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A estrutura fundiária do Algarve era dominada predominantemente pela pequena e média propriedade46, evidenciando, porém, fortes contrastes concelhios47.

As terras/propriedades eram dispersas, «a dispersão dos campos, a forma como

as terras estavam espalhadas em lugares distantes e isolados uns dos outros, dão a ilusão de que a propriedade não é uma unidade. A seara de trigo, o sítio das oliveiras, os locais de vegetação, onde predominam o sobreiro e a azinheira, aparecem na paisagem como se fossem peças soltas»48.

Em 1900, a superfície média das propriedades rurais do Algarve variava entre «Mais de 1,50 e menos de 3 ha»49.

Em 1912, no concelho de Alcoutim, não era referido nenhum contribuinte com um rendimento colectável superior a 2000$00, mas três no de Castro Marim, cinco no de Vila Real de Santo António e seis no de Tavira; também as frequências da classe superior a 500$00 eram inferiores (4, 36, 31 e 90, respectivamente)50 (Quadro n.º 10).

Quadro n.º 10

Número de Proprietários Rústicos Segundo os Rendimentos Colectáveis

Alcoutim Castro Marim Tavira Vila Real

N.º RC N.º RC N.º RC N.º RC

3.418 53$00 2.957 69$00 5.082 210$00 970 31$00 Fonte: CAVACO, Carminda, O Algarve Oriental, vol. 1, p. 1265.

46

Em 1890, Joaquim Ferreira Moutinho afirmava que no Algarve a «propriedade está muito dividida, e as vastas propriedades que existem arrendam-se ordinariamente por pequenas parcellas» (MOUTINHO, J. F., O Algarve e a Fundação Patriótica de Uma Colónia Industrial e Agrícola, p. 42). Sobre a propriedade rústica do Algarve consultar o importante estudo pertence a T. Cabreira, O Algarve Económico, pp. 51-67. MARQUES, Oliveira, História da 1ª República Portuguesa, p. 87.

47

Estanco Louro afirmava que, em Alportel, a propriedade encontrava-se muito dividida, pulverizada mesmo, consequência de partilhas. Para viver desafogado, o lavrador de Alportel, precisaria de possuir, pelo menos, 1 hectare de terreno por cada pessoa de família, cultivando ele próprio e a família essa terra (LOURO, Estanco, O Livro de Alportel, pp. 134 e 180). Consultar ainda, FEIO, Mariano, Le Bas Alentejo et l'Algarve, Instituto Nacional de Investigação Científica, Évora, 1983, pp. 93-195 e CAVACO, Carminda, O Algarve Oriental. As Vilas, O Campo e o Mar, Gabinete de Planeamento da Região do Algarve, Faro, 1976, vol. 1, pp. 125-134.

48

COSTA, Renato, A Emigração de Algarvios Para Gibraltar e Sudoeste da Andaluzia (1834-1910), Estar Editora, Lda., Colecção «História da População», Lisboa, 2002.

49

MARQUES, Oliveira (Dir.), História da Primeira República Portuguesa, p. 52.

50

CABREIRA, Tomás, O Algarve Económico, 1918, pp. 55-57 e CAVACO, Carminda, O Algarve Oriental, vol. 1, p. 126.

23

Embora os critérios coligidos por Tomás Cabreira não correspondam aos de Péry, podemos, porém, constatar que a superfície média baixou, fenómenos que se explica pelo continuado parcelamento da propriedade em consequência de uma maior procura de terras, mas igualmente devido ao arrendamento, prática muito espalhada na região, e às partilhas (Quadros n.º 11, 12, 13 e 14). Contudo, «embora o Algarve, a

propriedade esteja bastante dividida, ainda assim a superfície media dos seus predios rusticos apenas é excedida nos distritos do Alemtejo, regiões dos grandes latifundios, e nos de Lisboa e Santarém, onde tambem ha grandes propriedades»51.

Em relação aos valores por hectare, apenas quatro distritos, «Braga, Lisboa,

Porto e Viana do Castelo» tinham valores superiores ao Algarve52. Quanto ao rendimento por superfícies iguais, era maior para a pequena propriedade do que para a grande, «influindo tambem no valor do rendimento, como é natural, a naturesa do

terreno e o modo de exploração do prédio agricola»53.

Quadro n.º 11

Proprietários Rústicos no Distrito de Faro em 1910

(Cálculo de Tomás Cabreira)

Distrito Nº de proprietários % sobre a população agrícola % sobre a população total (Censo de 1911) Faro 62 160 37,6 22,5 Total 1 360 288 39,5 24,5

Fonte: CABREIRA, Tomás, A Política Agrícola Nacional, Coimbra, 1920, p. 68.

Quadro n.º 12

Proprietários Rústicos Contribuintes no Distrito de Faro em 1910

(Cálculo de Tomás Cabreira)

Distrito Nº de proprietários % sobre a população agrícola % sobre a população total (Censo de 1911) Faro 27 109 16,4 9,9 Total 524 874 16,5 9,5

Fonte: Estatística Agrícola.Resumos Estatísticos, fasc. IV, Lisboa, 1914, cit. in

MARQUES, Oliveira (Dir.), História da Primeira República Portuguesa, p. 57.

51

CABREIRA, Tomás, O Algarve Económico, 1918, p. 54.

52

CABREIRA, Tomás, O Algarve Económico, p. 55.

53

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Quadro n.º 13

Número de prédios rústicos (1890-1915) 1910 Distrito 1890 1898 N.º % sobre o número de proprietários contribuintes % sobre o número de proprietários totais 1915 Faro 220.196 224.823 277.725 10,2 4,5 283.021 Continente 5.446.919 - 10.533.115 20,1 7,7 -

Fonte: Estatística Agrícola. Resumos Estatísticos, fasc. IV, Lisboa, 1914, cit. in MARQUES, Oliveira

(Dir.), História da Primeira República Portuguesa, p. 60 e CARQUEJA, Bento, O Futuro de Portugal, p. 247.

Quadro n.º 14

Superfície Média dos Prédios Rústicos

(hectares)

Distrito 1890 1910 1931

Faro 1,093 0,867 1,8024

Continente 0,928 0,481 0,810 Fonte: Estatística Agrícola. Resumos Estatísticos, fasc. IV,

Lisboa, 1914; BASTOS, E. A. Lima, Inquérito Económico- Agrícola, vol. IV, Lisboa, 1936, cit. in MARQUES, Oliveira (Dir.), História da Primeira República Portuguesa, p. 87.

No Algarve, apesar de comummente se considerar uma região de pequena e média propriedade, existem «fortes contrastes das malhas fundiárias»54. A grande propriedade e mesmo o latifúndio, também tinham assentado arraiais.

Quadro n.º 15

Grandes Propriedades no Concelho de Tavira

Unidade: hectares

Quinta de Baixo - Luz de Tavira

Quinta de Cima 99,7

1.576 oliveiras Cacela

Torrinha 119 oliveiras “

Aroeira 276 oliveiras “

Quinta da Manta Rota - -

54

CAVACO, Carminda, O Algarve Oriental. As Vilas, O Campo e o Mar, Vol. 1, Gabinete de Planeamento da Região do Algarve, Faro, 1976, p. 125 e MARQUES, Oliveira, História da 1ª República Portuguesa, pp. 64 e 65 e Carminda Cavaco, Ob. cit., p. 96, nota 116. Entre as propriedades de dimensão já razoável temos a quinta da Campina, perto de Faro, 71 hectares, constituída por compra de diversos terrenos, em 1879, pelo agrónomo Alexandre de Sousa Figueiredo (Figueiredo, Alexandre de Sousa, Memoria Descriptiva da Fundação e Exploração da Quinta da Campina, Typographia Minerva, Faro, 1883).

25

Quinta do Secretário - -

Morgado do Arroio - -

Asseca - -

Fonte Salgada - -

Quinta dos Pássaros - -

Lezíria - -

Quinta de Cacela 700 oliveiras Cacela

Quinta do Pinheiro 52 -

Fazenda Nova da Asseca 99,5 -

Fonte: CAVACO, Carminda, O Algarve Oriental. As Vilas, O Campo e o

Mar, Vol. 1, Gabinete de Planeamento da Região do Algarve, Faro, 1976, pp. 96, nota 116, 97, nota 127 e 100. Sobre herdades no concelho de Alcoutim, consultar p. 133.

Se passarmos do estudo das explorações propriamente ditas, à muitipredialidade, não circunscritas a um concelho, mas na sua dimensão multiconcelhia e até multidistrital aparecer-nos-ão enormes massas de terrenos, muitos de grandes dimensões, concentradas em algumas centenas de proprietários algarvios.

Nas fontes consultadas encontro-se referências esparsas, mas concretas, a morgados e a grandes propriedades na província. Muitas pertenciam a abastados proprietários que usufruíam de elevadíssimos rendimentos.

Mesmo sem conduzirmos mais profundamente a nossa pesquisa, detectou-se um conjunto de propriedades que, embora desconhecendo a sua dimensão, seriam certamente explorações de dimensão considerável55. Tendo por base a Estatística

Agrícola de 1910, a região possuía 378 grandes propriedades e 31 latifúndios.

Entre muitos outros proprietários podemos sublinhar Joaquim Lobo de Miranda (Figueira da Foz, 17/9/1845 – Lagos, 6/9/1940), grande proprietário de Lagos56; José de Sousa Marreiros Cintra (Vila do Bispo, 6/4/1849 – Lagos, 18/5/1919)57; Frederico da Paz Mendes, Visconde da Rocha de Portimão (Alvor, 17/1/1837 - Portimão, 15/4/1920)58, ao qual pertencia o Morgado da Torre, nas redondezas de Portimão e Francisco Manuel Pereira Caldas, Visconde de Silves (Monção, 8/12/1842 - Lisboa, 13/5/1915), proprietário da quinta e convento de Matamouros para além de grande industrial da cortiça59.

55

Utilizámos para caracterizar a divisão das propriedades quanto às dimensões o seguinte critério: pequeníssima, até 2, 38 hectares; pequena, de 2,38 a 6; média, de 6 a 60; grande, de 60 a 240 e latifúndio mais de 240 hectares.

56

SILVA, Titulares do Liberalismo do Algarve, p. 262.

57

SILVA, Titulares do Liberalismo do Algarve, p. 270.

58

SILVA, Titulares do Liberalismo do Algarve, p. 344.

59

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Quadro n.º 16

A Grande Propriedade e o Latifúndio no Algarve

Proprietário Nome das explorações Concelhos

Pedro P. Mascarenhas Júdice

Bemparece Sesmarias Palmeiras Vale de Rabelho

Lagoa

Concelho de Estombar, Lagos Sítio dos Montes Raposos, freguesia de

Pêra, Silves

Sítio do Rabelho, freguesia da Guia, Albufeira

Dr. Patrício Eugénio Mascarenhas

Júdice (irmão do anterior) Poço Fundo Freguesia de Silves

Manuel Teixeira Gomes

Herdade do Gramacho Quinta da Boa Vista

Quinta de Alvor Herdade dos Pegos

Verdes Quinta dos Três Bicos

Quinta do Boião

Concelho de Lagoa Concelho de Lagoa Marachique, concelho de Portimão Freguesia da Figueira, conc. de Portimão

Perto da praia do Vau, conc. de Portimão

Perto da praia do Vau, conc. de Portimão

Conde de Azambuja Quinta do Morgado «Quinta de Quarteira»

Quarteira

José da Costa Mealha, rendeiro a longo prazo - Reguengo - - Ludo Faro - Lameira Silves - Tapada - - Torrejão - - Lontreira Budens

José Maria Eugénio de Almeida Reguengo de Alvor Portimão

Ares e Boina

Visconde de Lagos Morgado da Vala -

Fonte: MOUTINHO, Joaquim Ferreira, O Algarve e a Fundação Patriótica de Uma Colónia Industrial e

Agrícola, Porto, 1890, p. 179; O Algarve, n.º 62, 30/03/1909, p. 3; MIRANDA, “Memoria do sr. Visconde de Miranda, proprietario-agricultor em Lagos, apresentada ao Congresso Nacional de Lisboa”, Lagos, 20 de Dezembro de 1909, O Algarve, n.º 118, 26/6/1910; JÚDICE, Pedro P. Mascarenhas, O Míldio no Algarve, Separata do Boletim da Associação Central da Agricultura Portuguesa, Lisboa, 1916 e MARQUES, Maria da Graça Maia, “O mundo rural na Obra de Manuel Teixeira Gomes (1860-1941”, 10.º Congresso do Algarve, 16 e 17 Abril de 1999, Hotel Alvor Praia-Portimão, Racal Club, 1999, 120 e RADICH, Maria Carlos, O Algarve Agrícola. Notícias Oitocentistas, Lisboa, 2007, p. 43.

Um dos grandes capitalistas da Regeneração, José Maria Eugénia de Almeida, dispunha de uma avultada fortuna pessoal e de diversificados activos «do Minho ao

Algarve»,60 abrangendo «interesses agrários, comerciais, finançeiros e industriais»61. Nesta província esteve relacionado com o comércio agrícola (figos, amêndoa e

60REIS, Jaime, “José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração”, O Atraso Económico

Português em Perspectiva Histórica: Estudos sobre a Economia Portuguesa na Segunda Metade do Século XIX – 1850-1930, Imprensa Nacional Casa da Moeda, «Colecção Análise Social», Lisboa, 1992, p. 203.

61REIS, Jaime, “José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração”, O Atraso Económico

27

cortiça)62, adquiriu e ampliou bens fundiários63 – em 1847, em hasta pública64, comprou o Reguengo de Alvor65. Nas proximidades de Portimão, os seus bens atingiriam uma extraordinária superfície de 4.000 hecteres, perfazendo os seus bens de raiz na província, em 1872, 6,3%, do valor fortuna total66. Entre 1866 e 1871, a rendibilidade das suas propriedades no Algarve, variou entre 3,5% e 4,5%, sobre o capital investido67. Acabaria por arrendar o Reguengo, a partir de 1857, a António Joaquim da Silva Negrão68. Este pode ser apontado como um dos casos, entre outros, mais elucidativo do desenvolvimento do capitalismo agrário no Algarve.

A questão da propriedade no Algarve é ainda mais complexa. Escassos foram os autores que mencionaram os extensos terrenos pertencentes às Câmaras Municipais – baldios e terras comunitárias -, às Misericórdias e às Igrejas. Estas últimas instituições aforavam terras e moradias a enfiteutas, evidenciando ainda resquícios de uma economia de Antigo Regime.

As igrejas mais ricas, como era o caso, por exemplo, da N. S. da Piedade, em Loulé, funcionavam como credoras a quem se pagava juros do capital emprestado69.

62REIS, Jaime, “José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração”, O Atraso Económico

Português em Perspectiva Histórica, pp. 199-200.

63REIS, Jaime, “José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração”, O Atraso Económico

Português em Perspectiva Histórica, p. 203 e 206.

64REIS, Jaime, “José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração”, O Atraso Económico

Português em Perspectiva Histórica, p. 219.

65REIS, Jaime, “José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração”, O Atraso Económico

Português em Perspectiva Histórica, p. 210.

66 REIS, Jaime, “José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração”, O Atraso Económico

Português em Perspectiva Histórica, p. 216.

67

REIS, Jaime, “José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração”, O Atraso Económico Português em Perspectiva Histórica, p. 208. Acerca dos melhoramentos realizados, produção e formas de arrendamento cf. pp. 218-222.

68REIS, Jaime, “José Maria Eugénio de Almeida, um capitalista da Regeneração”, O Atraso Económico

Português em Perspectiva Histórica, p. 222.

69

AHML. Fundo: Administrador do Concelho de Loulé, Registo de Inventário e Relação das Instituições Religiosas e dos Eclesiásticos Existentes no Concelho, Arrolamento das Igrejas, 1910.

«Antigamente havia confrarias e varias instituições, que emprestavam dinheiro ao agricultor levando-lhe um juro fabuloso entre 8, 30 e 55 p. c., pagos a dinheiro ou trigo.

Algumas d‟estas confrarias cediam o capital ao juro de 5 p. c. ficando o lavrador obrigado a satisfazer o emprestimo em productos da sua exploração, logo depois de os colher, mas por preço inferior ao dos mercados, isto é, pagava novo juro ao saldar o seu debito, que certamente não seria inferior ao primeiro» (FILIPPE, Felix, Breve Estudo Sobre a Serra Leste do Alga06, p. 25).

Quadro n.º 17

Divisão dos Prédios Rústicos em 1910

(Superfície dos prédios (hectares)

Distrito Conhecimentos Rústicos Nº 0,12 a 0,24 0,24 a 0,36 0,36 a 0,60 0,60 a 1,20 1,20 a 2,40 2,40 a 3,60 3,60 a 6,00 6,00 a 12,00 12,00 a 24,01 24,01 a 36,01 36,01 a 60,02 60,02 a 120,05 120,05 a 240,10 240,10 a 360,14 360,14 a 600,24 600,24 ou mais Faro 49 289 2 726 4 081 6 667 9 682 9 022 5 529 4 791 4 153 2 080 657 472 272 106 19 9 3 Continente 954 317 117 113 99 399 130 168 177 256 154 841 78 118 76 418 64 004 31 650 10 146 7 401 4 841 1 919 541 302 200 Fonte: Estatística Agrícola. Resumos Estatísticos, fasc. IV, Lisboa, 1914, cit. in MARQUES, Oliveira (Dir.), História da Primeira República Portuguesa, pp. 64 e 65.

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Gráfico n.º 2

Fonte: Quadro n.º 17.

Belgede Sürdürülebilir Çevrenin (sayfa 3-0)

Benzer Belgeler