São muitos os autores que se debruçam sobre a temática “currículo”. No entanto, alguns nos chamam a atenção, de maneira mais acentuada. Autores como Apple, Sacristán, Silva, Tardif, Arroyo, Freire recebem especial atenção neste estudo.
Para Sacristán (2000), o currículo sempre está em movimento e emana de modelos que são utilizados para se pensar educação. Esse modelo atenderá jovens e adultos que necessitam dessa organização de saberes.
Segundo o curriculista inglês Goodson (2010, p. 31), o termo “currículo vem da palavra latina “Scurrere”, correr e refere-se a curso (ou carro de corrida)”. Adiante, este mesmo autor apregoa que o currículo pode ser definido como “um curso a ser seguido”.
Para aclarar o entendimento, Gonçalves (2010), em seu livro intitulado “Ensinantes aprendizes”, defende que o currículo hoje é a interlocução de várias dimensões (histórica, política, epistemológica, social, étnica, de gênero, fenomenológica, autobiográfica, estética, teológica, internacional, dentre outras mais). E ainda afirma que o currículo é o “locus de produção de cultura, ideologia e relações de poder, adquirindo cada vez mais uma visão polissêmica. É considerado campo de formação e profissionalização da docência” (GONÇALVES, 2010, p. 30).
De acordo com a agência Educabrasil4 (2011), Currículo escolar: Conjunto de dados relativos à aprendizagem escolar, organizados para orientar as atividades educativas, as formas de executá-las e suas finalidades. Geralmente, exprime e busca concretizar as intenções dos sistemas educacionais e o plano cultural que eles personalizam como modelo ideal de escola defendido pela sociedade. A concepção de currículo inclui desde os aspectos
básicos que envolvem os fundamentos filosóficos e sociopolíticos da educação até os marcos teóricos e referenciais técnicos e tecnológicos que a concretizam na sala de aula.
Quando Gonçalves (2010) trata do currículo e da prática docente, destaca as seguintes ponderações:
[...] a história do currículo é uma história social centrada numa epistemologia social do conhecimento escolar, preocupada com as suas consequências na produção do conhecimento socialmente organizado porque envolve formação de valores, atitude ética, validade e legitimidade do que foi estabelecido (GONÇALVES, 2010, p. 20).
Assim, defende que o currículo há de ser o “espaço do nós e não do eu” (GONÇALVES, 2010, p. 21), ou seja, há de ter caráter social.
No tópico que trata das implicações contextuais para o pensamento curricular brasileiro ressalta-se a seguinte citação:
A história econômica, política e cultural do Brasil determina a história do currículo nas nossas escolas. Influências vindas de fora, de países colonizadores que inculcaram nos colonizados ideologias de dominação que repercutem até os nossos dias. O pensamento curricular brasileiro reflete essas ideologias autoritárias (GONÇALVES, p. 24, 2010).
Sabe-se que a cultura da classe dominante se manifesta no currículo de forma intensa. As sociedades européias se fizeram presentes nos planos de estudo dos brasileiros por muito tempo. Ainda hoje é possível identificar essas influências. Recentemente, o Brasil vivenciou um momento histórico que usou do abuso da autoridade para influenciar o currículo escolar. Gonçalves (2010) cita a ditadura militar como um período em que a formação de professores passou a ser uma preocupação da nação brasileira. No entanto, nesse período, a Educação sofreu as influências de uma patologia política que fez uso de autoritarismo para fazer valer o seu posicionamento unilateral em vários campos de atividade e em especial a Educação que sofreu golpes terríveis em sua dignidade, e em seu currículo. Verifiquemos o texto transcrito abaixo:
O ideário emergido do período de ditadura (1964-1985) de controle moral e ideológico foi de fundamental importância na formação dos professores e na formação de sua consciência crítica, o que se reflete até hoje no posicionamento curricular brasileiro (GONÇALVES, 2010, p. 24).
Entendo que a autora expressou ponto de vista peculiar na colocação acima. O ambiente obscuro e o domínio do medo em que a educação brasileira viveu no período da
ditadura militar deixou marcas na educação até os nossos presentes dias. No entanto, registrou que a preocupação com a formação de professores realizou trabalho relevante para o desenvolvimento da Educação no Brasil.
O currículo emerge do quotidiano da escola. A escola é uma instituição antiga que se presta aos objetivos altruístas da sociedade em conceder instrução às novas gerações de forma inovadora e eficiente. Assim defende-se que “em se tratando da prática escolar, ressalta que nela se encontra o motor gerador de nova compreensão da realidade social para possível transformação (GONÇALVES, 2010, p. 25)”. A transformação social, objetivo da escola e do currículo também, visa às melhorias contínuas do pensar, do falar e do agir (a concepção de currículo, nos últimos anos, tem ganhado maior profundidade em função de mais profunda compreensão da cultura escolar no Brasil, nos últimos tempos). No entanto, autores de renome como Apple (2006, p. 36) manifestam a sua, constantemente renovada, surpresa ao perceber que “[...] as relações entre o conhecimento aberto (ou manifesto) e o conhecimento encoberto (ou oculto) ensinados nas escolas, os princípios de seleção e organização desses conhecimentos e os critérios e modos de avaliação utilizados para ‘medir o sucesso’ do ensino.
Assim, o ambiente escolar traz consigo experiências que surpreendem até os mais experimentados estudiosos da educação. A escola é uma invenção antiga que se apresenta em nossos dias com a tarefa de, fazendo uso de currículo dinâmico e vivo, colaborar efetivamente com o progresso social e tornar esse mesmo currículo cada vez mais coadunado com a realidade da vida das pessoas a que ele se destina. As escolas não apenas organizam a distribuição da propriedade econômica como também disponibiliza a propriedade simbólica – capital cultural – que as escolas preservam e distribuem (APPLE, 2006, p. 37).
A dinamicidade em um currículo é perceptível através da sua conexão com a realidade da vida das pessoas. O currículo precisa contemplar as necessidades primeiras da manutenção do quotidiano e, assim, partir para as aspirações mais elevadas que nos projeta para o futuro. O currículo exerce o poder de definir trajetórias para a vida de pessoas e de sociedades inteiras. A leitura da cultura vigente, estabelecida, passa pelas entrelinhas de um currículo previamente construído. Por isso, existe a necessidade de se estreitar os laços do currículo com a realidade, com o intuito de construir um currículo integrado aos dias atuais.
O professor Flávio Moreira, no Encontro de Pesquisadores em Currículo (2010), realizado nesta instituição, defendeu na sua exposição, a necessidade de se compreender a cultura escolar para termos condições de construir melhores currículos. Existem aspectos que
se aplicam de forma genérica e outros que têm uma necessidade local, ou seja, na comunidade específica, para ser trabalhado. Este mesmo autor afirma que “o currículo é considerado um artefato social e cultural” (MOREIRA, 2011, p. 13) e este dito é um dos mais difundidos conceitos que sintetiza o currículo nos dias atuais. O termo “artefato” se emprega para definir o processo em que o currículo se submete constantemente. O termo “Social” se deve ao fato de que o currículo é resultante de uma convivência, de um conjunto de debates, diálogos, experiências que são agregadas em uma síntese a que chamamos currículo em suas diversas angulações. O termo “cultural” se aplica por se entender que a intencionalidade presente no currículo acaba por confirmar esta ou aquela cultura como hegemônica no processo de formação educacional. Adiante, o mesmo autor afirma que “O currículo não é um elemento inocente e neutro de transmissão desinteressada do conhecimento social” (MOREIRA, 2011, p. 14), e, dessa forma, é possível compreender que os termos “social e cultural” interagem na rápida e competente conceituação do currículo como um artefato dessa natureza.
Crianças, jovens e adultos, inseridos no ambiente escolar, respiram uma estrutura de currículo que necessita estar de acordo com a ética para assim atingir os seus objetivos. O termo escolarização é mencionado pelos teóricos e encontra-se neste termo, de forma implícita, a identidade da tradição educacional nas variadas temáticas em estudo, a saber, as Ciências Contábeis.
A cultura de escolarização da Contabilidade, no Brasil, iniciou-se com a Escola de Comércio Álvares Penteado, na cidade de São Paulo, no início do século XX. O curso tratava de práticas de comércio (SCHMIDT, 2006) e, dá início a uma sequencia de cursos desta natureza no Brasil. Com isso, a Universidade de São Paulo, junto à sua Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis (FEA – USP) – passa a oferecer o curso de Ciências Contábeis em vinculação com a Escola Norte Americana de Contabilidade, esta com feição pragmática, ou seja, tecnicista.
Retornando ao conceito de currículo, vale registrar que no primeiro dia de aula, da disciplina Epistemologia da Educação, nos foi informado que “Currículo é percurso de informação”, conjunto de conhecimentos sistematizados. No decorrer da disciplina, outras informações foram acrescidas ao entendimento de currículo. Mencionou-se que este tem o propósito de possibilitar que as pessoas cresçam a partir do conhecimento de senso comum, que elas trazem consigo, pois, apresenta proposição e não a imposição no campo do saber. No que tange à construção do conhecimento, enfatiza-se que “não existe ciência sem a sua vinculação política” e essa afirmativa se faz presente na denúncia da existência de currículo
oculto na Educação formadora de consciência social. O currículo está vinculado à história das nações, à cultura dos povos. O problema maior é que o currículo é construído para as elites5, no final das contas. Dessa forma, é possível perceber que a ideia de currículo universal não se vê aplicado em todas as situações e a dicotomia de opressor e oprimido (FREIRE, 1995) emerge e exige estudo para uma boa compreensão.
O maior propósito do currículo é elevar o nível do conhecimento para que, assim, seja possível orientar as pessoas na busca de melhor qualidade de vida. Para isso, é necessário implantar um currículo permeado pela prática didática amorosa, afetiva, emancipatória, libertadora (FREIRE; SHOR, 2011, p. 68). Currículo é uma questão problemática que recorre a valores de ordem política, econômica e que se evidencia no campo histórico. Trata-se de um campo conflitivo em que aspectos estratégicos são considerados. Assim, surgem perguntas como “qual disciplina escolher?”, “Quantas disciplinas inserir?”, “Quais disciplinas excluir?”, etc.. No que tange à questão que apresenta o currículo como um campo conflitivo, Goodson se expressa da seguinte forma:
Poderá haver constância na prática da sala de aula. Mas será que não farão parte deste enredo o conflito histórico em torno dos precedentes desta prática, a construção e reconstrução desses parâmetros? Mesmo que haja dicotomia entre o currículo escrito, teoria curricular e prática, será que esta dicotomia não é parte de um problema contínuo [...](GOODSON, 2010, p. 23).
A lógica a ser perseguida está na razão de se distinguir os verdadeiros valores, os que de fato contam para as competências e habilidades dos demais aspectos que expressam apenas modismos frívolos. Dessa forma, o conflito será atenuado.
Um dos pontos que gera questionamento constante está na manutenção das disciplinas no currículo, confirmando o “enfoque curricular racionalista acadêmico” (SILVEIRA FILHO, 1981, p. 106). O que se recomenda, nesse caso, é o inter-relacionamento constante entre essas disciplinas na vivência do currículo. As incertezas, as diversas teorias, a falta de consenso faz com que a Educação permita que o paradigma experimental se mantenha presente, com pretensões de hegemonia.
Existe uma tendência observável em se homogeneizar os currículos. O projeto de currículo há de contar com a vontade no bem, na prática da virtude, ou seja, embasado em reflexão ética. Existem diversas propostas de construção curricular e cada instituição deverá
5 O uso do termo elites, no plural, vem do entendimento de que a sociedade conta com elite de natureza
construir a sua organização curricular ouvindo os diversos interessados na construção e execução curricular.
Outro pensador importante que trata de currículo em sua obra é o professor pernambucano Paulo Freire. Este se destaca por defender o homem como um ser inacabado (FREIRE, 1995) e, esta condição, faz com que este ser esteja em constante construção de conhecimentos e de valores. No campo da educação os valores estão vinculados ao respeito ao aluno e à solidariedade entre todos os pares que interagem no processo educativo. A esse respeito, aconteceu um fato inusitado, recentemente, quando todos os alunos homens, de uma classe, na cidade mineira de Governador Valadares, rasparam a cabeça em solidariedade a um dos colegas que estava em tratamento contra o câncer6. Então, é natural que no quotidiano da sala de aula se encontrem valores intrínsecos nos alunos.
O professor Paulo Freire, assevera que a virtude da esperança é tratada como o inédito viável e ele defendia esse posicionamento com uma linguagem que continha termos regionais e internacionais oriundos de sua vasta experiência em escolas de vários países durante o exílio imposto pela ditadura militar (FREIRE, 1995). No campo da sua ontologia ética, Paulo Freire (1995) defendia o “ser mais”, pois o homem sempre tem que querer ser mais. Além da ontologia ética, ele também defendia a ontologia estética e nesse aspecto se entende que esse ser inacabado está buscando ser mais também em beleza, pureza, ou seja, “boniteza” que era uma das suas expressões favoritas. Freire também escreveu poesias – Canção óbvia – em que apresenta a esperança como um sentimento necessário para a manutenção da vida em sociedade, em família. Também defendia que a espera não é vã se esta vier acompanhada de ação. Educar, para Freire, significa intervir no mundo, agir para a transformação, é um ato de conhecimento, um ato político e carregado de intencionalidade. É válido ressaltar que em seus escritos, Freire denuncia que a boniteza do ato de conhecer vem se perdendo em meio a tantas outras questões que caracterizam a experiência estética e que faz parte da educação. A dimensão de natureza estética é importante para dar colorido ao processo de educação. A vertente tecnicista, a educação por resultados acabam descolorindo a boniteza do processo educativo. A moral está vinculada à coerência e a indignação, ante os acontecimentos que evidenciam mazelas. Assim, é um dos autores que mais defende valores morais no currículo.
Ele combateu a educação como domesticação, ou seja, a educação bancária. Defendeu uma educação problematizadora. Escreveu que “ao contrário da educação “bancária”, a
6 Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2011/06/03/04028D1B366AD4B11326.jhtm?colegas-
educação problematizadora, responde à essência do ser e da sua consciência, que é sua intencionalidade, nega os comunicados e existencía a comunicação” (FREIRE, 2005, p. 77).
Assim, quem caminha para o estabelecimento da autonomia do ser e para a negação da opressão que uns podem exercer sobre outros indivíduos. Freire concede legado formidável para a posteridade e influencia decisivamente a concepção de currículo no Brasil quando trabalha em prol da humanização da educação.
Partindo para o panorama internacional, é válido ressaltar que um fato histórico importante aconteceu quando, a partir de 1800, a França inicia uma série de políticas públicas para organizar a Educação e, por consequência organizar a sociedade (anotações de sala de aula – epistemologia do currículo). A língua tem um poder imenso sobre a organização do currículo e nisso a França e a Inglaterra trataram de promover a sua unificação com a inserção de uma língua nacional, o que a Alemanha e a Itália só fizeram tardiamente. Esses fatos históricos influenciaram o currículo em suas concepções iniciais.
Nos currículos embasados nos princípios da Revolução Francesa é o Estado que se responsabiliza pela construção e execução do currículo e um sentimento nacional é advindo de uma língua comum e um currículo também comum.
No sistema anglo-americano, o currículo advém do conjunto de agremiações que o elaboram e recebem apoio do Estado.
Os europeus organizaram o seu currículo, no que tange aos parâmetros curriculares, no ano 2000. Em julho de 2010 foi montada, no Brasil, uma proposta de currículo básico; trata-se de um conjunto de conhecimentos básicos e acessíveis a todos os cidadãos. A apreciação dos conceitos em torno do currículo básico, proposto para o Brasil, e, que foi votado pelo Congresso nacional tem consigo que a tarefa de construção do currículo também passa a ser uma proposição para todos de forma sistematizada. Resta saber se esta proposta atende às necessidades presentes neste Brasil do século XXI.
No campo da avaliação educacional, o termo atual e forte no momento é a “competência” e para alcançar essa qualidade deve-se disseminar noções para que no final do processo o discente saiba que entre as noções e o saber (aplicação) encontra-se o currículo. Educar por competência está para além do educar por conteúdo. A escola não desfaz o jogo de poder da burguesia, mas o confirma. Por contar com um currículo diferenciado que acaba orientando o filho do operário a também se tornar operário e em direção oposta o filho do burguês a ser também burguês.
A Fenomenologia no currículo faz com que se admita a verdade dos sujeitos que atuam na Educação. Estes escolherão as temáticas que exercem influência sobre a sua realidade. Quando aprendo uma ciência, passo a contar com a chave para adentrar no mundo acadêmico. Na reforma curricular européia o elemento que mais está em evidência é a “competência”. Não existe hegemonia fenomenológica no contexto da reforma curricular, no entanto é possível perceber uma reação ao Positivismo que defende um currículo estanque. Já o currículo com tendência fenomenológica determina a maneira como se vê a realidade subjetiva que faz acontecer o próprio currículo, assim, relata a questão da identidade pontuando as filosofias que influenciam as políticas de currículo na atualidade. O planejamento curricular será permeado das escolhas do sujeito, fazendo uso do conhecimento escolar.
Na realidade de construção do currículo, apontam-se conceitos. MOREIRA (2002) que defende que o conhecimento de currículo é “poderoso”, enfatiza que esse conhecimento é do “poderoso”. Entende que a construção do currículo é um processo que se modifica constantemente e o poder de modificação do currículo é manipulado por pessoas ou instituições que detém poder de decisão, quase sempre.
É necessário admitir que a totalidade da vivência educacional do discente não pode estar presente apenas no currículo. Fora da escola existe outros elementos que contribuem na formação educacional discente.
No campo da Contabilidade, os estudos em torno dos conceitos de ordem curricular, com aplicação à realidade acadêmico-contábil, poderão proporcionar maior clareza para a avaliação curricular e ao conseqüente levantamento de características adequadas, já implantadas e, a sugestão de elementos curriculares, ideias que poderão contribuir para o seu melhoramento. Sendo a Contabilidade uma ciência social aplicada, beneficia-se dos estudos que enfocam Educação em seu aspecto de generalidade, currículo como instância específica.
No caso deste trabalho específico, o pesquisador necessitará verificar como a instituição produz conhecimento, ou seja, como executa o seu currículo, como ela funciona. Segundo Applle, “o pesquisador deve compreender como as regularidades cotidianas de ensino e aprendizagem nas escolas produzem esses resultados” (APPLE, 2006, p. 49). Estudar o currículo aplicado ao curso de Ciências Contábeis na UESB é a nossa tarefa a ser cumprida e esse conjunto de conceitos nos ajudam nesse trabalho.