O fato de a política monetária do MKS não estar condicionada a uma regra que busque alcançar níveis predeterminados de inflação poderia suscitar hipóteses a serem investigadas quanto a magnitude ods efeitos expansivos da PVSM sobre o nível de emprego. Os resultados obtidos para o nível de emprego poderiam estar afetados (positiva ou negativamente), pois o Banco Central, ao não determinar a taxa de juros, visando combater o processo de aceleração da elevação dos preços provocado pela PVSM, ou seja, não tentando alcançar alguma meta pré-determinada de inflação, apenas os efeitos positivos da expansão da demanda seriam manifestos como consequência da política. Neste caso, e sendo válida a suposição de ação atenuada do Banco Central, seriam suprimidos os potenciais efeitos negativos sobre o emprego, provocados por uma possível contração dos investimentos em consequência de uma elevação dos juros pela política monetária59.
Contudo, a presença de pressões inflacionárias no modelo é dada por meio da taxa de desemprego, quando esta atinge 6% da PEA, e nesse limiar o Banco Central aciona a elevação da taxa de juros para combatê-la. Dessa forma, a repercussão da ausência de metas de inflação na regra de política monetária, sobre os resultados obtidos para o emprego, é atenuada pelo fato de que a PVSM, ao reduzir o desemprego abaixo de 6% durante maior tempo da trajetória do que no modelo original, como visto no gráfico 51), aciona mais a política monetária de elevação dos juros como reação do banco central à pressão inflacionária, o suficiente para provocar efeitos sobre o investimento no mesmo sentido que faria uma regra de metas de inflação.
Para testar se haveria efeitos remissivos sobre os investimentos que alterassem os resultados obtidos para o nível de emprego, demonstrados na seção 6.1, foi testada uma nova regra de cálculo da taxa de juros, que além de adotar a taxa de desemprego como indicador da pressão inflacionária, considera a aceleração inflacionária do trimestre pregresso para o cálculo dos juros nominais correntes. Não há uma meta inflacionária explícita ou implícita, de tal forma que a reação do banco central à aceleração inflacionária independe do nível da taxa
59Os efeitos sobre o investimento são “potenciais” no sentido de que o movimento da taxa de juros poderia não ser suficiente para superar a influência da Eficiência Marginal do Capital, como argumentou Keynes na Teoria Geral.
de inflação, ou seja, se a inflação se elevar em um ponto percentual, o Banco Central reagirá elevando o juro nominal qualquer que seja o nível da taxa de inflação.60
Na regra original (rbacen) a inflação figura como balizador, oculto ou indireto, do sentido de alteração da taxa de juros corrente. A presença ou ausência de pressão inflacionária está refletida numa 'taxa natural de desemprego', e sob esse critério o Bacen eleva ou reduz a taxa de juros, de modo que:
- Se a taxa de desemprego é maior que 6%: não há pressão inflacionária – a taxa de juros reduz em PM p.p.
- Se a taxa de desemprego é igual ou menor que 6%: há pressão inflacionária – a taxa de juros aumenta em PM p.p.
Na regra criada para a realização do teste não se altera o critério da taxa de desemprego referida acima para a definição do sentido de variação da PM, contudo, a aceleração da inflação entre dois trimestres entra no próprio cálculo da taxa de juros corrente, sendo somada aos demais elementos da regra original, de modo que:
rbacent = rbacent-1 + PM + ((VIPCt – VIPCt-1)) Sendo:
VIPCt = A variação no Índice de Preços entre o trimestre t-1 e o trimestre t-2 VIPCt-1 = A variação no Índice de Preços entre o trimestre t-2 e o trimestre t-3 rbacent = Taxa de juros nominal do período t
rbacent -1 = Taxa de juros nominal do período anterior a t
Na sequência, os gráficos apresentados demonstrarão os resultados para as variáveis comparadas nas quatro versões do modelo:
60 Idealmente, uma regra sujeita a metas de inflação (como uma regra de Taylor, por exemplo) seria mais apropriada para o teste, pois um cálculo para a taxa de juros que leve em conta metas inflacionárias poderia ter maior potencial para reduzir o impacto da PVSM do que a incorporação da aceleração inflacionária. Contudo, a introdução de uma regra nesses termos no modelo seria mais complexa, não justificando o custo-benefício para tal. Visto que o MKS considerava a inflação apenas de forma indireta, refletida na taxa de desemprego, entende-se que a alteração experimental feita na regra de política monetária, da forma como se pôde realizar (incorporando a aceleração inflacionária), já representa uma contribuição ao modelo. Entende-se, contudo, que a regra baseada em metas poderia limitar os efeitos da PVSM, sendo do interesse da autora desta dissertação testá-la em artigo futuro.
ORIGINAL- rbacen padrão: que é o modelo MKS sem a PVSM, com a regra de política monetária (rbacen) original do modelo e que foi utilizada para toda a análise anterior à esta seção;
ORIGINAL – rbacen alterada: que se refere ao modelo MKS sem a PVSM, mas com a rbacen alterada para o teste;
PVSM – rbacen padrão: é o modelo com a PVSM e a rbacen original do MKS
PVSM – rbacen alterada: refere-se ao modelo com a PVSM e com a rbacen alterada para o teste.
As variáveis comparadas, além da própria taxa de juros, são o investimento e o emprego, para que se observe o impacto sobre o emprego decorrente de possíveis efeitos remissivos sobre o investimento a partir da rbacen alterada. Adicionalmente, foi comparada também a distribuição de renda. As comparações foram realizadas mantendo como base de referência os resultados gerados para a combinação Taxw 30% e PM 1,0 p.p.
Abaixo, o gráfico 67 mostra o comportamento da taxa de juros nos dois modelos (Original e PVSM) para as duas regras de rbacen (rbacen padrão e rbacen alterada). Percebe- se que para a rbacen nova, a PVSM gera taxas menores que o modelo original, provavelmente por causa da desaceleração que a inflação exibe no modelo com a PVSM após o choque no início da simulação. Já no modelo Original, as taxas não variam muito, eé principalmente a PM que reduz gradualmente a rbacen.
Gráfico 67:Taxa de juros: rbacen Padrão e rbacen Alterada - ORIGINAL E PVSM
Fonte: Elaboração própria a partir das simulações do modelo MKS
0 0,02 0,04 0,06 0,08 0,1 0,12 0,14 0,16 0,18 1 5 9 13 17 21 25 29 33 37 41 45 49 53 57 61 65 69 73 77 81 85 89 93 97 101 105 109 113 117
ORIGINAL rbacen padrão ORIGINAL rbacen alterada
O gráfico 68 abaixo mostra os mesmos resultados apresentados no gráfico 46 para o investimento nos modelos Original e com a PVSM, acrescentando-se na plotagem as trajetórias que mostram os respectivos resultados após alterada a rbacen em ambos os modelos. Dessa forma, têm-se no mesmo gráfico os resultados para o investimento nas quatro versões consideradas.
Gráfico 68: Demanda por Bens de Capital: rbacen Padrão e rbacen Alterada – ORIGINAL E PVSM
Fonte: Elaboração própria a partir das simulações do modelo MKS.
As duas trajetórias do modelo com a PVSM não mostram diferenças significativas com a alteração da rbacen. Para o modelo original a semelhança entre os resultados foi de tal forma que as trajetórias se sobrepõem.
A alteração na regra de cálculo da taxa de juros não modifica o resultado original nem para o nível (que se mostra mais elevado na PVSM do que no modelo original) e nem para a tendência (que mostra declínio até a primeira metade da trajetória, e ascensão a partir da segunda metade). A ausência de diferenças consideráveis entre os resultados gerados antes e depois de alterada a rbacen, revela que mesmo com a adição da inflação no cálculo, a taxa de juros não tem força suficiente sobre as decisões de investimento dos empresários.
Não tendo a rbacen alterada exercido sobre o investimento impacto que afetasse a estática ou a dinâmica dos resultados gerados com a regra padrão, em ambos os modelos, também nas trajetórias para o emprego a rbacen de teste não provocou efeitos que afetassem o
0 500 1000 1500 2000 2500 3000 1 5 9 13 17 21 25 29 33 37 41 45 49 53 57 61 65 69 73 77 81 85 89 93 97 101 105 109 113 117
DK ORIGINAL rbacen padrão DK ORIGINAL rbacen alterada
nível ou a tendência dos resultados obtidos na regra de política monetária padrão, como se percebe do gráfico 69 abaixo:
Gráfico 69: Emprego Total da Economia: rbacen Padrão e rbacen Alterada –
ORIGINAL E PVSM
Fonte: Elaboração própria a partir das simulações do modelo MKS.
Visto que as novas simulações para o emprego, o investimento e a taxa de juros geraram trajetórias cujo impacto da PVSM se manifestou no mesmo sentido e tendência que os obtidos na rbacen padrão, entende-se que a incorporação da aceleração inflacionária na regra de cálculo da taxa de juros não foi capaz de afetar os efeitos da política sobre as variáveis testadas. Não se pretende com isso negar a possibilidade de que uma outra regra de política monetária poderia reduzir os impactos da PVSM, contudo, deve-se levar em conta que nas três condições diferentes de política monetária consideradas nesta dissertação, o impacto da PVSM sobre essas variáveis se deu no mesmo sentido, tendência, e sem significativa diferença de níveis.
Isto é, mesmo o resultado base de referência utilizado nesta seção sendo para a PM 1,0 (onde a taxa de juros sobe 1 ponto percentual ao trimestre, constituindo uma política monetária extremamente agressiva como combate à inflação) os resultados não mostram diferença significativa quando se reduz a intensidade da política monetária para a PM 0,125, e ainda, quando se modificou a regra de cálculo para a rbacen os resultados também não mudaram significativamente. 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000 16000 1 6 11 16 21 26 31 36 41 46 51 56 61 66 71 76 81 86 91 96 10 1 10 6 11 1 11 6
ORIGINAL rbacen padrão PVSM rbacen alterada ORIGINAL rbacen alterada PVSM rbacen padrão
Ou seja, a política monetária, qualquer que tenha sido a natureza de mudança dela (a primeira baseada em variações mais graduais e menos graduais para uma mesma regra, e a segunda baseada em uma regra alternativa), não interferiu no sentido dos efeitos finais da PVSM sobre as referidas variáveis. Isso significa que, apesar dos dois tipos diferentes de variação de política monetária, um de intensidade de variação da taxa de juros e outra mudança da própria natureza da regra, incorporando a aceleração inflacionária, o investimento não se altera de modo que as forças indutoras que geram os resultados do emprego e da distribuição de renda não são afetadas por essas alterações. Isso parece sugerir que a política monetária não tem poder suficiente sobre os efeitos da PVSM, ao contrário da tributação sobre os salários, ou seja, a política monetária não é tão poderosa quanto a política fiscal, como sugeriu Keynes.