Com a crescente e irreversível internacionalização de fluxos de investimento de naturezas produtiva e especulativa nas diversas economias do mundo, tanto dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento quanto para o inverso, uma nova ordem, em termos de análise de informações financeiras, ficou estabelecida.
A contabilidade, nesse contexto, por se tratar de uma ferramenta fundamental nesse processo, passou a ser o foco das atenções dos integrantes desse sistema. Uma maior exigência, em termos de práticas sólidas de mensuração de ativos, passivos, receitas e despesas, bem como de divulgação de informações relevantes para o bom entendimento do conjunto das demonstrações financeiras, passou a ser prioridade absoluta a fim de possibilitar a manutenção dessa nova ordem.
Adicionalmente, alguns dos grandes escândalos corporativos observados no início dessa década colocaram em xeque, até mesmo, a eficácia dos princípios contábeis norte-americanos (US GAAP), os quais eram como vanguarda no que tange à normatização contábil.
Como resposta a todos esses fatores, as IFRS, surgiram com o propósito de transformar a regulamentação contábil em algo sofisticado, e que, ao mesmo tempo, tivesse uma aplicação menos complexa que os US GAAP, onde diversos pronunciamentos, interpretações e estudos emitidos por órgãos distintos interagem como um só conjunto de normas contábeis. Gradativamente, as IFRS foram ganhando bastante legitimidade em virtude da abordagem multicultural, multidisciplinar e multigeográfica adotada pelo IASB. Algo apenas comparável à expansão da cultura helênica na Antiguidade. Esse processo culminou com a aceitação da SEC, de demonstrações financeiras dos
IFRS, sem a necessidade de uma reconciliação para os US GAAP a partir de 2007.
Mais ainda, a SEC apresentou, recentemente, uma consulta pública para autorizar empresas norte-americanas a adotar as IFRS como seu conjunto de práticas contábeis, em detrimento do próprio US GAAP.
Por todas essas razões, foi de fundamental importância a emissão da Instrução CVM nº. 457 de 2007, determinando que as companhias brasileiras listadas no mercado de capitais passem a apresentar, até 2010, demonstrações financeiras consolidadas preparadas de acordo com as IFRS.
O mercado de capitais brasileiro tem como principais benefícios o aprimoramento do nível e da qualidade das informações financeiras preparadas pelas companhias que dispõem de ações negociadas em bolsa. Essas políticas já são observadas em uma escala menor, no que diz respeito às companhias que estão no Novo Mercado da Bovespa.
O Brasil, dessa forma, não está fora do processo, e alguns movimentos vêm sendo percebidos, sobretudo porque o modelo atual de demonstrações financeiras é considerado limitado pois:
Foca apenas os indicadores financeiros de desempenho.
É essencialmente centrado no custo histórico como base de valor.
Não apresenta informações suficientes sobre os ativos intangíveis.
Não apresenta informações suficientes sobre importantes indicadores de valor, como participação no mercado, crescimento do mercado, qualidade da administração e direção estratégica, entre outros.
Apresenta informações exclusivamente sobre desempenho passado.
de informação financeira oferecida aos usuários das demonstrações financeiras preparadas de acordo com as IFRS, além de maior confiabilidade, haja vista que:
Por se trata de um conjunto único e internacional de normas, denota uma maior legitimidade.
As IFRS são fundamentadas no princípio da essência econômica sobre a forma.
Por se tratar de um tema recente, as IFRS não estão contaminadas pelos recentes escândalos corporativos; pelo contrário, estas contemplam melhorias que se tornaram necessárias após esses eventos.
Guardam um grau menor de complexidade, se comparadas a outras regras de “aceitação” internacional, como as United States
Generally Accepted Accounting Principles(US GAAP).
Há reconhecimento pela IOSCO para fins de registro em bolsa.
É o principal caminho dentro das discussões sobre harmonização, recomendadas pelo Financial Stability Forum (FSF) e pelo Grupo dos Sete (G734) para evitar crises como a asiática;
Na Europa, o uso exigido ocorreu a partir de 2005 para países da União Européia;
O Financial Accounting Standards Board (FASB) tem
compromisso com o IASB de eliminar as principais diferenças entre US GAAP e IFRS até 2009.
34O Grupo dos Sete (G7) é um grupo internacional que reúne os sete países mais
industrializados e desenvolvidos economicamente do mundo, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e o Canadá. Posteriormente a Rússia foi incluída no grupo, que passou a ser conhecido como G8.
provoca a melhora de sua liquidez tem como conseqüências esperadas, a redução do custo de captação de recursos pelas companhias e o aumento de sua competitividade.
Os investidores internacionais, por sua vez, terão como benefícios um entendimento mais claro da situação econômico-financeira das companhias e, como conseqüência, uma maior atratividade em investir nos papéis das companhias locais.
Os outros usuários das demonstrações financeiras, além dos investidores internacionais como as instituições financeiras, poderão, como parte do processo de adoção das IFRS como normas contábeis brasileiras, ter um grau de comparabilidade entre os seus investimentos e outros similares ao redor do mundo.
Esse marco regulatório na história de nosso mercado de capitais, no entanto, apresenta fatores críticos para seu sucesso. A aderência ao processo de conversão de demonstrações financeiras para as IFRS requer uma série de ações estruturais a ser tomadas, entre as quais destacam-se as seguintes:
A preparação de uma literatura robusta em português, referente às IFRS Normas Internacionais de Contabilidade. A questão do idioma configura-se numa barreira relevante para a familiarização daqueles que irão se envolver com as IFRS.
A criação de um mecanismo de atualização constante das referidas normas de contabilidade para o nosso idioma, em virtude da dinâmica de atualização dessas normas, bem como da emissão de novos pronunciamentos. Diversas empresas não têm acesso às, ou conhecimento das fontes de novas normas contábeis que podem ser aplicáveis e, como conseqüência, não se preparam adequadamente. A falta de conhecimento das normas contábeis que existem ou estão em discussão gera risco significativo de uma declaração inadequada, por parte da
ao processo de preparação das demonstrações financeiras.
O aprimoramento da grade curricular dos cursos de bacharelado em Ciências Contábeis brasileiras, para incorporar aqueles conceitos fundamentais das IFRS, as quais estão bastante distantes das práticas que adotamos atualmente; por exemplo: mensuração de valor justo de instrumentos financeiros, análise de derivativos embutidos e outros temas de igual complexidade.
O fortalecimento dos órgãos reguladores do mercado de capitais também constitui um fator fundamental para o bom andamento do processo. Não basta o estabelecimento de um conjunto rígido de normas contábeis a ser aplicado, se a uniformidade dessa aplicação não for controlada por um órgão que tenha o poder e a ascendência para impôr sanções como, por exemplo, a republicação de demonstrações financeiras, restatement em caso de não-atendimento das regras de preparação das demonstrações financeiras.
Para permitir uma aplicação universal, as IFRS são elaboradas em torno de princípios básicos (e não de regras detalhadas). Uma correta aplicação, entretanto, exige grande parcela de julgamento profissional e consistência de interpretação. Nesse contexto, é imprescindível treinar, de maneira eficaz, o pessoal envolvido na elaboração das demonstrações financeiras, até mesmo para que possam identificar adequadamente as divergências ainda existentes entre as IFRS e as normas brasileiras.
É de se esperar que o aprimoramento do ambiente de controles internos das empresas seja percebido pelo mercado como boa prática de Governança Corporativa e recompensado, como maior demanda por seus títulos de dívidas ou ações e conseqüente redução de seu custo de capital. Entretanto, a importância dessa tarefa e os esforços requeridos da administração na implementação, não devem ser subestimados.