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Nesse momento, serão ressaltados os resultados encontrados a partir da investigação dos processos pesquisados à luz da Análise de Discurso Crítica. Foram encontrados alguns padrões e algumas características destoantes do restante em determinados processos.

Primeiramente, é considerável o esforço que ainda se faz para sustentar alguma credibilidade em relação à palavra das mulheres vitimadas; mesmo mulheres não ofendidas, que presenciaram o ato e serviriam como testemunhas, precisaram ter sua palavra validada. A todo tempo a possibilidade de a mulher estar falando a verdade precisa ser assegurada expressamente, o que denota um passado não longínquo, ou mesmo um tempo presente, marcado pela desconfiança no testemunho da mulher. Sobre a questão da imagem que se tem sobre a mulher e sua condição como sujeito de verdade, afirma Coulouris:

Estas últimas eram consideradas as representantes do mal na terra, seres perversos, subversivos e mentirosos por natureza. Contra elas, nenhuma precaução era demasiada; sobre elas, inúmeros discursos foram elaborados e de tal forma que as mulheres foram construídas por teólogos, médicos e juristas como objetos de verdade e excluídas violentamente como sujeitos de verdade. E somente a partir do momento em que se observa essa relação entre as mulheres e a verdade é que a desconfiança e a tortura daquela que acusa pode aparecer como “natural” diante desse espaço perigoso de criminalização do masculino que qualquer julgamento de estupro representa. Principalmente porque, como vimos, a desconfiança em relação aos testemunhos das mulheres é bem anterior ao princípio jurídico de inocência do réu.236

O trecho citado revela a persistência sutil em se compreender a mulher, ainda hoje, nos moldes do teólogo Sprenger, mencionado no primeiro capítulo,

236 COULOURIS, Daniella Georges. Desconfiança em relação à palavra da vítima e o sentido da

punição em processos judiciais de estupro. Tese (Doutorado). Universidade de São Paulo. Programa de Pós-graduação em Sociologia. 2010, p. 12.

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segundo o qual as mulheres eram seres incapazes de retidão, ao contrário do homem. É de se notar, de fato, que em nenhum momento da análise dos processos se encontrou a necessidade de reafirmação da possibilidade de validade de uma palavra masculina, fosse acusado ou testemunha.

Outra observação se refere à frequência com que algumas vítimas e testemunhas parecem ser desacreditadas em razão de sua pouca idade, construindo-se uma argumentação que as transforma em seres imaginativos, sugestionáveis, imersos em um mundo de fantasia. Esse pode não ser o objetivo primordial desse trabalho, mas é importante chamar a atenção para essa problemática. A julgar pela forma que as violências sexuais acontecem para crianças e adolescentes, dar pouco ou nenhum crédito à sua palavra colabora para a persistência da conspiração do silêncio em torno da situação de abuso.

Outra observação a ser acrescentada reside na necessidade, observada em alguns processos, de se provar a inocência da ofendida, mormente uma inocência sexual, nas alegações empreendidas. Isso revela uma constante necessidade de a ofendida defender a si mesma num processo em que ela é a vítima, uma constatação deveras grave. Tendo sido uma vez agredida pelo acusado, ela é novamente vitimada pelo próprio processo de investigação criminal, em que se expõe ao escrutínio de sua vida pregressa, tendo de provar ser um perfil de boa moça para que seja encarada como vítima real. Apesar de essa não ser uma constante absoluta, pois alguns processos ou alguns textos específicos surpreenderam positivamente nesse quesito, constatou-se que a Justiça cearense ainda recorre ao estereótipo da moça recatada em julgamentos de crimes de natureza sexual, seja a acusação, para estabelecer a ofendida enquanto vítima genuína e obter a condenação; o juiz, nas razões de julgar; ou, por fim, a própria defesa do réu, que procura desqualificar a ofendida como mulher honesta. Dessa maneira, apesar de a legislação ter sido reformada há bastante tempo no sentido de afastar tais exigências morais, o SJC continua absorvendo a classificação entre mulheres honestas e mulheres não honestas.

Outra conclusão reside na persistência, em praticamente todos os processos, da visão do estupro enquanto ato realizado por uma espécie de monstro de personalidade anormal. Essa crença contrasta com a frequência com que os crimes sexuais ocorrem. O estupro, inclusive, é apontado por Machado como ato que transita entre a monstruosidade e a absoluta normalidade de um ato sexual

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comum, como comentado no capítulo anterior. Coulouris identifica que a violência sexual como violência de gênero não é um discurso incorporado pelos agentes jurídicos, revelando que as demandas atuais das mulheres sobre o direito ao seu próprio corpo ainda se mostram incompatíveis com a lógica jurídica dos casos de estupro.237 Não se mostra adequado, do ponto de vista do gênero, permanecer

encarando agressões sexuais como fatos anormais. É necessário reconhecer o caráter sistemático da violência de gênero.

Um problema encontrado em todos os processos se refere à ausência de um atendimento multidisciplinar em relação à ofendida, de maneira que ela serviu no processo apenas como elemento de prova, sem nenhum encaminhamento registrado no processo a programas de atendimento à vítima; apensa em um dos processos a ofendida foi objeto de atenção um pouco maior, tendo os réus sido condenados a pagar-lhe indenizações. Moraes e Martins238 asseveram que a Política

Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres ressalta a necessidade de adotar um paradigma multidimensional no que diz respeito à violência de gênero, sendo adotadas medidas relacionadas à saúde e à educação, além da segurança pública. Essas medidas se encaminhariam no sentido de evitar que a violência aconteça ou se repita. Verifica-se, entretanto, que além da ausência de encaminhamentos da vítima a serviços de atendimento integral, os agressores não foram alvo de nenhuma medida educacional de gênero, sendo geralmente submetidos apenas à medida penal padrão de encarceramento. Encarar a violência contra a mulher de forma simplista, por um viés unicamente penal, não parece ter capacidade para sustentar uma política eficiente de combate à violência contra as mulheres.

Por outro lado, pôde-se observar algum avanço em termos de argumentação no interior dos processos de estupro, na medida em que foram encontrados textos dentro de alguns processos que se furtaram a práticas argumentativas relacionadas a comportamentos esperados segundo o gênero, até mesmo na defesa dos acusados, apresentando uma relativa evolução em relação a estudos mais antigos, como o realizado por Pimentel, Schritzmeyer e Pandjiardjian, onde o uso dos estereótipos parece ser mais intenso, menos disfarçado.

Parece estar havendo um momento de transição, portanto, em que ainda

237 COULOURIS, Daniella Georges. Op. cit., p. 222-223.

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se aplicam estereótipos de gênero relativos ao ideário do mundo relacional da honra de que fala Machado, mas um discurso de direitos fundamentais, responsável pela colocação das mulheres enquanto sujeito de direitos, também tem sua influência, principalmente nos últimos tempos, em que as lutas do movimento feminista tem adquirido tanto destaque.

Fica claro, apesar dos avanços, que o Sistema de Justiça ainda precisa melhorar para que se possa extirpar dos juízos e tribunais a prática de julgar mulheres ofendidas em processos de estupro segundo parâmetros de moral feminina, pureza ou inocência. Precisa-se, ainda, enxergar as agressões sexuais sob uma ótica de gênero, com a consciência de que esses atos não são atitudes desvairadas de loucos e doentes, mas um processo de controle das mulheres que, por alguma razão, ainda está presente em nossa cultura. López239 afirma quanto a

isso que a realidade histórica que hoje se apresenta exige que os juízes argumentem com outra lógica, distinta de épocas passadas, que ajude a remover de fato os obstáculos à igualdade entre homens e mulheres, com uma perspectiva de gênero. Tal desafio impõe o desenvolvimento de um trabalho de interpretação que examine e questione o sentido e a finalidade da construção diferenciada de formas de comportamento e formas de subjetividade atribuídas a mulheres e homens, levando em consideração o caráter histórico dessas construções.

239 LÓPEZ, Paloma Marín. El papel de já jurisdicción frente a la violência contra las mujeres:

obligaciones de jueces y juezas. In: VALLEJO, Maria Pilar Rivas; BAUDOR, Guillermo L. Barrios. Violencia de género. Perspectiva multidisciplinar y práctica forense. Pamplona: Editorial Aranzadi, 2007, p. 236.

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Benzer Belgeler