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Sair do país de nascimento, ser imigrante em terra distante e ouvir os relatos dos que já passaram por isso trata-se de uma experiência inovadora. Ao ouvir os estudantes falarem sobre a vida de imigrante em Fortaleza, você pode ver uma expressão facial, mas quando o assunto é a terra natal, muda-se o tom da voz e o brilho dos olhos. Alguns chegaram a ficar emocionados, revivendo momentos e, assim, relembrando dos dez pedaços de terra espalhados no oceano atlântico. Para uns, a identidade cultural é uma marca muito forte que lhes faze lembrar de Cabo Verde.

O reconhecimento dessas diferenças contribui para um melhor entendimento sobre a própria identidade cultural, tornando-a mais inovadora por meio da convivência com

a alteridade, até porque, como alerta Touraine (1998, p. 222), “não há nada mais

afastado do multiculturalismo que a fragmentação do mundo em espaços culturais, nacionais ou regionais estranhos uns aos outros, obcecados por um ideal de

homogeneidade e de pureza que os abafa.” (TOURAINE 1998, p. 222 apud TAVARES e ROSA 2011, p. 10).

Os estudantes imigrantes, ao estarem longe da terra natal e entrarem em contato com outras culturas, conseguem reconhecer as diferenças, mas nem sempre a comunicação acontece. Nas entrevistas com os estudantes cabo-verdianos, observei posturas mais fechadas e outras mais abertas ao convívio com os brasileiros. E, no caso de estarem mais abertos, conseguem se comunicar com os outros independentes de sua cultura. Por mais que você esteja longe da sua terra natal e adapte-se muito bem no novo espaço geográfico ou em outro contexto cultural, a sua própria cultura não se perde, sempre existem coisas que o farão “lembrar de casa”, pois como foi tratado, anteriormente, o lugar de nascimento confere ao indivíduo uma sentimento de pertencimento:

Veja por exemplo, você pode ir para uma festa brasileira, mas as músicas são bastante diferentes, não são as mesmas que você ouve quando vai numa festa em Cabo Verde, porque é um contexto cultural diferente e você percebe que a sua identidade cultural não está aí [...], você se diverte com os seus amigos, você se sente bastante adaptado ao cenário, mas não é você, a sua identidade cultural não está aí. As pessoas são diferentes, as conversas são diferentes, a forma de expressar, por você não se expressar na sua língua materna é diferente. Então não tem como se confundir [...],você sente aquela diferença cultural. As emoções que carrega são diferentes e lhe fazem perceber que aquele contexto é diferente. (Entrevista com o Danilson Varela, 25 anos, curso de Administração, realizada no dia 08/08/12).

Mas para Stephanie só pelo fato dela ser cabo-verdiana e falar o crioulo já é uma marca muito forte, indissociável dela. “O meu dialéto!” afirma ela com toda convicção. Ela segue dizendo que: “[...] nós, os cabo-verdianos, quando a gente usa os meios de comunicação, a gente fala o crioulo, por mais que não tenha uma gramática, todo mundo quer escrever em crioulo, do jeito que quiser, mas quer se comunicar em crioulo”, acrescenta. O fato de escrever em crioulo nas redes sociais mostra uma vontade de estar próximo dos outros cabo-verdianos e ter uma conexão com Cabo Verde. Ter sempre em casa os produtos da culinária das ilhas, as músicas, são sempre importantes para manter esse contato, sem falar das festas com os amigos, onde eles aproveitam juntos para cantar as normas20 de saudade, como uma tentativa de diminuir a saudade. A internet também é um lugar onde eles compartilham fotos, músicas e outras lembranças:

A gente canta as músicas de Cabo Verde, eu acho que é uma forma de nos aproximar, ou a gente chama os colegas brasileiros, eu adoro essas coisas e a gente apresenta a gastronomia, a música, a cultura, tentando falar um pouco para as outras

20

Música tradicional cabo-verdiana, que aborda a migração, a saudade e outros aspectos que marcam os cabo- verdianos.

pessoas. (Entrevista com a Stephanie Monteiro, 24 anos, curso Medicina, realizada no dia 01/08/12).

A Melissa também partilha da mesma opinião que a Stephanie, afirmando que as músicas e a culinária a aproximam do país de nascimento. Ela também gosta de se reunir com os amigos e comer uma boa katchupa21, e isso logo a faz sentir em casa. Outro aspecto salientado é a dança, pois nada se compara ao prazer de dançar umas mornas, fazendo-a sentir cabo-verdiana, sendo coisas que ela sempre tenta preservar consigo. Você não precisa se movimentar para viajar, a leitura também proporciona viagens incomparáveis e as obras literárias constituem outro fator que a faz estar mais perto: “[...] quando eu vim pela primeira vez, eu trouxe o livro A ilha fantástica, do Germano Almeida22, foi uma forma de eu me sentir em casa, porque eu ia lendo e imaginando, lá na Boavista da ilha fantástica.” Estar ligado com as coisas do país de nascimento é uma forma de preservar os laços culturais, não esquecendo de onde você veio, reforça Melissa. O Andy também gosta de escutar músicas de Cabo Verde, pois isso lhe faz bem, mas ele não se considera uma pessoa saudosista, que gosta de relembrar as coisas com saudades, “[...] pra falar a verdade, eu não costumo sentir saudades de nada.”

Portanto, são esses alguns dos aspectos que os imigrantes carregam consigo que os fazem estar mais perto de Cabo Verde, aproximando assim a diáspora, conceito apresentado por Tavares e Rosa (2011), são esses traços que correspondem a identidade cultural deles, que os fazem sentir cabo-verdianos, e não brasileiros. Mas mesmo assim, é importante não esquecer que eles estão inseridos dentro da sociedade brasileira, então, eles vão aprendendo novas coisas que não fazem parte da cultura deles, e é isso que veremos no próximo subtópico, como eles se sentem como imigrantes.

Belgede ÇANAKKALE OCAK, 2020 (sayfa 13-23)

Benzer Belgeler