Municipal do Bem- Estar Social. Ou, então, na própria prefeitura, no setor de documentos. E no
Vale Paraibano, você encontra a edição no arquivo do de 1968. No artigo
primeiro desse decreto, eu percebi uma coisa, quando o prefeito pediu se eu podia preparar, ele não sabia preparar, eu falei: isso aqui tem que ficar na mão de um assistente social. Não tem nenhum assistente social na cidade, vai sobrar é para mim! Então, para evitar qualquer suspeita de que aquilo estava sendo feito para mim, que eu estava preparando para mim, o artigo primeiro estava lá, está lá, porque o decreto existiu e existe. Cria o departamento, a ser dirigido sem ônus para a prefeitura, por um assistente social devidamente diplomado em curso superior de serviço social e
devidamente registrado no conselho regional de serviço social da nona região. É inconstitucional esse artigo, mas passou batido. O presidente da Câmara Municipal, que era o doutor José de Castro Coimbra, quando o projeto de lei chegou lá, ele pediu, me convidou para ir numa reunião da Câmara Municipal expor o que era. Então, eu fui à reunião da Câmara. Ele me deu a palavra e, por trinta minutos, eu expus o que era, o que seria, o que ia fazer. Alguns vereadores fizeram perguntas, mas todos eles falaram para o presidente passar para as comissões aí, e dar o parecer o mais rápido possível, porque São José precisa disso. Aí, o projeto de lei correu nas comissões, teve um parecer favorável de todas elas, no plenário, e, talvez por essa pressa, não viram a inconstitucionalidade do primeiro artigo. Porque ninguém pode prestar serviço gratuito. E criava o cargo de diretor do departamento. Era a criação de um departamento. Todos os departamentos tinham seus diretores, cargos de confiança do prefeito com salário. Esse Dembes, não! Então, foi criado o departamento e não deu outra, criado, sancionado. Portaria do prefeito me nomeando para o cargo de diretor do departamento, numa igualdade de condições com os outros. Só que eu não podia receber vencimento nenhum. Eu sabia que se viesse me pagar, eu tinha que dizer: "não posso", porque o artigo primeiro fala que é gratuito. Sem ônus. (entrevista com Geraldo Vilhena, SJC, 24/5/2011)
Assim, durante o mandato do prefeito Elmano Ferreira Veloso, foi criado o Dembes, através da Lei municipal 1.408, de 13 de novembro de 1967, a qual é constituída por 14 artigos, dentre eles, o artigo 1o, citado por Vilhena, que dispõe o que segue:
Art.1o Cria o Departamento Municipal de Bem-Estar Social, como órgão
técnico-científico de Serviço Social, supervisionado tecnicamente por um Assistente Social, devidamente registrado no Conselho Regional de Assistentes Sociais (Cras), sem ônus para os cofres públicos e de livre escolha do Prefeito Municipal.
Um dado significativo para o estudo proposto, diz respeito à preocupação de Vilhena em estreitar relação com as entidades sociais existentes no município, conforme segue:
Com relação às instituições da cidade no nosso projeto de lei, tornou-se lei criando um departamento, caberia ao Departamento do Bem-Estar Social diagnosticar, fazer um estudo diagnóstico das necessidades de São José dos Campos na área social e propor uma parceria através de convênios. O termo parceria já é bem mais recente, propor, então, essa parceria, que, na época, se falava de convênios com as instituições, que, na época, se chamavam obras sociais, que existiam na cidade, que se propusessem a desenvolver aqueles projetos que a prefeitura, o Dembes indicavam necessários, prioritários para a cidade. E a prefeitura iria subvencionar a execução dos projetos. É claro que mediante acompanhamento do Dembes, com fiscalização e prestação de contas para o Tribunal de Contas. Aí, então, a necessidade de uma reunião na Câmara Municipal, com os dirigentes das obras sociais. Já existia, estava aí a LBA... Isso em 68/69. Expor como iria funcionar. A instituição vai desenvolver aqueles projetos prioritários. Para que isso? Para evitar aquela mesmíssima coisa a vida inteira, sem ir para lugar nenhum: cada obra tem seus pobres. “Nos meus
pobres ninguém põe a mão!” Então, você não formava ninguém. É manter a exclusão. “Ter meus clientezinhos e fazer minha rifa, minha festinha, festa junina, tudo isso!” Então, o Asilo Santo Antônio já é antigo também, eu esqueci de mencionar. Aí, eu expliquei tudo, estava lá presente o Juiz de Direito, Maia Neto, os professores da Fundação Valeparaibana de Ensino, as instituições, as irmãs do Maria Imaculada. Eu conheci, nessa época, então, a Madre Tereza, hoje já está no processo de beatificação da Madre Tereza, eu conheci, nessa oportunidade. Eu tive um contato bem próximo com ela. Nesse movimento que eu estava fazendo aí com as irmãs, com as obras sociais que elas tinham em Santana, na Paróquia de Santana, mais o Maria Imaculada, que era um sanatório, a Creche Santa Inês, que era delas, o Hospital Antoninho da Rocha Marmo, voltado para atender as crianças portadoras de doença de tuberculose. Aí, nós começamos, então, um processo de colaborar com essas instituições na elaboração de projetos para as instituições assumirem a responsabilidade e a prefeitura destinar dotação orçamentária. E a prefeitura poder incluir no orçamento uma dotação para subvenções. Então, aí, começaram a surgir as subvenções, a constar as dotações orçamentárias no orçamento. (entrevista com Geraldo Vilhena, SJC, 24/5/2011)
2.2 PRINCÍPIO DA SUBSIDIARIEDADE ÀS ENTIDADES SOCIAIS
Cabe ressaltar que a Lei municipal 1.408/1967, dentre seus artigos, demarcou o início da regulação formal entre o público e o privado no campo da assistência social, favorecendo a possibilidade de uma ação profissional voltada para a parceria com as entidades e organizações da assistência social; maior proximidade com a Legião Brasileira de Assistência (LBA), com o estabelecimento de convênios; a constituição de um conselho envolvendo representantes das chamadas obras sociais e representantes dos departamentos municipais; diferenciando-se, assim, do que existia anteriormente, que era caracterizado pelo primeiro-damismo. É de se lembrar que a constituição do CNSS, em 1938, constituiu mecanismo similar ao de formar o conselho com representantes de organizações para analisarem propostas e autorizarem subvenções, mais tarde também isenções. Tais objetivos foram explicitados, conforme pode ser verificado, nos seguintes artigos:
Art. 4o O Departamento Municipal de Bem-Estar Social, para atingir seus
objetivos, a curto, médio e longo prazo, deverá: a) organizar o Catálogo ou Fichário Central de todas as Obras Sociais do Município; b) proceder ao levantamento de todos os recursos naturais e humanos disponíveis; c) elaborar o planejamento global de programas de bem-estar e programas específicos que permitem eliminar ou aliviar as causas dos problemas sociais e promover o reajustamento dos indivíduos, famílias, grupos e comunidade; d) coordenar os programas assistenciais de obras subvencionadas pelo Poder Público Municipal, visando à recuperação dos desajustamentos de indivíduos, famílias, grupos e comunidades e a
integração dos mesmos ao meio social com a respectiva promoção e elevação dos padrões econômico-sociais; e) firmar convênios com entidades públicas e particulares e, em especial, com a Fundação Nacional do Bem-Estar Social do Menor e Legião Brasileira de Assistência (LBA), para a prestação de serviços diretos, principalmente nos campos específicos do menor, família, saúde e higiene, educação, ensino profissional, preparo de mão de obra ociosa, desemprego, meio rural, artesanato, velhice desamparada, mendicância, alimentação, incapacidade física, recreação, favela e outros; f) organizar o registro de Obras Sociais que desejarem se integrar no planejamento global, a fim de receberem, mediante convênio e apresentação de programas específicos de bem-estar social, subvenção do Poder Público Municipal; g) estudar e emitir parecer nos programas específicos de Obras Sociais que desejam convênios, desde que se proponham atingir as causas dos desajustamentos econômico- sociais, psico-sociais, médico-sociais ou sociais e tenham como objetivo a eliminação do problema e o consequente ajustamento de seus assistidos e sua promoção dentro do quadro social.
Art. 7o As Obras Sociais interessadas no planejamento global deverão se inscrever junto ao Departamento, ora criado, dentro de 30 (trinta) dias e indicar seu representante junto ao Departamento.
Art. 8o Os representantes de Obras Sociais constituirão o Conselho
Municipal de Desenvolvimento e Organização de Comunidade, cabendo a este Conselho a responsabilidade pelo planejamento de programas de Bem-Estar Social de que trata o item "c" do artigo 4o, sob a supervisão e
assistência técnica de que trata o artigo 1o e sem ônus para os cofres
públicos.
Art. 9o O Conselho de que trata o artigo anterior poderá convocar técnicos e formar comissões inter-profissionais para abordagem e planejamento de programas específicos e globais, a curto, médio e longo prazo, sem ônus para os cofres públicos.
(...)
Art. 11º Só poderão receber auxílios e subvenções da Prefeitura Municipal as entidades que celebrarem convênio com o Departamento Municipal de Bem-Estar Social.
Art. 12º A entidade que receber auxílio e subvenção do Poder Público Municipal fica obrigado a prestar contas, anualmente, sob as penas da lei ao Departamento de Bem-Estar Social.
Art. 13º Nenhuma verba de auxílio e subvenções constante do Orçamento Municipal será liberada sem que a entidade beneficiada cumpra as disposições desta Lei. (LEI MUNICIPAL 1.408/1967)
Em relação aos artigos citados, cabe a análise de que, anteriormente a esta lei municipal, algumas entidades sociais já recebiam auxílios financeiros da PMSJC, orientados pelos clientelismo e fisiologismo predominantes. Não havia, assim, nenhuma sistematização do cadastro, bem como em relação à prestação de contas das subvenções anteriormente repassadas, o que começou a ocorrer de forma incipiente após a lei em questão.
[...] as instituições recebiam em parcelas, iam na tesouraria que funcionava no andar térreo do prédio da Prefeitura, o tesoureiro pagava. Lá tinha um formulário onde estavam as parcelas, à medida que ia sendo desenvolvido iam sendo liberadas as parcelas mediante prestações de contas. (entrevista com Geraldo Vilhena, SJC, 24/5/2011)
Dentre as entidades sociais que recebiam auxílios anteriores à Lei municipal 1.408/1967, e que, em seguida, continuaram recebendo subvenções, citamos o Asilo Santo Antônio, a Casa Santa Inês e o Éden Lar27, dentre outras, que ainda mantêm
serviços em funcionamento.