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Mesmo sendo uma área com ocorrências de estiagens, o sertão do semiárido cearense, é cortado por diversos rios, como o: Jaguaribe, Banabuiu, Salgado, Ceará e o Acaraú, o que sempre proporcionou pastos e águas durante as quadras invernosas, o período chuvoso, fundamentais para a atividade criatória e agrícola. São rios não perenes, não navegáveis, mas seus leitos, suas ribeiras, facilitaram o processo de ocupação dos sertões da capitania.

As entradas, além da costa da capitania cearense, iam vislumbrando um outro mundo, constituído de serras, como as do Maranguape, Caruru, Pacatuba, Caioca, Tucunduba, Beruoca, Rosário, Uruburetama e Ibiapaba; diversos riachos como: Caracu, Juá, Rolas, Batoque,

Boiacanga, Macaco, Arariasul e Pacujá; córrego da Parangaba; os olhos d’água do Mocambo,

Carnaúba furada.

Mapa 3 – Bacias Fluviais do Ceará

Fonte: NOGEIRA, Gabriel Parente. Fazer-se nobre nas fímbrias do Império: práticas de nobilitação e hierarquia social da elite camarária de Santa Cruz do Aracati (1748-1804). Fortaleza: UFC, Programa de Pós-graduação em História, Dissertação, 2010, p. 28.

As ribeiras do Acaraú compreendidas pelos rios: Mundaú, Aracatiaçú, Aracati Mirim, Coreaú e Acaraú, localizadas na zona norte da capitania do Ceará, constituem uma imensa área de terras lavadas por águas fluviais e lacustres, propícias para o desenvolvimento da agricultura e do pastoreio. Em temporadas de estiagens, às vezes longas, os moradores, em especial aqueles de posses, deslocavam-se para terras próximas ao mar, lagoas que custam a secar, lugares com águas mais perenes, ou para regiões serranas, consideradas como áreas de refrigério, como as serras de Meruoca e da Ibiapaba.

Devido à sua localização próxima às terras ocupadas pelos franceses, no século XVII, a necessidade de reconquistar o Maranhão, o Governador Geral do Brasil, Diogo Botelho, enviou uma expedição sob o comando de Pero Coelho, em 1604, com o objetivo de combater os invasores e seus aliados Tabajara, na serra da Ibiapaba. Esta expedição militar prendeu índios, levando vários para Pernambuco, o que acirrou animosidades contra as tropas lusas. As guerras infligidas a estes indígenas e a apreensão de franceses, abriram uma frente na conquista

estabelecendo um caminho por terra com a Capitania do Maranhão e, ao mesmo tempo, o restabelecimento do controle português sobre essas áreas. Eram objetivos da expedição de “por todos os meios lícitos descobrir todas as minas, assim de ouro como de prata [...] e fazer povoações fortes nos lugares e portos que melhores lhe pareçam procurando a amizade os índios, oferecendo-lhes paz e a lei evangélica”35. Devido resistências à expedição, Pero Coelho teve que voltar para o Forte da Barra do Rio Ceará e, posteriormente, empreender viagem à capitania do Rio Grande. Nem todos os objetivos foram alcançados. Se ouro e prata não foram encontrados, indígenas foram aprisionados e os primeiros marcos da ocupação lusitana naquelas fronteiras foram fincados.

A segunda expedição, em 1608, ficou a cargo dos jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira, que tinham como estratégia chegar ao Maranhão e restabelecer contato com a nação Tabajara, trazendo em seu séquito, apenas índios, muitos deles, aprisionados pela expedição de Pero Coelho. Segundo Luís Filgueiras:

Com as dificuldades destas duas expedições, e a necessidade de “No mez de janeiro

de 607 p. ordem de Fernão Cardim provincial nós partimos para a Missão do Maranhão o pe. Francisco Pinto e eu cõ obra de sessenta índios, cõ intenção de pregar o evangelho a aquela desamperada gentilidade, e fazermos cõ q' se lançassem de parte dos portugueses, deitando de si os frãcezes cõ q' indo os portugueses como determinarão os não avexassem nem captivassem, e pera q' esta nossa ida fosse sem suspeita de engano pareceo bem ao Pe. Provincial não levassemos conosco portugueses e assi nós partimos sós cõ aquelles sessenta índios36.

No final do século XVII toda ribeira do Acaraú foi devassada e conquistada por moradores de outras ribeiras do Ceará ou vindos de outras capitanias. Silva, ao tratar dos pobres do açúcar e da conquista dos sertões, relata que

A conquista do interior continental das capitanias do norte do Estado do Brasil reveste-se, assim, de muitos significados: para Coroa significa expansão territorial; para as elites coloniais, a criação de novas possibilidades de aquisição de terras e títulos; para a Igreja, a abertura de novas fronteiras para a catequese, para as tribos americanas, a perda do território e a desagregação social. Mas, para os pobres e vadios das vilas açucareiras, o que significa a conquista do sertão?37

Essa região esteve sob a jurisdição do Maranhão (1621-1688), depois foi anexada à Capitania de Pernambuco (1688-1799) e, posteriormente, passou a Capitania Autônoma do

35 Documentos da Coleção Barão de Studart apud BARROS, Paulo Sérgio. Confrontos invisíveis. Colonialismo

e resistência indígenas no Ceará. Recife: UFPE, 1997. Dissertação (Mestrado), p. 45.

36 Figueira, Luís. “Relação do Maranhão, 1608, pelo jesuíta Padre Luís Figueira enviada a Cláudio Aquaviva”. In: Três documentos do Ceará Colonial. Fortaleza: Departamento de Imprensa Oficial, 1967, p. 76. (Coleção

História e Cultura).

37 SILVA, Kalina Vanderlei Paiva da. “Nas solidões vastas e assustadoras” – Os pobres do açúcar e a conquista

do sertão de Pernambuco nos séculos XVII e XVIII. 2003. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2003, p. 25.

Ceará (1799-1822). O governador de Pernambuco, José Cezar de Menezes, em 1774, informou que

Esta grande (que toda hé da distincta Real Villa de Sobral, excepto a Serra da Tabainha, ou Ibiapaba que hé da Villa de Viçosa Real, a melhor de índios que há em todas estas capitanias) tem setenta e cinco légoas de costa principiando da parte do norte nos matões da Parnaíba, e dividindo pela do sul no rio Mundaú com a ribeira do Siará como acima vimos, e mais de sessenta de certão, athé confinar com a serra do Quixeramobim que pertence a ribeira do Jaguaribe, ficando-lhe a hum lado a da Tabainha, e a dos Cocos que fazem extremas com a capitania do Piauí.38

Nesse sentido, a expansão se materializa nas diversas entradas ao sertão do Acaraú como as relatadas nos diversos pedidos de sesmarias, que falam de sertões bravos, ou seja, indomáveis, cujos sesmeiros instituíam-se como seus amansadores, através do estabelecimento de currais e de fazendas, com o objetivo de trazer os nativos à Igreja e em cujos empreendimentos renderiam recursos à fazenda real. Vejamos o Registro do pedido de sesmaria de Francisco Gil Ribeiro (Documentação Pernambucana, 1954):

“Sr. Diz o capitão Francisco Gil Ribeiro que elle mandou a sua custa descobrir um

riacho a que o gentio chama jaibaraçú q. desagua no rio guacaraçú nos certões da Capitania do Ceará grande distante da Fortaleza della, setenta ou oitenta legôas com muito dispêndio da sua fazenda aos gentios d'aqueles certões, mettendo-os de pazes donde so a dous poços d'agoa, hum chamado a Timboeirama e o outro Tabaquara com capacidade de crear gados, sem outra serventia alguma mais nem mister por serem as terras innuteis para todo o gênero de lavouras, e muito desertas e grandes certões e como elle suplicante as mandou logo povoar com o seos gados vacuns e cavalares, sem contradição de pessoa alguma por nunca serem vistas e estarem devolutas e desaproveitadas sem lucro algum da Fazenda Real, portanto P. a VSª. seja servido conceder-lhe trez legoas de terras, legoa e meia em cada um dos ditos poços, começando delles meia legoa pelo rio abaixo e huma pelo dito rio acima, com meia de largo pª. cada banda até se encher de cada um delles de legoa e meia q. nos ditos ligares pede, fazendo o numero de trez legoas de comprido tudo foro livre de pensão ou tributo algum so pagando dizimo a Deos, visto a incapacidade dellas e o que

alega.”39

Embora o sertão seja uma região semiárida, onde a regularidade de chuvas nunca foi uma constante, as notícias narradas e relatadas foram produzindo uma memória enaltecedora sobre a geografia da região. Quando os sesmeiros chegaram ao Vale do Acaraú passaram a viver uma relação de duplo conflito – com a geografia do Sertão, que tinha grandes porções de terras inadequadas para a lavoura e para o criatório, e com os nativos. Com o tempo, os

38 MENEZES, José Cezar de. “Ideia da população da capitania de Pernambuco, e das suas anexxas, extensão de

suas costas, rios, e povoação notáveis, agricultura, número dos engenhos, contractos, e rendimentos reaes, augmento que estes tem tido &. ª &. ª desde anno de 1774 em que tomou posse do governo das mesmas capitanias o governador e capitam general Joze Cezar de Menezes". In: Annaes da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, vol. 40, Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1923, p. 4.

39 Carta de doação de sesmaria que se passou ao capitão Francisco Gil Ribeiro. In: Documentação Pernambucana – sesmarias—volume I. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1954, p. 86.

sesmeiros perceberam que a narrativa edênica não abrangia todos os lugares da Capitania do Ceará. Para sobreviver foi preciso adotar muitas das práticas dos nativos, inclusive encontrarem recursos hídricos, por exemplo.

Ao adentrarem o sertão, os colonos luso-brasileiros, os não índios, vão conhecendo a natureza e seus moradores, levando-os a adotarem estratégias já empregadas em outras regiões conquistadas, como: guerras justas, ou não, a catequese e o aldeamento, ou alianças com tribos

para guerrear contra outras. “Os sertões tornavam-se um horizonte de oportunidades e

liberalidades tanto para os desclassificados do açúcar, quanto para escravos fugidos, indígenas e cristãos-novos” 40 . Nesse deslocamento vieram, também, portugueses, africanos e seus descendentes.

Para Durval Muniz os espaços são desqualificados para, posteriormente, serem enquadrados em outra lógica. Numa sociedade mercantil, o espaço precisaria ser conhecido, medido e reorganizado, numa lógica mercadológica. De acordo com Muniz,

Isto implicou na desqualificação dos espaços naturais, ou daqueles que representariam a natureza, em detrimento dos espaços artificiais, aqueles organizados pelo olhar e pelas ações humanas. A natureza é valorizada quando transformada em paisagens, ou seja, quando ordenada, descrita e lida pelo olhar individual de algum humano, que lhe dá um sentido e significado particular; seja afetivo, seja emocional, seja estético, seja religioso, seja familiar, seja histórico etc.; ou quando transformado em territórios, recortes estabelecidos por coletividades a partir de um indício identitário, ou seja, um recorte político, religioso, cultural, demográfico e econômico, etc.41

O interior, no entanto, não era apenas um lugar de terras inúteis para todo o gênero de lavouras e muito desertas. Existia um ecossistema que possibilitava aos moradores conviver nos períodos chuvosos ou quando as águas das chuvas eram poucas e não escorriam pelos campos. O sertão deserto estava no imaginário do colono que não visualizava os grandes campos de lavouras, não percebiam os lugares de caças, frutos, mel, moradias e águas. Sua contemplação refletia o lugar como produção de bens e de riquezas. Seu objetivo era transformar a terra em pasto para gado e lavoura, proporcionar riqueza para si e para o erário

real. Dessa forma, “o espaço cortado pelos caminhos se torna, assim, não somente um meio a

ser vencido, mas um espaço geopolítico no qual se concentram expectativas e temores de uma metrópole mergulhada no jogo do poder europeu”42.

O espaço sertanejo precisava ser conhecido, mapeado e nomeado a terra, a água e

40 MACEDO, Muirakytan K. de. Rústicos cabedais: patrimônio e cotidiano familiar nos sertões da pecuária

(Seridó – Século XVIII). Natal, RN: Flor do Sal; EDUFRN, 2015, p.184.

41 ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Nos destinos da fronteira: história, espaços e identidade regional. 1. ed. Edição. Recife: Bagaço, 2008, p. 56.

os habitantes na linguagem dos “brancos’. Na descrição da carta de sesmaria, Francisco Gil

Ribeiro qualifica os terrenos como “terras inᵈteis para todo o gênero de lavouras, e muito

desertas e grandes certoens”43. Para que a empreitada fosse exitosa, era necessário encontrar

água em poços ou olhos dʼágua. Assim, em sua carta, ele informava que existia naquela região

dois poços – Timboeirama e Tabuquara – e que eles favoreciam a possibilidade de criar gado. A afirmação do solicitante é fundamental para compreender que a terra tinha a finalidade voltada para o criatório, ainda que fosse ruim para a produção de lavoura, porque não tinha águas permanentes e dependia dos períodos invernosos. Embora as terras fossem desertas, por apresentar aridez e clima quente, não eram desabitadas. Os sertões abrigavam diversos gentios. Conforme registros nos Extratos dos Regimentos de pilotos e roteiro de navegação das conquistas, que alertava como deveria ser feito a navegação pela costa, as desembocaduras dos rios, as cacimbas boas para abastecimento de água aos navios e na ribeira do Acaraú ressaltava o perigo de se adentrar o interior, devido à presença de tapuias.44

Por sua vez, Fernão Carrilho informou que na Ribeira do Acaraú

Do Ceará para parte do norte, ao rio Camucim, são 80 ou 90 léguas. Entram sumacas, pode-se fazer cidade ou vila, a habita número de gentio chamado Taramembés, do rio Camucim para a parte do sul está uma enseada por nome Taquaquara. Podem alistar 50 naus e pode-se fazer vila ou cidade, chegando ali um navio cujo mestre se chamava João Tamancas. O gentio que por ali anda, chamado Tabajaras ou Potiguaras e outros que habitam as serras de Mendaobá, vizinhos; bárbaros indômitos debaixo de paz. Estando resgatando com eles, mataram e comeram dito mestre do navio com dez ou doze companheiros.45

A busca por novas terras gerou confrontos entre os chegantes e os indígenas, pois se tratava de dois modos de vida, e culturas, conflituosos. Conflitos produzidos pelo projeto colonizador e civilizatório, que implicava na submissão dos nativos, expulsão da terra, catequização, escravidão e dominação. A disponibilidade de terras do sertão para a colonização estava condicionada ao rompimento de uma barreira aguerrida. Afinal, tais terras interiores eram habitadas pelos índios denominados genericamente de tapuios pelos portugueses e pelos

índios litorâneos. “Esse recorte fronteiriço foi sistematicamente esgaçado nas chamadas

Guerras dos Bárbaros, conjunto de episódios bélicos provocados pela pressão pecuarista sobre

43 Carta de doação de sesmaria que se passou ao capitão Francisco Gil Ribeiro. In: Documentação Pernambucana:

sesmarias, volume I. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1954, p. 86.

44 Doc. 253. Extratos dos Regimentos de pilotos e roteiro de navegação das conquistas. In: STUDART, Barão de.

Documentos para a história do Brasil especialmente o Ceará. In: RIC, 1920, p. 290.

45 1681, maio, 06, Lisboa. CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei [D. Pedro II], sobre nomeação de pessoas para o cargo de capitão-mor do Ceará. Anexo: memorial e bilhete. In: SOARES, José Paulo Monteiro e FERRÃO, Cristina. Memória Colonial do Ceará. vol. 1 (1618-1720), Tomo I (1618-1698), Rio de Janeiro: Kappa editorial, 2013, p. 221-222.

as terras indígenas, eventos sintomáticos de um universo colonial em expansão”46.